quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Um conto de outono:
a habilidade narrativa de Cortázar e a morte do leitor.


Resolvi publicar (traduzindo) este conto famoso de Júlio Cortázar, objecto de numerosos estudos e análises desde o sério ao especulativo, onde se identificam as referências óbvias - o Borges que inspirou este meu Livro de Areia - e outras não tanto: os paradoxos espaciais de Escher, Gödel e a lógica matemática, os universos paralelos, a duplicidade de estados na física quântica. É inacreditável como tão curto texto engloba tanta riqueza conceptual. Italo Calvino abordaria três anos mais tarde os mesmos temas no genial 'Se numa noite de inverno um viajante' - mas essa é uma longa narrativa de centenas de páginas.

Este Continuidad de los parques foi publicado pela primeira vez em 1964 no livro 'Final del juego'.

É melhor ler sem spoilers...



Julio Cortázar, Continuidad de los parques


Tinha começado a leitura da novela dias antes. Abandonou-a por negócios urgentes, voltou a abri-la no combóio quando regressava da fazenda; deixava-se interessar lentamente pelo enredo, pelo desenho das personagens. Nessa tarde, depois de escrever uma carta ao seu procurador e de discutir com o caseiro uma questão de parcerias, voltou a abrir o livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado na poltrona favorita, de costas para a porta que o tinha incomodado como irritante possibilidade de intrusões, deixou que a mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde e pôs-se a ler os últimos capítulos. Retinha na memória sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão novelesca conquistou-o quase de imediato. Gozava o prazer quase perverso de se desgarrar linha após linha de tudo o que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que a cabeça descansava comodamente no veludo do elevado encosto, que os cigarros estavam ao alcance da mão, que para além dos janelões o ar do entardecer dançava sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pelo sórdido dilema dos heróis, deixando-se levar até às imagens que se concertavan e adquiríam cor e movimento, foi testemunho do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; depois chegava o amante, com a cara ferida pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela estancava o sangue com os seus beijos, mas ele afastava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimónias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e trilhos furtivos. O punhal já amornava contra o seu peito, e por baixo a liberdade latia, agachada. Um diálogo ansioso corría pelas páginas como um rio de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavan o corpo do amante como querendo retê-lo e disuadi-lo, desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada tinha sido esquecido: álibis, azares, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha o seu emprego minuciosamente atribuido. O implacável exame a dois interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma maçã do rosto. Começava a anoitecer.

    Sem se olharem já, rigidamente atados à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devía ir pelo caminho que seguia para norte. Do outro caminho oposto, ele voltou-se um instante para vê-la correr de cabelos soltos. Correu ele também, protegendo-se com as árvores e as sebes, até distinguir na bruma malva do crepúsculo a alameda que conduzia até à casa. Os cães não devíam ladrar, e não ladraram. O caseiro não estaría a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus do alpendre do pórtico e entrou. Do sangue que lhe galopava nos ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma galería, uma escadaria forrada. Ao alto, duas portas. No primeira quarto ninguém, ninguém no segundo. A porta do salão, o punhal em riste. A luz dos janelões, o elevado encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo uma novela.





Borges e Cortázar entendiam a literatura como un 'jogo' entre autor e leitor (homoludens), um jogo armadilhado, que basicamente consistia em estabelecer de início uma narrativa banal, quotidiana, mas onde subitamente irrompem elementos fantásticos, absurdos ou paradoxais. Em Cortázar, o tempero é uma ironia cheia de piscadelas de olho, como a "ilusão novelesca" que o protagonista encontra no livro, a ilusão mesma com que ele Cortázar nos está a seduzir, ou o "prazer quase perverso" do leitor ao mesmo tempo que acaricia o veludo. Todo o conto foi minuciosamente trabalhado, não sei quantas vezes, durante quanto tempo, até ter precisamente as palavras necessárias, com detalhes absolutamente geniais que nunca lá estão por acaso.

Exemplos:

- a dualidade conto/novela: no conto, era o entardecer ; na novela dentro do conto, começava a anoitecer. Também o "sórdido dilema", uma dualidade que abarca tudo afinal - homem/mulher, autor/leitor, conto/novela.

- os três degraus da entrada para um mundo que deixa de ser a dois e passa a três (dimensões, personagens, espaços);
 há três divisões e as primeiras duas estão vazias, a terceira - o salão - é um mundo alternativo ! O conto assenta quase todo na dualidade mas termina a três, demonstrando 1+1 = 3 !

- e os parques, com que Cortázar brinca no título ? O parque de tranquilidade que se vê do escritório do leitor - o parque do conto - e o bosque agressivo, com galhos, com trilhos furtivos, o bosque da novela. O jardim dos caminhos que se bifurcam de Borges.

O final, em narração cinematográfica, hitchcockiana, é de mestre. E quem é a vítima, a vítima que se liberta apunhalando (-se) a si própria ? Quem mais, se não o leitor ? ah ah ah ah.

Quantos mais se lê, mais trilhos furtivos se descobrem, são os trilhos que Cortázar furtivamente constrói para nosso pasmo.








segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Amanda Forsythe - tornami a ascoltare in questo Handel !


Fantástica interpretação da jovem Amanda Forsythe desta ária de Alcina:


Tornami a vagheggiar,
te solo vuol' amar
quest' anima fedel,
caro, mio bene, caro!

Già ti donai il mio cor :
fido sarà il mio amor;
mai ti sarò crudel,
cara mia spene.



Só para confirmar: e esta Cleópatra, do Julio Cesar também de Handel ?
Ária 'Da Tempeste'.
Da tempeste il legno infranto
Se poi salvo giunge in porto
non sa più che desiar.

Così il cor tra pene e pianto,
or che trova il suo conforto,
torna l'anima a bear.



Genial. A Lezhneva que se cuide.

CD The Power of Love, com árias de Handel.
Amanda Forsythe, soprano
Apollo's Fire, dir. Jeannette Sorrell

Amanda Forsythe nasceu em Nova Iorque (1976) mas foi em Cleveland que estudou música e passou a residir. Iniciou a carreira operática europeia em Pesaro, com Il viaggio a Reims no Festival Rossini. Voltou recentemente a Rossini no Guilherme Tell. A ópera de Handel tem tido também grande relevo e sucesso na carreira de Amanda, sobretudo com o agrupamento barroco de Cleveland Apollo's Fire, criado e dirigido por Jeannette Sorrell.

Ainda há boas surpresas, o mundo não está perdido :)




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Ah grande livro !
Uma mulher na noite polar, de Christiane Ritter



Devia ter lido este livro quando era miúdo, na idade em que li "Com Byrd na Antártida" ou "Com Darwin na América do Sul". Mas Christiane Ritter é mais séria e autêntica - mais adulta - a relatar a sua estadia aventurosa no deserto gelado subpolar, muitíssimo bem narrada, com descrições preciosas e deslumbrantes; há muito de pintura ou de poema nessa escrita fascinada. O livro obteve grande sucesso quando foi publicado e é um clássico da literatura sobre o Ártico.

Corria o ano de 1930, entre as duas guerras, a Europa estava confusa, deprimida, desagradável e perigosa. O crash e a longa depressão americana tinham acabado com o breve interregno democrático e as ditaduras iam alastrando. Christiane Ritter, austríaca de 36 anos, foi convidada pelo marido, caçador de peles no norte de Spitsbergen - a ilha maior do arquipélago norueguês de Svalbard - a visitá-lo durante um ano, para pôr em dia longas leituras em atraso e dormir a contento as horas de sono em falta.

Gråhuken (Grey Hook) no Woodfjord, local da cabana onde Christiane viveu.

O convite era tentador, ainda que a desolação da prolongada noite ártica pudesse assustar: Christiane ficaria alojada numa minúscula e tosca cabana de madeira, na margem do Woodfjord, a cerca de 80º de latitude, sob quarenta graus negativos que sobem a quinze (negativos) no Verão. Só uma longa jornada sobre o acidentado gelo permite contactar com outras cabanas de caçadores - muitas vezes desertas mas ainda assim acolhedoras.


Christiane irá viver momentos de isolamento profundo, recolhida na exígua cabana durante longas e ventosas tempestades, ou vagueando pela noite ártica sem horizontes nem referências; por outro lado, vive a experiência de flutuar num mundo irreal, fantástico, de luminescências brancas por entre negridão, noites estreladas nunca vistas, e, quando se acendem feéricas as luzes boreais, uma festa intensa dos sentidos.

Alguns excertos:


- Sombras brancas -

"The world is in deep twilight, a perpetual twilight from which it can no longer emerge. There is no wind, and a transparent mist carries the waves of the last dying light. Everything, near and far, is unreal, without spatial dimension. The frozen mountains soar up into the dark grey sky like white shadows. Weightlessly, they seem to sway.

With a soft musical note, the dark water nestles in the round white bays and in the river estuaries, and glides in the calm obscurity over to the broad sea, which in the distance seems to melt into the grey of the sky.

The scene has nothing earthly in it. Withdrawn, it seems to lead its own contained life. It is like the dream of a world that is visible before it takes shape as a reality."



- O ritmo luminoso das esferas -

"It is as though we are on another planet, somewhere else in universal space, where in nameless peace bright mountains rest and the light speaks with a mute eloquence.

We go out into he bright land. In the valley the wind howls, over the plain the snow is driven like a glistening river, but calm and unmoved the mountains soar into the star-glittering heavens.

Bright veils detach themselves from the sky. As though stirred by the gentlest breath of wind they float in ever bright and broader waves across the whole heaven. We watch the shining rhythm of the spheres until the veils disappear, and come to ourselves, small beings struggling forward mute and heavy through the storm on the earth."



- Dissolvidos no luar -

"It is full moon. No central European can have any idea of what this means on the smooth frozen surface of the earth. It as though we were dissolving in moonlight, as though the moonlight were eating us up. It makes no difference when we go back into the hut under the snow after a moonlight trip. The light seems to follow us everywhere. One's entire counsciousness is penetrated by the brightness; it is as though we were being drawn into the moon itself.

... what I would like best of all is to stand all day on the shore, where in the water the rocking ice floes catch and break the light and throw it back to the moon."


- Deserto vermelho -

"I can scarcely believe my eyes. A radiant red dawn illuminates a land that is itself red. Red is the sea, red the rocks, red the beach, and the square driftwood hut is tinged with red.

(...) meantime Karl, who does not allow himself to be bewildered either by colours or by geological images, has been in the pink hut, making some glaring red cocoa. "I had to make the cocoa so thick," he says apologetically, "so that you would not see how red and sandy the water was that I had to make it with".



[há no fiorde uma região vulcânica coberta de sedimentos arenosos ricos em ferro que dão cor avermelhada à terra e à água]



Falta talvez a dimensão psicológica, entrar mais a fundo nos sentimentos e nas relações humanas - eram três a habitar a cabina, o casal e um caçador mais jovem, amigo do marido. Christiane Ritter dedicou-se totalmente ao irresistível vazio do mundo que a rodeava, e tal como o marido, preferiu o silêncio contemplativo - é esse testemunho que as suas palavras relatam.







A Woman in the Polar night
Christiane Ritter
Greystone Books, UApress Alaska
Nota: a evitar o prefácio presunçoso e irrelevante de L. Millman

domingo, 18 de outubro de 2015

Clara Butt, na primeira transmissão radiofónica de música clássica (1906)


A 24 de Dezembro de 1906, Reginald Fessenden, um inventor e pioneiro da rádio canadiano, emitiu o primeiro progama rádio em AM começando com a gravação fonográfica de "Ombra mai fu", seguida de "Holy Night" tocada no violino e cantada pelo próprio Fessenden para celebrar a data natalícia.

A Ária de Handel foi portanto a primeira música emitida na rádio; cantava a contralto Clara Butt. Um precioso bocadinho de rádio com mais de um século:

[Ária aos 0:54]


Dame Clara Ellen Butt (1872 – 1936), era uma contralto inglesa notável pelo registo baixo, que fez carreira em recitais e concertos. Tinha uma voz forte e profunda que impressionou Elgar (entre outros) tanto que compôs um ciclo de canções dedicado a Clara Butt.

"Where Chorals Lie", do ciclo Sea Pictures (1899) de Elgar:
[Gravação de 1920]



" All our civilization is based on invention; before invention men lived on fruits and nuts and pine cones and slept in caves. "
                                                                   Reginald Fessenden


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Relatividade - um poema de Sarah Howe


Surprendeu-me este poema publicado há pouco no blog The Paris Review, estranhamente sedutor na sua linguagem científica trabalhada com sensibilidade e sabedoria; a autora Sarah Howe dedicou-o ao Físico Stephen Hawking.


Relativity
for Stephen Hawking

When we wake up brushed by panic in the dark
our pupils grope for the shape of things we know.

Photons loosed from slits like greyhounds at the track
reveal light’s doubleness in their cast shadows

that stripe a dimmed lab’s wall—particles no more—
and with a wave bid all certainties goodbye.

For what’s sure in a universe that dopplers
away like a siren’s midnight cry? They say

a flash seen from on and off a hurtling train
will explain why time dilates like a perfect

afternoon; predicts black holes where parallel lines
will meet, whose stark horizon even starlight,

bent in its tracks, can’t resist. If we can think
this far, might not our eyes adjust to the dark?

Sarah Howe

Quando acordamos eriçados de pânico na escuridão
as nossa pupilas tacteiam procurando formas que reconheçam.

Fotões lançados das fendas como galgos na pista de corrida
revelam a face dupla da luz nas sombras projectadas

em listas na parede semi-escura do laboratório
- já não partículas - e, ondulando, dizem adeus às certezas.

Pois que certezas há num universo a dopplear
em fuga como grito da sirene à meia noite ? Dizem:

um flash visto de dentro e fora de um combóio
explica porque o tempo se dilata, como um perfeito

entardecer; prediz buracos negros onde linhas paralelas
se encontram, onde a luz das estrelas no desolado horizonte,

curvada, não resiste. Se conseguimos pensar
tão longe, porque não ajustamos os olhos à escuridão ?



[tradução minha]









quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Ostia Antica, cidade portuária da Roma imperial



Foi o ponto mais emocionante da minha estada em Roma. Já escrevi sobre as dificuldades em dar com o sítio arqueológico, muito mal sinalizado; mas a tarde que lá passei até à hora de fecho foi inesquecível, a devanear por praças e ruas de uma cidade com quase dois milénios que se sabe, ou se fantasia, fervilhante de gente e actividade quando era um porto na foz do Tibre. Agora, há uma beleza mágica, um encantamento particular nas pedras cor de barro e nas estátuas e colunas re-esculpidas pelo tempo entre as copas verdes do arvoredo.

Além do que se vê, o que se adivinha

Durante a República, Roma utilizava portos mais a sul, na zona de Nápoles, e o transporte fazia-se por terra, lento e inseguro sob a ameça de bandos assaltantes. Ostia era então um pequeno cais que apenas permitia o transvaze de mercadorias dos navios maiores para barcaças que subiam o Tibre. A República não tinha engenharia nem finanças à altura da obra enorme que se impunha. Júlio Cesar foi ainda assim o primeiro a decidir investir em força na criação de um porto bem dimensionado, mas as guerras e a instabilidade no fim da República e sob os primeiros imperadores adiaram o início da obra. No séc. I, Calígula implementou o projecto, e depois Cláudio deu-lhe um bom avanço entre 42 e 46 (muros, ilha do farol, canal), mas também não concluiu: o esforço era colossal até para a capital do Império.

Roma chegaria ao milhão de habitantes sob Nero, era então a única metrópole do ocidente, e foi Nero quem triunfalmente conseguiu concluir a primeira fase da obra; até imprimiu moeda para alargar a celebração a todo o Império ! O novo porto ficaria contudo conhecido como "O Porto de Cláudio": foi dragado o fundo marinho e foram concluídos os paredões e uma ilha artificial com torre de farol. Em 62, uma tempestade afundou centenas de navios - faltava abrigo contra os fortes ventos da costa.

Só com o visionário Trajano, 40 anos depois, em 64 D.C., o porto iria adquirir a desejada dimensão e funcionalidade.


Trajano criou um sistema portuário avançado: a doca, o engenhoso porto interior abrigado, hexagonal, e o canal Fiumicino de ligação ao Tibre.

Gravura do séc XVII, "Utriusque portus Ostiae delineatio".

A torre do farol, tal como a de Alexandria, assentava numa ilha artificial: para a sustentar, afundou-se, carregado de pedras,  o enorme navio que tinha trazido o Obelisco do Egito.

A partir de Trajano,  e durante os primeiros três séculos do Império, Ostia cresceu em templos, termas, armazéns, tabernas e necrópoles, Teatro e Forum. Com o grande Adriano teve ainda um segundo fôlego: reconstrução de bairros mediante um plano urbano, melhoramento do Teatro, construção do Capitólio, decoração de mosaicos, ampliação das várias termas, tudo para tornar Ostia uma cidade agradável de frequentar. Contava então com 50 000 habitantes, entre armadores, marinheiros, comerciantes, artesãos e funcionários. Tornou-se um centro urbano e comercial importante, que já não dependia apenas do porto.

O sítio arqueológico hoje: 1 - Decumanus maximus; 2 - Teatro; 3 - Forum e Basilica.

A entrada faz-se por uma 'larga' via romana que atravessa a cidade no sentido este-oeste, direitinha ao Forum:


O Decumanus maximus era a via principal, com largura suficiente para permitir dois sentidos de trânsito, e onde desaguavam múltiplas transversais.

O início, a leste.


Passagem pelas Termas de Neptuno.



Termas de Neptuno

As mais antigas termas, à entrada da cidade, com um excelente pavimento de mosaico preto e branco.

Mosaico de Neptuno recentemente "lavado" (detalhe).

Logo a seguir, o Teatro Romano.



Que emoção !

Iniciado no 1º século, sob Augusto, o actual Teatro data de finais do século II, quando reinavam Septimio Severo e Caracala, que o ampliaram para 4000 pessoas.


As Máscaras do Teatro.

Em frente ao Teatro, a Praça das Corporações, lugar de negócio intenso onde conviviam gentes e mercadorias das regiões e cidades com que Roma comerciava.



Deste templo pouco se sabe. Talvez Nymphaeum.


Nas ruas transversais instalava-se o comércio local - lojas, aramazéns e tabernas.

Aqui, no centro da povoação, havia padarias e tabernas de comidas quentes e bebidas.

A Caupona (bar) de Fortunatus, que devia ser muito movimentado, até 'balcão de bar' tinha.

Dolia, grandes vasos em barro onde se conservavan óleos, vinho, cereais e uvas, mas eram também utilizados no jardim, enterrados, para cultivo de plantas.

E espaços menos nobres também...


Chegamos ao Forum, de planta rectangular e atravessado a meio pelo Decumanus Maximus.

A Norte o Capitólio, de cerca de 120 D.C., do reinado de Adriano.


A Sul, o vasto campo do Forum com uma Basílica e outros templos.

As Termas do Forum, talvez os maiores banhos de Ostia.

Frigidarium das Termas. A construção do complexo começou em 160, mas foi sucessivamente ampliado até finais do séc IV.

Fim da tarde, as sombras de pinheiros e ciprestes ajudam à magia.

A Casa de Amor (Cupido) e Psiché

O Nymphaeum. Devia estar luxuosamente revestido de mosaico.

Talvez a imagem mais conhecida. Inesperado e lindíssimo.

O original está guardado no pequeno museu.

No regresso, um olhar mais demorado aos mosaicos nas Termas de Neptuno:


Golfinho



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Ostia entraria em declínio nos finais do século III, quando terramotos e tsunamis arruinaram o povoado, que já sofria o caos que reinava em Roma; cessado o comércio, os armazéns cada vea mais vazios e abandonados, poucos navios capazes de navegar, a população debandava. Conflitos entre os habitantes devido ao crescente Cristianismo ainda pioravam as coisas, e a cidade estava desgovernada.

Com Constantino, Ostia teve um breve renascimento cristão no séc. IV, ajudada pelo comércio de grão com o Egipto, e tornou-se lugar de boas casas de vilegiatura para alguns romanos. Mas houve cheias no Tibre, com inundações, e vieram os saques dos Godos e Hunos,  que obrigaram a reduzida população a refugiar-se no Teatro, transformado em fortaleza.

Na Idade Média, o terreno tinha-se transformado num pântano e a malária grassava. No século XI, Ostia era uma ruína insalubre.

O porto, em mosaico.

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Muito mais havia para ver, muito mais para referir. Uma fonte exaustiva, rica em documentos: http://www.ostia-antica.org/

Num post a publicar em breve tenciono mostrar desenhos de especialistas representando com máxima probabilidade como teriam sido os edifícios e as ruas de Ostia Antica.