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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Time Pieces, Memórias de Dublin, "just once, everything, only for once."


Pronto, está eleito: é o melhor livro do ano, para mim: Time Peaces, de John Banville (capa aqui ao lado direito). *


« I am convinced, and will not cede in my conviction to any expert, that there is a special and unique quality to the bricks of which so much of Georgian Dublin is built. People speak of “red brick” houses, but red is the least of it: the colors range from rosy pink through cadmium yellow and yellow ochre to a chalky – textured madder, and burnt sienna, and patches, tiny patches, of a strangely aquatic, darkly shining purplish blue that seems to be picked out only by the light of certain late summer evenings. The hues alter subtly with each passing hour, from an early morning watery paleness to twilight’s glowing umbrage. And when it rains the bricks gleam and glitter like the flanks of a galloping racehorse.»


Estou convencido, e não cederei na minha convicção a nenhum especialista, de que há nos tijolos usados para construir grande parte da Dublin georgiana qualquer coisa de especial e único. Costuma falar-se das casas de ‘tijolo vermelho’, mas vermelho é o mínimo que se pode dizer: as tonalidades vão do cor-de-rosa carregado, assando pelo amarelo-cádmio e pelo amarelo-ocre, até à purpurina com textura de giz e ao ocre da terra de Siena queimada, tudo isto salpicado de manchas minúsculas, de um azul purpurino, estranhamente aquático, de brilho sombrio, que a luz parece pôr em relevo somente em certos crepúsculos do Verão tardio. Os cambiantes de cor alteram-se ubtilmente a cada hora que passa, da molhada palidez matinal às sombras resplandecentes do fim da tarde. E quando chove os tijolos brilham e faíscam como os flancos de um puro-sangue lançado a galope.

« And the great windows, how they flare and flash, furnace-white, with the sun on them, at dawn and dusk especially, when thet seem to be themselves the source of their own radiance.»

«The city breathes, it has its own life, apart from us, who are its parasites, its relentless, teeming virus.»

Time Pieces” é uma passeio em zigue-zagues pelo passado, tanto o passado de Banville como  de Dublin, ilustrado com evocativas e nostálgicas fotografias de Paul Joyce *. Banville conduz-nos por portais Georgianos, através de parques verdes povoados pelas sombras de memórias, descendo ladeiras empedradas molhadas pela chuva, entrando por pubs de outras eras. E conta histórias desses lugares; o género de histórias contadas numa noite íntima com amigos em que ninguém quer deixar que a conversa acabe.

Outro exemplo: Banville adorava os Iveagh Gardens, perto da catedral, pequeno jardim com grutas, fontes, cascata, bosque, e um labirinto que ele, nas muitas visitas com Stephanie, nunca conseguiu encontrar.

« Now, it is one thing to be lost in a maze, but that there should be a maze one cannot find seems to me a truly marvelous thing, a conceit straight out of a wonder-tale by Borges.Thinking it over, i entertain the fancy that if there were indeed to be an afterlife - horrible possibility - there would be worse ways of enduring it than in an endless Borgesian circular search for this ever-elusive garden feature within a garden.»


Também estou grato a John Banville por uma riqueza imensa de citações memoráveis, desde testemunhos históricos a poetas como Larkin ou Rilke, Yeats, Beckett, Joyce, Kafka ... Esta, por exemplo, da 9ª das Duineser Elegien :

But because being here amounts to so much, because all this
that's here, so fleeting, seems to require and strangely
concern us. Us the most fleeting of all. Just once,
everything, only for once. Once and no more. And we, too,
once. And never again. But this
having been once, though only once,
having been once on earth - can it ever be cancelled ?


Só uma vez, tudo, só por uma vez. Mas tendo sido uma vez, apesar de uma única vez, tendo sido neste mundo uma vez - poderá ser algum dia cancelado ?


Uma obra prima, a que ainda voltarei. E que vontade de revisitar Dublin.

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* Trad. portuguesa "Retalhos de um tempo", Relógio d'Água
** sobrinho bisneto de James Joyce...


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Finalmente, Lund e Ystad


Uma derradeira viagem tem de ser especial... tenciono viver Lund, a bela cidade universitária sueca, como quem lá morasse de vez, na fantasia do país mais feliz onde tudo é planeado para o bem estar dos cidadãos.


Um lugar único, saído de algum éden do passado que a riqueza social-democrata restaurou, Lund não parece deste mundo, mas é: está nas 100 melhores Universidades do mundo !

Kulturen, museu a céu aberto.


Um salto mais breve à pequena Ystad, antigo porto hanseático de que 'só'  resta um centro antigo notável de coerência - a beira mar portuária foi destruída na 2ª grande guerra. Com visita também às pedras Viking de Ales.

Rua antiga de Ystad

Praça central

Não é Italia. é Ystad, Suécia, Báltico. Convento de S. Pedro (Sankt Petri Kloster)

A Escânia - gosto mais de Scânia - é de resto uma província de castelos, igrejas brancas, pomares, cultivos e floresta, plana e verde, que ao que dizem oferece belas imagens, uma espécie de Toscânia aplainada face ao Báltico. Será que Skäne e Toscana têm algum parentesco linguístico ?


Arte e História? Também, basta a fabulosa Catedral de Lund:



sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Viena, melhor cidade do mundo ? Natürlich !


Sim, se não fosse Viena era Zurique. Mas Viena é mais bonita, plana, com um serviço de transportes que é um primor - e dispensa carros - , ruas pedonais, uma imensa oferta de museus e casas históricas, o gosto pelo café e pela esplanada, e sobretudo uma arquitectura de ruas e praças que torna o espaço urbano um prazer (apesar de alguns atentados modernos a destoar) e uma programação cultural soberba de concertos, exposições, ópera, bailado.

Roma - Viena - Estocolmo é a minha linha de Europa perfeita, superior. Uma linha norte-sul que percorre o mais genuíno e nobre coração europeu - o que nunca teve vocação atlântica, nunca partiu para fora de si à procura de novos mundos nem criou colónias, não "descobriu" outros mas fez com que outros viessem para cá descobrir-nos. De Roma a Estocolmo vai uma enorme diferença cultural e histórica, mas estão unidas no centro de irradiação que é Viena e ligam os dois mares europeus por excelência - o Mediterrâneo de Veneza e o Báltico de Liga Anseática. Duas civilizações diferentes - a latina e a nórdica - que se encontram a meio do caminho.

Acontece que estive recentemente em Viena, e raramente me senti tão bem - confortável, seguro, bem servido, cidadão pleno - noutra cidade grande europeia. Gemütlichkeit: aconchego, gentileza, bem estar. O estado de limpeza e conservação das ruas e espaços públicos até impressiona. Não há graffitis, deo gratias, nem cantos mal-cheirosos do binge drinking da noite passada; pelo contrário, é permitido fumar em muitos locais. As regras são respeitadas porque fazem sentido. Não há ruído de tráfico nem poluição. Eléctricos e pequenos autocarros silenciosos fazem as ligações dentro do centro e com a periferia. Caminhando, a vista tem contentamentos vários - esquinas, torres, fachadas, telhados, fontes, estátuas, portais, praças. À hora certa, sem turistas, os cafés são, como disse Steiner, o sítio onde se respira Europa.

Viena são ruas e praças por onde caminhar ou sentar.




Na Innere Stadt, as ruas encaminham para Igrejas...


Torres e cúpulas...

Fontes e estátuas...

Como uma das Cidades Invisíveis de Italo Calvino.

Fora e dentro.

O Templo da Música...

E a Jugendstil.


Viena é uma cidade de Cafés. Nisso é como Itália.


Gemütlichkeit, a Dolce Vita vienense. Que nada a venha estragar.

Kaffee mit Glas Wasser serviert wirt, sempre em tabuleiro cromado.

 Wings over Vienna.

 Viena é cidade de Museus...

De Klimt...

E cidade de Arquitectura. A fila é para o Requiem de Mozart na Karlskirche. Viena é Música.


E Viena é liberdade artistica.

Varanda da Europa, esta sim, a única.

E mais, e mais...

A famosa nº 2, uma linha de superfície perfeita pela Ringstrasse.

E o menu mais típico. Nem é muito caro.


Tenho muito orgulho na minha Europa, sem perdoar barbaridades passadas, integrando-as na trágica fatalidade humana. Mas se tivesse de escolher um país onde me orgulhasse de ter nascido, era Itália, Áustria ou Suécia.

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A seguir vou visitar Skåne (Scania). Lund será o meu poiso.

domingo, 22 de julho de 2018

O inevitável percurso dos cafés vienenses
- Alt e Hawelka favoritos.


Outra 'mania' que levei a Viena foi visitar todos os cafés referenciados nos roteiros, ou porque foram cafés 'literários' de gente ilustre, ou simplesmente por serem bonitos: o Central, o Schwarzenberg, o Bräunerhof, o Mozart, o Oper Café, o Kleines, o Alt Wien, o Frauenhuber, o Landtman, o Sperl, o Dommayer ... 

São uma instituição reconhecida pela UNESCO, que os descreve assim: 'mesas de mármore, cadeiras de madeira com costas curvas, uma mesa de jornais, decorações revivalistas com capitéis ou dourados'; 'sítios onde se consome espaço e tempo, mas na conta só se paga o café'. Stephan Zweig escreveu sobre eles, Thomas Mann, Schiele, Klimt, Mahler, Freud ou Trotsky eram habitués.Também eu gostava de ser.

Falhei alguns. Hoje, evidentemente, muitos estão invadidos por multidões de turistas que fazem fila e estragam todo o ambiente; outros ainda servem hamburgers e wienerschnitzels e parecem o actual Martinho da Arcada. Poucos sobram com o devido recato, requinte e respeito para quem quer ler o jornal e trocar ideias - e, isto em favor da Áustria, fumar um cigarrito ou charuto ainda é largamente aceite no interior. Uma coisa é certa: se se quer provar, apreciar, saborerar um bom café, sem ser em Itália, só em Viena ! Excelente gostinho, muito bem tirados e apresentados com (algum) cuidado, entre três e cinco euritos

Começamos no Café da Ópera; sob mais de 30º, só se consegue estar na esplanada, à sombra. É um sitio óptimo para se ver passar tout le monde, vienenses e visitantes - tantas línguas, tantas vestes.




O Café Central, o mais turístico

Na Herrengasse, está numa esquina onde passam constantemente carroças turísticas. O fedor na esplanada é pavoroso, dá vómitos sequer pensar em tomar café ali. Entremos, pois, se a fila é curta.




Tivemos sorte: depois de uma pequena espera, uma mesa previlegiada. E uma gulodice com o café:

'Trio de petits fours'

O Frauenhuber, o mais antigo:

 
Fica na esconsa rua Griechenbeisl, a que resta da Viena medieval. Esta casa barroca começou por ser uma estalagem, que desde o séc. XVIII foi ganhando prestígio. Agora é um restaurante assim-assim.


Consta que Mozart o frequentava; ele e também Beethoven deram concertos nas suas salas. Mark Twain passou por lá.


Cheryl Studder, Riccardo Muti, Suzanne Mentzer, quando estiveram em Viena no Don Giovanni (1990).

Café Alt Wien
Uma preciosidade, na Bäckerstrasse por trás da catedral.

À noite ainda é mais acolhedor.


É o ideal para ler o jornal, mas só há imprensa em alemão. Tem que se ir primeiro a um quiosque internacional. Bom para um acordar tranquilo. Queria um assim à minha porta.


Kleines Café
Já o Kleines, por aconchegado de mais, impede conversas porque seriam ouvidas por todos na pequena sala. Aconselhado a solitários. A esplanada fica numa praça bonita, fente à Igreja Franciscana (riquíssima por sinal, de mármores e dourados).



[esta foto não é minha - encontrei a sala sempre cheia]

Café Schwarzenberg

Grande casa, muito belle époque, às 11h da noite estava vazio. Parece que durante o dia é diferente. Como é próximo do Musikverein, em noites de concerto certamente enche.



O café era bem bom, mas sobre o amargo.

O Café Mozart é tristonho, desilude:

Café Hawelka


Na zona comercial mais luxuosa, é bem bonito e oferece jornais. Só estava vazio porque o calor pedia esplanada.

Um interior quente e com patine.

Muito importante durante a guerra fria, o Hawelka foi frequentado por Günter Grass, Henry Miller, Andy Warhol, Václav Havel.

Leopold Hawelka foi também proprietário do Alt Wien.

Café Diglas
A nossa escolha diária acabou por ser o Diglas: o café bem servido, gostoso, local central mas sossegado e agradável.




E até acabamos num Wienerschnitzel - boas batatinhas !



Ah, esquecia-me de um - o Kunsthistorisches Museum Café, situado sob a majestosa cúpula octogonal do Museu, de interior profusamente decorado em mármores, colunas, arcos, capitéis, pinturas, dourados... Aqui foi uma tarte Klimt - muito boa, apesar da parolice - tinha um biscoito em forma de medalhão inspirado em Klimt... mas foi bem acompanhado de um Riesling fresquinho.




Sucumbi, portanto, e vergonhosamente, aos tempos e costumes de agora: turismo gastronómico primeiro, Letras, Artes e História... logo se verá ! :D