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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Mundo espantoso: a cordilheira Torngat, ao norte do Labrador


'Descobri' há pouco, na net, esta cordilheira do outro lado do Atlântico, na península do Labrador, já pertinho da Gronelândia. Aliás, os dois territórios são muito próximos pela Geografia: nascidos da mesma placa tectónica, separaram-se no Cretácico, são o mesmo tipo de terreno - montanhas, intercalando fiordes e tundra. São também próximos na História humana, pois os Vikings na sua assombrosa epopeia náutica passaram pela Gronelândia e chegaram ao Labrador, e foram mesmo ainda mais além até à Hudson Bay; e as missões Moravianas que no século XVIII partiram da Europa para  "enquadrar" e cristianizar os chamados esquimós seguiram a rota Viking, também para a Gronelândia e o Labrador !

O que eu pretendo é mostrar o espantoso panorama da Cordilheira Torngat; é trivial dizer que parece de outro mundo, suponho que se lá pudesse ir, tanto em visita aérea como trilhando os vales fluviais, sentiria o arrepio de ter mudado de planeta.

Falta aqui o som, ou melhor, o silêncio ampliado talvez pelo silvo do vento, falta respirar o ar e a espacialidade, ver o tempo a passar nas nuvens e na luz, uma águia lá em cima, um caribu em baixo. Mesmo assim...

Nachvak - o rio, lago e fiorde que mais marca o território da 'Torngat Range'.

Estamos pelos 58-59º de latitude norte. Ainda longe do Ártico, mas já não há árvores.

O nome Torngat deriva da palavra Inuit Torngait, "o lugar dos espíritos". Percebe-se porquê.

Fiorde de Nachvak


Mount Caubwick, ou Mont d'Iberville, 1652 m, o mais alto:





Os rápidos do rio Nachvik:
Kayaking extremo...


Rio Nachvik

Ninguém num raio de cem quilómetros. Eu até sou um homem da cidade, da cidade europeia sobretudo, adoro visitar cidades, acho-as todas diferentes e quase todas interessantes. Terem todas a mesma zara, pizzahut ou cadeia hoteleira não me afecta, são detalhes, de resto é quase tudo diferente, variado, torres, arcos, praças, vielas, portas e janelas, pontes, rio ou mar; terem os mesmos jovens no banco do autocarro agarrados ao telemóvel é também um detalhe passageiro, de resto quase todos os hábitos são diferentes, desde a sesta ou não, o cumprimento obrigatório ao entrar ou a indiferença, a hora de ponta ou a mansidão das seis da tarde, a maior ou menor abundância de livrarias, gente nos cafés a ler ou conversar, a noite animada ou tudo a fechar cedo, pandemónio de trânsito ou ruas pedonais e ciclistas, avenidas arborizadas de passeios largos ou ruas estreitas de passeios estreitos, picadeiros de casais com carros de bébé, jovens a saborear gelados no Inverno, os copos de pé na rua ou ruidosamente de pé ao balcão, os cinemas e teatros no centro com fila à porta, a iluminação nocturna e seus reflexos, o som dos relógios e sinos e dos eléctricos nos carris, o aroma ambulante de frutos do mar, carnes grelhadas, fumados, doçaria. Não há duas cidades iguais.

E contudo cansa, ver gente, gente, gente de mais. Os humanos cansam, mais ainda quando se ouvem e vêem noticiários. Nesses momentos, anseio por uma cabana na Cordilheira de Torngat.


Um bom sítio para depois da vida ?


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Bem, não menti mas quase. Afinal, uns 100 km a sul de Nachvak Fjord, há uma antiga Missão Moraviana* em Hebron, na costa leste do Labrador, nas faldas marítimas dos montes Torngat. Gente, portanto.

Mapa das Missões Moravianas no Labrador. Killinek, Ramah e Hebron estão na região da Cordilheira Torngat.

Fundada em 1830, é uma entre muitas criadas na península por missionários centro-europeus da região (checa) da Morávia para fixar e enquadrar as populações ditas "esquimós", sendo depois aproveitada pela Hudson Bay Company para criar um entreposto e utilizar a mão de obra lá fixada.

Hebron no século XIX.

Livro de cânticos alemães traduzidos para a língua Inuit, encontrado na Missão.

Tinha igreja, escola, cantina, hospital, celeiro, armazém, alojamento e serviço postal; chegou a albergar, além dos missionários, 50 Inuit, até que a congregação decaiu, em 1926, e Hebron foi transferida para os negócios de peles da HBC. Finalmente abandonada em 1959, entrou em ruína até há pouco, tendo sida restaurada como "National Historic Site" com uma presença mínima de pessoal inuit ligado à gestão do Parque Natural das Torngat.


Não incomoda. Há sempre uma página de História, mesmo nas paragens onde menos se espera !


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* Igreja de filiação luterana que apregoa a piedade, o estudo dos textos sagrados, a oração e o canto religioso, "Herrnhut" ou "Unitas Fratrum" (séc. XV) foi uma das mais antigas,talvez a primeira, comunidades protestantes; tendo alastrado para Norte, foi a partir da Dinamarca que os missionários partiram para os territórios árticos da Gronelândia, e daí para o Labrador, atraídos pelas notícias trazidas dos primitivos povos 'esquimós' (expedição do Beagle, 1830).
"Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura”, dizem as Escrituras. E eles foram.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Lago Baikal - 2ª parte: o Inverno



Evidentemente, nunca irei de malas aviadas a estas paragens. Precisava de outra vida, e de outra época - visitar a Rússia nesta altura far-me-ia urticária, o regime é detestável e no interior profundo a qualidade de vida deixa muito a desejar. É pena, porque a imensidão, a lonjura e o remoto isolamento aumentam o fascínio por esse território mal conhecido.


Parte 2
O Baikal gelado do Inverno

"Les premières neiges, qui devaient persister jusqu’à l’été, blanchissaient déjà les cimes voisines du Baïkal. Pendant l’hiver sibérien, cette mer intérieure, glacée sur une épaisseur de plusieurs pieds, est sillonnée par les traîneaux des courriers et des caravanes."
                                                                                  J. Verne, Michel Strogoff

O cabo Burkhan nem parece o mesmo totalmente rodeado de gelo.


A superfície do lago congela completamente entre o início de Janeiro e o fim de Abril, quando as temperaturas descem abaixo de -30ºC.  Fevereiro e Março são os meses mais frios.

"Un sang bleu coule d'une blessure de verre". - S. Tesson

Os campos de gelo, com o movimento das águas sobre as quais flutuam, abrem enormes fracturas ou brechas de 2 a 3 metros de largura e que se prolongam por muitos quilómetros. O ruído surdo destes movimentos é semelhante ao de um sismo, acompanhado do ranger de ferros num estaleiro naval.

"Les veinures de la glace. On croirait le fil d'une pensée." - S.T.

"Le dessin d'une arborescence à angles brisés." - S.T.

"Les serpentins nacrés dessinent des noeuds pareils aux images de tissus neuronaux." - S. T.

"On hésite a mettre le pied sur cette méduse de nacre."- S.T.

"La glace a absorvé l'énergie des chocs en la distribuant le long de faisceaux nerveux."- S. T.

"Des lignes de faille zèbrent la plaine mercurielle crachant des chaos de cristal." - S. T.

A costa da ilha de Olkhon. A superfície gelada é mais dura que vidro de segurança do mais resistente.

As enormes forças criam um verdadeiro caos, e lâminas que podem ser fatais emergem subitamente ao quebrar da placa de gelo, ampliando o efeito de espelho.


Conforme a incidência da luz, os jogos de brilho e cor fabricam autênticas 'jóias' de gelo.


Já na Primavera, o gelo ganha surpreendentes tonalidades turquesa à medida que quebra e dispersa revelando de novo a água cintilante.

Parece cenário de filme, mas é no norte do Baikal.

Pelo fim do Inverno, a camada gelada do lago atinge 1 m de altura. O correio chega em motociclo, e não em trenó como no tempo de Strogoff.  E não falta quem ande a brincar - de carro (SUV), de hovercraft alugado, de trenó... ou de bicicleta, o meio mais seguro.

A não ser que...



'Nascente' do Angara: aqui, do lado direito, o Baikal drena as suas águas para o rio.
Vista do cimo do pico Chersky, sobre Listvyanka. Só não está gelada a entrada do rio Angara. Como se chama o contrário de 'foz'? será estuário na mesma, mas de saída ?




"Et si la liberté consistait a posséder le temps?"
                                                                           Sylvain Tesson, "Dans les forêts de Sibérie".



A cabana onde Sylvain Tesson viveu durante um ano.


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A seguir: O Circum-Baikal, extensão do trans-siberiano, e a aldeia de Listvyanka, onde o rio Angara se escoa do lago.



terça-feira, 24 de maio de 2016

O Lago Baikal, preciosidade única da Sibéria - 1ª parte


Já há alguns meses, em leitura de Sylvain Tesson*, estive a viver com ele numa cabana de floresta à margem do Lago Baikal, no sul da Sibéria profunda. Apesar do feitio rebarbativo do personagem, a vida de eremita que Tesson narra no livro em forma de diário é bastante sugestiva e fora do comum, e despertou-me este interesse pelo Lago, ou melhor: voltou a despertar, porque já vinha das viagens de Miguel Strogoff a terras para lá do ocidente mas ainda não do oriente, e da minha 'viagem' de trans-siberiano a Irkutsk, há uns anitos, aqui no Livro. E do poema de Blaise Cendrars. Mais uma viagem literária e mítica.

Nous étions dans le premier train qui contournait le lac Baïkal On avait orné la locomotive de drapeaux et de lampions.
B. Cendrars

Atendendo à extensão do relato, vou publicar em três partes. A primeira:




O Lago Baikal fica no coração da Eurásia, encaixado no maciço das montanhas siberianas com o mesmo nome. Foi praticamente desconhecido dos europeus até ao séc. XVII, quando ouviram falar dele em Tomsk. Desde então, a região do Baikal foi refúgio de dissidentes ou fugitivos das prisões dos vários regimes, mas também de eremitas que procuravam isolamento, frugalidade e comunhão com a natureza. Algumas cabanas semeadas nas margens a norte do lago dão abrigo a essa vida alternativa na Rússia mais interior.


Apesar do crescimento do turismo, sobretudo no sul do lago, visitado pela linha do trans-siberiano, a maior parte da região centro e norte do Baikal - encostas arborizadas, baías e penhascos, ilhas e rios afluentes - continua a ser um segredo bem guardado.
Um excelente mapa, da National Geographic.(clicar para ver grande)

Fazendo parte da bacia do rio Yenitsev, o lago é alimentado por mais de 300 rios, os mais importantes sendo o Selenga e o Snezhnaya. Mas um só um rio nasce do lago drenando as suas águas - o Angara, que "nasce" junto de Listvyanka, segue por Irkutsk e desagua no grande Yenitsev.

Aqui têm lugar os episódios centrais e dramáticos do Michel Strogoff de Jules Verne: "(...) à six heures du soir, une immense nappe d’eau se déroulait aux pieds de Michel Strogoff. C’était le lac Baïkal."


Ozero Baykal, о́зеро Байка́л

O Cabo Burkhan, na ilha de Olkhon, um dos recantos mais visitados do Lago.

Coordenadas: 53-54° N, 107-108° E
Povoações litorais: Listvyanka (~2000 hab.), Sludyanka (Sludjanka), Baikal, Nikola.


Baikal é o lago mais volumoso do planeta, e contém mais de 20 % de toda a água doce disponível na Terra. É muito. É um 'mar ' de água limpa e cristalina, com 636 km de extensão máxima e ultrapassando 1640 m de profundidade, no meio da vasta tundra semi-desértica interrompida pela floresta circundante.


O Baikal deve ser também o mais antigo dos lagos - estima-se uma idade de 25 milhões de anos.


Sendo rodeado de montanhas, as terras litorais  do lago cobrem-se de floresta do tipo taiga - cedros, lariços, pinheiros, bétulas, abetos - que desce a encosta até perto da água.

Bosque de bétula (ou vidoeiro) à borda de água.


As temperaturas normais variam entre -19 °C de Inverno e uns moderados 14 °C no Verão.
Nos dias melhores, a visibilidade vai até 40 m de fundo.

Água assim não pode deixar de ser procurada pelos animais do lago - aqui um lince da taiga siberiana :


Na bacia do Angara e na envolvente do lago têm diminuído raposas, martas e esturjões, todas espécies 'preciosas' e as mais procuradas por caçadores e pescadores. Mas os alces, veados, ursos e focas são mais numerosos.

A raposa da reserva Angara/Baikal, de caça interdita.

Marta Zibelina do Baikal, rara e protegida.

Os esquilos abundam na floresta da taiga.

A 'Cerceta do Baikal' (Anas Formosa), uma variante local de pato.

Chapim-azul.

Omul , da família do salmão, é uma das variedades de peixe mais apreciadas; há também trutas, umblas e uns poucos esturjões. No mercado de Listvyanka, umbla e omul abundam, fumados ou para grelhar.


Ao longo do litoral há algumas praias de areia dourada, rodeadas de cenário de sonho:


Levaria quatro meses a percorrer todo o perímetro do lago a pé. Montanhas, baías, taiga, estepe, tundra, pradaria, pântanos e areais vão alternando ao longo dos 2000 km de costa.

Barguzin, na costa leste (Buryatiya)

Uma das cabanas de abrigo para pescadores, caçadores, lenhadores ou eremitas. Muitas foram construídas por foragidos ou refugiados políticos.

Omul grelhado na lareira, um 'must'.



A Ilha de Olkhon

A 53° 09' N, 107° 23' W, Olkhon é a maior ilha do lago, e a sua maior atracção turística, pelas muitas enseadas e areais entre rochedos e falésias - uma espantosa estação balnear na Sibéria central. A ilha está coberta de vegetação rasteira de estepe, alguns lariços e até uma zona de dunas de areia como se fosse um pequeno "deserto", que se move conforme os ventos.

Baía de Peschanaya - um areal cénico banhado pelo azul esmeralda do Baikal. Já há um restaurante, e o 'Svet Lany Resort'.

A baía de Peschanaya é outro local muito procurado, pela praia de areia, pela água e pelas dunas, onde nascem árvores invulgares, com as raízes expostas por cima da areia. As dunas movem-se constantemente por acção dos ventos.



A ilha é habitada por nativos da etnia Buryat, ainda no estádio do shamanismo, com vários locais de culto e lendas sobre a Criação. É uma população pobre, habituada a séculos de abandono, que aprende agora a viver... do 'turismo' ! Desde 2005, quando chegou a elctricidade.

O cabo Burkhan. local sagrado de culto dos nativos Buryat.

Tornou-se o bilhete postal mais conhecido do lago.

A principal povoação é Khuzhir, onde há alojamento e a maior parte dos serviços - centro de saúde, correio, polícia, mercearia, restauração, internet, aluguer de bicicletas... - e algumas izbas, como tinha de ser.

Casa tradicional (izba) em Khuzhir.


Nem falta a igreja ortodoxa, pequenita mas muito decorada, construída em 2000, Bozhiyey Materi Derzhavnaya

Panorama 360º aqui.

Mas a maior riqueza é o território.
Baía de Uzuri, perto de Khuzhir - areia fina e águas temperadas:

Uzuri, Olkhon Island


O Cabo Khoboy é o extremo setentrional da ilha:


E mais haveria para mostrar de Olkhon, ilha fora do tempo, Ilha do Nunca, ou Ilha do dia Antes... mas fica para a próxima.



Mapa de Olkhon



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A seguir, o belíssimo Baikal gelado de Inverno.

* Dans les forêts de Sibérie, Folio