sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Era uma vez uma alegre moscazita, por W. Blake


William Blake me faria sentir mosca, num poema logo anterior ao célebre 'Tiger, Tiger' de 1794. 
Há muito mais do que enxotar ou ser enxotado.


The Fly

  Little Fly,
  Thy summer's play
  My thoughtless hand
  Has brushed away.

  Am not I
  A fly like thee?
  Or art not thou
  A man like me?

  For I dance,
  And drink, and sing,
  Till some blind hand
  Shall brush my wing.

  If thought is life
  And strength and breath, 
  And the want 
  Of thought is death;

  Then am I
  A happy fly.
  If I live,
  Or if I die.




          Ó Moscazita           
          teus jogos de Verão
          varridos foram
          pela minha mão.

          Não serei eu
          Mosca igual a ti ?
          Ou tu um homem
          igual a mim ?           

          Pois eu gosto de dançar,
          de cantar, e de beber,
          até vir a cega mão
          a minha asa varrer.

          Se pensar é viver,
          e respirar, e ser forte,
          E se a falta
          do pensar é morte;

          Mosca feliz
          eu hei-de ser.
          Se fôr vivo,
          ou se morrer.


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in Songs of Experience, 1794
- ilustração original da 1ª edição -

[tradução minha]


terça-feira, 25 de novembro de 2014

' Rest, rest, seize the dying of the light '


Gosto muito do poema de Dylan Thomas  "Do not go gentle into that good night", citado no filme Interstellar como inspiração para os exploradores do cosmos não desistirem, lutarem pela vida até ao extremo. É um poema de raiva e luta contra a fatalidade, escrito por um jovem inconformado com a tragédia da morte do pai: "rage, rage against the dying of the light".

É lindíssimo, e certamente bem conhecido.

Mas eu, agora, tentando ser um "wise man", apetece-me transformar o poema no seu contrário, o que certamente o poeta detestaria, por isso humildemente lhe peço que me ignore. Porque eu não sou poeta, e muito menos revoltado, sou mais, mediocremente, assim:

        Yes, do go gentle into that good night,
        Old age should softly quiet at close of day;
        Rest, rest, and seize the dying of the light.

        Because wise men at their end know dark is right,
        and though their words had forked no lightning, aye,
        they do go gentle into that good night.

        Good men, the last wave by, crying how bright
        Their frail deeds might have danced in a green bay,
        Rest, rest, seize the dying of the light.

        Wild men who caught and sang the sun in flight,
        And learn in time they grieved it on its way,
        now do go gentle into that good night.

        Grave men, near death, who see with blinding sight
        Blind eyes could blaze like meteors, but they
        now rest, rest, seize the dying of the light.





sábado, 22 de novembro de 2014

Interstellar, de Christopher Nolan: um fracasso com dignidade


Já ia mentalizado para um filme falhado, o que me ajudou a gostar bastante da primeira hora. Uma boa narrativa, um bocado palavrosa mas em bom ritmo, algumas originalidades engraçadas - a caça ao drone indiano (!), por exemplo, que afinal depois se veio a revelar mais uma pesada e escusada inutilidade narrativa.

Foram evidentes vários absurdos da situação, como a abundância de electricidade e petróleo não jogar certo com a falta de alimento, pois uma humanidade reduzida a cultivar e comer milho não produz alta tecnologia; pior ainda, que com tanta escassez não hesitassem em destruir preciosos campos de cereal, muitos hectares esmagados para caçar o drone.

Estéril, sob tempestades de poeira, a Terra quase inabitável. Ficar, abandonar?

Mas uns deconchavos assim eu perdoaria, se a aventura cósmica compensasse, e estivesse bem conjugada com retratos humanos credíveis e belas imagens, boa música (pois, o 2001 vem sempre à memória).

Que nada. Sempre demasiado palavroso, com imensos pormenores técnicos que não interessam nada a sobrecarregar a montagem com muitos minutos sonolentos, com a narração cada vez mais coxa a perder tempo em inutilidades (para quê a visita ao primeiro planeta, se não adiantou nada para a história...), ia-se salvando uma ou outra imagem, o jogo de tempos (passado-presente), a personagem de Michael Caine  - e só, porque de resto não há ninguém a merecer destaque pela actuação, nem as situações ajudam a aprofundar traços psicológicos. O episódio no segundo planeta é catastrófico de mal feito.

Salva-se a música ? que horror, não, é uma banda-pastelão tipo Dez Mandamentos que só tem o mérito de dar valor aos momentos de silêncio.

O primeiro planeta: tudo mar, tempo perdido, mesmo.

É evidente que os meios postos à disposição de Nolan são fabulosos. Não soube tirar deles proveito - nem das naves espaciais, nem dos efeitos especiais. A viagem através do buraco negro é muito mais sensaborona que a de Kubrick (há 46 anos!), o interior da nave circular não é explorado pela câmara, o super-computador tem pernas e sentido de humor (em percentagem ajustável !) mas é um painel meccano mal acabado e feio.

A nave giratória em viagem através do buraco negro, um suave e gentil 'wormhole'. Até o 'Contacto' de Zemeckis fazia melhor.

A ambição de Nolan também é desmedida. Quis construir um grande filme, que fizesse história, com filosofia humanista para dar que pensar, descurou a montagem e ocupou duas entediantes horas a encher olhos e ouvidos com palavreado oco e imagens vulgares. Nem sequer fica na memória uma imagem marcante, como foi o bailado das naves do 2001, ou o encontro do monolito, ou o quarto branco de chão axadrezado em que se encontram gerações de eras diferentes, tantas...

As naves não são bonecos de computador, mas sim modelos reais. Valha-nos isso.

A dignidade de que falo no título está na intenção e no final. Mostrar que a Terra pode não ser o nosso planeta de futuro, que podemos ter que emigrar, que será bom pensar nisso enquanto é tempo; e depois que quem partir não voltará, e mesmo que volte é noutro espaço-tempo, encontrando já outro estádio da humanidade... e finalmente concluir com golpe de génio (até que enfim !) que a humanidade conseguiu entretanto encontrar outra solução mais próxima, menos arriscada, mais inteligente: contruir ela própria um planeta artificial, onde a verdura volta a medrar. Todo o esforço desmedido de enviar naves tripuladas à procura de mundos habitáveis, navegadores heróicos pelo espaço cósmico, valeu por si própria, pela viagem e pelas descobertas - não pelo sucesso dos objectivos iniciais.

Bom, e vale a pena ver o filme ? Maçador e mediano na cinematografia, não deixa de ser um tempo em que nos confrontamos com questões que não são do quotidiano, questões estimulantes em que nos vemos como espécie única no Universo, um colectivo a lutar pela sua existência. Isso faz bem.

Uma sequência conseguida, que pode deixar marca e teria sido um bom final para o filme: o astronauta de regresso à Terra perdido numa outra dimensão, incomunicável, apenas percebido como fantasma.

O 2001 de Kubrik, sempre presente. 


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Devo esclarecer que escolhi as melhores imagens que consegui, e que podem sugerir um filme plasticamente mais bonito do que realmente Interstellar é.




quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Quadros outonais, da Suécia à Ucrânia passando pela Áustria.


Carl Larsson, talvez o maior pintor sueco de sempre, realizou muitas das suas gravuras em cores outonais.

Outono, 1884

Olga Wisinger-Florian (1844-1926 ) foi uma pintora impressionista austríaca dedicada sobretudo a paisagens e flores.

Folhas de Outono (Herbstlaub)

Denis Sarazhin nasceu em Nikopol, Ucrânia, em 1982. Frequentou a Academia de Arte e Design de Kharkov, onde se graduou em 2008.

Outono aromático
http://sarazhin-denis.com/catalog/paintings



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Mais rádios livestream


Para variar, uma rádio clássica irlandesa, de Dublin. Sem publicidade.

Um grupo de entusiastas que não encontrava nas rádios locais um programa satisfatório, fundou a Pure Classic:


" We wanted an Irish radio station that plays nothing but the classics, but as we couldn't find one, we started this ourselves ! The radio service is taking part in the commercial DAB radio broadcasting trials now on-air in Dublin and expanding to Cork and Limerick later this year."
http://www.pureclassic.ie/listen.php.html

Mantenho-me fiel à Suisse Classique (link aqui ao lado), mas esta é uma boa alternativa, quando não envereda pelo "folclore". Nesse caso, outro bom refúgio isento de palradores anunciantes é a Venice Classic diretta:

http://www.veniceclassicradio.eu/player/index.html

Adoram particularmente Telemann e J.-C. Bach. É uma delícia ouvi-los pronunciar inglês e alemão com sotaque italiano...

Com uma praga publicitária a abrir e uma língua adstringente, não deixa de valer a pena ouvir a clássica dinamarquesa (apesar de tudo parca em palavras):

http://www.radioplay.dk/radioklassisk

Mas para quem gosta imenso de palavreado a puxar o armante erudito, entrevistas pedantes, textos herméticos, gente que gosta de se ouvir a si própria, programas sobre teatro e outras artes, mensagens tendenciosas, enfim tudo o que possa reduzir ao mínimo a audição de boa música, temos felizmente a nossa Antena 2. Probabilidade elevada de ouvir Pinho Vargas, Carrapatoso e Nunes, entre outros grandes génios. Já Maria João Pires e Artur Pizarro rareiam.


domingo, 16 de novembro de 2014

GuiJazz 2014: Lee Konitz, e a Trondheim Jazz com Joshua Redman


Guimarães continua uma preciosidade quase única por cá. Agenda cultural, espaço histórico, museus, comodidade urbana, comércio variado e abundante com algumas lojas 'de culto', muitas delas alimentadas pela indústria e artesões locais. É a minha nº 1 para compras de Natal, muito melhor que qualquer shopping, com a vantagem de ar livre, espaços bonitos e cafés onde até se pode ainda fumar. A gentileza das gentes, que sempre atendem bem dispostas e afáveis, é outro ponto forte.

Ainda para mais, tem um dos poucos eventos nacionais de topo, frequentado por verdadeiras elites, o melhor que se faz nessa arte : o Guimarães Jazz.

Este ano escolhi ouvir Lee Konitz e Joshua Redman, ambos saxofonistas de estilo ó quão diferente, o segundo acompanhado por uma orquestra de jazz de dimensão média e origem muito nórdica - a Trondheim Jazz Orchestra (*).

Sei pouco de jazz, aprecio como sou capaz de apreciar música em geral - a qualidade da execução solista e de conjunto, os diálogos entre partes, a estrutura da peça, temas, invenção harmónica e rítmica... (já que de melodia o jazz é menos produtivo). De nomes, história e referências sou uma quase nulidade, e escolho concertos ouvindo primeiro algumas amostras a ver se me agradam ( a não ser que seja um daqueles monstros sagrados, Gary Peacock, Paul Motian, John Surman, Garbarek...).

Lee Konitz deu um concerto muito bonito, suave e melodioso, usando os tons mais macios e doces do saxofone e fazendo jazz quase clássico, com swing na secção rítmica, muito nova-iorquino. Sempre discreto, as entradas do sax nasciam quase despercebidas do silêncio, eram primorosas no progressivo atingir de virtuosismo sem nunca se mostrar exibicionista. Gostei muito, mas menos da disposição de Konitz para cantarolar. Parece que é um toque / tique pessoal.


A orquestra de Trondheim, dirigida por Eirik Hegdal, começou num quase caos modernista, podia ser Stockhausen, e desagradou ; mas à terceira peça já eu fiquei rendido ao fenomenal domínio técnico e à execução de Redman, que aos poucos foi mostrando o que vale - bem mais ousado, provocador e estimulante que Konitz; em regra as entradas do que eles chamavam "songs" eram o tal caos ruidoso, às vezes com toques de humor, mas depois evoluía para "andantes" ou "adagios" de extrema beleza.

Até que se meteram a tocar Bach e, por mal dos meus pecados, foi um desconchavo. Escusado. O melhor momento, de grande beleza, foi um tema pausado com acompanhamento nas cordas a marcar o ritmo (violoncelo e contrabaixo) e com solos de violino, guitarra eléctrica (Nils-Olav Johansen, muito bom) e saxofone.

Uma excelente e agradável variante aos concertos da Casa da Música - e já agora, o Centro Cultural Vila Flor ganha em toda a linha - conforto, acessibilidade, serviços e preços.



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(*) Trondheim é uma das mais bonitas cidades da Noruega, muito perto do círculo polar ártico.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Proud to be European !


Um bocadinho de Europa num cometa a 800 milhões de quilómetros !

O O 67P/Churyumov foi descoberto por europeus (um astrónomo de ... Kiev !) e "conquistado" por europeus. Pode não ser bonito, mas nunca ninguém "aterrou" em território tão longínquo, numa viagem tão precisamente planeada e executada. Ciência com um C muito maiúsculo, herdeira de tudo o que a Europa criou desde os Gregos antigos.

Esta Europa Grande está minada de corrupção e decadência social, mas a sua élite ainda dá cartas, oxalá fosse gente como a equipe de Darmstadt a mandar.

Finalmente orgulhoso da minha pátria cultural.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O barroco fulgurante de Platti


Givanni Benedetto Platti era um virtuoso do oboé que caiu nas graças da corte de Würzburg (norte da Baviera), desejosa do exotismo da luminosa música mediterrânica ao estilo de Corelli. Entre 1722 e 1729, Platti escreveu um grande número de peças - concertos, sonatas, música sacra -  incluindo um (entre outros 28 !!) vertiginoso concerto para violoncello obligato em Re, dedicado ao irmão do seu patrono, o bispo-príncipe von Schönborn. A parte solista do violoncelo é vistosa e exigente, deixo aqui o Allegro final.

Toca a excelsa Akademie für Alte Musik, Sebastian Hess no violoncelo.

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Mas Platti não é só fogo de vista. Para estados de alma mais meditativos, este Prelúdio ao Concerto Grosso nº 10 (sobre obras de Corelli):

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Estas obras estão incluídas no CD que já aqui mencionei:



terça-feira, 11 de novembro de 2014

O grande triunfo II



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A grande vigarice da votação catalã


A Catalunha tem 7 500 000 habitantes, mais ou menos. Sejam 5 milhões de eleitores, ou mesmo 4. Mesmo só o facto de não se saber já faz do acto uma palhaçada de democracia. Votaram "mais de dois milhões", e 76% no Sim à independência. Muitos estrangeiros residentes (!!!) e os adolescentes desde 16 anos. Urnas violáveis de cartão. Nenhum organismo internacional validaria tal aldrabice, seria uma vergonha que indignaria todo o mundo. Mas 76% de "mais de dois milhões" são "mais de" 1 500 milhões, suponhamos 1700. Vejam lá se pudéssemos assumir que os restantes 2 ou 3 milhões e meio de eleitores não querem a independência ! Seriam uns 62% pelo menos, e podia chegar aos 75%.

O referendo foi um tremendo e rotundo fiasco, e o independentismo perdeu em toda a linha, teria de ultrapassar 3 milhões de Sim para convencer. Num processo que, à beira do escocês, foi um complot mafioso à boa maneira do sul. Tudo indica que numa eleição rigorosa e transparente levavam um banho.

Os jornalistas, como de costume, não sabem fazer contas e exultam com a vitória retumbante do Sim. Pobres cretinos. A mentira e a falsidade tornam-se regulares na imprensa e na TV, não quero acreditar que por manipulação, mas pela mais crassa ignorância e desistência de pensar pela própria cabeça. Talvez também pelo ódio à democracia formal que vem grassando perigosamente.


domingo, 9 de novembro de 2014

Scarlatti K 208, audição comparada.


Música para o fim-de-semana.

Scarlatti compôs esta bela Sonata K 208 em 1753. É uma obra instrumental (para cravo ou órgão) inspirada numa composição vocal sobre acordes de guitarra usual no sul da península, uma espécie de flamenco cortesão tornado elegante e adequado ao palácio dos reis de Espanha.

Começo por uma versão para guitarra, que faz jus às origens.

Domenico Scarlatti - Sonata em La Maior, K 208
Leo Brower, guitarra


Agora, mais fiel a Scarlatti, Scott Ross em cravo:


Por Maria João Pires uma versão em piano moderno, mais pensativa :



Quase me apetece colocar a sonata na lista da ilha deserta. Mas qual das três ?


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Boulevard of broken dreams [ The Paris Review]


Não resisto a chamar a atenção para este magnífico post há pouco publicado na The Paris Review:

http://www.theparisreview.org/blog/2014/11/06/berlins-boulevard-of-broken-dreams-part-1/

Às vezes esquecemos depressa, convém lembrar que ainda há pouco os sonhos eram permitidos, e bonitos, onde parecia não haver fim para uma desolada e vil tristeza.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Uma Carta de Newton



Excertos de "The Newton Letter" de John Banville, cuja (2ª) leitura terminei agora.

" In moments like that you can feel memory gathering its material, beady-eyed and voracious, like a demented photographer. I don’t mean the big scenes, the sunsets and car crashes. I mean the creased black-and-white snaps taken in a bad light, with a lop-sided horizon and that smudged thumb-print in the foreground. Such are the pictures of Charlotte, in my mind. In the best of them she is not present at all, someone jogged my elbow, or the film was faulty. Or perhaps she was present and has withdrawn, with a pained smile. Only her glow remains. Here is an empty chair in rain-light, cut flowers on a workbench, an open window with lightning flickering distantly in the dark. Her absence throbs in these views more powerfully, more poignantly than any presence."

Em momentos assim podemos sentir a memória recolhendo o seu material, de olhos brilhantes, voraz, como um fotógrafo demente. Não me refiro às grandes cenas, os pores-de-sol e os acidentes de carro. Refiro-me aos preto-e-brancos tirados com uma luz fraca, com o horizonte inclinado e aquela esborratada impressão digital do polegar em primeiro plano. Assim são as imagens de Charlotte que recordo. Nas melhores, ela nem está sequer presente, alguém me tocou no cotovelo ou o filme estava com defeito. Ou talvez ela tivesse estado presente mas retirou-se, com um sorriso dorido. Apenas a luz dela permanece. Aqui está uma cadeira vazia à luz da chuva, flores cortadas numa banca, uma janela aberta com relâmpagos piscando ao longe na escuridão. A ausência dela pulsa nestas visões mais poderosa, mais pungente do que qualquer presença.



" When I search for the words to describe her I can’t find them. Such words don’t exist. They would need to be no more than forms of intent, balanced on the brink of saying, another version of silence. Every mention I make of her is a failure. Even when I say just her name it sounds like an exaggeration. When I write it down it seems impossibly swollen, as if my pen had slipped eight or nine redundant letters into it. Her physical presence itself seemed overdone, a clumsy representation of the essential she. That essence was only to be glimpsed obliquely, on the outer edge of vision, an image always there and always fleeting, like the afterglow of a bright light on the retina."

Quando eu procuro palavras para a descrever não posso encontrá-las. Tais palavras não existem. Precisavam de ser não mais do que formas de intenção, hesitando no limiar de ser ditas, outra versão do silêncio. Cada menção que faço dela é um fracasso. Mesmo quando digo só o nome dela já soa exagerado. Quando escrevo parece absurdamente inchado, como se minha caneta tivesse derrapado nele mais oito ou nove letras redundantes. A própria presença física dela parecia demasiada, uma representação desajeitada da sua essência. Essa essência era para ser apenas vislumbrada obliquamente, na margem externa da visão, uma imagem sempre lá e sempre fugaz, como o resplendor de uma luz brilhante na retina.

[traduções minhas]

Um jovem académico retira-se numa casa de campo para escrever um ensaio sobre Newton, baseado nas cartas que ele escreveu. Mas a família que lhe aluga a casa acaba por interferir de forma inesperada, alterando-lhe os planos e a perspectiva do mundo.
Desta obra foi feito um filme, com argumento do próprio Banville e um magnífico cast de actores, que não se encontra editado excepto no Youtube, em 4 episódios:

https://www.youtube.com/playlist?list=PLlhrHKnwMEBchR9h5LZTJ8eBrtLKkEy13

Apesar da fraca qualidade de imagem, também no filme perpassa a nostalgia evocativa típica do autor, embora aqui sem o habitual desfecho trágico.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Outros blogs: The Paris Review


Um dos melhor blogues que até hoje visitei. Literário, mas não só.

http://www.theparisreview.org/blog/

Tem também página no Facebook:
https://www.facebook.com/parisreview

Como muitos saberão, The Paris Review é uma prestigiada revista literária lançada em Paris em 1953, dedicada a publicar obras de escritores recentes ou menos conhecidos.


Felizmente, o prazer de 'folhear' o blog não é menor que o de ler a revista impressa.

domingo, 2 de novembro de 2014

Suzuki e o Bach Collegium Japan, (s)em prejuízo do 'Hayastan yerkir' por Savall


Premiada em 2010 com o Diapason d'Or, a orquestra Bach Collegium Japan especializou-se em música de Bach, muito estudada e reflectida de forma a tentar transmitir uma espiritualidade conforme à da época do compositor. Parece que vem conseguindo, se vale o sucesso que obtém por toda a parte. Uma confluência inesperada do oriental com o centro-europeu.

Neste concerto, hoje na Casa da Música, estiveram em destaque o órgão, solista ou acompanhando as cantatas, e o violino. Cada parte vocal e instrumental contou com um só elemento, sendo o côro reduzido aos dois solistas, soprano e barítono, e os executantes a um máximo de oito. Um minimalismo de meios radical que para mim foi excessivo.

Hana Blažíková, soprano
Dominik Wörner, baixo-barítono
Masato Suzuki, órgão 
Masaaki Suzuki, cravo e direcção

Johann Sebastian Bach
Concerto para órgão em Ré menor ( BWV 35)
Cantata “Liebster Jesu, mein Verlangen”, BWV 32
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Cantata “Der Friede sei mit dir”, BWV 158
Sonata em trio para 2 violinos em Lá menor
Cantata “Ich gehe und suche mit Verlangen”, BWV 49



O órgão foi um dos principais atractivos; o instrumento usado era uma pequena jóia toda em madeira, com excepção da parte eléctrica. O concerto para órgão, a abrir, revelou logo uma grande pureza tonal de todo o conjunto, fazendo quase esquecer a pequena dimensão. Violino e órgão em execução mais 'vistosa' mas sempre admiráveis de timbre.

A opção vocal é coerente mas foi um dos pontos fracos do concerto. Custa ouvir as cantatas sem côro; as duas vozes ligavam bem mas foram muito inexpressivas, mortiças. A BWV 32 foi ainda assim a mais bem executada, com uma brilhante parte de violino, quer a solo quer em contraponto à voz, da violinista Yukie Yamaguchi.



http://bachcollegiumjapan.org/en/profile/masaaki-suzuki/
http://darcadia.blogspot.pt/2007/10/yukie-yamaguchi.html
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Para ouvir Bach por Suzuki, abdiquei do concerto de Jordi Savall no dia 4. Tenho pena, sobretudo por este evocativo e muito lindo hino arménio, Hayastan yerkir. Espiritualidade patriótica.

                                        

Os arménios sofreram, como hoje os curdos, os maus tratos de nações vizinhas e a falta de um estado unitário próprio, negado durante séculos por russos e otomanos. Desde a antiga Pérsia e do Império Mongol, pelo menos, esta é uma região de povos sofredores e de povos opressores ao longo da História.

sábado, 1 de novembro de 2014

Antonín Vranický


Antonín Vranický [Anton Wranitzky]  (1761 – 1820) foi um violinista e compositor checo muito afamado no final do séc. XVIII.

Estudou na Academia jesuíta de Brno, Morávia. Depois instalou-se Praga e em Viena, onde foi aluno de Mozart e Haydn, e ascendeu a Kapellmeister em 1797; nomeado pelo príncipe regente director da Ópera da Corte de Viena e da sua orquestra, tornou-se uma das figuras mais importantes do classicismo em Viena, e grande amigo de Beethoven.

Adagio do Concerto para violino em Do.
video