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domingo, 14 de janeiro de 2018

A fantástica Carta Marina de Olaus Magnus



Um dos tesouros da Carolina Rediviva, a magnífica biblioteca de Upsala, é o primeiro mapa do Norte da Europa, obra notável de Olaus Magnus em 1539:

Carta marina et descriptio septentrionalium terrarum.


À primeira vista, a Carta mais parece um mapa de espécies marinhas com aspecto de criaturas monstruosas. Dominam os mares e espicaçam a imaginação, como ilustrações de um livro infantil.

Mas um mapa é suposto cartografar o conhecimento humano, expor imagens da nossa compreensão do mundo. Talvez no século XVI os monstros da Carta Marina não fossem vistos como os vemos hoje, mas de maneira diferente. Junto com o mapa, Olaus publicou um volume de notas sobre as imagens que só por si é um  tratado de literatura fantástica.

Eram os prmeiros anos da 'Idade da Exploração', acreditava-se ainda na existênia de grifos, unicórnios, dragões, a fénix, e mais uma horda de criaturas fantasistas. Vivia-se a infância da Ciência moderna, enquanto o imaginário assentava ainda nos mitos medievais.


A lagosta gigante que agarra um nadador na suas pinças, ou a serpente que se ergue à altura dos mastros e devora marinheiros, representavam o medo real das profundezas. Não são mera decoração para preencher o espaço vazio, nem metáforas visuais para os perigos do mar; tanto se acreditava na sua existência que estão definidos com legenda no mapa. Por exemplo, "Balena", um réptil de quatro patas e dois esguichos, é descrito nas notas como uma baleia, acompanhada da Orca, com um colar espinhoso. O "Prister", um dragão com esguichos, é um "redemoinho que facilmente engole um navio"; "Ziphius" (Xiphias é o peixe-espada) é listrado, tem barbatana dorsal e um colar de agulhas. Ainda mais engraçado, "Rockas" (uma raia) é um bicho benigno, protege os nadadores de outros predadores. Outras ilustrações mostram Islandeses a secar bacalhau, pessoas a esquiar sobre o gelo no Golfo da Finlândia, trenós puxados por renas a atravessar o golfo da Bótnia...


Acho graça a uma ilha, entre as Órcades (Orkney) e as Faröe, chamada Tile. A crença na existência de Tule, a Ultima Tule, era ainda bem forte no século XVI, como uma Ilha para Além das Fronteiras do Mundo Conhecido, como designa Olaus. No mapa lê-se: Hec insula habet XXX millia populus et amplius (a ilha tem 30 000 pessoas ou mais) e Hic habitat dominus insularaum (aqui vive o senhor das ilhas) !


Olaus Magnus estudou na Alemanha, foi graduado B.A. pela Universidade de Rostock em 1513; os estudos clássicos da época devem tê-lo informado sobre a viagem de Pytheas e os escritos de Plínio; sentia a necessidade de colocar Thule no mapa, e à falta de conhecimento científico, situou-a na única zona marítima 'vazia' de que dispunha no oceano.

Também é espantoso como Olau Magnus mapeia o torvelinho do Maëlstrom (anotado horrenda Caribdis), e outros remoínhos onde a corrente do golfo encontra as águas do Ártico; sem poder, como hoje, ter tido uma vista aérea ou de satélite, como podia saber deles e da sua localização ?

Remoínhos fatais a sul da Islândia.

Outro detalhe que só alguém muito viajado pode descrever é a troca comercial na Lapónia entre um grupo de Sami (escandinavos), que oferece machados, tesouros e outras ferramentas a mercadores russos, que trazem peles e um odre cheio de óleo. Olaus comenta que os Sami são boa gente, pobre e sem ambições, que não querem riqueza nem dinheiro mas apenas bens de subsistência.

Olaus Magnus era um padre Católico, bispo de Upsala, muito viajado ao serviço do rei Gustav Vasa, um homem da Renascença e portanto um observador atento. Optou pelo exílio com o irmão desde que a Suécia se converteu ao luteranismo, e foram viver em Danzig (Gdansk) onde Olaus começou a trabalhar num mapa em grande escala das regiões nórdicas; em 1537 mudaram para Veneza onde haveria melhores condições para o imprimir. O mapa seria composto de 9 blocos de madeira pintada a ser impressos numa só folha. Após 12 anos de trabalho, a Carta Marina, Um mapa marinho e uma descrição dos países nórdicos", foi publicada em 1539, impressa em Veneza, e foi na altura o maior (170 por 125 cm !), mais detalhado e mais preciso mapa feito na Europa.

Poucas cópias foram impressas, e o Vaticano depressa conseguiu direitos autorais por 10 anos. Ficou ignorado nalguma gaveta até ao séc XIX. Há actualmente apenas duas cópias originais, uma em Munique e outra, em melhor estado, em Upsala.

Duplamente fascinante, mais que um genial mapa, é uma obra de Arte.


Excerto das notas de Olaus Magnus:

Os que, navegando pela costa da Noruega, se dedicam à pesca ou ao comércio, concordam nesta história estranha de que anda por ali uma Serpente de vasta dimensão, uns 200 pés de comprido e mais de 20 pés de espessura; e dizem que vive nos Rochedos e Grutas cerca da costa de Bergen: e que sai das suas covas nas noites claras de Verão, e devora Cabritos e Borregos e Javalis, ou então vai para o Mar alimentar-se de polvos, lagostas e toda a sorte de Caranguejos. Costuma ter pêlos a volta do pescoço longos de cerca de um Cúbito (*), e escamas afiadas, é negra e de olhos que cintilam flamejando. A Serpente aterroriza os navegadores, erguendo a cabeça na vertical como uma alta coluna, caçando homens e devorando-os.

Este tipo de descrição é muito semelhante a outras que se encontram nas Sagas Nórdicas do séc XIII. Por exemplo, Jörmungandr ou a Serpente Midgard, que foi lançada ao oceano por Odin, tendo crescido ao ponto de se poder enrolar à volta do mundo.

Mais:
Sea Monsters: A Voyage Around the World’s Most Beguiling Map by Joseph Nigg. © University of Chicago Press, 2013
http://press.uchicago.edu/ucp/books/book/chicago/S/bo14717804.html

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(*) cerca de 46 cm

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Ponto de Esperança, para animar


Ponto Esperança - Point Hope.

Viagem virtual ao Ártico [mais uma].

Na costa noroeste do Alasca, uma das zonas mais desoladas e difíceis de habitar do planeta - a natureza é desolada e inóspita, a civilização demasiado longínqua - há uma povoação denominada 'Point Hope', ou 'Ponto Esperança'. Esta contradição talvez venha a explicar-se, com as alterações climáticas, se as zonas árticas passarem a ser mais temperadas.


Point Hope (Tikiġaq) fica numa faixa de gravilha nas terras baixas do litoral a norte do estreito de Bering, tundra ártica semeada de lagunas e durante boa parte do ano coberta de gelo. É aqui que o rio Kukpuk forma um largo delta sobre a costa do Mar de Chukchi.

O nome "Hope" foi atribuido por um capitão da marinha britânica em honra da família Hope, ligada ao mar, mas quem aqui habita desde há séculos é o povo Inuit Inupiat, para quem a aldeia se chama Tikigaq. A península de Lisburne é mesmo uma das áreas povoadas há mais tempo em todo o Alasca.

Point Hope, junto ao vasto Marryat Inlet e ao delta do Kukpuk, zonas de grandes rebanhos de caribú.

Manada de caribús atravessa o rio Kukpuk.

O mar de Chukchi gela quase todo o ano, ficando livre de gelo entre Junho e Setembro, quando as condições já não impedem a largada dos barcos. Os residentes de Point Hope têm uma economia de subsistência dependente dos recursos marinhos.

Baleeiros nativos lançando um umiak

A história de Point Hope foi marcada pela pesca à baleia, pastoreio de manadas de caribou, e comércio de peles. Outros recursos mais raros são as morsas e ursos polares, mas ainda é a tradição baleeira, agora muito regulada,  que sustenta a população.
Umiak com os arpões em posição. Os umiak são feitos com pele de foca sobre uma estrutura em madeira.

Point Hope / Tikigak

Coordenadas: 68º 21' N , 166º 47' W
                     (320 km a norte do Círculo Polar)
População:  ~ 750, Inupiat

A rua principal

A loja cooperativa é a única fonte de bens de consumo.

A "esperança" local deve ter crescido um pouco com a nova escola, bem equipada, assim como o acesso à internet.

A Tikigaq School trouxe uma vida nova a Point Hope; é a segunda maior do Alasca e tem mais de 250 alunos. A sua biblioteca serve uma larga área geográfica.

A Câmara (e Centro Comunitário), em forma de igloo, é o edifício mais marcante da aldeia.


Casa típica e trenó, os haveres mínimos.

Mas o snow scooter vem substituindo os trenós.

Uma família de bons rendimentos: SUV, moto-4 e trenó.

Vestida para o frio.

Hábitos urbanos, para o bem e para o mal.

Rodada de chá nas festas de Junho.

Em Junho o tempo melhora e os dias são mais longos. É por essa altura que se realiza a grande festa anual:

Nalukataq

Significa "atirar ao ar". É a mais divertida das actividades do festival da Primavera dos esquimós Inupiat do Alasca. Uma manta de pele de foca, cosida a uma armação redonda, faz de trampolim. Chama-se ugruk. O lançamento de pessoas ao ar celebra uma boa temporada baleeira. Capitães de barco e tripulação seguram na armação enquanto os habitantes mais corajosos se tranformam em projécteis.



Durante o festival também não falta drum dancing, as tradicionais danças de tambor.

Um belo objecto, o tambor Inupiat.

Uma outra arte que tem tido algum sucesso é a da cestaria, recorrendo ao aproveitamento de fibras e ossos de baleia. Os cestos de Point Hope atingem preços elevados.
Uma cabeça de urso em osso de baleia a encimar um cesto de Harry Hank, Point Hope.


Nesta latitude os dias e as noites e as variações de luz são estranhas e surpreendentes para quem vive mais a sul.

Point Hope ao sol da meia-noite.

O anoitecer logo seguido de amanhecer...

A forte simbologia dos ossos de baleia.

Luz da meia noite no mar de Chukchi :


'Umiaks' sob a aurora boreal

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A Esperança de Point Hope é sobretudo a de que o petróleo explorado logo ali mais a Norte não dê cabo da terra, da Natureza, da autenticidade e da cultura, das pessoas.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Shoyna e Teriberka, aldeias russas do Mar de Barents.


Viagem improvável.

Dois sítios onde nunca irei, onde pouca gente vai, sítios onde nem percebo como se vive, onde gentes que parecem de outra era resistem agarradas a um território ingrato, semi-abandonado e isolado, entre ruínas e esqueletos marítimos numa costa rasteira e pantanosa. Estamos em território próximo da Lapónia finlandesa: geográficamente Teriberka e Shoyna situam-se na Europa, e é suposto terem algum grau de civilização; ali perto, Murmansk e Arkhangelsk exibem a frota nuclear russa e os mais potentes quebra-gelos do mundo; a Gazprom tem grandes complexos de refinação e uma rede de plataformas a oeste de Novaya Zemlya.

Tanto dinheiro.
Teriberka e Shoyna, no Barents Russo, poderiam ser ricas e desenvolvidas, tão intensa é a actividade da Gazprom a norte e nordeste de Murmansk.

Ainda há pouco um filme muito bom, Leviathan, de Andrey Zvyagintsev - talvez o último grande realizador russo - mostrava, com humor ácido, os modos de vida que resistem nesta região.

Teriberka, a incrível aldeia do filme, fica na penísula de Kola, a poente do Mar Branco, no extremo noroeste da Rússia. Espantosamente, desenvolveu um projecto turístico - o filme gerou uma atracção inesperada pelo desolado panorama de fim do mundo.

Shoyna fica do outro lado do Mar Branco, na península de Kanin, já em região autónoma Nenets. Ambas partilham um passado - actividade piscatória e criação de renas - e um presente ruinoso, com a indústria petroleira à vista.

Vou mostrar portanto imagens recolhidas pela net, nada de original, só para documentar um lado menos conhecido da vida na costa do Barents, e documentar a tremenda desigualdade em terras russas entre umas poucas cidades 'ricas' e a miserável desgraça em sítios que ... não interessam.

Dois capítulos:
1. Teriberka
2. Shoyna

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1. Teriberka, uma aldeia de ruínas, poluição e desolação para turista ver.


Teriberka é uma povoação ártica situada na Península de Kola, distrito de Murmansk, na costas do Mar de Barents, em terreno raso de tundra.

Em tempos a aldeia teve actividade de reparação naval.

Hoje quase abandonada, a aldeia foi fundada no séc. XIX à volta de uma doca de reparação de barcos e de uma fábrica de processamento de peixe. Bacalhau e hadoque abundavam e a população chegou a uns 5000. O mau planeamento a que a Rússia não escapou e a pesca excessiva que dizimou os recursos marinhos arruinaram a economia local.


Teriberka

Coordenadas: 69° 10′ N, 35º 10' E - 300 km acima do Círculo Polar.
População: ~1000

Esta é a chamada "nova" Teriberka !

Remota, ártica, pobre  e sem acessos, Teriberka só se tornou conhecida no dia em que uma equipa cinematográfica chegou para filmar Leviathan. A fama cresceu quando o filme obteve um Globo de Ouro em 2015. Tornou-se um símbolo do quase romântico falhanço soviético.


Apartamentos de início do séc. XX caem aos bocados, fendidas e com o tijolo a descoberto. Modelo soviético.


No fim do séc. XIX, a aldeia tinha farol, estação meteorológica, escola, igreja; a população vivia do pastoreio de renas. Depois veio a industrialização mal planeada, a construção de colmeias residenciais. Falidas as pescarias, restam carcaças de barco que semeiam toda a costa.



Há uma Teriberka "velha", a de casas de madeira e esquifes apodrecidos de barcos, junto a uma entrada de mar ; e a "nova", mais aberta ao Barents, a seguir às docas abandonadas e aos blocos vazios e decadentes do século passado.

Talvez a melhor 'moradia' de Teriberka, esta casa de madeira onde vivia a família do filme 'Leviathan'.

A mais de 69º N, quase todo o ano é marcado pelo frio, que desce a -20º. O curto Verão de mês e meio raramente ultrapassa os 14º .

Coberta de gelo, a estrada até se torna mais praticável.

Entrada na aldeia.

O 'centro': a igreja em primeiro plano, a escola, amarela, ao fundo.

Uma ruína industrial.

Outra imagem do filme Leviathan.

Se durante o dia ainda se vêem algumas pessoas, à noite a aldeia fica deserta; as paredes descarnadas com buracos em vez de janelas dão um ar assombrado e arrepiante.


Nem a infalível árvore de Natal quebra o ambiente soturno:


No meio dos prédios escacados, a nova escola parece prometer outro futuro:


Um sítio alegre e colorido, o único.


Surpresa foi o investimento no turismo. Alguém teve a ideia brilhante de que as ruínas podem trazer rendimento, atrair clientela, tal como as lojas de velharias. E juntou ao lado um conjunto turístico bem vermelho, como convém, e um festival folclórico; tudo junto é a Nova Vida de Teriberka.

O “Teriberka, New Life” (новая жизнь) vai agora para a terceira edição.

Os povos nativos da região são os Sami, da famíla dos Lapões, tradicionalmente criadores de renas; ao todo cerca de 2000 na península de Kola.

Apartamentos turísticos com capela ortodoxa.


Nem falta uma banca de vendas de artesanato.



Para chegar a Teriberka, são 90 km desde Murmansk numa estrada de lama pela tundra ondulada e encharcada, onde só uns arbustos rasteiros quebram a desolação.

No Inverno está muitas vezes impraticável, mas coberta de neve fica bem melhor. Tal como toda a paisagem, sob o manto branco, se disfarça e maquilha e chega a parecer bela.





Ali perto, mais a norte no Barents, uma imensa riqueza é acumulada pela indústria do petróleo e do gás. Disso, Teriberka só recebe.... visitas turísticas. E só graças ao filme genial de Zvyagintsev (mal visto na Rússia), que o ocidente premiou.

Mais:
http://www.tumbleweed.guide/teriberka-photo-journal
http://www.arcticcentre.org/EN/communications/Barents/Teriberka


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2. Shoyna, outrora aldeia piscatória, agora enterrada nas areias do Barents.

Quando parece já não haver mais nada de novo a mostrar no Ártico russo, descubro uma aldeia como esta, casas de madeira em dunas arenosas, algumas soterradas por tempestades de areia, tudo nas margens gélidas do Barents.

Estamos em território Nenets, a população semi-nómada que ocupa a costa noroeste da Rússia europeia; ainda recentemente referi a cidade de Naryan-Mar, capital desse distrito autónomo, um dos tristemente célebres por terem albergado gulags e horrendas cidades mineiras de inferno (a infame Vorkuta), em que os Nenets aram recrutado para o trabalho forçado fabril soviético.

Shoyna nem figura na maioria dos mapas. A faixa dunar estende-se por muitos quilómetros ao longo da costa, onde o Mar Branco se mistura ao Barents, no oeste da Península de Kanin. Esta população, habituada ao frio, à neve e ao gelo, ao mar, a viver da pesca e dos rebanhos, vê-se agora atolada num 'deserto' de areias.


Murmansk para oeste, Arkhangelsk para sul, são as cidades mais próximas, com bases navais e parques industriais de importância vital para o estado Russo.

A disputa com a Finlândia arrasta-se há anos, reclamando cada parte limites mais extensos para a sua zona marítima exclusiva. É uma zona sob imensa pressão - o Ártico agora é navegável graças ao aquecimento da temperatura, abundam os depósitos de gás e petróleo e jazidas de carvão - daí que o Estado considere a zona estratégica: começou uma corrida ao Ártico, concentrando forças militares na costa e em em ilhas desertas como Nova Zemlya, abrindo centros de indústria pesada junto a cidades com aeroporto. Talvez afinal Shoyna escape a um destino ainda pior, como foi o caso de outra aldeia litoral Nenets - Varandey, mais a leste - esmagada por um gigantesco projecto petrolífero.


A Peninsula Kanin é o extremo ocidental da região Nenets (Nenetsia), a mais de 300 km da capital Naryan-Mar. Os Nenets são um povo indígena semi-nómada com modo de vida de subsistência - pastoreio de renas e pesca nos rios, lagos e mares.


Shoyna foi fundada na década de 1930 como aldeia de pescadores, numa faixa litoral onde tundra e floresta de taiga convergiam.


Manteve uma actividade intensa durante o regime soviético, com uma numerosa frota pesqueira. A abundância de peixe trouxe prosperidade, e a população cresceu até uns 1500 habitantes.


Foi pelos anos 70 que Shoyna começou a ser invadida por uma lenta mas inexorável maré de areias. As dunas rodearam as casas e a pescaria terminou.



Actualmente, restos da frota estão semeados ao longo da praia, oferecendo um espaço de recreio para as crianças e um cenário fotogénico de fim do mundo aos visitantes. Foram os excessos de pesca, sobretudo de arrasto, desbastando o fundo marinho, que deram lugar à invasão de areia soprada pelos ventos do mar de Barents.


Shoyna (Шо́йна), região dos Nenets (Nenetsia)

Coordenadas: 67° 52' N, 44° 08' E
                    (150 Km a norte do círculo polar )
População:  300-400


O acesso às casas só se consegue nalguns casos pelo telhado; por isso se vêem várias escadas encostadas do lado de fora para permitir trepar até lá.


Mais vale não fechar a porta à noite. Porque de manhã pode já não abrir - se a ventania tiver depositado mais areia.



No dia dos prémios escolares - a escola é mantida livre de areia a todo o custo.

Não há restaurantes nem hotéis, as 'lojas' são de sobrevivência; a vida é mesmo assim suportável graças ao peixe que ainda vai havendo para pesca artesanal - truta, salmão, bacalhau, arenque. E os Noruegueses vêm através da fronteira comprar bagas e cogumelos locais.

A pesca agora é um negócio familiar de subsistência.


O único jornal que chega é o da região autónoma Nenets (NAO), semanal.

Emprego, estranhamente, não falta: condutor de tractor e de excavadora, trabalho de madeiras e de reparações, alguns funcionários (professores, por exemplo, e meteorologistas). Muitos outros recebem pensões e subsídios.


Sem estradas, nem bicicletas nem carros - as únicas máquinas capazes de se mover pelas areias são estes estranhos "triciclos da areia", uns tractores pesados, feios e lentos construídos sobre uma estrutura de motociclo.


O pior é quando sopram com violência ventos do Barents.

A Estação Meteorológica e Atmosférica é provavelmente o local de trabalho mais moderno em Shoyna, pois os russos são muito orgulhosos da sua rede nacional, como ainda há pouco se pôde ler no livrinho de Olivier Rolin, O Meteorologista.


Mantém-se bem cuidada  e vai sendo modernizada. E livre de areias, claro - até beneficia de um passadiço de madeira.


Para fora de Shoyna não há estradas nem combóio. Só de barco ou por via aérea. O "aeroporto" é uma pista enlameada de 650 metros...


... e a gare uma cabana de madeira; e quanto à Torre de Controle, bem...


Os acidentes são poucos - o último em 2014 sem vítimas. Os voos são feitos por um pequeno biplano Antonov de um só motor criado nos anos 1940 (manteve-se em construção até 2001).

O An-2, "Annushka", é especializado em operar nas áreas remotas e em pistas não pavimentadas.

Parece que recuamos quase um século.

A neve do Inverno Ártico tem o seu lado bom: facilita a mobilidade dos veículos.


Pode-se usar snowmobile, muito mais rápido e cómodo.

Ou melhor ainda, trenós.



Viagens destas fazem-me sentir bem onde estou. Razões de queixa não faltam, mas convém não perder a perspectiva: somos um sortudos.


Fontes principais:
http://mir-i-mi.ucoz.ru/news/
http://grandkid.ru//?s=Шойна?
http://vnao.ru/search/node/shoyna

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Fartei-me de trabalhar, neste fim de semana. Há aqui viagem que chegue para sete dias !