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sábado, 21 de janeiro de 2017

caffè mio, caffè miei


Il est une liqueur, au poète plus chère,
Qui manquait à Virgile, et qu'adorait Voltaire;
C'est toi, divin café, dont l'aimable liqueur
Sans altérer la tête épanouit le coeur.


                                                     Jacques Delille

Não tem nome, acho, eu chamo-lhe o café da Dona Rita, que é quem muitas manhãs me serve o croissant (ou pão com manteiga) e a meia de leite escura. Como já lá vão muitos anos, acho por bem mencioná-lo aqui como património meu.


O chamado "café de bairro", mas muito asseado, tranquilo e bem tratado.
É verdade que Sanzala não é café de primeira escolha; mas as meias de leite saem excelentes, com  preparos personalizados - o requinte das natinhas ao fim, a cobrir...


A esplanada é muito abrigada e soalheira, o que sabe bem no Inverno. No Verão às vezes o calor é impossível, tenho que acertar com a sombra de uma coluna, o que não é fácil, e só dá para uma pessoa.


Um só senão: os cães de outros clientes assíduos, à solta, a regatear o meu croissant com olhos suplicantes e gemidos de gula. Às vezes têm sorte, mas prefiro a visita dos pardais, a quem gosto de semear migalhas; são uns queridos a saltar e conflituar, palpitantes na gulodice.

Noutras alturas, pela beira mar, escolho o Tukano, onde o Musetti , cremoso e aromático, é o melhor café do mundo fora de Itália.

Tem mantas para os joelhos nos dias frios.

A três-quartos, ou 'compridito mas não cheio'.


Pleasures of life. Contento-me com pouco.


A peine j'ai senti ta vapeur odorante,
Soudain de ton climat la chaleur pénétrante
........................................
Et je crois, du génie éprouvant le réveil,
Boire dans chaque goutte un rayon du soleil.



Chez moi :
Vai um ?

       'Il caffè è un micromondo, una Divina Commedia da leggere in 30 
        secondi, un caleidoscopio sensoriale.'

Para acompanhar, da Kaffeekantaten BWV 211, o coro final:



E cito J. S. Bach:

Ei! wie schmeckt der Coffee süße,
Lieblicher als tausend Küsse,
Milder als Muskatenwein.

     Ah! How sweet coffee tastes,
     lovelier than a thousand kisses,
     milder than muscatel wine.
   


terça-feira, 10 de maio de 2016

Um espresso no Ártico ?
- 10 cafés muito a Norte


Volto ao tom mais ligeirinho, desta vez dedicado a apreciadores da bica, cimbalino, il espresso.


Depois da corrida migratória para Oeste, o futuro parece ser o Norte - go North young man. Na América, na África e Médio Oriente, as vagas migratórias vão para Norte. E os extremos - Canadá, Noruega, Suécia, Alasca, Gronelândia - são já refúgios para quem quer escapar da fornalha e procura emprego ou lazer sob a fresca. Lá ainda se encontra aventura, inesperado, e trabalho para quem tem formação ou empenho, e até inspiração para literatura e poesia.

E cafés, o tal sinal definitivo de civilização, também há ? Mesmo que seja um pub/café, ou café/bar...

Coffee is a lot more than just a drink; it’s something happening. Not as in hip, but like an event, a place to be, but not like a location, but like somewhere within yourself. It gives you time, but not actual hours or minutes, but a chance to be, like be yourself, and have a second cup
                                                                     Gertrude Stein, Selected Writings


Eis o resultado de uma breve e refrescante procura na net, sempre acima dos 60ºN. Viagem virtual e improvável, como é habitual aqui, saltitando de café em café :)


1. Mellegeret Café, Ny Ålesund‎ , ilhas Svalbard (Noruega)
    78°55' N 


Já aqui o referi uma vez - é uma imbatível primeira escolha, a quase 79º N, na perfeição de um ambiente Ártico remoto e pristino. Ursos brancos a rondar perto.


Com vista para fiordes e montanhas geladas, na direcção do Pólo Norte, não há quem não tenha ouvido falar dele. Um must.


O Mellageret foi construído em 1919 como armazém de farinha, ligado à proximidade da linha férrea mineira.

Esplanada a dar para os glaciares. Qualquer um se inspira para um poema.


2. The Seaview Café, Hope, Alasca
    60° 55′ N


Hope, esperança, já é um bom presságio...


O "Mar à Vista" no Alasca, ao fundo da Main Street da cidade de Hope, não fica muito a Norte, mas a minha segunda escolha é um monumento - está classificado como National Heritage, já existe há 120 anos a aquecer alma e coração a gente enregelada; tem, felizmente, sido renovado e melhorado, sem prejuízo da traça original.
Celebrando o Solstício de Verão no Seaview

Ponto de encontro de gente que vive num raio até centenas de quilómetros, é já um lugar mítico também. Infelizmente, fecha entre Outubro e Abril.


O interior, quentinho, contrasta com o que vai lá fora, mas a vista vale mais.

Ainda estamos muito a Sul do Círculo Polar, mas a paisagem já é ártica.


3. Cafémma, Uummannaq, Gronelândia
    71º 52' N

Este é muito recente, quase novo em folha ! A Gronelândia convertida ao café.


Na maior 'cidade' (aldeia por padrões europeus) do norte da Gronelândia, destino turistico de espantosa beleza, este café do alto Ártico é para curtir sobretudo em... esplanada, o que exige roupas bem quentes !


Como café urbano, este deve ter o record absoluto em latitude - mais a Norte é difícil encontrar cidades.

No interior, café com vista para o porto. Escrever uma novela ?

Requinte a quase 72º N, no país dos esquimós. Custa a acreditar.


4. Inuit café, Ilulissat, Gronelândia.
    69° 13' N


Ilulissat é a Meca do turismo na Gronelândia, por causa do glaciar Sermeq Kujalleq, classificado (com a zona envolvente) como património mundial pela Unesco. Está 200 km a norte do Círculo Polar, ainda é frio que chegue. O café/restaurante abriu em 2011, sinal da mudança de hábitos - talvez a tentar desviar a tendência local do álcool.

Os elementos Thai denunciam a nacionalidade do proprietário.


5. Gallery Café, Inuvik, NWT, Arctic Canada
    68º 21' N

Inuvik é uma povoação Inuit que cresceu até ser pequena cidade, no grande delta do rio Mackenzie, 200 km a Norte do Círculo Polar. Mesmo no centro, o Café Gallery é uma extrema raridade nestas terras, uma de que Inuvik fez culto. Mas fecha no Inverno.



Com bolo e tudo. Mas nas Terras do Noroeste do Canadá (NWT), cafés só nos hotéis; O Gallery é (era ?) uma excepção. Este ainda não é um Ártico muito apetecível...


6. Bláa Kannan, Akureyri, Islândia
    66º 18' N


Akureyri é uma cidadezinha islandesa, ártica q.b., mas com um ambiente urbano já razoável (pop. 20 000), e que oferece entre outros o excelente Bláa Kannan. Muito concorrido no Verão.


Podia ser na Europa central.

Flores e far niente a 66º N, não há muito onde.




7. The Glue Pot, Nome, Alasca
    64º 30´N

Nome é uma cidadezinha histórica e modesta da era da corrida para o ouro (1898-1900), no Noroeste do Alasca, e aberta às investidas violentas do mar de Bering.


Ao longo da rua principal, que lembra o Faroeste americano, os bares em madeira são porta-com-porta; no Glue Pot, que é bar e serve café, há gulodices e ... gelados ! Sim, em regra as gentes do Ártico adoram gelados - se calhar são mais quentes que o ar que respiram...

Aberto toda a noite.


8. Café Ruiskuhuone, Raahe, Báltico, Finlândia
    65º 25' N

A Finlândia não será um país de cafés, certamente. Raahe é um pacata mas bonita cidadezita do ártico finlandês, e oferece um grande espaço de convívio à beira da água do Golfo da Bótnia: o Café Ruiskuhuone, que serve sobretudo como bar e café-concerto.


No inverno parece pouco convidativo:


Mas
Fica assim nas tardes de Verão.

E assim nas noites.


9. Trondheim, Noruega
    63º 10' N

Trondheim é talvez a maior cidade acima de 60º N, sem dúvida a mais bela. Muito concorrida e cosmopolita, tem vários cafés ( e casas de chá) - difícil é escolher.


Numa das ruas mais antigas, fica o 'Dromedar'. Ia já para lá a correr.


Com sol ou com neve, de dia ou de noite. Estamos a dois passos do Ártico.


Melhor, só o luxuoso Ni Muser, com doçaria de morrer, localizado junto à fabulosa catedral Nidaros:

Contrariamente ao que se diz, a Noruega tem a cultura Europeia do café. Já a Suécia nem tanto.

Para gostos urbanos e bolsas cheias, não há melhor escolha.

Boas calorias para os 63º N !


10. Café Natur, Tórshavn, ilhas Faröe (Dinamarca)
      62° 00′ N

Bem, Tórshavn já é uma capital !


As lindíssimas Ilhas Faröe até nem ficam assim tão longe, à distância de um vôo de Copenhaga. Na capital há vários cafés, mas o Café Natur é o mais antigo e o mais bonito.


Situado no antigo porto, fica junto à cidade velha e ao parlamento Viking. Também já é um café/bar mítico, imperdível.





                                  Café :
                                  Noir comme le diable, 
                                  Chaud comme l'enfer, 
                                  Pur comme un ange, 
                                  Doux comme l'amour.
                                                                Talleyrand


                             Dromedar, Trondheim


Disclaimer: alguns destes estabelecimentos podem entretanto ter encerrado, não garanto os dados à data de hoje.