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domingo, 8 de novembro de 2015

Melro que cantas na escura noite


Revelador, este Blackbird (de Paul McCartney) em versão instrumental fazendo ressaltar a beleza da melodia e do contraponto. Coisa rara, na maioria dos casos as reinterpretações são falhadas.
Também há jóias na música da minha geração !


CD Old, New and Blue
Eric Vloeimans and the Holland Baroque Society



sábado, 4 de julho de 2015

John Garth, o calor do violoncelo


John Garth (1721 – 1810) foi um compositor inglês nascido no condado de Durham, perto de York. Organista e violoncelista, notabilizou-se pela promoção de concertos semanais em Durham.

Nave da Catedral de Durham

Garth é apenas marginalmente conhecido, nem sequer figura em muitas obras de História da música. Merecia melhor sorte: na Durham do século XVIII, deu vida a um projecto semelhante ao do Café Zimmmerman de Leipzig; havia semanalmente no Red Lion Inn (hoje Hatfield College) encontros e concertos, que chamavam viajantes de passagem de e para York.

A long-room da estalagem tornou-se o centro da vida social da cidade, a par dos estudos e concertos mais formais na Catedral. O estilo melancólico, gentil e melodioso de John Garth agradava, e o seu virtuosismo no violoncelo era conhecido em toda a Inglaterra.

O ciclo de seis concertos para violoncelo, possivelmente o melhor da sua obra, foi publicado em 1760, embora os concertos já fossem executados antes. Eram obras 'pré-clássicas', infuenciadas ainda por Corelli e já por C. P. E. Bach.

O Avison Ensemble na  Paxton House (Berwick), onde foi feita a gravação.

Esta é a primeira gravação em instrumentos da época, dirigida com estudada atenção por Pavlo Beznosiuk e Richard Tunnicliffe, que toca um violoncelo da época de belíssima sonoridade. O Avison Ensemble é uma orquestra reduzida ao mínimo - um instrumento por parte - o que confere mais leveza e relevo no detalhe. Os tempi são conservadores, nem precipitados nem pastosos, e a acústica da sala confere uma sonoridade particularmente aveludada.

Os andamentos centrais, mais lentos, são os mais conseguidos. O Concerto nº 6 inclui uma Siciliana famosa, melancólica e delicada, que se diria composta antes por um italiano como Corelli ou Veracini.

Concerto para Violoncelo em Sol Maior, Op. 1, nº 6
Richard Tunnicliffe, violoncelo (c.1730, Nuremberg)
Pavlo Beznosiuk, direcção
Avison Ensemble


Andante - Siciliana

O Affetuoso central do Concerto nº 2, também de grande lirismo à maneira italiana :

No ciclo, talvez o Concerto nº 4 seja o mais bem construído. O final do Andante Affetuoso é para chorar copiosamente, o Minueto final eleva ao melhor nível o entrosamento do solista com a orquestra.

Aqui fica o Presto inicial, para terminar num tom mais festivo:



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A integral dos concertos está disponível no YT.




terça-feira, 19 de maio de 2015

Vivaldianos: anjo de marfim imperdível !


Publicado em 2012, este Vivaldi e l'Angelo di Avorio, do ensemble Silete Venti dirigido pelo oboista Simone Toni, é uma impressionante surpresa mesmo para quem já ouviu muito Vivaldi em interpretação autêntica por estudiosos do barroco.


Consta de vários concertos para oboé, cordas e contínuo (cravo, teorba) dos anos 1734-35, a que se juntam duas sinfonias para completar o disco. A gravação pela equipa da Harmonia Mundi /Sony é primorosa de detalhe e relevo dinâmico. "Ouve-se" Veneza, e o livrinho muito rico em referências ajuda.

A apresentação gráfica também é uma mais-valia, num vermelhão alusivo ao "Prete Rosso". Até agora, o mais bonito que me chegou este ano.


O Angelo d'Avorio, anjo de marfim, é um oboé mítico construído em Milão (ca. 1730, ao tempo em que Vivaldi já passava mal ), e de que Simone Toni conseguiu uma cópia, que utiliza nesta gravação.

O 'Angelo d'Avorio', do fabricante milanês Anciuti.

Algumas passagens são algo tormentosas, reflectindo talvez os maus tempos que Vivaldi passou no final da vida, com poucos recursos e mal visto pela Inquisição. Logo a iniciar, um susto de pôr cabelos em pé - mas isto é Vivaldi ou é punk ? Uma batida obsessiva que podia ser de uma banda dessas ! E continua estranhamente misturando ritmos e harmonias, surgindo órgão quando se espera oboé, e logo o aparente lirismo deste subitamente rasgado por violentas incursões das cordas. Não é um Vivaldi que escreva "sempre o mesmo concerto".

Quanto ao famoso oboé de marfim, o som é sem dúvida diferente, mais forte, talvez estridente para alguns - soa a marfim - e de afinação mais difícil. Não é para meninos de côro. Simone Toni tem mestria quanto baste para o tocar vertiginosamente.

A destacar uma obra, é a última, a RV 447 para Do maior, onde ambas as partes - solista e orquestra - estão no seu melhor em inventiva e expressão. Invulgar em todos os aspectos - até na duração de 15 minutos. Uma delícia, a luxuriante festa instrumental, e os apontamentos de órgão no incrível Minuet con variazoni, e tudo a acabar com delicada suavidade. Vivaldi transcende o universo barroco, já está um século à frente.
Um CD particularmente imperdível para quem gosta de oboé, dos ataques secos das cordas de tripa, de ritmos alucinantes ... e (muito) de Vivaldi !

Fica o Allegro inicial do RV 447:


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Nota: a editora sentiu necessário esclarecer, 'o tempora o mores', que nenhum elefante foi vitimizado para obter o marfim utilizado na cópia ! Em 1730, algum bicho teve certamente mais azar.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Diana Damrau, a chama do belcanto


Tenho ouvido nestes dias a gravação de Diana Damrau com a orquestra do Teatro Regio de Turim, dirigida por Gianandrea Noseda, intitulada "La Fiamma del Belcanto".

É um dos melhores discos recentes de árias para soprano, só comparável ao "Drama Queens" da mezzo Joyce Didonato (mas esse continha árias para mezzo, ou seja, contralto). Diana Damrau revelou-se na 'Raínha da Noite' da Flauta Mágica, mas desde então a sua voz vem ganhando agilidade para outros voos - neste caso, o bel-canto italiano e a coloratura. 

Da Luisa Miller, destaco esta 'Tu Puniscimi, o Signore':


Tu puniscimi, o Signore,
se t'offesi e paga io sono,
ma de'barbari al furore
non lasciarmi in abbandono,
A scampar da fato estremo
innocente genitor
chieggon essi - a dirlo io fremo ! -
della figlia il disonor!


De I Puritani (Bellini), 'Vien diletto', uma pièce de résistance da Damrau :


Vien, diletto, è in ciel la luna!
Tutto tace intorno intorno;
finchè spunti in cielo il giorno,
ah vien, ti posa sul mio cor!
Deh!, t'affretta, o Arturo mio,
riedi, o caro, alla tua Elvira;
essa piange e ti sospira,
vien, o caro, all'amore


Só para comparar, a Netrebko, de tessitura nitidamente mais baixa e doce, quase mezzo, é excelente de presença em palco e musicalidade, mas ( mesmo que tente disfarçar, e bem) fica muito aquém das capacidades belcantistas da voz de Damrau, límpida e fluente 'nas alturas' :



Ah, esta bem-cantante, peste de apoiante de Putin contra a Ucrânia, esqueci-me e dei-lhe voz... Cala-te, e que volte a Diana, a soprano dos tempos que passam.

'Scena della pazzia', Lucia di Lammermoor, agora ao vivo:



Está bem animado, o mundo das Divas.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Hummel, para piano e violino, op. 17


Voltando à música: cá está uma grande obra injustiçada. Um concerto para dois instrumentos solistas não é para qualquer um. Mozart fez um (flauta e harpa), Beethoven atreveu-se mesmo até três instrumentos (triplo concerto), Brahms tem um duplo mas menos conseguido. Johann Nepomuk Hummel, aluno de Mozart, era contemporâneo e amigo de Beethoven, e um compositor meritório prejudicado pelo brilho maior do genial colega. Mas este concerto é extraordinário, de uma escrita muito burilada e bem conseguida mesmo que sem grande complexidade. Falta-lhe em emoção e intensidade (nisso Beethoven é inexcedível) o que lhe sobra em técnica e muito trabalho. Se fosse necessário, bastavam estes dois para provar que Arte é trabalho, sim, mas não só - não só de modo nenhum.

O que Hummel consegue no 'duplo concerto' op. 17 de 1805 é um contagiante, agradável, requintado divertimento. É um gosto com sorriso ouvir o diálogo entre piano e violino esculpido e rendilhado em múltiplas variações, com muita mestria na parte de piano. No fundo, mais próximo da música antiga que da romântica. Soa imenso a Beethoven mas de forma mais académica (brilhantemente académica), prazenteira, como se nos estivesse a dizer 'olhem como eu me divirto a compor, olhem que voltas eu dou à música, olhem como eu  gozo a variar mais um bocadinho'. Música adequada a esta Primavera que se inicia, cheia de côr e trinados.

Se o inicial Allegro já é admirável, o Andante é talvez um ponto alto, com o tema a ser desenvolvido em seis variações pelos dois solistas, mas não só - há pequenos apontamentos de oboé, violoncelo e trompa, num inesgotável fluxo de ideias decorativas, como se diz no livrito do CD. As ressonâncias mozartianas entrelaçam-se de forma engraçada com as beethovenianas.

Porque não é tocada esta obra em concerto? Sobretudo porque precisa de dois solistas, o que sai caro, e de ser bastante ensaiada. Com a sua meia hora, ocupa uma das partes do concerto. Seria ideal para complementar o triplo de Beethoven.


London Mozart Players
Dir. e piano: Howard Shelley
Hagai Shaham, violino

I. Allegro con brio 00:00
II. Theme & Variations: Andante con moto 14:17
III. Rondo 23:58

(se está com pouco tempo, comece pelo Andante e as suas variações alternadas em crescendo).

sexta-feira, 6 de março de 2015

Concerto para o fim-de-semana:
de Touchemoulin, para Flauta Transversa


Um belo concerto no mais puro barroco do redescoberto Joseph Touchemoulin (1727 - 1801), compositor de carreira europeia: nasceu em França, estudou em Itália e foi consagrado na Alemanha.

Aluno de Tartini em Pádua, músico da corte em Bona, aí foi nomeado mestre-de-capela em 1761, transitando depois para a orquestra de Ratisbona durante a década de 1770. No apogeu, cerca de 1880, era considerada uma das grandes orquestras germânicas.

Este concerto, escrito na tradição de Vivaldi, Locatelli ou Veracini, deve ter sido composto para um flautista veneziano famoso na época, Augustinelli.

Concerto a flauto traverso,  2 violini, alto viola e basso, in La maggiore, del Sig. Giuseppe Touchemoulin.

Alexis Kossenko (flauta)
Daniel Sepec (violino)
Thomas de Pierrefeu (violone)
Raphaël Collignon (cravo)

Les Inventions / Patrick Ayrton (dir.)


O maravilhoso Largo é ao minuto 5:36

Mais:
http://www.socla.com/site_pl/actu/pdf/touchemoulin.pdf

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[fonte: notas do CD B001O8C5HI da Ramée, #807]

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Portentoso ! As Portas de Kiev escancaradas !


Falo da recente gravação de Quadros de uma Exposição, de Musssorgsky, com Jon van Immerseel à frente da orquestra Anima Eterna de Bruges, segundo o arranjo orquestral de Ravel (1922).

Convém lembrar que von Immerseel, herói da interpretação autêntica (histórica) da música pré-romântica para muitos melómanos, era um radical da contenção e do detalhe, dos instrumentos antigos muitas vezes pífios, constantemente em audição no programa "Em Órbita" (o saudoso Em Órbita !) da Antena 2 aqui há poucos anos. Quase nunca gostava das gravações da Anima Eterna, exceptuando as sinfonias de Schubert, que já anunciavam isto que agora explodiu: os Quadros de uma Exposição mais espantosos de sempre !


Não é das minhas obras favoritas, na verdade; e costumo até apreciar melhor a versão original no piano. Vladimir Ashkenazy tem uma interpretação soberba. Mas reconheço que esta audição é entusiástica e reveladora, não se pode ficar indiferente sentado no sofá - há que saltar e gesticular.

 A dinâmica da orquestra é fenomenal, mas não menos fenomenal é a célebre atenção ao detalhe do mestre holandês, a doçura do fraseado nas cordas, a enfática delicadeza nas madeiras.

Grande Porta Bogatyr de Kiev.

Immerseel aplica a esta obra de 1884/1886 os mesmos princípios agógicos que se aplicariam a interpretar Haydn ou Mozart - a eliminação do legato em favor da frase seca em arco, o destaque da melodia do contraponto (normalmente abafada) em relação à linha principal, os metais com um grãozinho de acidez, a percussão muito afiada e enfatizada. O efeito é de uma surpresa total, a transformação do standard clássico numa irreverência divertida e contagiante. De histórico é que não tem nada, pelo contrário - é um completo anacronismo ao contrário : tocar uma obra moderna ao estilo antigo. Tanto mais que se recorre a um arranjo póstumo de 1922...

Mas onde é que a pequena, delicada, quase insípida, Anima Eterna, foi buscar este vigor portentoso ?

Um breve "cheirinho":




terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Cello & Double Bass: Música terna para começar bem


Chegou-me a meio de Dezembro este disquinho melancólico, doce e aveludado, que vai rodando todos os dias em suaves floreados e variações. Maravilha, ainda mais apreciável na escura quietude da noite.


Original Works for Cello and Double Bass, por Jörg Baumann (violoncelo) e Klaus Stoll (contrabaixo), é uma gravação apex de 1980 (Teldec) reeditada em 2005; os dois CDs incluem composições de Pleyel, Benda, Boccherini, Telemann, Haydn e alguns outros não menos meritórios, todas elas com uma predominância nas notas baixas e lindíssimos deslizamentos do arco sobre as cordas.

Posso voltar ao princípio continuamente sem cansar !
Exemplos:

Anton Kkraft,  sonata Nº1, adagio

Haydn, divertimento em Re, minueto

Boccherini,  sonata Nº3, allegro


O CD duplo está disponível no youtube,  aqui

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A minha escolha de melhores gravações de 2014


As orquestras suecas estiveram em alta este ano.

Maria João Pires, concertos nº 3 e 4 de Beethoven ; RSO Sueca, dir. Daniel Harding. Delicado, diferente, and yet perfeito.

Schubert, ciclo das Sinfonias (1 a 6) - Orq. Câmara da Suécia, dir. Thomas Dausgaard. Estilo e frescura inesperados.

Schumann, sinfonias 1-4, Orq. Câmara Escocesa, dir. Robin Ticciati.

Bruckner, a 9ª, por Claudio Abbado - uma herança de mestre numa obra difícil. Karajan destronado.

Missa Solemnis de Beethoven - J. Eliot Gardiner dirige de novo a O.R.&R. e o Monteverdi Choir. E de novo superlativo.

Na música barroca, nenhum disco me encheu as medidas; houve o Stella di Napoli de Joyce DiDonato, os Brandeburgueses do Dunedin Consort. Nada de indispensável.

DVD - Ópera
Eugene Onegin, de Tchaikovsky.
Metropolitan Opera, Anna Netrebko, dir. Gergiev.
Irrepetível. Nunca houve uma Tatiana assim.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Johan Svendsen: um adagio nórdico para dias melancólicos


A série matemática obtém pouco sucesso, as visitas diminuíram; um intervalo 'populista' com regresso à música :



Johan Svendsen (1840-1911), compositor norueguês, viajou e viveu pela Europa - Copenhaga, Leipzig, Paris, Bayreuth - e contactou de perto com Wagner e Grieg, de quem era grande amigo.

O concerto para violino e orquestra op.6, de 1870, quase todo escrito em Paris, foi acabado em Leipzig. Com uma orquestração cheia e elegante, no que Svendsen era especialista,  e um conseguido diálogo do violino com a orquestra, está longe contudo de ser obra virtuosística para o violino.

Gosto muito do adagio:


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Queria aqui colocar uma gravação melhor, mas não encontrei. Em CD, há a de Neeme Järvi com a orq. de Bergen.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Emmanuel Pahud, um festival de flauta


Entrou na minha lista de gravações para ter sempre à mão, na ilha deserta, a redescobrir permanentemente. Para quem gostar de flauta, é uma banquete divino, a saborear lentamente; e se se gostar de flauta e cravo, bem ...


Excertos:

O génio de Carl Philipp Emanuel Bach:
Sonata em La menor para flauta solo

É célebre o segundo andamento, Allegro; no disco, é um dos pontos altos. Pode ouvir-se no YT por outros intérpretes, mas não é a mesma coisa.


Anna Amalia da Prússia, irmã de Frederico, e de quem poucas obras se conhecem.
Sonata em Fa para flauta e cravo, 1771

Aos 7:44, o brilhante 'Allegro' final, com os dois instrumentos bem entrelaçados.

Música galante para este Outubro chuvoso que começou. Boa semana.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Desilusões, em livro e CD

- breve interrupção nas reportagens da Bretanha -

Quase sempre escrevo a dar conta do que gosto; desta vez, digo que não gostei de duas experiências recentes, uma literária, outra musical.

Começo por esta:  'Comme un chant d'espérance', de Jean d'Ormesson; começa lindamente com uma descrição do Big Bang em linguagem quase poética, e continua com ideias refrescantes - tanto do ponto de vista estético como racional - sobre o tudo e o nada, o espaço e o tempo, a luz - talvez das melhores páginas -, o acaso e a necessidade, a narrativa do universo ou o caos, e finalmente sobre o pensamento, defendendo - concordo ! - que o pensamento foi a maior novidade, o maior salto qualitativo, o maior 'golpe de génio' da criação desde o Big Bang, mudou a perspectiva de sujeito (submisso) para sujeito (primeira pessoa, actor). Depois Ormesson estraga tudo quando destas noções, dialécticas e abordagens tira a conclusão de que Deus é o que falta para tudo explicar, tudo integrar, tudo perspectivar e finalmente dar esperança de futuro. Deus é o tudo e o nada, o espaço e o tempo, gere o acaso e a necessidade, fez a luz e o pensamento... ora bolas. Que desfecho mais frustrante. O senhor Ormesson parecia inteligente e lúcido, tem direito à sua fé, claro, mas escusava de pretender deduzir Deus das lacunas de todo o conhecimento científico, e particularmente cosmológico, que os homens contruíram. Enfim. De canto de esperança estamos conversados.

Para mais, e acho que não estou a ser tendencioso, a qualidade da escrita, a própria criatividade linguística, cai aos trambolhões assim que Deus entra no texto, na 'narrativa'  a que inadequadamente Ormesson chama "romance".

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E não gostei da maneira como Ricardo Chailly interpretou as Sinfonias de Brahms no novo CD da Decca. Depois do ciclo de Beethoven, esplêndido, de referência mesmo, tinha alguma expectativa, embora me parecesse difícil superar o Brahms de David Zinman com a Tonhalle de Zurique. Pois ficou muito aquém, na vulgaridade mesmo, às vezes arrastado, chato, sem cores nem vitalidade, sem marca pessoal. Com a Gewandhaus é difícil fazer pior. Kurt Masur, por exemplo, fez melhor. Espera-se agora Thielemann com a Staatskapelle. Até lá volto a Zinman, portanto, o último grande reinventor, :) .

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Quanto a leituras, vou dedicar-me ao ligeiro 'Dans les forêts de Sibérie', e retiro-me para uma cabana junto ao lago Baikal, com a taiga e as águas cristalinas por companhia. Nos intervalos leio poemas da compilação 'Ice' que coloquei como livro de cabeceira aqui à direita. Correm no leitor hifi a flauta de Pahud, concertos de Haydn, de CPE Bach, um Schubert revelatório por Thomas Dausgaard, e um já 'antigo' Mozart por C. Zacharias e Zinman.


[ entretanto estou a tentar um post dobre Dinan, que não há maneira de sair bem]



sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Música para a rentrée : Platti, Touchemoulin, Bernstein, e mais...


Já fazia algum tempo que não recebia uma remessa de novos CDs, e estava mesmo a precisar. Necessidades que não o são, é hábito construído, mas sabe bem.

Vieram, de Platti, os Concerti Grossi , pela Akademie Fur Alte Musik (2008):
O barroco no seu melhor.

De Touchemoulin, concertos e sinfonias pelo agrupamento barroco Les Inventions, dir. Patrick Ayrton (2008):
Ouçam só esta delícia:


De Bernstein, uma selecção de recriações orquestrais de William David Brohn com Joshua Bell ao violino e a Philarmonia dirigida de forma retumbante por David Zinman:
A West Side Story suite (2001) é particularmente bem conseguida, irresistível, e Joshua Bell exibe o seu virtuosismo enriquecendo ainda mais o arranjo de Brohn.

E uma gravação recente de 2012 de Leif Ove Andsnes à frente da Mahler Chamber Orchestra: os concertos de piano nº1 e nº3 de Beethoven como nunca foram ouvidos, intérpretes de excepção e interpretações não consensuais, algo surpreendentes, que fantástica execução !
Beethoven cristalino como água de fonte, imperdível, sobretudo nº 1. Este fica a rodar muito tempo :)

Aposta mais arriscada, este Motherland (2014) de Khatia Buniatishvili, a pianista-revelação da Geórgia:
CD muito eclético: Bach, Tchaikovsky, Mendelssohn, Brahms, Dvorák, Scarlatti, Grieg, Handel, Pärt... se calhar vou arrepender-me. Já estou meio.

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Em extra, ainda, um livro usado que recuperei da minha juventude - será o tal síndroma que dá aos idosos de quererem rememorar a infância ?
É o Grichka! Grichka et son Ours ! Li em português, mas agora quero o original.

Primeira página portuguesa, da editorial Notícias.

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Um dia destes chegam as sinfonias de Brahms que a Gramophone premiou. Expectativa...

terça-feira, 4 de março de 2014

Harnoncourt : Mozart 'maestoso' em novo CD


Ao ouvir esta recente gravação não posso deixar de imaginar os saltos e as caretas do maestro para puxar de tão violenta energia. Isto é um maremoto de Mozart, não é fácil sobreviver a um ataque destes.


Só um Harnoncourt em transe podia inventar uma Haffner assim ribombante de sopros metálicos e percussão. Pode-se dizer tudo menos que é déja vu. E as cordas? já era habitual, mas são mais precisos os ataques em súbita erupção e os fins de frase sincopados, sempre valorizando detalhes nas madeiras e o fraseado em arco, as múltiplas linhas instrumentais (que riqueza !) e agora também usando e abusando do arco con legno. O Allegro é fenomenal, o Menuetto cheio de surpresas - pequenos atrasos ou prolongamentos de notas que me fazem sorrir - o Presto francamente excessivo, viva o excesso ! (pelo menos este, que é inofensivo). Há uns anos, a leitura de Mackerras surpreendeu e fez escola; Harnoncourt obviamente integrou-a, aprendeu e fez melhor ainda.

Concentus Musicus desempenha em perfeita sintonia com o maestro, não há a mais pequena hesitação, a máquina dá tudo o que pode, quase a estourar mas sempre sob apertado controle. Além da Haffner, o disco tem a raramente ouvida Serenata Posthorn K320 , uma portentosa quase-sinfonia em 8 andamentos com abertura e fecho no estilo mais 'imperial' de Mozart, aqui igualmente realçado pela interpretação, que fica perigosamente à beira do desequilíbrio no finale presto, a dar frisson na espinha. Ah, e abre com a Marcha K335, impecável de pompa e circunstância.

Quem gostar de Mozart clássico, muito elegantemente vienense, melodioso, fuja disto. Quem gosta de vertigem, adrenalina, fio da navalha, de ser incomodado, de saltar na cadeira com música tocada como se o mundo acabasse ali, é capaz de achar este disco um milagre estrondoso. Mesmo que, em audição repetida, possa acabar por ser cansativo, sobretudo pela dinâmica constante dos metais. Por enquanto, quanto mais ouço mais gosto !

Aos 84 anos, Harnoncourt não entrou em piloto automático, e toca Mozart como se fossem os Iron Maiden, ou Pete Townshend a rebentar com a guitarra em palco. Não será uma primeira escolha para Mozart, mas gostei muito de ouvir esta excêntrica 'novidade' de quem já se esperaria senilidade. Para já, é o CD revelação de 2014.

Apetece-me só deixar uma questão: será isto ainda 'bom gosto' ? Eh eh.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Males que vêm por bem, ou 'Viva o Velho ! '


Avariou-se o meu amplificador do sistema audio. Foi para reparação e lá está vai para ... 2 meses !

Houve alturas em que desesperei por falta de música. Claro que ia ouvindo nas colunitas do portátil, mas não é a mesma coisa, de todo. Gosto daquele som cheio e do palco vasto.

Entretanto, os CDs em espera iam-se acumulando. Ainda levava alguns para ouvir no carro - aí o problema é que a audição é sempre interrompida por mil e um ruídos, distrações,  e pelo fim da viagem.

Uma alma caridosa lembrou-se de que tinha em casa um ampli extra sem uso. Quando o levei para casa estava incrédulo e pouco motivado. Era um Musical Fidelity A1 dos anos 80,  já muito "tosco".  Incompatível com os meus cabos de colunas.

Mais uma vez que fui à loja protestar contra a demora; o amigo Francisco nada podia fazer, mas sugeriu uma marosca - "shuntar" (*) as colunas, de modo a ficarem com metade das entradas e serem compatíveis com a saída do ampli. E fez-me os "shunts" - 4 cabitos coloridos com as pontas nuas.

Em casa olhei para aquilo, descrente, mas comecei a longa tarefa de ligações. Não atinei à primeira, mas de repente... há som nas colunas !
E que som ! Ena.
Pois o MF A1 do meu mano Paulo, de 45 W,  envergonha o meu Arcam de 2001 avariado, de 100W. É muito mais limpo, articulado, focado, um pouco seco mas até gosto - o meu é demasiado para o macio. Estou entusiasmado. Há discos que parecem renascidos.

Discos que vão rodando:

Os 6 Brandeburgueses de Bach pelo escocês Dunedin Consort:
Uma revelação. Quem acha que já não é possível fazer melhor que Pinnock, Jacobs ou Giardino Armonico está enganado. Prémio Gramophone 2013.

Concertos para violoncelo de Vivaldi porJean Guihen Queyras e a Ak. Alte Musik:
Surpresas vivaldianas bordadas em seda. Fica aqui um extracto:

O adagio (aos 3:08) é uma pequena jóia.

Geminiani, sonatas para violoncelo, por Bruno Cocset & Les Basses Réunies
'Une étude particuliére' de Monsieur Geminiani, para nosso deleite. Ninguém mais soa assim como os Basses Réunies.

E, claro, Brahms (tudo!), o Schubert de David Zinman, o Wigmore Recital de M. J. Pires ... e à noite algum John Surman.
Ainda não voltei à ópera e canto, mas não tarda.

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(*) em português: curto-circuitar :)

domingo, 1 de dezembro de 2013

CDs 2013


Os meus "discos do ano":

Maria João Pires e António Meneses,
O recital no Wigmore Hall


Schubert, Brahms, Bach, Mendelssohn e mais algo de mágico a dois.







David Zinman, Orq. Tonhalle de Zurique,
8ª Schubert (A Grande)



Irresistível de ímpeto, rigor e detalhe.







Prémio especial

Arabella Steinbach, Orq. Gulbenkian
Max Bruch, Concerto para violino



A Gulbenkian no seu melhor







Repescado de 2012

Os canadianos Tafelmusik são um agrupamento de música barroca de Toronto,  em instrumentos da época, aqui dirigido por Bruno Weil
Em Outubro de 2012 editaram este excelente CD gravado ao vivo, com a Italiana de Mendelssohn e a Heróica de Beethoven; como só o ouvi em 2013, fica aqui com uma menção especial - a melhor Italiana de sempre !

Outras músicas

June Tabor, Quercus





Canções lindas, melancólicas, nocturnas, acompanhadas com delicadeza ao piano e saxofone.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Zinman: a melhor Grande (8ª) de Schubert


Mais uma vez, como um relógio suíço, nem mais.

Não quer dizer mecânico nem automático. Quer dizer com uma precisão linda de se ouvir, uma sonoridade polida que brilha como platina, um domínio de ritmos, intensidades e contrapontos como, provavelmente, nunca antes. Faz com que quase todas as gravações anteriores, mais ou menos sanguíneas, pareçam pastelões desconexos.

E há a revelação do que se ouve pela primeira vez, intensa.

Em resumo: David Zinman, Tonhalle, um gosto *****


Precipito-me, talvez: a mais gloriosa gravação do ano.

[tenho de ir a Zurique outra vez, ouvi-los]

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Em contrapartida, o Mendelssohn de Thibaudet com Blomstedt ...


Sei que já é de 2001 esta gravação, mas como só ouvi agora o CD, aqui fica o meu entusiasmo: interpretações de fazer saltar do assento, ao contrário do CD da Grimaud que referi no post anterior. Diria mesmo que é como se estivesse a ouvir estes concertos pela 1ª vez - tal é a revelação nos detalhes e dinâmicas, a excelência do pianismo e da direcção de orquestra, tudo. Depois de Serkin, na década de 60, ninguém tinha feito melhor. Grande par, Thibaudet e Bloomstedt.

Dez valores em dez, pois. E ainda temos de brinde um brilhante Rondo Capriccioso op. 14 ! Tinha Mendelssohn... 16 anos !

Não havendo disponível em vídeo a interpretação de Thibaudet, aqui vai por Rudolf Serkin, quase perfeito:

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Brahms de Helène Grimaud


Acabo de ouvir a gravação de Helène Grimaud dos dois concertos para piano de Brahms, o primeiro com a Orq. da Rádio da Baviera 'live', o segundo com a Filarmónica de Viena. Aguardado com alguma expectativa, o CD suscita "mixed feelings".

As gravações destes concertos por mãos femininas sempre me desiludiram e em geral evito-as. Não era preconceito, era um facto - o resultado costuma ser invariavelmente uma interpretação achopinada, perdoem o adjectivo, mais ou menos maneirista, aligeirada, insípida, sem a devida gravitas e, pior, sem alma dorida.

Helène Grimaud prova-me agora que isso não era fatal acontecer. Estará mesmo à altura dos melhores - Arrau, Michelangelo (bem...), Kovacevich. Ou talvez não esteja, mas é de facto primorosa, no vigor e no silêncio, na fluência e na contemplação. Não sei se isso é desagradável, mas ouve-se a respiração de Grimaud nos instantes cruciais do concerto nº1, gravado ao vivo. Por mim acho isso natural, torna até mais verdadeiro o momento.


As orquestras ajudam, luxuosas de cordas e madeiras como são. Mas podiam ajudar mais: a direcção de Andris Nelsons é menos que competente, não tem marca pessoal, é mesmo aborrecida e arrastada, sem 'pathos'. Uma pena, às vezes acontece mesmo o incrível, a orquestra "apagar-se" discretamente, com se só estivesse ali para acompanhar. Crime, em Brahms.

Seis valores em dez - falta aquele toque de génio na condução. Sete, só por cavalheirismo ;)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Bruch em trompete


Canzone, op.55, de Bruch

Sergei Nakariakov, trompete
dir. Ashkenazy, orquestra Philarmonia

Gravação recente Teldec