sexta-feira, 31 de maio de 2013

Garbarek e a ECM - um património único


Homenagem a essa parceria que nos deu momentos de pura maravilha.

Cristobal de Morales, Parce mihi domine


Parce mihi, Domine, nihil enim sunt dies mei.
Quid est homo, quia magnificas eum?
Aut quid apponis erga eum cor tuum?
Visitas eum diluculo et subito probas illum.
Usquequo non parcis mihi, nec dimittis me, ut glutiam salivam meam?
Peccavi, quid faciam tibi, o custos hominum?
Quare posuisti me contrarium tibi, et factus sum mihimetispsi gravis?
Cur non tollis peccatum meum, et quare non aufers iniquitatem meam?
Ecce, nunc in pulvere dormiam, et si mane me quaesieris, non subsistam.

Spare me, Lord, for my days are as nothing.
What is Man, that you should make so much of us?
Or why should you set your heart upon us?
You visit us at dawn,
and put us to the test at any moment.
Will you not spare me and let me be,
while I swallow my saliva?
If I have sinned, how have I hurt you,
O guardian of mankind?
Why have you set me up as your target,
so that I am now a burden to myself?
Why do you not forgive my sin
and why do you not take away my guilt?
Behold, I shall now lie down in the dust:
if you come looking for me I shall have ceased to exist.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Islandia, Ultima Thule - três poemas por J.L. Borges


Última Thule, Islandia de las naves...

Jorge Luís Borges deixou-se fascinar pela mitologica nórdica, pela literatura nórdica, pela pureza branca e solitária do ártico e a procura milenar da terra última que desde Pytheas se designa por Thule. Temos também isso em comum, o patrono do 'Livro' e eu.

Menos conhecida é a sua poesia sob esse tema, dedicada, sobretudo, à Islândia, que Borges colocava como uma das grandes ilhas de civilização, a par da Grã Bretanha e do Japão. Poesia que mais contribui ainda para esse desejo de viajem sem fim à vista, pela História e pelos mares do norte.

1.
Islandia

Qué dicha para los hombres,
Islandia de los mares, que existas.
Islandia de la nieve silenciosa y del agua ferviente.
Islandia de la noche que se aboveda
Sobre la vigilia y el sueño.
Isla del día blanco que regresa
Joven y mortal como Baldr.
Fría rosa, isla secreta
Que fuiste la memoria de Germania
Y salvaste para nosotros
Su apagada, enterrada mitología.
El anillo que engendra nueve anillos,
Los altos lobos de la selva de hierro
Que devorarán la luna y el sol,
La nave que Algo o Alguien construye
Con uñas de los muertos.
Islandia de los cráteres que esperan,
Y de las tranquilas majadas.
Islandia de las tardes inmóviles
Y de los hombres fuertes
Que son ahora marineros y barqueros y párrocos
Y que ayer descubrieron un continente.
Isla de los caballos de larga crin
Que engendran sobre el pasto y la lava,
Isla del agua llena de monedas
Y de no saciada esperanza.
Islandia de la espada y de la runa,
Islandia de la gran memoria cóncava
Que no es una nostalgia.


2.
A Islandia

De las regiones de la hermosa tierra
Que mi carne y su sombra han fatigado
Éres la más remota y la más íntima.
Última Thule, Islandia de las naves,
Del terco arado y del constante remo,
De las tendidas redes marineras,
De esa curiosa luz de tarde inmóvil
Que efunde el vago cielo desde el alba
Y del viento que busca los perdidos
Velámenes del viking. Tierra sacra
Que fuiste la memoria de Germania
Y rescataste su mitología
De una selva de hierro y de su lobo
Y de la nave que los dioses temen,
Labrada con las uñas de los muertos.


Islandia, te he soñado largamente 
Desde aquella mañana en que mi padre 
Le dio al niño que he sido y que no ha muerto 
Una versión de la Völsunga Saga 
Que ahora está descifrando mi penumbra 
Con la ayuda del lento diccionario. 
Cuando el cuerpo se cansa de su hombre, 
Cuando el fuego declina y ya es ceniza, 
Bien está el resignado aprendizaje 
De una empresa infinita; yo he elegido 
El de tu lengua, ese latín del Norte 
Que abarcó las estepas y los mares 
De un hemisferio y resonó en Bizancio 
Y en las márgenes vírgenes de América. 
Sé que no lo sabré, pero me esperan 
Los eventuales dones de la busca, 
No el fruto sabiamente inalcanzable. 
Lo mismo sentirán quienes indagan 
Los astros o la serie de los números... .

Sólo el amor, el ignorante amor, Islandia.




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Mas o mais belo, talvez, é este pequeno poema que entrelaça a ilha utópica com o amor de uma mulher :

3.
Nostalgia del presente

En aquel preciso momento el hombre se dijo:
Qué no daría yo por la dicha
de estar a tu lado en Islandia
bajo el gran día inmóvil
y de compartir el ahora
como se comparte la música
o el sabor de una fruta.
En aquel preciso momento
el hombre estaba junto a ella en Islandia.




quarta-feira, 29 de maio de 2013

Cavatina para dias como hoje


Quarteto Casals
Beethoven,  op.130, V (Cavatina)

terça-feira, 28 de maio de 2013

Nijni Novgorod


Nadir Afonso sugere maravilhas





domingo, 26 de maio de 2013

Aniversário da morte de Leopold Mozart


Leopold Mozart foi um músico importante nos anos centrais do séc. XVIII, e convém não esquecer que foi no ambiente de criação musical paterna que Wolfgang cresceu e se revelou.


Bela homenagem pelos 226 anos decorridos, hoje, no blog ReciClassic, com excertos de Sinfonias e da Missa Solene.


quarta-feira, 22 de maio de 2013

E brincar, com Wagner


No New Yorker, Alex Ross publicou um post irresistível de trechos de Wagner interpretados da maneira mais louca. É uma delícia absoluta.
Ficam aqui dois exemplos, mas muitos mais valem a pena - até o Bugs Bunny ...

'Isoldina', pelo piano de Clément Douchet
Impagável, este "Last Tango in Bayreuth" pelo grupo The Breaking Winds:

O post mais divertido do ano...

Sonhar, com Richard Wagner


Träume, talvez a obra de Wagner de que mais gosto... homenagem aos 200 anos (hoje) do meu 'génio-Némesis' !

Duas clássicas favoritas e uma novidade que merece ser ouvida;

1.
Cheryl Studer
G. Sinopoli
Staatskapelle Dresden


2.
Marilyn Horne
Henry Lewis
Royal Philharmanic Orchestra


3.
Jonas Kaufmann, em versão de tenor. Nada mal.



 (...)
Sonhos, que em cada hora,
Cada dia, florescem mais belos
e me atravessam a alma
com a sua celeste felicidade !

Sonhos, que como raios gloriosos
penetram o coração
inscrevendo uma imagem eterna
e fazem tudo esquecer, pensar num só,

Sonhos,  como o sol da primavera
quando beija as flores que espreitam sob a neve
para que com alegria inimaginável
as convide para o dia que nasce

(...)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

'Rabbit Hole': belo mas dolorosamente triste


Nunca vi Nicole Kidman tão expressiva e amadurecida. Está aí uma grande actriz, finalmente.




Mas não só ela: Dianne Wiest mais uma vez tem neste filme um desempenho fabuloso, comovente, a merecer prémio.  Dame Dianne Wiest, como uma  Judy Dench  mais sensível e calorosa.


'Rabbit Hole' é o título de uma banda desenhada sobre universos paralalelos e os "buracos" por onde eles podem contactar. É um livro com papel fulcral na história do filme.

Pois não haviam traduzir o título em português pelo idiota "O outro lado do coração" ? Um daqueles que há em stock disponíveis, à espera de encaixar num filme romântico qualquer ? Grrrr.

É essencialmente um filme de actores e de diálogos muito bem escritos, sobre a dor da perda, o silêncio e a pausa no tempo "normal" que dela decorre. 

Já há muito não via um assim. De fazer chorar as pedras na calçada, mas sem artifício nem rodriguinhos - belo, sóbrio, contido, eficaz.

Se não está adepto de comédia, aventura, blockbuster - não perca. Vai ter carreira curta - a sala estava vazia.

Rotten Tomatoes: 86%
http://www.rottentomatoes.com/m/rabbit_hole/

sábado, 18 de maio de 2013

Viagens Imaginárias ao Ártico
- A derradeira fronteira norte da Europa: Ny Ålesund


Já aqui falei de últimas fronteiras da Europa - a Nordeste, as ilhas Novaya Zemlya da Rússia; Hamningberg, no extremo continental a Norte ; e a Leste, a grandiosa Kazan, antes dos Urais.

Hoje vou por aí acima direito ao Pólo, e a última paragem em terra firme é nas ilhas Svalbard; referi também já noutro post a capital Longyearbyen e a sua Global Seed Vault, hoje vou ainda mais acima : Ny Ålesund é a povoação mais setentrional da Europa, talvez do mundo; começou como local de exploração mineira, passou a estação científica e escala de aventuras de exploração polares, hoje é permanentente habitada e ... destino turístico.

Ny Ålesund fica na costa NW da ilha Spitzberg, a maior das Svalbard.

Ny Ålesund é habitada por mais de 30 residentes, que são na maioria cientistas das diversas instituições e pessoal auxiliar e administrativo da empresa de logística 'King's Bay'.

Nos meses mais soleados,  o pessoal sobe até uns 120 residentes, e ainda recebe visitas por vezes numerosas de viajantes de cruzeiro.


Situada a  78º 56' N, na margem de um fiorde chamado Kongsfjord (King's fiord), começou por ser uma aldeia mineira do carvão, e até 1962 chegou aos 400 habitantes. Mas depois de um trágico acidente, as minas fecharam e a estação dedicou-se à investigação científica, aberta a todas as nações interessadas.

O 'Kongsfjord', que benefecia do degelo de dois grandes glaciares.

Da sua localização resultam alguns recordes tipo "Guinness do Norte", como o combóio, o hotel e o posto dos correios mais setentrionais. E para visitantes também há uma loja de souvenirs e um museu, mais outros dois recordes nórdicos ! E até a estátua mais próxima do pólo  - o busto de Roald Amundsen, o explorador norueguês, herói nacional.


O muito fotografado posto de correios; por trás vê-se a 'Amundsen Villa', residência do explorador  durante a sua estadia.

Nenhum visitante deixa de escrever um postal para casa.

O que resta do combóio que servia as minas:

Busto de Amundsen  e Hotel NordPol :

Ny Ålesund é muito procurada como base para estudos polares. Depois da China e da Coreia, também a Índia abriu  uma estação em 2008. São já 11 países a participar em projectos, sendo os mais antigos a base Dirigibile Italia, as da Noruega e Reino Unido e a base Franco-Alemã.

Vista aérea do centro

Mas o grande acontecimento histórico ligado a Ny Ålesund é o vôo do dirigível "Norge", a primeira expedição polar por via aérea.



De Ny Ålesund ao Pólo Norte

Mastro de amarração do 'Norge', no Kongsfjord.

O "Norge" (Noruega), um dirigível fabricado em Itália, foi a primeira aeronave a voar sobre o Pólo Norte e a calote polar entre a Europa e a América. A expedição foi comandada por Roald Amundsen, e pilotada pelo italiano Umberto Nobile que tinha desenhado o Norge.


O Norge tinha sido projectado para as condições do Ártico: estrutura de metal reforçada à popa e à proa, quilha em tubos metálicos flexíveis, três motores, velocidade máxima de 115 km/h e potência 780 Hp/582 kW.

O vôo partiu de Roma em  29 de Março de 1926, via Oslo e São Petersburgo, até à cidade de Vadsø, no norte da Noruega, onde ainda existe o mastro de amarração. Depois a expedição atravessou o mar de  Barents até Ny Ålesund onde, a 7 de Maio, o dirigível aportou no mastro erguido no Kongsfjord.

O 'Norge' em Ny Alesund

A última etapa através do gelo polar começou na manhã de 11 de Maio, com 16 homens a bordo incluindo Amundsen, Nobile, e o patrocinador Lincoln Ellsworth.

A 12 de Maio avistaram o Pólo, e foram lançadas três bandeiras - da Noruega, da América e da Itália -  sobre o local. Soube-se mais tarde que tinha havido zanga a bordo quanto ao tamanho das bandeiras - a italiana era muito maior, apesar do combinado; Nobile tinha ludibriado os colegas. Amundsen escreveu no bloco de notas que às 02:20 da manhã sobrevoaram o Pólo, a  200 metres de altura e com -11º C de temperatura. Fez há pouco 88 anos !

No regresso, as incrustrações de gelo cresceram de forma alarmante, de tal forma que pedaços que se soltavam eram soprados pelas hélices contra o casco, onde começaram a surgir furos. Nobile queixou-se de haver muitos buracos para reparar, mas felizmente sem fugas de gás. Sob nevoeiro cerrado e  ventos tempestuosos, o Norge só conseguiu aterrar, sem grandes dificuldades, a 14 de Maio, no Alasca, numa aldeia inuit perto da cidade de Nome.

 Fim de viagem em Teller, no Alasca.

Da aventura ficou este mastro de amarração, monumento à travessia com êxito do Pólo Norte,  erguido em Ny Ålesund.


Fontes:

http://www.fiddlersgreen.net/models/Aircraft/Norge-Airship.html
http://dev.cruise-handbook.npolar.no/en/kongsfjorden/ny-alesund.htmlhandbook.npolar.no/en/kongsfjorden/ny-alesund.html


É possível tomar café a 79º de latitude, numa esplanada com vista para o fiorde, as montanhas geladas e o mastro do 'Norge' ?


É o  Mellageret Café, Ny Ålesund, Ilhas Svalbard.

E até numa esplanada ao sol da meia noite...

Ah, Europa, Europa !

domingo, 12 de maio de 2013

Atlantis, Ultima Thule, or the limelight...


Decide to take a trip, read books of travel
Go quickly! Even Socrates is mortal,
Mention the name of happiness: it is
Atlantis, Ultima Thule, or the limelight,
Cathay or Heaven. But go quickly ...


'Personae,' Delmore Schwartz

sábado, 11 de maio de 2013

Dia da Ópera: ah, só por esta...


...já valeu a pena viver no séc XXI !

Desafio a que me refiram uma interpretação que possa fazer sombra a esta Uma Voce Poco Fa, do Barbeiro de Sevilha, por Joyce DiDonato.

Deixa-me extático. O bel-canto pode ser decadência do romantismo, mas é uma decadência genial e muito, muito bonita. "Cala-te, Wagner", és muito bom no que fazes mas não tens razão em arrasar com os outros.


2007, Richard Tucker Music Foundation Gala.

Extracto de uma récita da ópera, mas com pior qualidade de som:
http://www.youtube.com/watch?v=JEK4DzzXlTg

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Rever Lawrence?

Foi sem dúvida um dos filmes da minha vida...

Agora, há gente a dizer que é académico, middle class, enfatuado e falso...

Nunca mais vi filme nenhum com aquele sentido imenso de espacialidade, aquele fôlego de aventura sem heróis de ficção, aquele jogo operático de interesses e protagonistas, nunca mais me emocionei assim com o estranho, o "alien", quase miragem no horizonte, que é o tuareg Omar Shariff aproximando-se com imensa lentidão numa sequência de suspense magnífico ( a banda sonora !) ; nem mais me arrepiei com a tragédia de uma amizade como quando o miúdo é engolido pelas areias movediças.

Imagens de culto.









Rever pode ser também perder para sempre a memória...

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Miloš Karadaglić, talento da guitarra

Miloš Karadaglić é um guitarrista clássico do Montenegro que se tem revelado um intérprete de excepção, entusiasmando um público numeroso sempre que dá concertos.

Aqui, uma recriação fantástica de Michelle, de Lennon & McCartney.




E para que não fiquem dúvidas, uma obra de Granados:

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Kaufmann nas estrelas


Que força expressiva impressionante!

Jonas Kaufmann, "E lucevan le stelle"
(da Tosca de Puccini)



E lucevan le stelle ...
ed olezzava la terra
stridea l'uscio dell'orto ...
e un passo sfiorava la rena ...
Entrava ella fragrante,
mi cadea fra le braccia.

O! dolci baci, o languide carezze,
mentr'io fremente le belle forme disciogliea dai veli!
Svanì per sempre il sogno mio d'amore.
L'ora è fuggita, e muoio disperato! E muoio disperato!
E non ho amato mai tanto la vita, tanto la vita!

sábado, 4 de maio de 2013

A Staatskapelle Dresden lembra Colin Davis




Concerto homenagem:
http://www.staatskapelle-dresden.de/index.php?id=57131

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Regalo de primavera no Botânico

Um post florido .

É por esta altura que o Jardim Botânico mais exubera em cores festivas. Maio é mês de floração de muitas das plantas. em particular glicínias, rododendros e camélias, mas também rosas e malmequeres, e outras que não sei.







Mas as folhas também são gente. O toque, a estrutura, a textura...





Feuilles Oh!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

ReciClassiCat, um blog catalão

Um excelente site do catalão Paul Muad Dib, muito em consonância com este meu Livro. Música (com excertos em mp3), arte e história.

Recomendo.

 http://www.reciclassicat.com/

Mayflowers


(fonte: RadioClassiqueFM)