terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Emma's birthday

Hoje faz 64 anos Emma Kirkby, a soprano de voz angelical dos primeiros tempos da renovação interpretativa da música barroca, muitas vezes, como nesta gravação, com Cristopher Hogwood.

Feliz aniversário!

De Purcell, um dos seus autores mais frequentados, um Aleluia de 1688, intitulado An evening hymn :

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Sawallisch, Herzlichen Dank

Faz falta, Wolfgang Sawallisch, 1923-2013.
Deixou marca em quase tudo: grande sinfonista (Brahms, Mendelssohn), director de ópera (Uma Flauta Mágica soberba com Lucia Popp, todo o Wagner) foi sobretudo um grande grande brahmsiano: dirigiu toda a obra sinfónica e coral de Brahms ao ponto de ser uma referência nesse reportório.

A 4ª de Brahms por Wolfgang Sawallisch:

Obrigado, Wolfgang.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Macaréu, onda de maré ou tsunami fluvial

O fenómeno é muito raro no planeta - só três rios, em todo o mundo, proporcionam regularmente uma onda de maré de dimensão apreciável: o Severn, o Amazonas e o Qiantang, na China.

No Rio Severn, em Gloucester, é o famoso Severn Bore, cuja onda principal ronda os 2 metros - quem estiver na margem pode levar um banho, e diz quem viu que o mais impressionante é o ruído surdo da massa de água em movimento. Um jornal local costuma indicar a melhor hora e sítio.

Duas descrições em dois excelentes livros de leitura recente:

- Julian Barnes em O Sentido do Fim

"(...) um grupo com alguns de nós esperou na margem do rio até passar a meia noite e acabou por ser recompensado.(...) Houve então um murmúrio e um esticar de pescoços e todos os pensamentos de humidade e frio se desvaneceram à medida que o rio parecia simplesmente mudar de ideias, e uma onda, de quase um metro de altura, se dirigiu para nós rebentando a toda a largura, de margem a margem. As ondas alterosas ficaram ao nosso nível, passaram com uma chicotada e encurvaram-se na distância; (...) Acho que não consigo transmitir o efeito que aquele momento teve em mim. Não foi como um tornado ou um terramoto - em que a natureza é violenta e destrutiva e nos põe no nosso lugar. Foi mais inquietante porque parecia e dava a sensação de ser serenamente mau, como se uma pequena alavanca do universo tivesse sido accionada e só aqui, durante estes minutos, a natureza ficasse ao contrário e o tempo com ela. E ver este fenómeno depois de escurecer tornava-o ainda mais misterioso, mais do outro mundo."


- John Banville em Os Infinitos
 
 "(...) A primeira vez que o viu, foi numa ponte sobre um rio torrencial, num dia de inverno, sob um céu de nuvens velozes.(...) Antes de verem o macaréu, ouviram o seu barulho, um troar grave que parecia sacudir a luz cinzenta à volta deles e fez com que o metal da ponte vibrasse debaixo dos seus pés. Depois, numa curva do rio, surgiu, encapelada, uma parede macia e alta, quase majestosa, de água desmoronando-se em câmara lenta contra as margens dos dois lados.(...) Quando a onda enorme estava prestes a passar debaixo da ponte, sem saber porquê, ela olhou para cima em vez de para baixo e a massa de pesadas nuvens côr de chumbo a varrerem o céu, como um confuso reflexo do rio que rugia por baixo, deixou-a ainda mais tonta(...)"


Actualmente tornou-se uma atracção para surfistas, que quebram a solenidade de outros tempos.

A mais recente Severn bore foi a 13 de Janeiro e pode ser vista no YT, como muitas outras.


A Pororoca, na foz do Amazonas e um pouco por toda a Amazónia, é a maior de todas as marés fluviais regulares, podendo a onda atingir 5 m e entrar 13 km rio adentro; deu origem à palavra Macaréu. Campeonatos de surf em plena selva tornaram-se um must. A cidade de Arari atrai imenso turismo na época das maiores pororocas.

Chamam-lhe "onda infinita", pois não morre na praia, prolonga-se durante uma hora ou mais. 


Rio Araguaia, Amazónia: a onda mais poderosa e destrutiva.


Estas ondas de maré ocorrem quando marés vivas coincidem com alturas de lua nova ou cheia, e ainda mais fortemente nos equinócios. Por todo o mundo há outras que podem atingir grande dimensão - na China, no Alasca - e são mais irregulares e perigosas. As do rio Qiantang, na China, já têm causado vítimas, surpreendidas por uma dimensão imprevista.

A Pororoca no Araguaia:

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Drama Queens em CD

Não está certo, Joyce. Editar o CD em vésperas do concerto ! Podia esperar mais umas semanitas...

 

Para ouvir só daqui a 15 dias ! 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Tríptico de Santa Ana, na Matriz de Torre de Moncorvo

Encontrei na igreja Matriz de Torre de Moncorvo este belo retábulo em talha polícroma, de que não tinha qualquer referência.

É um tríptico flamengo datado dos inícios do século XVI (ou talvez finais do séc. XV) representando o Casamento de Santa Ana e a Sagrada Parentela.

Vista geral

Saido das oficinas de Antuérpia ao estilo tardo-gótico, este tríptico apresenta uma série de figuras em talha de madeira de carvalho, esculpidas em alto-relevo, policromas.

Placa informativa - e é tudo o que há...

Painel da esquerda: o casamento

Painel da direita: S. Joaquim com Santa Ana à entrada da Porta Dourada de Jerusalém.

 
Painel central: Santa Ana rodeada dos três maridos e restante Parentela, já no Paraíso, sem ciúme nem pecado...
'Santa Ana foi exaltada pelos humanistas a partir do século XV e largamente durante o século XVI, apontada como esposa ideal, opondo-se à feiticeira tentadora que leva o homem ao pecado'
in Relações culturais internacionais de Torre de Moncorvo (séculos XV-XVII) - Adriano V. Rodrigues e Maria da Assunção Carqueja

O tríptico está autenticado nas costas com sinais da corporação dos escultores de Antuérpia.

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Foto de um postal da autoria de Luís Ferreira Alves (2011):


sábado, 16 de fevereiro de 2013

Sigur Rós - imagens de um concerto memorável

Coliseu do Porto, 13 de Fevereiro











Falta o som. Pode ser este, com o volume bem forte:

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Foz do rio Sabor


Fim de tarde, hoje

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Parabéns, Queen Joyce (n. 13 /2 )


See you in Madrid :)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Barbara, de Christian Petzold

Ainda há filmes assim !

Pegar numa boa história, um drama pessoal numa época e lugar hostis aos dramas pessoais, e contá-la com eficácia narrativa, sem artifícios fotográficos ou digitais, bons actores, economia de falas - reduzidas ao mínimo necessário, ninguém grita, ninguém ri sequer - e com isso fazer-nos um grande nó na garganta.

Grande cineasta, Christian Petzold: sabe, acima de tudo dirigir a câmara e a mesa de montagem, mas também escolher actores e ter rigor nos adereços.

Já há muito tempo não saía assim de um filme, sem os olhos cheios de fogachos mas com uma profundíssima pancada na alma.

 Medo
 Solidão
 Liberdade?

Trailer

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Sigur Rós, Valtari

Se há grupo da área não erudita que ainda me faz largar tudo, são os islandeses Sigur Rós, herdeiros do pop-sinfónico inglês mais delirante dos anos 70-80 revisto ao estilo 'viking'.

Vêm cá em tournée, e promovem o novo disco Valtari com videos filmados expressamente por vários realizadores, que não se limitam a "ilustrar" a música - os vídeos são objectos de arte por mérito próprio.

Talvez os meus dois favoritos sejam estes:

(vale a pena ver em écran grande e às escuras, qualidade mínima 480p)

Varúð


Valtari


Coliseu do Porto, dia 13

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Memórias: Cours de Langue et Civilisation Françaises

Aprendi aqui quase tudo o que sei de língua francesa.

Um livro à moda antiga, a preto e branco, cheio de incorrecções políticas - hoje seria proscrito - e muito, muito chauvinista. Mas quando chegava o momento de folhear, ler um texto novo, discutir o conteúdo, era uma viagem que se me proporcionava, voava para um país diferente, uma cultura sedutora, uma língua estranha. Foi com livros que comecei as minhas viagens.
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Notre pays, mon bon monsieur, n’a pas toujours été un endroit mort et sans renom, comme il est aujourd’hui. Autre temps, il s’y faisait un grand commerce de meunerie, et, dix lieues à la ronde, les gens des mas nous apportaient leur blé à moudre ( … ). Tout autour du village, les collines étaient couvertes de moulins à vent. De droite et de gauche on ne voyait que des ailes qui viraient au mistral par-dessus les pins, des ribambelles de petits ânes chargés de sacs, montant et dévalant le long des chemins ; et toute la semaine c’était plaisir d’entendre sur la hauteur le bruit des fouets, le craquement de la toile et le Dia hue ! des aides-meuniers… Le dimanche nous allions aux moulins, par bandes. Là-haut, les meuniers payaient le muscat. Les meunières étaient belles comme des reines, avec leurs fichus de dentelles et leurs croix d’or. Moi, j’apportais mon fifre, et jusqu’à la noire nuit on dansait des farandoles. Ces moulins-là, voyez-vous, faisaient la joie et la richesse de notre pays.

Alphonse Daudet, Lettres de mon moulin
Cours de Langue et Civilisation  Françaises, G. Mauger, tome II, p.67

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 Nunca cheguei a agradecer devidamente, este post é uma maneira de o fazer.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Joalharia preciosa para o Ashmolean Museum

Um vídeo da BBC esclarece o que foi a doação recebida pelo Ashmolean Museum de Oxford do coleccionador Michael Wellby : um TESOURO !



Os mais valiosos:

Taça de lapis-lazuli e ouro, de Praga (1608) mas de ourives holandês, só por si vale "milhões".

Taça de lapis lazuli com jóias embutidas e aplicações de prata, de Milão (~ 1560) e Paris (~1640).

Jarro de prata português, manuelino, com as armas reais, de entre 1510 a 1515.

A nossa corte já no séc XVI empregava bem as riquezas, como se vê.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

DiDonato e as Drama Queens

Amanhã começa na Gulbenkian o tour de Joyce DiDonato com a sua récita sob o tema "Drama Queens", focando personagens de raínhas nas óperas barrocas, com a intensidade das dramaturgias inspiradas nos clássicos gregos e romanos.

No site da cantora,
http://www.joycedidonato.com/drama-queens/
encontram-se vídeos que não resisto a publicar. O primeiro é uma belíssima entrevista - Joyce exulta de emoção e sabedoria do seu ofício - entrecortada de ensaios de gravação das peças integradas neste programa.



O segundo é uma das peças, magnífica - a Madre Dilette da Ifigénia escrita por Giovanni Porta (1675-1755).

Espero ouvir Drama Queens em Madrid, dia 8 de Março, depois de Londres, Paris e muitas outras; mas deixo aqui votos de boa récita para quem for neste sábado à Gulbenkian*
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*P.S.
ao que sei, foi uma noite de sábado gloriosa...