quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ler e Reler: Música constante


"An Equal Music", de Vikram Seth

Uma história outonal, de murmúrios e silêncios, música e paraísos perdidos, onde a beleza pura é personagem permanente - nos apontamentos onde se a música se "ouve", nas pinturas minuciosas e de cores quentes com cenário em Londres, Veneza ou (em forma inesperada) Viena  - através um daqueles enredos que permanecem para sempre na nossa memória, sinal de um verdadeiro clássico.


De leitura mais difícil para quem não frequenta a música clássica, a prosa de Seth canta e dança, página após página, as ilusões e desencantos da paixão do Homem. Um livro que é também uma obra prima de música.

domingo, 26 de outubro de 2008

Paul Stookey (de Peter, Paul and Mary)

Outra versão ao vivo:

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Outonal

Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago…

Veludos a ondear… Mistério mago…
Encantamento… A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago…

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor…

(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Spectaculum II


Orion, a mais bela constelação, com a gigante vermelha Betelgeuse (esq. baixo) e a supergigante Rigel (dta. cima) , as estrelas mais brilhantes, e a famosa nebulosa de Orion no centro da "espada" - avermelhada e turva porque não é uma estrela mas sim uma maternidade de estrelas.

domingo, 12 de outubro de 2008

Spectaculum


Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo.
(Ricardo Reis)


O mundo está certamente rico e variado de spectaculum. Vale a pena sentar num banquinho , à sombra, a vê-lo passar frenético de variedade.

Ou, firmes e sobranceiros como a árvore, deixá-lo correr à nossa volta, oferecendo quado muito o nosso abrigo dos excessos de luz e vento.

Ou ainda, voltando-nos para a herança sólida do passado, revê-la sob nova e surpreendente luz.

É o que acontece com as 9 sinfonias de Beethoven na interpretação de David Zinman e da orquestra Tonhalle de Zurique, que finalmente (8 anos de atraso!) ouvi na íntegra. É um choque.



Há 20 anos, teria gritado barbaridade, o homem é um troglodita. "Toda a gente" sabe que os tempi indicados nos manuscritos de Beethoven eram impossíveis, já as orquestras da época, suando e arfando, recusavam executar semelhante loucura. No palco, seguiam com atraso descompassado a regência de Beethoven - um desastre.

Depois dos estudos históricos de mestres como Gardiner, Harnoncourt, Hogwood, Norrington, aos poucos as orquestras com instrumentos da época (ou não) e opções agógicas de rigor e respeito pelo autor e pela época vinham-se aproximando do que eventualmente Beethoven tinha em mente.

Mas agora chegou a versão "pura e dura": o metrónomo respeitado integralmente, a velocidade vertiginosa, mas também o detalhe e precisão estonteantes, a revelação de frases e acentuações nunca ouvidas, um uso incrivelente fluido do arco, enfim - uma revelação, sim , mas...

... difícil de aceitar como novo paradigma ou refêrencia. É um banho de água fresca retemperante , mas sabe bem voltar ao calor de Kleiber, ou Wand, ouKlemperer por exemplo - há pausa, "poise", gravitas, ênfase, contemplação que em Zinman estão ausentes.

Zinman descobre, entusiasma, irrita, contagia - mas cansa. A orquestra toca como nunca ouvi, fenomenal como um relógio suíço topo de gama ao qual se juntasse uma delicadeza e sensibilidade finíssima , num todo que é de cortar o fôlego. Só que Beethoven fica como que "reduzido" a um quase barroquismo. rico de contrapontos, melodias sobrepostas, sopros hipervalorizados e cordas minimais, secas, de belo timbre mas sem vibratos nem legatos, e duma brusquidão e horror ao vácuo (silêncio) excessivos e brutais.

Um génio, o maestro David Zinman. Precursor, trilhador de novos caminhos, estudioso e trabalhador incansável, tal como a orquestra de Zurique ! Agradeço o esforço e o fantástico resultado, vou ter mais uma alternativa aos velhos valores tradicionais que nunca deixarei...

NOTAS:
- Zinman é o mesmo que há uns anos gravou uma excelente 3ª de Gorecki, um sucesso!

- A rádio France Classique, que ouço quase continuamente em prejuízo da nossa péssima Antena 2, quase só passa as versões de Zinman! E também nas Aberturas (Egmont, Fidelio, Leonora, etc.).

- A consultar: http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=9B0DE0D61F39F93AA25751C0A961948260

sábado, 11 de outubro de 2008

Ciclo Árvores e Poesia - V


O chestnut-tree, great-rooted blossomer,
Are you the leaf, the blossom or the bole?
O body swayed to music, O brightening glance,
How can we know the dancer from the dance?

William Butler Yeats
"Among School Children"



sábado, 4 de outubro de 2008

"EM ÓRBITA": OS MELHORES DE 1970

Em 1965, o “Rádio Clube Português” começa a transmitir, a 1 de Abril, o programa "Em Órbita", realizado por Jorge Gil, e produzido por Jorge Gil, Pedro Albergaria, Diogo Saraiva e Sousa e João Alexandre. "O gosto cria-se" (como a qualidade que reúne todas as outras) e a procura de novas formas de "dizer radiofónico", constituem as duas linhas onde se inscreve toda a vida do "Em Órbita". Os apresentadores foram, ao longo dos tempos: Pedro Castelo, Cândido Mota, Jorge Dias, Jaime Fernandes, Fernando Quinas e João David Nunes.

O "Em Órbita" foi meu companheiro imprescindível da adolescência, e, talvez mais que a escola, o meu professor de gosto musical e de exigência crítica .

Trancrevo a classificação e os respectivos comentários da equipa do programa “Em Órbita” para os 15 melhores temas de 1970.

15 - “Nothing That I Didn’t Know” (Procol Harum)
Os Procol Harum perderam no ano transacto um dos mais fortes argumentos da sua personalidade aquando da saída de Matthew Fisher. A inclusão de “Nothing That I Didn’t Know” no número das melhores gravações de 1970 é contudo o reconhecer das inegáveis qualidades de um grupo intransigente que não tem cedido aos caprichos da moda. Uma gravação que denuncia o rigor de um conjunto de músicos que tem vindo a explorar até à exaustão um estilo muito próprio.


14 - “The Game Is Over” (John Denver)
Sem dispôr de uma capacidade inovadora fora do comum, John Denver conquistou-se, no decurso de 1970, para o grupo dos que melhor defendem as intenções deste programa. “The Game Is Over” vem reafirmar a crença numa música popular despida de artifícios falaciosos, cortina de espesso fumo deitada sobre a incapacidade de motivar o que é belo.


13 – “Peace Frog” (The Doors)
Os Doors continuam a compor um dos mais polémicos agrupamentos de hoje. Praticamente duma forma desencantada de música popular, amantes do desequilíbrio, da violência e da provocação, as suas criações assumem, desde os primeiros dias, as proporções dum interminável combate. “Peace Frog” é o mais representativo trabalho dos Doors do ano findo.


12 – “Lucretia Mac Evil” (Blood, Sweat And Tears)
Blood, Sweat and Tears, um grupo onde a justeza de execução se sobrepõe às demais qualidades. “Lucretia Mac Evil” exemplo das suas melhores produções, enferma do defeito único de se fechar num esquema formal onde as hipóteses de progresso são quase nulas. O futuro dos Blood, Sweat and Tears fecha-se nos limites do previsível. “Lucretia Mac Evil”: uma gravação perfeita saída do trabalho de músicos de craveira excepcional.


11 – “The Only Living Boy In New York” (Simon & Garfunkel)
Simon & Garfunkel, têm dado às histórias de “Em Órbita” muitos dos seus mais significativos momentos. “The Only Living Boy In New York” renova em cada uma das suas imagens o universo singular e actuante de Paul Simon, um criador de excepção. Estamos em presença de duas figuras que constituem, de facto, o mais definitivo argumento de qualidade da música popular dos nossos dias. “The Only Living Boy In New York” é um acto de bom gosto.


10 – “Make Me Smile” (Chicago)
Sem enfermar do senão apontado aos Blood, Sweat and Tears, o Chicago aparece-nos como um grupo versátil, na plena posse de um género que lhe pertence. “Make Me Smile” é um dos quantos exemplos que poderiam figurar nesta lista. Mostruário das suas potencialidades, é ainda o revelar de uma fé sem limites na música que praticam.


9 – “With You There To Help Me” (Jethro Tull)
Jethro Tull: quatro personalidades das mais fortes, juntas na prática duma forma única de música popular. “With You There To Help Me”, amostra impertinente do trabalho deste grupo, é bem a continuação lógica, mas não repetida, de tudo o que vinham prometendo. Executantes de grande brilho, constituem uma das mais categóricas afirmações de vanguarda de hoje. “With You There To Help Me”: um desafio de originalidade.


8 – “Crazy Man Michael” (Fairport Convention)
No sentir belo do que é frágil surpreendem-se as realizações de Sandy Denny. Ainda quando nos Fairport Convention, o aparecimento de “Crazy Man Michael” veio renovar as certezas já sentidas nesta intérprete. É uma canção feita de momentos livres, onde não se esconde o gosto por um tema de amor. “Crazy Man Michael” foi uma das melhores criações do agora decadente grupo Fairport Convention.


7 – “Curry Land” (Donovan)
Donovan continua a aiscender em momentos de envolvente beleza. Dotado de uma sensbilidade fora do comum, todas as suas criações se revestem de uma ternura quase não possível. “Curry Land” é o continuar do que já fora contado em “Atlantis”. Cântico mágico, onde o sagrado e o profano se interpenetram na ânsia de um êxtase.


6 – “Friends” (Led Zeppelin)
Nas regiões mais remotas de insondáveis abismos se consome a força criadora dos Led Zeppelin. Profetas de futuras revoluções sonoras, eles celebram a mutação deste tempo. Os Led Zeppelin são atmosferas onde se respira o diabólico, o desconhecido, o estremecer sombrio das grandes trevas.

5 – “Sixty Years On” (Elton John)
“Sixty Years On” trouxe às histórias do ano findo, o nome de um intérprete seguro, empenhado no redescobrir de sonoridades tidas como ultrapassadas. Os temas de Elton John, saídos de uma concepção quase comum, mostram-se como reservas de inesgotável prazer auditivo. “Sixty Years On” é exemplo das intenções deste autor. Numa prolongada e dramática evocação de violencelos introduz-se um grupo de imagens rico de sugestões poéticas e sonoras, sabor amargo de um paraíso muito cedo perdido. “Sixty Years On” é uma das mais belas construções musicais do ano 1970.


4 – “The Way I Feel” (Fotheringay)
“The Way I Feel”, foi uma das mais saudáveis manifestações de juventude de 1970. Um registo cuidado onde tudo se articula na precisão dum mecanismo de vanguarda. Elaborado nas fronteiras que separam o tradicional do popular, “The Way I Feel” é um tema que cresce no estrépito dum galope arrebatador.


3 – “Almost Cut My Hair” (Crosby, Stills, Nash & Young)
“Almost Cut My Hair” prolonga a sobrevivência da sempre querida herança deixada pelos Byrds e Buffalo Springfield. Ecoar duma tradição ainda tida como presente, é o quebrar violento de uma tensão emocional há muito retida. Um tema de sugestões contraditórias, onde se confundem desespero, ternura e um mal explicado travo de angústia. Dave Crosby tem aqui a mais importante das suas criações.


2 – “Fire And Rain” (James Taylor)
“Fire and Rain” é um dos mais encontrados temas dos últimos anos. Proposto num esquema de extrema simplicidade, é contudo uma gravação repleta de pormenores de interesse, donde se liberta a frescura do gesto espontâneo.


1 – “Bridge Over Troubled Water” (Simon & Garfunkel)

A melhor gravação de 1970, apaixonada revisão de valores, é o desenterrar solene de um quase perdido sentido de pureza. Um desenho simples, esboço não acabado, recusa do sentimento subvertido ao desencanto. Atmosfera de rigor sagrado, memória distante transportada pelo eco dos abismos do tempo, revoar de asas mortas rejuvenescidas no Abrigo do Absoluto. Reencontro de emoções esquecidas, “Bridge Over Troubled Water”, é a melhor gravação de 1970.

Ainda segundo o programa “Em Órbita” “In The Summertime”, dos Mungo Jerry, foi considerada a pior gravação de 1970. E cito: «Uma completa manifestação de incapacidade criadora, que assume um carácter particularmente perigoso dada a forma quase científica como explora o instinto deseducado dos que não sabem tomar opções.»

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Neste Blog

Neste Blog, não é de esperar a chamada espuma dos dias.
Neste Blog, não vai haver casos de tribunal, futebol, politicazeca, misérias de alma e de corpo.

Por isso, não há aqui lugar para debates sobre temas mundanos ou triviais, efémeros ou irrelevantes, nem para a subcultura da mediocridade e da vulgaridade.

A pateada é a mais saudável atitude face a todo esse mundo ordinário que nos é apresentado quotidianamente. Será acerrimamente defendida aqui. Buuuu! para a vulagaridade, Buuu! para a irrelevância, Buuu! para a mediocridade e a mundanidade...

A aclamação de pé será reservada àquelas formas de civilização e cultura, raras, que trazem marca sublime e merecem posteridade.

Daí que neste Blog se poste pouco, preferindo bem. Daí a tendência para lugares de devaneio, poesia, as sublimes, seculares e amigas árvores, a música de autor, os astros e as aventuras do Homem...

Difícil de manter ? Não espero outra coisa.

"pulga da areia"

Ilhas Faröe de novo








Ainda a propósito das Ilhas Faröe: está disponível para download este Slideshow (62 Mb) em:

http://www.slideshare.net/marioricca/fare-islands-presentation/