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terça-feira, 27 de março de 2018

Portugal prefere respeitinho pela protoditadura de Putin


São até agora 20 os países europeus que condenam os abusos de Putin com medidas diplomáticas. Além desses, Canadá, Austrália e Estados Unidos também alinharam.

Os atrasados mentais que nos governam não perceberam que Portugal opta por estar fora desse mundo civilizado, aliando-se à ralé de paises atrasados ou de (semi)ditaduras ?

O Sadam russo e o seu Tariq Aziz

É preciso procurar para encontrar paises democráticos que NÃO tenham tomado medidas contra a intervenção russa no Reino Unido.

Unidos estiveram Alemanha, França, Polónia, Lituânia, República Checa, Dinamarca, Holanda, Islândia, Itália, Espanha, Irlanda, Croácia, Estónia, Finlândia, Roménia, Hungria, Suécia, Letónia, Noruega, Ucrânia e até a Macedónia e a Albânia !!

Esta é a minha Europa. Portugal, com a Áustria, a Sérvia, a Grécia e a Bulgária, faz parte dos cobardolas. Não é de agora. Têm uma tradição de demissão face aos desafios internacionais. Mas é curioso que destes países fazem parte ou regimes de direita radical, ou regimes socialistas !

O que está em causa é 1º) o uso de uma arma química num país Europeu. 2º) O abuso sistemático da Rússia forçando os limites de tolerância (sobrevoos com bombardeiros, desrespeito pelas fronteiras, um submarino na Suécia, abate do voo da Malásia sobre a Ucrânia). 3º) Um regime corrupto de protoditadura, com perseguidos, presos e torturados políticos.

Sr. Augusto Santos Silva, 'brilhante sociólogo', ainda "está a pensar"? Tenha vergonha. Só mostra quanto depende do CES/UC do Sr. Boaventura e dos geringonças.


segunda-feira, 12 de março de 2018

Upsala, uma extensa visita (pps)


Uma apresentação bastante completa de uma cidade favorita. Destaco as margens do Fyris, a Universidade ( Biblioteca, Museus, 'nações'), a Catedral e o núcleo Upsala antiga (séc. XII).





domingo, 14 de janeiro de 2018

A fantástica Carta Marina de Olaus Magnus



Um dos tesouros da Carolina Rediviva, a magnífica biblioteca de Upsala, é o primeiro mapa do Norte da Europa, obra notável de Olaus Magnus em 1539:

Carta marina et descriptio septentrionalium terrarum.


À primeira vista, a Carta mais parece um mapa de espécies marinhas com aspecto de criaturas monstruosas. Dominam os mares e espicaçam a imaginação, como ilustrações de um livro infantil.

Mas um mapa é suposto cartografar o conhecimento humano, expor imagens da nossa compreensão do mundo. Talvez no século XVI os monstros da Carta Marina não fossem vistos como os vemos hoje, mas de maneira diferente. Junto com o mapa, Olaus publicou um volume de notas sobre as imagens que só por si é um  tratado de literatura fantástica.

Eram os prmeiros anos da 'Idade da Exploração', acreditava-se ainda na existênia de grifos, unicórnios, dragões, a fénix, e mais uma horda de criaturas fantasistas. Vivia-se a infância da Ciência moderna, enquanto o imaginário assentava ainda nos mitos medievais.


A lagosta gigante que agarra um nadador na suas pinças, ou a serpente que se ergue à altura dos mastros e devora marinheiros, representavam o medo real das profundezas. Não são mera decoração para preencher o espaço vazio, nem metáforas visuais para os perigos do mar; tanto se acreditava na sua existência que estão definidos com legenda no mapa. Por exemplo, "Balena", um réptil de quatro patas e dois esguichos, é descrito nas notas como uma baleia, acompanhada da Orca, com um colar espinhoso. O "Prister", um dragão com esguichos, é um "redemoinho que facilmente engole um navio"; "Ziphius" (Xiphias é o peixe-espada) é listrado, tem barbatana dorsal e um colar de agulhas. Ainda mais engraçado, "Rockas" (uma raia) é um bicho benigno, protege os nadadores de outros predadores. Outras ilustrações mostram Islandeses a secar bacalhau, pessoas a esquiar sobre o gelo no Golfo da Finlândia, trenós puxados por renas a atravessar o golfo da Bótnia...


Acho graça a uma ilha, entre as Órcades (Orkney) e as Faröe, chamada Tile. A crença na existência de Tule, a Ultima Tule, era ainda bem forte no século XVI, como uma Ilha para Além das Fronteiras do Mundo Conhecido, como designa Olaus. No mapa lê-se: Hec insula habet XXX millia populus et amplius (a ilha tem 30 000 pessoas ou mais) e Hic habitat dominus insularaum (aqui vive o senhor das ilhas) !


Olaus Magnus estudou na Alemanha, foi graduado B.A. pela Universidade de Rostock em 1513; os estudos clássicos da época devem tê-lo informado sobre a viagem de Pytheas e os escritos de Plínio; sentia a necessidade de colocar Thule no mapa, e à falta de conhecimento científico, situou-a na única zona marítima 'vazia' de que dispunha no oceano.

Também é espantoso como Olau Magnus mapeia o torvelinho do Maëlstrom (anotado horrenda Caribdis), e outros remoínhos onde a corrente do golfo encontra as águas do Ártico; sem poder, como hoje, ter tido uma vista aérea ou de satélite, como podia saber deles e da sua localização ?

Remoínhos fatais a sul da Islândia.

Outro detalhe que só alguém muito viajado pode descrever é a troca comercial na Lapónia entre um grupo de Sami (escandinavos), que oferece machados, tesouros e outras ferramentas a mercadores russos, que trazem peles e um odre cheio de óleo. Olaus comenta que os Sami são boa gente, pobre e sem ambições, que não querem riqueza nem dinheiro mas apenas bens de subsistência.

Olaus Magnus era um padre Católico, bispo de Upsala, muito viajado ao serviço do rei Gustav Vasa, um homem da Renascença e portanto um observador atento. Optou pelo exílio com o irmão desde que a Suécia se converteu ao luteranismo, e foram viver em Danzig (Gdansk) onde Olaus começou a trabalhar num mapa em grande escala das regiões nórdicas; em 1537 mudaram para Veneza onde haveria melhores condições para o imprimir. O mapa seria composto de 9 blocos de madeira pintada a ser impressos numa só folha. Após 12 anos de trabalho, a Carta Marina, Um mapa marinho e uma descrição dos países nórdicos", foi publicada em 1539, impressa em Veneza, e foi na altura o maior (170 por 125 cm !), mais detalhado e mais preciso mapa feito na Europa.

Poucas cópias foram impressas, e o Vaticano depressa conseguiu direitos autorais por 10 anos. Ficou ignorado nalguma gaveta até ao séc XIX. Há actualmente apenas duas cópias originais, uma em Munique e outra, em melhor estado, em Upsala.

Duplamente fascinante, mais que um genial mapa, é uma obra de Arte.


Excerto das notas de Olaus Magnus:

Os que, navegando pela costa da Noruega, se dedicam à pesca ou ao comércio, concordam nesta história estranha de que anda por ali uma Serpente de vasta dimensão, uns 200 pés de comprido e mais de 20 pés de espessura; e dizem que vive nos Rochedos e Grutas cerca da costa de Bergen: e que sai das suas covas nas noites claras de Verão, e devora Cabritos e Borregos e Javalis, ou então vai para o Mar alimentar-se de polvos, lagostas e toda a sorte de Caranguejos. Costuma ter pêlos a volta do pescoço longos de cerca de um Cúbito (*), e escamas afiadas, é negra e de olhos que cintilam flamejando. A Serpente aterroriza os navegadores, erguendo a cabeça na vertical como uma alta coluna, caçando homens e devorando-os.

Este tipo de descrição é muito semelhante a outras que se encontram nas Sagas Nórdicas do séc XIII. Por exemplo, Jörmungandr ou a Serpente Midgard, que foi lançada ao oceano por Odin, tendo crescido ao ponto de se poder enrolar à volta do mundo.

Mais:
Sea Monsters: A Voyage Around the World’s Most Beguiling Map by Joseph Nigg. © University of Chicago Press, 2013
http://press.uchicago.edu/ucp/books/book/chicago/S/bo14717804.html

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(*) cerca de 46 cm

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Oxford 3: nem faltaram os Romanos na pequena vila de Dorchester-on-Thames


A poucos minutos de Oxford, Dorchester-on-Thames é uma pequena vila inglesa agradável, com a inevitável Inn / hotel & pub, a inevitável igreja paroquial com jardins à volta, o relvado comunitário para jogos, a inevitável tea room. Está feito o cenário de um  inglês feliz. Ao longo da estrada rural, umas poucas casas em gaiola de madeira com cobertura de colmo enquadram a torre da Abadia. Sim, Dorchester tem uma Abadia !




Tudo normal, não fosse a longa história de Dorchester, desde o neolítico à invasão romana, seguindo-se os saxões e normandos até à era victoriana. A aldeia é um lugar único no Reino Unido: só aqui se sucederam povoados na Idade do Bronze e do Ferro, na era romana e na era anglo-saxónica, que não foram apagados pelo tempo.

Taça em sino invertido encontrada no campo arqueológico
(c. 2400 AC, ~ Stonehenge).

A posição da aldeia junto ao navegável Thames e ao seu afluente Thame, que a contornam em três quadrantes, fazia de Dorchester um sitio estratégico quer pelas vias de comunicação quer pelas defesas naturais. Uma sebe de turfa (neolitico) ou uma fortificação defensiva fechava um recinto quase rectangular.


Os romanos fizeram aqui um vicus (administração provincial), que ligava por estrada calcetada a um campus militar mais a Norte. Que o nome do aldeamento romano fosse Dorcic, como alguns reclamam, é puramente especulativo, mas há muitas evidências de ocupação desde o reinado de Cláudio até ao de Antonino (séc. IV).
Durante as excavações foram encontrados cemitérios da era romano-britânica.

Em 634 o Papa enviou um bispo, Birinus, para converter os saxões da região. Construiu uma catedral saxónica e Dorchester ganhou importância, tornando-se capital do Wessex, que viria a ser o reino dominante em Inglaterra. Entre disputas de bispos e reis, acabou por ser destruída a primitiva igreja saxónica para no seu lugar surgir uma grande igreja monacal agostiniana a partir de 1140 - a Abbey Church of St. Peter and St. Paul, ou simplesmente a Abadia de Dorchester ; durante o domínio normando multidões chegavam em peregrinação a Birino de Dorchester, venerado como santo. No séc. XV a abadia no seu auge voltaria a ser muito ampliada e enriquecida de vitrais, até que o edifício monástico foi encerrado em 1536 e a igreja passou para a paróquia.

Entremos.


A entrada faz-se por um alpendre vestibular lateral em pedra do séc. XV.


A nave e o grande janelão medieval. É a parte mais antiga, do séc. XII.


Quase todos os vitrais vêm do séc. XIV e XV, com alguns restauros posteriores. A rosácea do topo é muito mais recente (séc.XIX).

O forte pilar central foi um acrescento para evitar que a janela desmorone.

A Janela de Josué ('Jesse Wndow'), exemplar único do séc. XIV (c.1340), em forma de árvore com esculturas e pequenos vitrais que ilustram a narrativa bíblica.

Uma muito rara pia baptismal normanda, c. 1170, esculpida em chumbo.

Os apóstolos sob uma arcada dão a volta à pia. A base em pedra e a tampa de madeira são victorianas.


Uma das capelas laterais é a Lady's Chapel, com um mural sobre a Anunciação:

Pintura na Lady's Chapel, do pré-rafaelita tardio, W.T. Beane, 1894.


A Cloister Gallery

Uma galeria lateral que dava para o claustro foi reconstruída e adaptada a museu, num projecto bem integrado de arquitectura em carvalho e calcário rosa dos Cotswolds.


No interior

Medalha de bronze com cabeça de Medusa, museu da Abadia.
(data e uso desconhecidos, provavelmente séc.III-IV).

Fivela romana do séc. IV ou V, encontrada em 2010 (Museu Ashmolean de Oxford).

Ainda há pouco foi notícia o sarcófago romano (séc. II - III) em mármore branco que servia há anos como vaso de jardim em Dorchester:
Ao centro, Cupido conforta alguém que sofre, enquanto à esquerda e à direita deuses se refastelam em fartura montados sobre golfinhos e junto de palmeiras... assim até eu queria ser deus.

Mais sobre as excavações e os achados:
https://oxfordarchaeology.com/community-case-studies/217-discovering-dorchester-on-thames-project


A torre da Abadia também tem o seu relógio de sol do milénio !



Acabo em modo laico, com este único esquilo, e bem furtivo, num muro da ponte sobre o river Thame:




Esteve sol, foi um dia bem passado.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

ditadura = iliberalismo



Navegamos à vista, sem rumo, num mar aberto e livre mas junto às costas fatais da ameaça totalitária.  Acontece que estas costas sabem iludir os navegantes com verdura e nevoeiro a disfarçar negras arribas e rochedos.

Os candidatos a ditadores já aceitam ir a votos. Manobram como podem, e acima de tudo mal se vêem a controlar o Estado tornam-se absolutistas e até são tentados a nomear herdeiros. Mas continuam sempre a reclamar-se democratas, e defensores dos direitos humanos. Democracia e direitos tornaram-se a vegetação que cobre as arribas, um argumento irrecusável, consensual, mesmo que muitas vezes aberrante. A Coreia do Norte é a única excepção que se assume ditadura à antiga, férrea e tenebrosa. Os outros - Orbán da Hungria, Maduro na Venezuela, dos Santos em Angola, Erdogan na Turquia, Putin na Rússia... - são caudilhos pós-modernos, cautelosos e ardilosos, com gosto pelos media e até pelas redes sociais, apoiados num aparelho de Estado com poderes excessivos que lhes garante eleições (e referendos) favoráveis.

Não, ir a votos já não basta para ser democrata. É preciso que o Estado continue limitado nos seus poderes, e que haja fortes contra-poderes: oposição livre e vigorosa, tribunais independentes, economia de mercado. É preciso, e cá chegamos, que haja LIberalismo !

Pois. Orbán disse, e com razão, que a Hungria é uma Democracia iliberal. Democracia agora dá para tudo - Trump e LePen são democratas, tal como Putin e o premier chinês Li Keqiang. Não são é Liberais, são chefes de um Estado absolutista, nacionalizador, não dão espaço de liberdade para a sociedade civil. O Liberalismo é actualmente a única alternativa à novi-Ditadura. Ser anti-liberal é nacionalizar, ter a oposição e os media sob controle, reforçar o poderio do exército - e isso é uma Ditadura.

Há evidentemente uma culpa da "extrema-esquerda" nisto tudo. Clamando contra o liberalismo, o Imperialismo, a Globalização e a soberania Europeia, abrem campo às ditaduras todas, aos "fascismos" de esquerda ou de direita, disfarçados ou assumidos. LePen é filha de Robert Hue e de Mélanchon. Trump está grato às esquerdices de Clinton e Sanders; o  Bloco de Esquerda admira Chávez e Mélanchon; o PC de Jerónimo Sousa admira a Coreia do Norte e até a Rússia, o contrapeso anti-democrático e estratégico que ainda lhes dá esperança.

Que viva o Liberalismo, digo eu, regulado, claro, com um Estado Social decente, mas liberalismo sério - como nos paises escandinavos, na Áustria, no Canadá, na Nova Zelândia.

E se a direita radical (que não é "extrema-direita")  ameaça agora as democracias liberais europeias, não esqueçamos a ameaça que foi durante décadas a esquerda radical, sempre à espreita do momento certo para o seu terrorismo anti-liberal, anti-globalização, anti-europeu. O alerta em mar costeiro é para as várias falésias negras do rochoso litoral.



Disso sei eu, por lá andei.


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

As democraduras, invenção de fim-de-século consolidada no século XXI


Democradura, palavra inventada pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano e também título de um livro:
La Democrature: Dictature camouflée, Démocratie truquée
Max Liniger-Goumaz

Sim, sim, vai-se a eleições aparentemente livres, há partidos e tudo; mas só um tem possibilidade de vencer, e depois tenta eternizar-se no poder e dominar todos os meios produtivos e informativos. Exemplo: um recente estudo sobre liberdade informativa põe a Turquia de rastos; depois do golpe, a entourage de Erdogan tudo controla, tudo corrompe, trata qualquer oposição com violência, ódio, desprezo.

Mas assim é também no Congo de Kabila, na Angola de Eduardo dos Santos,  na Rússia de Medelev/Putin, assim na Bolívia de Morales, na Cuba dos Castros, assim na Venezuela de Chávez/Maduro, e vários da Ásia central (Cazaquistão,...) e do Sul. Até o Irão embarca na imagem de democradura, com eleições, mas esse ainda é medieval, cultiva o atraso com afinco.

Às antigas ditaduras militares golpistas sucederam as democraduras civis legitimadas pelo voto. À "ameça comunista" ou à "ameaça fascista" que justificavam as ditaduras, sucedem as teorias da conspiração: existe um complot, um eixo do mal, uma conspiração enfim, venha ela de Madrid, Washington, Miami, Londres, Adis Abeba, Moscovo, União Europeia ou até Lisboa. Daí a 'suspensão' da democracia.

Na Rússia, Putin sucede a Medvedev sucede a Putin ....Na Bolívia, Evo Morales vai para o quarto mandato sucessivo, tendo para isso alterado a Constituição, modelo adoptado também por Mugabe no Zimbabwe, no poder há 36 anos por via eleitoral, ou Nazarbayev no Cazaquiatão há 18 anos, e por quase toda a Ásia central onde as ditaduras se procuram disfarçar (mal). "Que é que querem mais? Fomos a votos, ganhamos." E viva o fingimento, o verbo actual é 'fingir'.

Era preciso que a UN / ONU definisse democracia e ditadura, tornasse claro quem está em regime de liberdade autêntica e quem em regime de semi-liberdade condicionada. Liberdade não é beber coca-cola ou usar mini-saia, ter carro ou conseguir passar nos jornais (porque os jornais já são semi-livres, condicionados); nem sequer basta ter acesso às necessidades básicas, saúde e escola. Urge definir democracia como o regime onde há liberdade e impunidade de denunciar, sobretudo de denunciar abusos de poder.

Lista de Democraduras (provisória - aceitam-se sugestões):

Angola, Bolívia, Cazaquistão, Congo, Cuba, Rússia, Turquia, Venezuela, Zimbabwe.


Não incluí as pseudo-democracias islâmicas, que cumprem 'tudo' (!) menos a igualdade de direitos de género e de etnia, os direitos sindicais, a liberdade de vestuário... nem incluí a democracia indiana com as suas castas... nem os países sob ameaça bélica, de democracia semi-suspensa, como Ucrânia ou Arménia...

Outra lista é a das ditaduras puras e duras. Essa parece agora mais curta: Coreia do Norte e China e alguns africanos. Triste consolo.

Ah Europa, por mais mal que de ti digam, que luminoso oásis ! Não é uma organização deficiente nem líderes fracos que fazem uma democracia sadia, mas que diferença mesmo assim, és o modelo, o 'standard', para avaliar outros regimes. E que luminosa a tua extensão aos antípodas.
'Euro-Oceanic Democratic Community'


Amaldiçoados sejam pois os que nos querem fora da Europa.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Europa nasceu na Itália renascentista, e nasceu contra Turcos, Muçulmanos e Mongóis.


No princípio, era a Itália...

Europa e capitalismo estão fortemente interligados pela sua génese: ambos nascem na transição da Idade Média para o Renascimento, ambos nascem do vigor comercial dos portos italianos e do mar do Norte, ambos de uma vontade de liberdade cosmopolita contra o domínio total(itário) da Igreja e contra as intenções ameaçadoras de turcos e muçulmanos.

Já durante as Cruzadas, quando era o proselitismo religioso que comandava, o contacto com o Médio Oriente tinha ao mesmo tempo unido os povos europeus e alargado o seu conhecimento do mundo. Pelo contacto com persas e mongóis, soube-se da Ásia, abriram-se rotas; dos magrebinos vinha o conhecimento de África; a busca do mítico reino do Prestes João esteve na origem da epopeia das Descobertas. Esta duplicidade entre a 'unidade cristã' e a 'abertura ao mundo' foi o caldo que, durante o Renascimento, iria gerar a ideia política e humanista da Europa, como entidade civilizacional possível; a par - não podemos esquecer - da acumulação de capitais pelo mercantilismo alargado que daria origem à banca florentina.

As principais cidades e rotas mercantis nos séc XIII-XIV, transição para o Renascimento.

Recentemente, Yves Hersant escreveu no Le Point:

"Do século XIV ao XVI, de um extremo ao outro da Europa, intelectuais e artistas, mecenas e príncipes, adquiriram a convicção de viver uma era nova: um 'despertar', uma 'regeneração', uma 'restauração', tantos termos, ou metáforas, pelas quais as elites europeias - as italianas à frente - formaram um grande projecto: reactivar os tempos antigos para abrir tempos 'modernos', olhar para trás para dar um salto em frente." (...) "Partindo das cidades italianas, essa revolução pouco a pouco conquistou a Europa, afectando as artes e as letras, as ciências e os costumes".


"Foi no curso da Renascença, num contexto muito conflituoso, que emergiu a ideia moderna de Europa, com consciência de uma pertença cultural comum. Primeiro marco: a queda de Constantinopla em 1453, desastre fenomenal, provoca um extraordinário sobressalto de consciências diante da mensagem turca. Testemunha disso é o humanista Enea Silvio Piccolomini, futuro Pio II, espantosa figura do 'quattrocento': foi um dos primeiros a introduzir a palavra Europeu, a pensar a Europa como unidade mais cultural que religiosa, a entrever a "república" da inteligência (expressão que Voltaire admirava, três séculos mais tarde). Segundo marco : George Podiébrad, rei da Boémia, é o político "imaginativo" que redige em 1463 o primeiro projecto de unidade europeia. Não só para fazer face ao poder otomano, mas para devolver à Europa uma consciência politica unitária - a concretizar pela limitação de soberanias (!), um orçamento federal, um exército comum, um parlamento europeu, um tribunal, uma capital rotativa... Terceiro marco : com Machiavelli confirma-se e apura-se a saída da Europa da cristandade medieval (a 'christianitas'). O escritor florentino é o primeiro dotar a Europa de carácter puramente laico, político, e independente da religião. A sua Europa é a da concorrência de partidos e de energias individuais." (...)


"Juntemos ainda as Grandes Descobertas que também ajudaram os europeus a definir-se mais nitidamente, por oposição aos outros; e concluimos que a Europa é um dos legados, e não o menor, que nos deixou a Renascença."

Colombo desembarca em Hispaniola (gravura do séc. XVI). Primeiro a América (1492), depois as Índias (1498), o Pacífico (1520)...

Marc Fumaroli, ensaísta da Academia Francesa, também no Le Point:

"A Itália foi o primeiro e o mais efervescente laboratório desta descolagem da Europa a que se chama Renascença". (...) "Os filhos dos negociantes italianos, os financeiros da Europa, são os grandes inovadores da época."


(...) "A sua riqueza assentava na banca, e no comércio e fabrico de lãs e sedas: a partir de 1422, a produção de brocados que misturam fio de ouro e de seda permite aos tecidos florentinos suplantar as sedas orientais e invadir os mercados europeus.
Vestidos de seda e ouro... "heaven's embroidered clothes, enwrought with golden and silver light", escreveria Yeats.

Um brocado florentino. Vermelho era a cor mais nobre.

(...) "Em 1439-1443, Florença foi o palco de um Concílio que reuniu a elite religiosa e a cultural bizantina, a fina flor dos teólogos e humanistas italianos. É então que a Renascimento latino se torna também Renascimento grego. Os banqueiros Medici fazem de Florença a capital do neoplatonismo ocidental e uma cidade-academia, onde os artistas trabalham no meio de colecções de obras antigas greco-romanas."

O conglomerado da banca florentina era o maior da Europa, com filiais em Génova, Nápoles, Veneza, Avignon, Bruges, Londres. Fundado em 1397 por Giovanni de' Medici, a sua fortuna bancária cresceu e atingiu o máximo sob a gestão do filho Cosimo, o famoso patrono das artes e governador de Florença durante o apogeu do Renascimento. Começaria a declinar, em sucessivas falências por falta de fundos de cobertura, nos tempos ainda gloriosos de Lorenzo, neto de Cosimo.


O sucesso da banca dos Medici era fundado sobre uma inovação: em vez de juros, condenados pela Igreja, actuava em termos de transações bancárias, como transferências : por exemplo, comprar lã inglesa nos Cotswolds e vendê-la em Florença, recebendo a paga em Londres, em libras. Para isso os Medici abriram filiais bancárias nas várias cidades onde negociavam. Manobrar moedas, pesos e medidas diferentes exigia um intenso e complexo trabalho financeiro que só muita disciplina  e bons conhecimentos de aritmética e geometria - sobretudo as proporções e a fundamental "regra de três" - permitiam dominar.

Toda essa riqueza era reciclada e investida em capital humano, transformada em património de arquitectura urbana, numa arte que não tem igual em nenhuma outra cidade. É um legado assombroso.

Villa encomendada por Lorenzo de' Medici, de 1480. Lorenzo foi um dos mais entusiásticos patronos da Renascença.

Fachada de Santa Maria Novella, Florença, séc XIV.

Capela Pazzi, Florença, de Brunelleschi.

Piero di Cosimo, Retrato de Senhora vestida de Maria Madalena, 1501.

Tapeçaria florentina encomendada pelos Medici.

Quatro filósofos apadrinhados pelos Medici.
Ghirlandaio (Florença), ~1488

Sala de leitura da Biblioteca Laurenziana de Florença, onde os Medici acumularam uma colecção de muitos milhares de livros e de manuscritos preciosos, postos à disposição de estudiosos de toda a Europa.

Entretanto, o humanismo e as artes iam alastrando ao Norte da Europa, não só pelo intenso tráfego de negócios mas sobretudo pelos mestres viajantes como Leonardo, Francis Bacon, Paracelso, Montaigne ou Erasmo, o grande Doutor Universal que esteve três anos em Itália e correu todos os centros de pensamento europeus. E, bem no centro europeu, a descoberta da imprensa marca a última etapa da revolução do Humanismo letrado.

Viagem a Itália de Michel de Montaigne, uma das maiores figuras do humanismo renascentista.

Humanismo, liberalismo, mecenato,  tudo nasceu em Itália. Stendhal atribui a Itália a invenção do homem universal e laico, o indivíduo moderno. Esse 'eu' generoso de Colombo, de Masaccio, de Petrarca e de Miguel-Ângelo; de Maquiavel, de Galilei, de Monteverdi, de Brunelleschi e de Bramante; também de Van Eyck, de Erasmo, de Montaigne e de Descartes, o 'eu' depois rejuvenescido - não traído - pelo 'eu' do romantismo e do modernismo.

Roger Pol-Droit, o filósofo francês, confirma: falando do liberalismo,

"As suas origens filosóficas são rigorosamente as mesmas que as da modernidade política, que começa, no essencial, com Maquiavel. Nesse sentido, não se trata de uma doutrina fixa, mas de um conjunto de linhas de força: direitos do indivíduo em vez de submissão à autoridade real ou religiosa, liberdade de consciência em vez de submissão à Igreja, separação do poder espiritual e do poder temporal, contrato social em vez de direito divino, direito à rebelião em vez de dever de obediência. E é preciso juntar esta afirmação central: para os liberais, as normas e os valores das sociedades humanas  são construídos, artificiais, e não naturais ou divinos".

(...) "A realização dessa mutação filosófica estendeu-se  da Renascença à Revolução Francesa."

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Falta uma referência a Leste: também contra a ameaça turca e mongol, também iluminado pelo fulgor de Itália, o império Czarista sob Ivan III fez uma revolução nas artes e costumes a partir de Moscovo.

O Renascimento acontecia na Europa, não esqueçamos, sob a ameaça permanente das hordas do Império Otomano, derrotadas em Viena e em Malta, mas voltando à carga ainda do séc XVII - o cerco de Viena foi em 1689. Os turcos tinham nessa altura um exército superior em número, organização e armamento ao de qualquer país europeu. E não lhes faltou com quem travar batalhas - portugueses, espanhóis, venezianos, húngaros, persas, polacos, russos... enfim, isso acabou por trazer algo de bom - foi para escapar ao controle turco das rotas do Mediterrâneo para oriente que se procurou um caminho alternativo para as Índias!

A ameaça mongol, por outro lado, arrasara as culturas orientais mais próximas da Europa e atacava a Rússia, conquistando Kiev. Era temida mesmo em Itália...

Se calhar, nunca na História se assistiu a um tão intenso caldo cultural, a uma tão vasta revolução nas ideias e costumes, como nesses séculos do Quattrocento e Cinquecento, XV e XVI, em que a Europa adquiria forma, conteúdo e ambição.


Convém pois lembrar quem foram os impulsionadores, aliados e opositores nesse percurso.