segunda-feira, 30 de março de 2009

A linha do Tua

Com algumas fotografias minhas e muitas de outras fontes (vénia), aqui fica uma apresentação de homenagem à linha do Tua, com as devidas desculpas por não ser bem melhor:



Se gosta de aventuras de alto risco e com muita adrenalina, não perca tempo em locais exóticos: faça um ida-e-volta no Tua. É para toda a vida. (:-)) humor negro)

domingo, 29 de março de 2009

Uma imagem mentirosa


Figaro online, "Arret sur image"

Parece um concurso de pesca, não é? Quem abocanha primeiro o peixinho?
NÃO!
A gaivota do ártico é terrível! Ela quer mas é...penas de águia para o ninho! Pobre águia (eh eh) preocupada com a pescaria, nem se dá conta de que vai ser depenada!

sábado, 28 de março de 2009

Um ícone da minha vida

Barretes discográficos

As edições discográficas já não são o que eram. Depois do CD de Cocset com música de Geminiani que não passa de medíocre+, este Shirley Horn, Live at the 1994 Monterey Jazz Festival [Live] é um autêntico flop. Mal gravado, com a voz de Shirley a dar as últimas, repetindo standards em interpretações inferiores, não se justificava tal edição. Ando com azar. Nada de novo que valha a pena.

Assim, toca a voltar aos eternos... agora, Murray Perahia nas suas inigualáveis interpretações dos concertos BWV 1052-1058.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Montaigne - duas citações

(1533 - 1592)

Il faut voyager pour frotter et limer sa cervelle contre celle d'autrui.

É preciso viajar para esfregar e limar o cérebro contra o de outros.

Si la vie n'est qu'un passage, sur ce passage au moins semons des fleurs.


Se a vida é só uma passagem, ao menos nessa passagem semeemos flores.

Montaigne, Essais

terça-feira, 24 de março de 2009

Geminiani, relato de audição

Sonates pour le Violoncelle avec la Basse Continue (Les Basses Reunies/Bruno Cocset)
Francesco Geminiani

Delicioso. É como uma dessas lojas “gourmet” com chás requintados e exóticos, compotas caseiras de fazer água na boca que apetece comer à colher, azeites e vinhos só para momentos especiais...tudo muito artesanal, em embalagens que dão gosto à vista e ao tacto, bonito até mais não. Problema: só se pode consumir raramente e em pequenas doses senão...enjoa!

Ouvir mais que uma sonata de seguida é fatal: vai-se o gosto todo. São “iguais” em demasia. Mas, oh, o virtuosismo, a doçura, a articulação, a sonoridade, que breve maravilha – se não abusar!

Agora em audição:

Live at the 1994 Monterey Jazz Festival [Live] ~ Shirley Horn

segunda-feira, 23 de março de 2009

Contos e Lendas do Norte- II

História Inuit da criação do mundo.


O Corvo e a Baleia
Um conto Inuit (trad. oral)
Recolhido por Laura Simms


No princípio dos tempos, o Corvo fez o mundo. O Corvo era um deus sob a forma de corvo, que encobria um ser humano . Depois de ter criado tudo, o Corvo resolveu ficar em terra. Gostava das pessoas e dos animais e era muito curioso àcerca de todos eles. Embora tivesse criado o mundo, não sabia tudo o que há a saber sobre ele.


Gostava de remar o seu kayak pelo mar dentro. Um dia avistou uma enorme baleia. Pensou, “Gostava de saber o que há no ventre duma baleia”.



Esperou até a baleia bocejar. Quando ela abriu a boca bem aberta, remou com força para dentro dela. Amarrou o kayak a um dos dentes da baleia e caminhou para o interior do corpo. Entretanto a boca da baleia fechou-se e fez-se a escuridão. O Corvo ouviu um som como um tambor ou um ribombar dum trovão distante. Foi andando até chegar ao ventre da baleia. Os ossos brancos surgiam de pé à sua volta como colunas de marfim.

No centro , o Corvo viu uma bela rapaiga a dançar. Tinha cordas atadas aos pés e mãos estendidas para o coração da baleia. O Corvo pensou, “É tão linda! Quem me dera levá-la para fora desta baleia e casar com ela.” E disse-lhe, "Eu sou o Corvo. Criei o mundo. Vens comigo para o mundo para ser minha mulher?”

A moça respondeu, "Corvo, não posso deixar a baleia. Sou o coração e a alma da baleia. Mas se quiseres ficar e fazer-me companhia, serei muito feliz ”.

O corvo tirou o bico e arremessou-o para trás, mostrando a sua face humana. Arrancou as asas para o lado e sentou-se, de mãos nos joelhos. Ficou a ver a rapariga dançar.
Quando ela dançava depressa, a baleia corria através do mar. Quando dançava devagar, a baleia flutuava calmamente. Começou a dançar tão devagar que a baleia parou e fechou os olhos. O Corvo sentiu uma brisa fria do mundo exterior entrar pela boca da baleia. E pensou em levar embora consigo a rapariga – tinha desejo humano, e esqueceu o que ela disse.

Voltou a pôr o bico sobre o rosto e as asas sobre os braços. Agarrou a rapariga e ouviu as asas a bater enquanto voava para fora da baleia, subindo para o céu.
Enquanto voava, chegou-lhe o som da baleia a debater-se lá em baixo no oceano. Viu o seu corpo levado pelas ondas para a praia. Estava morta, e a rapariga que levava nos braços diminuía de tamanho, cada vez mais pequena, até que desapareceu.

Assim o Corvo aprendeu que tudo o que é vivo tem coração e alma e tudo no mundo nasce e morre. Ficou abalado e sofreu com o desgosto. Estava tão triste que poisou na areia ao lado do corpo da baleia. Chorou e chorou, várias semanas. Depois começou a dançar , dançou também várias semanas sem parar. Depois começou a cantar, semana após semana, até sossegar o coração. Depois voou para o céu.

Tinha prometido aos homens e animais que continuaria a visitar este mundo enquanto todos se ajudassem e compreendessem que tudo o que nasce um dia morre e todos têm alma e coração.


As lágrimas do Corvo tinham sido as primeiras neste mundo. A sua dança e a sua canção de dor e de convalescença foram também a primeira canção e a primeira dança.


domingo, 22 de março de 2009

Hoje

Não costumo fazer "diário", mas uma excepção não vai estragar.

À entrada da minha porta:




Da minha varanda ao pôr do sol:


Lazy Sunday!


Parece que tenho alguma sorte...

E a ouvir...


THE Madeleine Peyroux, Careless Love

sábado, 21 de março de 2009

Ciclo Árvores e Poesia - X


Hoje é dia da árvore...e da poesia!





From joy the holy branches start,
And all the trembling flowers they bear.
The changing colours of its fruit
Have dowered the stars with metry light;
The surety of its hidden root
Has planted quiet in the night;
The shaking of its leafy head
Has given the waves their melody,
And made my lips and music wed,
Murmuring a wizard song for thee.

- William Butler Yeats, The Two Trees

sexta-feira, 20 de março de 2009

Primavera !



A little Madness in the Spring
Is wholesome even for the King (...)

Emily Dickinson

Na Primavera um pouco de locura, direi
Fará bem, talvez, até ao Rei (...)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Telemann: A Ode ao Trovão (Die Donner-Ode)


TELEMANN (1681 – 1767) está para mim associado para sempre ao programa “Em Órbita” na Antena 2. Com surpresa e depois com prazer renovado, ouvia à exaustão aquele indicativo extraído do concerto para 2 chalumeaux na interpretação de Reinhard Goebel e os Musica Antiqua Koln:



Foi o meu primeiro contacto (revelatório) com o novo paradigma de interpretação “autêntica”, historicamente informada, e era entusiasmante.

Os anos passaram e não fizeram justiça a Telemann. Foi sobretudo vítima de versões pastosas e arrastadas, a puxar ao romântico falso. Telemann é um compositor fabuloso, inovador e diferente:
- um uso do contraponto magistral, tecendo uma filigrana de melodias sobrepostas ou ligeiramente desfasadas;
- um sentido de ritmo único, ímpar, que deixa os contemporâneos e amigos Bach e Handel muito para trás – veja-se o referido concerto para Chalumeaux - 3º andamento que inseri num post anterior, ou a fantástica DonnerOde (Ode ao Trovão), que não perde em comparação com as melhores cantatas de Bach , com movimentos de ritmo inesperado e criativo;
- uma grande liberdade e plasticidade no diálogo entre diferentes instrumentos, sobretudo sopros, que combina criativamente.
- e Telemann tem também um excelente sentido coral – a utilização de coros pode ser pujante, mas sobretudo sempre delicada e detalhadamente (de)composta.

Esta DonnerOde é uma obra-prima de 1755, ano do terramoto de Lisboa, desastre que abalou profundamente toda a Europa e foi recebido como castigo de Deus. Kant, Voltaire, Rousseau, Goethe, escreveram e reflectiram sobre o acontecimento. E foi no dia 11 de Março de 1756, como penitência pelos pecados humanos, que a obra foi tocada pela 1ª vez.
A Ode não tem referências ao terramoto: é um hino celebratório, em muitas variantes, da glória de Deus, cuja voz irada se ouve no trovejar. Recheada de coros e com pelo menos uma ária "para a eternidade", a obra foi um sucesso imediato.

A ária é “Schonster von Allen Geschlechten“, que no disco de Hermann Max é cantada divinalmente por Barbara Schlick. Só ouvido! Não há no Youtube...Aqui vão links para download:

http://www.musicaonline.sapo.pt/prelisten/29633307/

http://free.napster.com/player/?play_id=23326538&type=track

A versão de Hickox é mais lenta, meditativa, ao gosto de quem prefere gravitas. O defeito são os cantores fraquinhos...Hermann Max, o seu pequeno concerto e os seus cantores do Reno fazem milagres: de uma leveza e articulação sem mácula, parece que já nasceram a tocar esta música tal é o à-vontade, a fluência e o equilíbrio de todo o conjunto. Cinco estrelinhas ***** daqui do LIVRO DE AREIA.


Telemann: Die Donner-Ode, 'Thunder Ode' / Deus judicium tuum

Richard Hickox (Conductor),
Collegium Musicum 90 orchestra and chorus
Chaconne 1999



Telemann – Cantatas
Orchestra: Das Kleine Konzert, Rheinische Kantorei
Conductor: Hermann Max
Der Herr ist Konig, TWV 8:6, Ann Monoyios
Die Donnerode, TWV 6:3 , Barbara Schlick
Capriccio - CAP10556

Alaúde

Vivaldi: Concerto for lute (RV 93) / Il Giardino Armonico, Enrico Onofri (Violin), Luca Pianca (Lute).





( com pena de não ouvir Euterpe Fyllos...)

terça-feira, 17 de março de 2009

Contos e Lendas do Norte - I

Adaptado do blog http://narsaq-lovivido.blogspot.com/ ( 7-02-09)

Historia inuit

Quando sopra o vento norte tudo o mais se cala, todos se escondem. É dia de estar em casa à luz da vela e deixar o silvo soprar ao ouvido as histórias e lendas nórdicas, de esquimós e vikings.


Havia uma jovem inuit muito gira, a quem o rei das gaivotas pediu em casamento declarando ao pai que estava apaixonado por ela. Ele disse, Sim, podes levá-la para o teu reino (pensando, serei pai de uma rainha e nada me faltará).

Juntaram-se todas as gaivotas e levantaram a jovem até ao céu, para a levar até à ilha das gaivotas. Quando o pai acordou e não a viu, chorou a sua perda e, arrependido, foi buscar o seu kayak e partiu à procura dela. Conseguiu resgatá-la e correu, correu, subiu para o kayak e foi pelo mar adiante até se julgar a salvo. Mas as gaivotas foram atrás deles , pegaram a moça pelas mãos e o pai pelos pés. Na contenda, a jovem caiu à água e afundou-se nas profundidades do oceano.

Não morreu: desde então ela é Sedna, a deusa das profundidades e dos animais marinhos. Quando a pesca e a caça escasseiam, um chaman inuit tem que baixar às profundezas e pentear os cabelos de Sedna; então ela faz com que neles se enredem baleias, focas, peixes. Também assim lhes recorda quem são e a quem devem o que são.

Isto é o que sussurra o vento.

domingo, 15 de março de 2009

Blog lindíssimo sobre Nadir Afonso

---------------


As pontes sobre o Reno, Nadir Afonso

Nadir Afonso é o Grande pintor português pós-Vieira da Silva. Um blog onde só se encontra beleza e cultura e donde não apetece sair nunca mais.

http://espacillimite.blogs.sapo.pt/

sexta-feira, 13 de março de 2009

Thule, a última Thule, o Norte da interminável procura

Acabei há pouco de ler "The Ice Musem - In search of the lost land of Thule", de Joanna Kavenna, um livro magnífico que não me apetecia parar de ler sobre essa longa demanda da mais nórdica paragem do planeta. Aqui fica um resumo pessoal e um pouco do fascínio que tenho por Ilhas e pelo Ártico.


Ultima Thule! Utmost Isle!
Here in thy harbours for a while
We lower our sails; a while we rest
From the unending, endless quest


Henry Wadsworth Longfellow


A mítica de Thule (ou Tile) é a de um tesouro perdido, como Atlantis ou o Graal. O culpado foi mais uma vez um grego da Grécia Antiga, 4 séculos A.C. , que nasceu na colónia de Marselha ( Massalia) : Pytheas, um mercador, geógrafo e navegador, que foi o primeiro a atribuir à Lua a causa das marés, a medir o perímetro da costa britânica – era um especialista no cálculo de latitudes e longitudes. Não é costume falar-se dos gregos como grandes exploradores, mas este foi um precursor de Marco Polo, para Norte.

Na verdade, à míngua de chumbo para o fabrico de bronze, os gregos estavam interessados nas minas que sabiam existir na Cornualha. Pytheas era um navegador competente, que fazia registos de viajem. Por volta de 330 AC partiu de barco de Marselha , visitou a costa sul da península ibérica, passou o estreito de Gibraltar, visitou o Ieron akrōtērion (o promontório sagrado de Sagres), e seguiu para norte a costa de Portugal, passando depois em Bordéus, Nantes, chegando à Bretanha (usou o nome Pretannia pela primeira vez ) pela Cornualha, onde procurou estabelecer contacto com as minas de chumbo.
Descreveu com simpatia os habitantes “civilizados” e os métodos engenhosos de extracção. Terá visitado Stonehenge e depois continuou velejando até à Escócia e ainda foi mais longe, determinado a descobrir o que havia nessas zonas não cartografadas onde os mapas mostravam apenas monstros.

Visitou as Hébridas, Orkneys e Shetlands. Viu “peixes enormes , do tamanho de um barco, que nadavam lentamente à superfície soprando ruidosos jactos de água”. Seguiu seis dias para Norte até avistar uma ilha a que chamavam Thule.

A rota de Pytheas, segundo F.Nansen, "In Northern Mists":


Aqui começa a “realidade ou ficção?” de Pytheas.

Nas suas notas, descreveu a população como “bárbaros” teutónicos ou germánicos, que viviam de uma agricultura simples – viviam à base de mel, leite e frutos. Mostraram-lhe o sítio onde o sol se põe a descansar. Viu que no inverno o sol nem aparecia – a escuridão durava meses. Viu que no verão não havia noite. Viu um mar estranho, espesso, fundido com a terra e o céu (auroras boreais?) numa massa de gelo viscosa que oscilava com as ondas, onde não se podia caminhar nem navegar. Fugiu deste “mar solidificado” e regressou a Marselha. Relatou a viajem “até ao fim do mundo” numa obra que se perdeu, “Àcerca dos Oceanos”. Só se conhecem algumas citações por autores posteriores:

os bárbaros mostraram-nos o sítio onde o Sol pousa a descansar. Pois acontece que nestas partes as noites são muito curtas, de duas ou três horas, de modo que o sol se levanta pouco depois de pousar

- Citado por Geminus de Rodes

Na mitologia grega existia um povo – os Hiperbóreos, “para além do ventos do Norte” – feito de gente feliz, que não sofria das aflições normais dos humanos, sempre em alegres festanças porque nem a doença nem a morte os atingiam. Não admira que se julgasse serem estes os habitantes da Thule de Pytheas !
Através dos tempos, as especulações sobre a localização de Thule apelaram à imaginação de viajantes, sábios e poetas. Thule tornou-se um lugar mítico, uma ideia na História que evoca ao mesmo tempo bem estar e ânsia de aventura, movendo-se sempre mais para Norte à medida que os exploradores do ártico alcançavan maiores latitudes. Um paraíso que, como o arco-íris, recuava à medida que dele se aproximavam. Uma ilha, forçosamente.

Tinha começado a procura. Onde ficava Thule?

Logo de início houve opiniões divergentes. Segundo o historiador Heródoto (5 BC) nessas latitudes “não se vê nada”:

Há uma queda constante de penas brancas contra o rosto, o ar fica mais grosso e o chão completamente coberto delas.

Mas Pytheas era respeitado, as suas medições bastante rigorosas e o seu rigor de observação nunca tinha sido posto em causa.
Os romanos adensaram o mistério e a polémica. Virgílio rebaptizou-a como “Ultima Thule”, a remota Thule, a ensombrada última terra do Norte. Mas foi o romano Strabo em Geographica (30 DC), quem lançou mais achas para a fogueira: fez troça de Pytheas, um “charlatão”, que inventara a fábula de Thule. Pytheas localizara Thule 6 dias de viagem a norte das ilhas britânicas, o que era impossível, pois estas ilhas eram a terra habitada do Norte mais longínqua do mundo, onde os habitantes viviam na miséria por causa do frio. Só a Irlanda era ainda mais miserável – os filhos dormiam com as irmãs e comiam os pais...Quanto mais a norte, mais miseráveis, e pior que isto já não era possível, escrevia Strabo. Por isso, Thule só podia ser a mais nórdica das ilhas britânicas.





Plínio o Ancião, na Naturalis Historia, descreveu em 77 DC Thule como “a mais remota das terras de que há notícia”, com invernos sem sol e verões sem noite; localiza-a no Círculo polar Ártico. Baseado no relato perdido de Pytheas, afirma que a travessia para Thule começa na maior das Hébridas, o que teria levado o grego em 6 dias à Noruega, perto de Trondheim, um pouco abaixo do Círculo. Esta conclusão parece condizer com as coordenadas (baseadas em Marselha) que Pytheas indicava para Thule. As latitudes, pelo menos, são verosímeis – as longitudes é que não são de fiar.
O historiador Tácito descreve a viagem dos romanos à volta da Bretanha, provando que era uma ilha, e afirma que “chegaram a avistar Thule, mas não tinham ordens para lá ir, com o Inverno à porta.”
No séc 6 DC, o monge historiador Procópio identifica Thule com a costa norueguesa. De facto, na época de Pytheas, a Islândia nem tinha sido colonizada – os próprios islandeses rejeitam que Thule seja a sua ilha.
A questão de Thule continuou a deixar perplexos os antigos geógrafos ao tentarem cartografar mapas do extremos da Terra– ora representando um enorme rio inultrapassável, ora um vasto cinto de mar de Pólo a Pólo...




Com o passar dos anos, no Renascimento, as ilhas do Norte foram reclamadas e mapeadas: a Islândia, a Escandinávia, as ilhas Shetlands, as Orkney, as Faroé ou mesmo as Lofoten - mas nunca houve consenso nem precisão quanto a Thule: continuava um mistério, um Graal nórdico – uma ilha imersa em nevoeiro à entrada de um oceano gelado.
De Julio Cesar a Cristovão Colombo, de Goethe a Edgar Allan Poe, muitos se referiram a Thule, deixando-se seduzir pelo mistério. Talvez não passasse afinal de um devaneio poético...


O período vitoriano foi particularmente febril, na sua ânsia por descobrir novas terras e civilizações. Da Escócia e da Noruega partiam em série grupos de turistas aventureiros em direcção a Norte, à procura de Thules mais além. Houve também uma sociedade nazi que proclamou Thule, um equivalente nórdico da Atlântida, como berço da raça ariana, e de início inspirou o próprio Hitler. E no horror da 2ª grande guerra, Thule foi para os vitorianos uma espécie de Arcádia, um refúgio do mundo em convulsão. Descobriam com espanto as mais afastadas das Hébridas, a costa dos fiordes noruegueses, a Islândia dos Vikings e da natureza em bruto, as Faroé das casinhas de tecto relvado.
Das Shetlands ao arquipélago Svalbard (ou Spitzberg), das Faroé até mesmo à Gronelândia, a procura continuou até ao século XX ! A questão pareceu resolvida quando Robert Peary descobriu o extremo Norte da Gronelândia em 1900.

Sinto que os meus olhos finalmente repousam sobre a Última Thule do Ártico (Cape Morris Jessup)”.

Oodag, o bocado de terra firme mais a norte do planeta

Por 68 anos, Cape Morris Jessup ficou incontestado como o local em terra firme mais a norte do planeta. Mas em 1968 foi descoberto outro mais a Norte, e outro mais ainda 10 anos depois – uma pequena ilhota de gravilha de 15m por 8 m , submersa amaior parte do tempo, a que se deu o nome de Oodaag, um dos companheiros inuit de Peary.

O lago Kaali na ilha Saaremaa


Surgiu ainda um inesperado e credível candidato – a ilha Saaremaa da Estónia, onde há uma espantosa cratera de meteoro; o facto de Pytheas ter regressado pelo Báltico, onde vê o âmbar como “uma excreção do mar”, é invocado em favor desta localização. Talvez o “local onde o sol pousa a descansar” fosse a cratera onde o meteoro em fogo caiu, por volta de 500 A.C., posteriormente local sagrado em todo o Bático. E embora no fim do século o fascínio popular arrefecesse até à indiferença, ainda continua a haver quem se agarre à promessa de pureza primordial da legendária Thule.

A partir de Peary, “Ultima Thule” tornou-se sinónimo de local mais a norte do planeta, de preferência ilha, mais próximo da conotação romana “local para além do mundo conhecido”.
O explorador Knud Rasmussen fundou na Gronelândia uma base , junto à povoação Inuit de Avannaa, a que chamou “Thule”, em 1910. É essa a origem da denominação “povo de Thule”, uma população paleo-esquimó predecessora dos actuais inuits.
Em 1953 Avannaa deu lugar a uma base militar americana, construída durante a ocupação nazi da Dinamarca, que foi baptizada “Thule Air Base”.
Embora seja defensável a tese de que Pytheas tenha avistado ao longe as montanhas da Gronelândia, tudo leva hoje a crer que afinal se referia à costa norte da Noruega, entre Trondheim e as Lofoten, que confundiu com uma ilha.
Mas isso não tira o mérito de Pytheas, o primeiro grande explorador, que, no tempo de Alexandre o Grande, viajou até às fronteiras de um novo mundo. Merece um lugar ao lado de Colombo ou Marco Polo.





Pytheas de Massalia,
bolsa de Marselha












By a route obscure and lonely,
Haunted by ill angels only,
Where an Eidolon, named Night,
On a black throne reigns upright,
I have reached these lands but newly
From an ultimate dim Thule —
From a wild weird clime, that lieth, sublime,
Out of Space — out of Time.

Edgar Allan Poe

Links:

http://victorian.fortunecity.com/christy/32/kaali.html

http://www.bibliotecapleyades.net/sociopolitica/sociopol_thule07.htm

http://www.ub.uit.no/northernlights/eng/pytheas.htm

http://www.norway.gr/travel/Travel+stories/Pytheas.htm

http://www.economicexpert.com/a/Thule:myth.htm

http://www.arcticthule.com/history/history.htm

quinta-feira, 12 de março de 2009

Dois Haikai


Sob o alpendre
o espelho copia
somente a lua.

Jorge Luis Borges
_____________________________________

stop
a vida parou
ou foi o automóvel?

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 11 de março de 2009

11 de Março



domingo, 8 de março de 2009

Já não passeamos mais à noite


Go No More A-Rovin
de Lord Byron (1788-1824)

So we’ll go no more a-roving
So late into the night,
Though the heart be still as loving,
And the moon be still as bright.

For the sword outwears its sheath,
And the soul outwears the breast,
And the heart must pause to breathe,
And love itself have rest.

Though the night was made for loving,
And the day returns too soon,
Yet we’ll go no more a-roving
By the light of the moon

Felicidade

É pedir muito ?

quinta-feira, 5 de março de 2009

Que inebriante loucura!

Como é possível compor e tocar assim ?



Telemann, Concerto para flauta de bisel e flauta transversal, TWV 52. 4º andamento

quarta-feira, 4 de março de 2009

ainda Giotto – capela dos Scrovegni

Graças aos banqueiros...

Em época de amaldiçoar os bancos, é pelo menos heterodoxo relembrar o quanto devemos a esses gananciosos especuladores: grande parte da Arte clássica não teria sido possível sem eles, e sobretudo a admirável arquitectura e pintura italianas.

Ora acontece que o rico banqueiro de Pádua Enrico degli Scrovegni quis construir, em 1300, uma capela particular com o nome de família num local com acesso directo ao palazzo familiar. E encomendou a decoração, claro, ao melhor e mais caro da época – Giotto. (Também não se poupou na estatuária: 3 obras de Giovanni Pisano).

Giotto tinha já trabalhado para o Papa na basílica de S. Francisco de Assis, em Roma e em Pádua. Começou a pintar a capela em 1302 e acabou em 3 anos. Tinha realizado uma das maiores obras primas da arte europeia. Os frescos que cobrem por completo as paredes narram a história bíblica da Virgem e de Cristo, e ao fundo o Juízo Final.

Depois de séculos de degradação, os frescos começaram a ser restaurados em 2001 e podem ser apreciados agora “como novos”.

A exposição em cartão e papel de fotografia à escala de ¼ na Universidade do Porto dá uma pálida imagem da magnificiência da obra; não deixa de ser uma boa publicidade para ir a correr a Pádua ver uma obra que totalmente desconhecia.

Site:
http://www.cappelladegliscrovegni.it/

terça-feira, 3 de março de 2009

Ciclo 'Árvores e Poesia' - IX

Why are there trees I never walk under
but large and melodious thoughts descend upon me?

Walt Whitman, Song of the Open Road