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segunda-feira, 19 de setembro de 2016
A nona de Mahler na Casa da Música
Passados seis anos do início da integral, a Orquestra do Porto / CdM programou finalmente a 9ª sinfonia de Mahler. É uma obra gigantesca, desvairada, estrondosa e de um lirismo absolutamente genial, um monumento em música para nos deixar entre o esmagadinho e o boquiaberto.
Mahler descreveu a execução da 9ª com expressões como "sombrio", "com a máxima violência", "com raiva", "como uma procissão", "docemente cantado", "apaixonadamente", "levitando", "morrendo". Sobretudo "morrendo", muito repetido na pauta. Quando a compôs, estava muito doente e desesperado com problemas - morte da filha, desavenças coma esposa, má vontade das instituições de Viena que lhe faziam a vida cada vez mais difícil. Sentia que o fim estava perto.
Nesta sexta-feira foi o estoniano Olari Elts quem dirigiu; já o tinha ouvido e apreciado, não podia perder este concerto; e foi mesmo imperdível, Elts tirou o máximo que a orquestra pode dar, sobre-dimensionada para cumprir as indicações de Mahler. O som foi muito potente, cheio, doce quando era caso disso, equilibrado e sedoso. No final, os pianíssimos executados com grande expressividade, fazendo perdurar os finos filamentos das cordas suspensos no espaço da sala. "Levitando". Mas também as quase cacofonias fragmentárias do 2º andamento ("desajeitado e muito grosseiro") soaram excitantes de dinâmica e contrastes, com a orquestra toda solicitada num ritmo diabólico.
Enfim, a 9ª é o adeus de Mahler, os últimos compassos parecem esvanecer-se lentamente na distância e no tempo como se fossem uma despedida. Que volte sempre.
Deixo Karajan no adeus final:
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quinta-feira, 8 de setembro de 2016
Anne-Sophie Mutter, o melhor CD do op. 61 de Beethoven
Postado de Gand, último dia, muito calor e demasiada gente.
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As minhas recensões discográficas (e literárias) são sempre tardias e ultrapassadas; não ando actualizado em cima da última edição de CDs ou livros, vivo muito de ir descobrindo ao meu ritmo idoso, eh eh. A descoberta é atrasada mas muito minha :)
Pois é um portento mais que encontrei - a gravação do Concerto para Violino op.61 de Beethoven por Anne-Sophie Mutter com a New York Philarmonic dirigida por Kurt Masur. Beneficia de uma sonoridade extraordinária (SACD da D.G.), mas isso é só um "plus", o sumo está nas mãos de Mutter cuja maturidade prova quanto se pode ir aprendendo ao longo dos anos.
Os dedos da violinista fazem milagres no Stradivarius, mesmo que saibamos que a mestria - a sensibilidade, as pausas, os glissandos e trinados - é pensada e escolhida. Mutter reinventa, prolonga, encurta, desliza, reforça, amacia, vibra, nada soa como se fosse rotina e hábito.
Masur dirige, claro, uma versão clássica, sem nada de reinterpretação historicista. É a New York Phil com toda a genica, um som cheio e imponente, dinâmico, mas que sabe ser macio e subtil, submetido ao rigor que falta a muitos (veja-se o mal que dirigem esta obra Dudamel ou Baremboim ). Não entendo as queixas que li (p.ex. na Gramophone) de que Mutter toma excessivas liberdades, que 'dobra' e 'distorce' as linhas tal como escritas na pauta: uma das coisas mais fantásticas na gravação é essa liberdade, essa capacidade de curvar o espaço-tempo musical sem comprometer a autenticidade, de cumprir mesmo quando se vai escapando.
No segundo andamento (larghetto) Mutter faz silêncios e crescendos de cortar a respiração - nunca ouvi este fraseado do violino tão de arrepiar. Só em casos de excepção como estes é que uma opção "à antiga", lenta e pesada, com grande orquestra, faz sentido, e faz mesmo duvidar da razão dos que preferem a abordagem histórica. Por exemplo, a gravação que Harnoncourt dirigiu com Gidon Kremer é muito mais disparatada, inexpressiva, chata, dispensável. E é sabido quanto eu gosto desse grande senhor.
Outras versões podem cansar ( a de Karajan ! ), esta pode ficar a tocar todos os dias, tal é a pureza e limpidez do som, quer do violino, quer da orquestra, som que o registo superior da D.G. não comprime.
Depois, temos de prenda dois extras - os Romances para violino do mesmo Beethoven. Não terão o fôlego do concerto, mas a vivacidade interpretativa dá-lhes um encanto redobrado. E também aí encontramos novidades da parte de Mutter, que estava imparável nesta gravação.
Um disco que adoro. Aqui ao lado está outro, ainda mais "antigo", que nunca tinha ouvido e de que espero vir a falar: a colectânea em 9 CDs de concertos para piano de Mozart, toca Christian Zaccharias, com várias orquestras - as melhores são dirigidas por David Zinman e Marriner.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Cheltenham e os Barokksolistene: um festival
Era numa cidadezita assim que eu gostava de viver. Pequena, bonita e airosa, florida e sossegada, claro; e que me desse ao menos uma vez por ano uma série de bons concertos, do mais alto nível. O mais parecido que tenho é Guimarães com o seu excelente GuiJazz, mas prefiro música clássica; já fui duas ou três vezes ao de Sintra, só que agora tem sido de uma total vulgaridade; o da Póvoa ainda escapa mas o sítio e o ambiente valem nada.
A pequena Cheltenham tem séries de casas elegantes do séc. XIX em terrace a que chamam Crescent mesmo sendo uma frente plana e não em crescente, pintadas de branco ou creme, algumas lojas com requinte numa larga rua pedonal arborizada, um jardim central aberto e um Teatro - o antigo Town Hall.
A elegância 'regency' de Cheltenham.
A fama de Cheltenham vem das corridas de cavalos, o que leva lá uma multidão posh durante o festival em Março. Interessa-me mais a ligação à música clássica que vem de Gustav Holst, lá nascido em 1874, e com placa e estátua no jardim central.
Gustav Holst, estátua no jardim.
Este festival(zito) de música muito descomprometido e informal é um misto de Proms e folk - Proms na informalidade e popularidade, folk pela malta que vai sentar-se na relva do jardim com gelados ou fatias de bolo ouvir os concertos livres (em geral clássicos muito ligeiros) debaixo de um palco amovível coberto. Sempre com o relvado impecável !
Dos Proms de Londres veio este ano um dos pontos fortes do programa - Nicola Benedetti com a Liverpool Phil dirigida por Vasily Peterenko. Vinha também o pianista Melvyn Tan (Beethoven, Liszt). Pelo meu calendário, tive esta escolha:
Barokksolistene de Bergen
Bjarte Eike, direcção/violino
Purcell, Suite from Diocletian
Corelli, Concerto Grosso in D Op. 6 No 4
Vivaldi, Concerto in D, RV 93 (mandolino)
Rebel, Les caractères de la danse
Bach, Concerto for 2 violins BWV 1043
Handel, Royal Fireworks Music.
A execução foi de primeira água, seguindo o modelo de fidelidade histórica nos instrumentos, e nos tempi de forma radical, sem o mínimo vibrato, e foi tão empenhada e calorosa, tão adequada a concerto de Verão, que estive feliz de princípio ao fim.
Gostei imenso do entusiasmo do público, com quatro chamadas ao palco e forte aplauso - mas todos sentados. Cada vez me irrita mais a moda pacóvia seguida no Porto que estipula, mesmo no concerto mais falhado, três bravos e dezenas de entusiastas em pé de imediato, a mostrar como são bons a aplaudir, como se tivessem percebido o momento divino único que a muitos outros deixou enfadado pela fraca execução. Enfim, coisas de província.
A formação inicial mais restrita foi alargada nos 'Fireworks' com uma secção de metais à boa maneira inglesa: forte e festiva.
A opção conceptual que Bjarte Eike imprimiu ao criar o agrupamento BaS em 2005 é com certeza iconoclasta e arriscada mas não deixa de ter graça e o mérito de percorrer um caminho novo na procura do público jovem dos concertos pop/rock/folk. Diz ele que a música barroca era a música pop da época, ou a música de pub na época de Purcell; e por isso os BaS, em várias configurações, procuram um ambiente informal, alegre e comunicativo, nos seus concertos. Pode parecer que estão à procura de êxito e aplauso fácil, mas quando os ouvimos tocar percebe-se o elevado grau de mestria e dedicação. Comparo-os aos mediterrânicos Hesperion XXI de Savall, também eles seduzidos pelo folclore andalus, arménio e outros.
O CD mais recente dos Barokksolistene, com música de Handel, Corelli e Veracini:
Como amostra deixo ficar esta ária , canta (menos bem) Tuva Semmingsen.
O fairest of ten thousand fair (Acis & Galatea - Händel)
O site oficial é divertido:
http://barokksolistene.com/alfa/
segunda-feira, 11 de julho de 2016
Grande dia no Festival de Cheltenham, e os despachos no Euro 16
Hei-de voltar ao assunto, mas o concerto dos Barokksolistene da Noruega foi um dos melhores da minha vida. Fasch, Corelli, Vivaldi, Rebel, Bach e os mais fantásticos 'Fireworks' de Handel numa sala cheia e de acústica fenomenal - o Cheltenham Hall.
À saída, entusiasmado, nem me lembrei da final P-F em foot. Who cares, really. Depois soube que houve um francês brutamontes que despachou o CR e só aí o jogo me despertou algum interesse, não patriótico, mas uma fobiazita anti-gaulesa. Foi de pouca dura, foram despachados eles também, após o devido sofrimento.
Grande orquestra, dirigida com imensa energia e alegria, vencedora da noite, esta Barokksolistene de Bergen, que Bjarte Eike fundou em 2005.
domingo, 12 de junho de 2016
"Cântico do Sol" de Gubaidulina estreia na CdM
O Cântico do Sol de Sofia Gubaidulina teve a sua estreia na Casa da Música num programa em que reinou o violoncelo, e que incluiu três canções corais de Brahms e a suite para violoncelo BWV1007 de Bach, que só por si já valeria o concerto se fosse boa a prestação de Filipe Quaresma: foi excelente, teve alguns toques pessoais (uma ou outra dissonância salientada, acentuações inusitadas), nada Rostropovichiana - a opção foi mais rápida, ao estilo barroco revisitado, e resultou fantástica na Courante vertiginosa.
Mas o plat de résistance era o Cântico do Sol de 1997, para violoncelo, côro de câmara e percussão.
Côro Casa da Música
Kaspars Putninš, direcção musical
(titular do Coro Filarmónico da Estónia)
Filipe Quaresma, violoncelo (e outros)
Mário Teixeira, percussão
Manuel Campos, percussão
Sofia Gubaidulina nasceu numa cidade tatar (tártara) - Chistopol, na actual república autónoma do Tatarstão, próximo da bela, histórica, 'incontornável' Kazan. Actualmente a sua vida artistica é repartida entre a Alemanha e a Suécia.
O Cântico do Sol é uma obra coral religiosa sobre texto de S. Francisco (Laudes Creaturarum) em dialecto úmbrico italiano. Praticamente isenta de melodia, com o côro limitado a pouco mais que cantochão, a obra vale pelo protagonismo quase histérico do violoncelo, polivalente, e por harmonias bem conseguidas com o violoncelo, a percussão e as vozes. Apreciei sobretudo os momentos em que houve contraponto (côro /violoncelo).
Tenho uma gravação de 2012, com a Kamerata Baltica e Nicolas Alstaedt ao violoncelo; por comparação, esta na Casa da Música fica a perder, mas valeu pelo desempenho de Quaresma e pela componente visual e espacial, que tem a sua importância.
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quarta-feira, 27 de abril de 2016
Excursão anual à FCG: Tom Koopman + ? CNB
Primeira passeata desde a malfadada operação de Março, este ano vou à capital para um programa de luxo na Gulbenkian dirigido por Tom Koopman. Depois conto.
Tenciono também ir ao Teatro Camões para o Romeu e Julieta de Shakespeare (excertos??) com a C.N.B., uma incógnita algo suspeita.
Como apetizer, daqui fica o belíssimo Laudate dominum das Vesperae Solennes de Confessore K339 de Mozart.
Canta Barbara Schlick, com a Orq. Barroca de Amsterdam, dir. Tom Koopman.
Infelizmente Koopman não traz a Lisboa a sua Amsterdam Baroque... e quanto a solistas, nomes pouco conhecidos:
Yetzabel Fernandez, soprano
Bogna Bartosz, mezzo/contralto
Com Bartosz, Koopman já trabalhou, por exemplo aqui em Bach (BWV 243a):
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Como extra turístico, quero ver se desta vez faço a carreira 28 Estrela acima, Estrela abaixo.
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sábado, 5 de dezembro de 2015
Ana Quintans e Martin André em estado de graça na CdM
O Martin André que eu julgava conhecer dos tempos em que dirigia (mal) a OSP nos claustros do mosteiro de S. Bento da Vitória - há uns 15 anos ? - não tem nada a ver com o Martin André que ontem dirigiu na Casa da Música um magnífico concerto com a participação da soprano Ana Quintans.
Quer o Mozart (sinf. nº 34) quer o Beethoven (sinf. nº 2) foram dirigidos com um entusiasmo transbordante e uma correcta opção de tempos, sem rubato, com muita precisão na coordenação dos naipes e uma bela sonoridade. Uma surpresa enorme, parabéns sr. Martin André, onde é que tem andado a estudar, aprendeu muito e bem, sobretudo a nova abordagem à música pré-romântica. Ah, e deixou a milhas o anémico residente Baldur Brönnimann.
Parabéns aos dois, foi o melhor concerto a que assisti em todo o ano na Casa.
Casa da Música, 4-12-2015
OSP, dir. Martin André
Ana Quintans soprano
W. A. Mozart - Sinfonia nº 34
W. A. Mozart
- Se il padre perdei
- Zeffiretti lusinghieri (da ópera Idomeneo)
C. W. Gluck
- O del mio dolce ardor
- Donzelle semplici, no, non credete
L. van Beethoven - Sinfonia nº 2
Ana Quintans canta uma aria de F. António de Almeida :
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sexta-feira, 27 de novembro de 2015
Abriu a bilheteira, mas o programa não agrada.
Começou a venda avulso para a temporada de 2016 na Casa da Música. Não sou apreciador da música russa romântica e do período soviético (com algumas excepções), como se deve notar pela sua ausência aqui no Livro, evitarei por isso grande parte dos concertos. O ponto alto será provavelmente a 9ª de Mahler em Setembro, que será dirigida por um maestro que me agradou bastante, Olari Elts.
Pior ainda que em anos anteriores, as assinaturas esgotaram boa parte dos melhores lugares da sala, sobrando os extremos de fila. Já se sabe o que vai acontecer: os compradores irão a aguns concertos, os mais chamativos, e deixarão cadeiras vazias em muitos outros. Enfim, talvez venha a poder aproveitá-los...
Também evitei cuidadosamente o actual maestro Brönnimann, suprema mediocridade que faz ressaltar o mérito do antecessor Christopher König.
A minha lista CdM para 2016:
8 de Janeiro
Barry Banks e Ezgi Kutlu cantam árias de Rossini, Bellini, Donizetti.
Dirige David Parry.
17 de Janeiro
As Vésperas de Rachmaninoff.
Paul Hillier dirige o Côro CdM.
8 deMarço
G. Sokolov, a peregrinação anual, programa surpresa.
24 de Março
Concertos barrocos para oboé, com Alfredo Bernardini.
Vivaldi, Platti, Marcello e Bach.
1 de Abril
Suites 1 e 2 de Peer Gynt.
Dirige John Storgärds.
15 de Abril
Arvo Pärt (In Memoriam), Mozart e Tchaikovsky.
Dirige Alexander Liebreich.
20 de Maio
Haydn, Mozart com António Rosado (pn), 7ª de Beethoven.
Dirige Christoph Altstaedt.
12 de Junho
Canções de Brahms, Cântico do Sol de Sofia Gubaidulina
Côro e Trio dirigido por Kaspars Putninç
16 de Setembro
A 9ª de Mahler, dirige Olari Elts.
7 de Outubro
O célebre Rach 3, já quase esgotado.
Toca Rafael Kyrychenko, dirige Joseph Swensen.
19 de Novembro
A Criação de Haydn, dir. Douglas Boyd
Cantam Susana Gaspar, Robert Murray, Andrew Foster-Williams
Receio seja bem pior que a de McCresh na Gulbenkian, mas não podia deixar passar.
Aqui fica uma gravação do In memoriam de Arvo Pärt.
Radio Filharmonisch Orkest, dir. James Gaffigan.
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quinta-feira, 16 de julho de 2015
Ainda a noite inaugural do Festival Schleswig - Holstein (SHMF)
O concerto a que me referi no post anterior abria o festival de música clássica do estado mais a norte da Alemanha, o Schleswig-Holstein, once ficam Kiel e Lübeck.
Decorre em Julho e tem como orquestra principal a Sinfónica da NDR ( Norddeutscher Rundfunk, a de Günter Wand ) mas também a jovem orquestra de Lübeck, que quer conquistar melhor estatuto no panorama alemão.
O MUK, que lembra os nossos pavilhões multiusos, deixa a desejar.
Houve discursos, de que não percebi uma palavra, e um monumental beberete com petiscos no foyer, um grande salão circular na estrutura de caixote barato que é o MUK (Musik und Kongresshalle).
(devo referir a excelência das mini-quiches e dos vinhos; mas passou-me pela cabeça a dúvida se não estaria ali uma parte da dívida grega).
Mas toda a gente estava ali à espera do 'seu' Brahms. Foi superlativo, e o maestro Thomas Hengelbrock foi chamado ao palco cinco vezes no aplauso final, suponho que é bem bom, tudo sem úúús nem um único espectador de pé. Bem me apetecia, mas confesso que também não quis dar nas vistas...
A NDR Sinfonieorcheter e o seu titular Thomas Hengelbrock deram-me a melhor 2ª de Brahms que ouvi ao vivo. Vielen dank.
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Brahms, orquestra da NDR, noite germânica
Já nasceram a tocar Brahms, tocam Brahms nos melhores instrumentos, Brahms é uma vivência diária. Não admira que a complexa e genial Segunda Sinfonia pareça fácil. Fluente, a orquestra está habituada a todos os detalhes, pianissimos , contrapontos, stacattos, tudo sai perfeito, macio mas dramático, como se não pudesse ser de outra maneira (e pode).
A alma germânica: perfeita como se nāo pudesse ser de outra maneira - mas pode.
Grande noite de música em Lübeck. Dirigiu Thomas Hengelbrock, no feio Musik und Kongresshalle.
[Postado em Lübeck]
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Casa da Música:
festa barroca em traverso e bisel, com Andreas Staier
E pronto! agora até Setembro não volto à Casa da Música, terminou a minha temporada.
E terminou bem com Andreas Staier a dirigir a Orquestra Barroca da CdM. Não são os premiados Freiburger Barockorchester, longe disso, mas desempenharam muito bem o programa de Bach e Telemann, em que Staier brilhou com a sua mestria.
Note-se o bom português: direcção com c, Maio com maiúscula...
O cravo era lindíssimo, um Titus Crijnen de 2005:
O concerto terminou com o curto mas jubilatório Presto do concerto TWV 52 e1 de Telemann, para duas flautas (traverso e bisel) e cravo. Uma autêntica celebração, a que ninguém resiste.
Uma versão do Giardino Armonico:
Uma versão esfuziante, talvez de mais:
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segunda-feira, 13 de abril de 2015
Hummel, para piano e violino, op. 17
Voltando à música: cá está uma grande obra injustiçada. Um concerto para dois instrumentos solistas não é para qualquer um. Mozart fez um (flauta e harpa), Beethoven atreveu-se mesmo até três instrumentos (triplo concerto), Brahms tem um duplo mas menos conseguido. Johann Nepomuk Hummel, aluno de Mozart, era contemporâneo e amigo de Beethoven, e um compositor meritório prejudicado pelo brilho maior do genial colega. Mas este concerto é extraordinário, de uma escrita muito burilada e bem conseguida mesmo que sem grande complexidade. Falta-lhe em emoção e intensidade (nisso Beethoven é inexcedível) o que lhe sobra em técnica e muito trabalho. Se fosse necessário, bastavam estes dois para provar que Arte é trabalho, sim, mas não só - não só de modo nenhum.
O que Hummel consegue no 'duplo concerto' op. 17 de 1805 é um contagiante, agradável, requintado divertimento. É um gosto com sorriso ouvir o diálogo entre piano e violino esculpido e rendilhado em múltiplas variações, com muita mestria na parte de piano. No fundo, mais próximo da música antiga que da romântica. Soa imenso a Beethoven mas de forma mais académica (brilhantemente académica), prazenteira, como se nos estivesse a dizer 'olhem como eu me divirto a compor, olhem que voltas eu dou à música, olhem como eu gozo a variar mais um bocadinho'. Música adequada a esta Primavera que se inicia, cheia de côr e trinados.
Se o inicial Allegro já é admirável, o Andante é talvez um ponto alto, com o tema a ser desenvolvido em seis variações pelos dois solistas, mas não só - há pequenos apontamentos de oboé, violoncelo e trompa, num inesgotável fluxo de ideias decorativas, como se diz no livrito do CD. As ressonâncias mozartianas entrelaçam-se de forma engraçada com as beethovenianas.
Porque não é tocada esta obra em concerto? Sobretudo porque precisa de dois solistas, o que sai caro, e de ser bastante ensaiada. Com a sua meia hora, ocupa uma das partes do concerto. Seria ideal para complementar o triplo de Beethoven.
London Mozart Players
Dir. e piano: Howard Shelley
Hagai Shaham, violino
I. Allegro con brio 00:00
II. Theme & Variations: Andante con moto 14:17
III. Rondo 23:58
(se está com pouco tempo, comece pelo Andante e as suas variações alternadas em crescendo).
sábado, 28 de março de 2015
Valencia + Missa Solemnis na CdM
Estarei uma semana em Valencia. Na volta escreverei sobe a récita da Norma com Mariella Devia no Palau de les Arts.
Boa semana.
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P.S.
Ontem, na Casa da Música, houve Missa Solemnis. Dirigiu o estónio Olari Elts, e a orquestra não podia ter estado melhor ! Foi um Beethoven soberbo, com aqueles 'milhares' de linhas melódicas, seguidas ou simultâneas, fluindo em catadupas, e uma sonoridade luxuosa nas cordas e metais; a Missa é também uma das obras mais difíceis e ricas para côro, e só nesse aspecto tive saudades do côro Gulbenkian; o da Casa da Música está um bocado verde, aqui e ali descoordenado, e a plenas vozes abafa a orquestra. A sala mostrou o melhor da sua acústica: aquele som cheio e poderoso não estava comprimido nem distorcido, era um prazer de se ouvir.
Grande noite de música, Elts e ONP de parabéns.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Três horas de concerto, sr. Grigory ! Inacreditável, até Tarkovsky foi invocado.
Que dizer de mais uma prestação magistral ? Demasiado fora deste mundo, Sokolov está numa fase interiorizada, meditativa, consegue pausas e silêncios tão ou mais eloquentes do que o pianismo virtuoso que exibe sem cansaço, quase três horas com repouso apenas no intervalo.
Eu temia o Schubert; pois foi onde ele mais emocionou. Nitidamente este concerto foi dedicado a Schubert, onde se notou toda a intensidade e a profunda concentração de Sokolov. Nos Moments Musicaux (D780), por exemplo, excedeu-se no andantino, tocado com uma transcendente leveza, foi um dos momentos altos da noite.
Depois de 6 encores, já ninguém acreditava que houvesse mais música, mas Sokolov volta a sentar-se e toca algo que vem de longe, que apenas lembrava vagamente de universos estranhos, sombras do passado, que é isto? Ouvi há muitos anos, num filme, russo, qual ... pairava num denso nevoeiro de ficção espacial...
Reconheci depois: é o Bach /Arternyev para o sublime Solaris de Tarkovski, uma interpretação ao órgão de Ich ruf zu Dir, Herr Jesu Christ.
Grato ao blog Rasante pela ajuda.
Já Brendel, por exemplo, tinha interpretado ao piano, sim ! aqui está, mas muito mais lento:
Sokolov deu-lhe outra vida, é um poeta por música, pelo menos em concerto. Parece que este vai ser gravado num futuro CD, apesar de algumas tosses; veremos o que sobra dessa poesia num registo digital.
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Dizer 'sala cheia' é pouco : foram colocadas cadeiras extra no palco, mais umas dezenas de lugares; a Casa foi pequena, entre as 9 e a meia-noite.
segunda-feira, 23 de março de 2015
Que sorte ! A Partita BWV 825 por Sokolov !
Amanhã na Casa da Música, uma daquelas pristinas esmeraldas de Bach, que se ouvem trezentas vezes e cada vez mais se admira. De uma riqueza melódica sem igual, ao nível das variações Goldberg, a capacidade de Bach para inventar e desenvolver um jorro de música nas teclas é de nos deixar sem fôlego. Por exemplo na Courante, ponto e contraponto, mão direita e esquerda, ambas a costurar melodias em ritmo alucinante. Ou na Sarabande, prolongando a frase para além do possível, a subir aos infinitos, e baixando em pausada espiral até à serenidade absoluta.
Vai tocar Grigory Sokolov, fica aqui por Murray Perahia, outro pianista que elegi como divino, sobretudo em Bach e Scarlatti.
00:00 - Prelude
01:59 - Allemande
05:06 - Courante
07:59 - Sarabande
13:02 - Menuet I & II
16:19 - Gigue
Depois, Sokolov tocará Beethoven (Sonata em Ré maior Nº 7 Op.10) e Schubert (Sonata em Lá menor, D. 784, op.143).
Peço desculpa, mas já não é a mesma coisa.
Falta saber ... dos 6 'encores' !
Calha aqui bem uma citação conhecida,
"Sem Bach, Deus seria uma criatura de terceira ordem."
Cioran
----------------------Maria João Pires, menos bem ou apenas diferente de Perahia, aqui.
sexta-feira, 6 de março de 2015
Concerto para o fim-de-semana:de Touchemoulin, para Flauta Transversa
Um belo concerto no mais puro barroco do redescoberto Joseph Touchemoulin (1727 - 1801), compositor de carreira europeia: nasceu em França, estudou em Itália e foi consagrado na Alemanha.
Aluno de Tartini em Pádua, músico da corte em Bona, aí foi nomeado mestre-de-capela em 1761, transitando depois para a orquestra de Ratisbona durante a década de 1770. No apogeu, cerca de 1880, era considerada uma das grandes orquestras germânicas.
Este concerto, escrito na tradição de Vivaldi, Locatelli ou Veracini, deve ter sido composto para um flautista veneziano famoso na época, Augustinelli.
Concerto a flauto traverso, 2 violini, alto viola e basso, in La maggiore, del Sig. Giuseppe Touchemoulin.
Alexis Kossenko (flauta)
Daniel Sepec (violino)
Thomas de Pierrefeu (violone)
Raphaël Collignon (cravo)
Les Inventions / Patrick Ayrton (dir.)
O maravilhoso Largo é ao minuto 5:36
Mais:
http://www.socla.com/site_pl/actu/pdf/touchemoulin.pdf
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[fonte: notas do CD B001O8C5HI da Ramée, #807]
sábado, 17 de janeiro de 2015
Elisabeth Leonskaja com Ainars Rubikis: brilhante !
Pessimismo desmentido: nenhum dos meus receios se concretizou no concerto desta 6ª feira na Gulbenkian. E sobretudo a articulação e o entrosamento entre a pianista e a direcção de orquestra foram perfeitos - perfeitos como é raro acontecer. Apesar da diferença de idades, Leonskaja e o letão Rubikis entendem-se musicalmente às mil maravilhas, talvez com uma pequena tendência do maestro para contenção e timidez, ao contrário do que eu tinha lido.
A orquestra Gulbenkian foi tão bem dirigida, tão meticulosmente acertada com o piano extrovertido e intensamente romântico, às vezes explosivo, de Leonskaja, que posso afirmar, contente: esta foi a melhor interpretação que ouvi até hoje ao vivo das duas obras primas para piano de Brahms.
Talvez gostasse de um andamento um pouco mais rápido nos andantes sobretudo; houve um ou outro dedilhado demasiado seco onde ou gostaria de mais detalhe ou delicadeza; mas uma interpretação nunca é perfeita. Esta transmitiu de forma transbordante todo o pathos que há em Brahms, com particular entusiasmo da pianista, e conseguiu esse milagre raro de acerto milimétrico entre entradas da orquestra e do piano - muitas vezes mal tratadas - e que resultaram mesmo por vezes surpreendentes, como se nunca antes tivesse ouvido 'aquele' sublinhado nas cordas, 'aquele' staccato onde não se esperava e que resulta tão expressivo.
No final, o entusiasmo foi recíproco - a pianista não se cansava de agradecer efusivamente ao amigo Rubikis, e igualmente às secções da orquestra, as cordas graves, os sopros - divinalmente executados ! De brinde, ofereceu a repetição do allegretto final do 2º concerto.
Ganhou Brahms, de forma contundente ! Que grande música esta.
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O concerto foi gravado, provavelmente passará no Mezzo. Sala esgotada, poucas tosses.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Lisboa, FCG, dois "Brahms" com Elisabeth Leonskaja.
Escapada anual a Lisboa, desta vez mais cedo que o habitual. É que, podendo, não perco um concerto de Brahms para piano, e Elisabeth Leonskaja vem à FCG tocar os dois de uma assentada. Raridade.
Leonskaja não é conhecida pela delicadeza, nem pela subtileza, nem pela excelência do toque. Não é nenhuma Maria João Pires. É uma pianista à boa maneira russa (por acaso é georgiana), técnica impecável, força máscula, um pouco martelado às vezes, mas abundante em dinâmica e pathos. Em Brahms pode resultar ora melhor, ora pior. Não espero pianíssimos sublimes, mas sangue, suor e lágrimas.
Preocupa-me mais Ainars Rubikis, que vai dirigir a orquestra da Fundação, do qual tenho ouvido dizer praticamente a mesma coisa: falta de subtileza e empenho nos momentos delicados, tendência para os fortíssimos com excesso de metais. As duas sensibilidades parecem demasiado ressonantes, preferia algum equilíbrio.
Veremos. De resto, há pouco para fazer em Lisboa, por esta altura.
Fica a Leonskaja com Paavo Järvi :
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Casa da Música 2015, a minha selecção de concertos
Pobre mais uma vez, como estes tempos, a programação para 2015 da Casa da Música nos seus 10 anos.
Dedicado à Alemanha, 2015 deveria (poderia ?) ser um dos melhores anos de sempre, com alguns grandes nomes convidados. Além de Sokolov, que gosta de cá vir, Andreas Staier, que também costuma aparecer, e Christian Zacharias, a solo, teremos uma única orquestra decente - a Akademie Alte Musik Berlin - mas nenhum grande maestro. A sublime Missa Solemnis, imperdível mesmo pela orquestra residente, é talvez o ponto alto.
24 de Março
Grigory Sokolov: Sonata op.10, nº3 de Beethoven)
27 de Março
Olari Elts dirige a Missa Solemnis.
17 de Abril
Alexander Shelley dirige a 4ª de Brahms.
3 de Maio
Michel Sanderling dirige a nº 64 de Haydn e a 5ª de Mahler.
30 de Maio
Andreas Staier, um programa de Telemann e Bach com a orq. barroca CdM.
18 de Setembro
Joseph Swensen num belo programa: Wagner (Idílio de Siegfried), Haydn (nº 82 'Urso') e Brahms, a nº 1, a melhor nº 1 jamais escrita.
1 de Novembro
Akademie Alte Musik: Bach (cantatas para soprano, concertos)
21 de Novembro
Baldur Brönnimann dirige um programa de Wagner - lieder e o Liebestod com Anna Hofmann.
28 de Novembro
o pianista Christian Zacharias, num programa essencialmente dedicado a Scarlatti e Chopin.
4 de Dezembro
Leopold Hager dirige Mozart (nº 34), duas árias com a soprano Ana Quintans, e a 2ª de Beethoven.
Fora da clássica, e sem nada a ver com Alemanha, destaco a
4 de Março
Al di Meola e a sua orquestra de jazz interpretam música dos Beatles. Já esteve em Lisboa (Aula Magna).
domingo, 16 de novembro de 2014
GuiJazz 2014: Lee Konitz, e a Trondheim Jazz com Joshua Redman
Guimarães continua uma preciosidade quase única por cá. Agenda cultural, espaço histórico, museus, comodidade urbana, comércio variado e abundante com algumas lojas 'de culto', muitas delas alimentadas pela indústria e artesões locais. É a minha nº 1 para compras de Natal, muito melhor que qualquer shopping, com a vantagem de ar livre, espaços bonitos e cafés onde até se pode ainda fumar. A gentileza das gentes, que sempre atendem bem dispostas e afáveis, é outro ponto forte.
Ainda para mais, tem um dos poucos eventos nacionais de topo, frequentado por verdadeiras elites, o melhor que se faz nessa arte : o Guimarães Jazz.
Este ano escolhi ouvir Lee Konitz e Joshua Redman, ambos saxofonistas de estilo ó quão diferente, o segundo acompanhado por uma orquestra de jazz de dimensão média e origem muito nórdica - a Trondheim Jazz Orchestra (*).
Sei pouco de jazz, aprecio como sou capaz de apreciar música em geral - a qualidade da execução solista e de conjunto, os diálogos entre partes, a estrutura da peça, temas, invenção harmónica e rítmica... (já que de melodia o jazz é menos produtivo). De nomes, história e referências sou uma quase nulidade, e escolho concertos ouvindo primeiro algumas amostras a ver se me agradam ( a não ser que seja um daqueles monstros sagrados, Gary Peacock, Paul Motian, John Surman, Garbarek...).
Lee Konitz deu um concerto muito bonito, suave e melodioso, usando os tons mais macios e doces do saxofone e fazendo jazz quase clássico, com swing na secção rítmica, muito nova-iorquino. Sempre discreto, as entradas do sax nasciam quase despercebidas do silêncio, eram primorosas no progressivo atingir de virtuosismo sem nunca se mostrar exibicionista. Gostei muito, mas menos da disposição de Konitz para cantarolar. Parece que é um toque / tique pessoal.
A orquestra de Trondheim, dirigida por Eirik Hegdal, começou num quase caos modernista, podia ser Stockhausen, e desagradou ; mas à terceira peça já eu fiquei rendido ao fenomenal domínio técnico e à execução de Redman, que aos poucos foi mostrando o que vale - bem mais ousado, provocador e estimulante que Konitz; em regra as entradas do que eles chamavam "songs" eram o tal caos ruidoso, às vezes com toques de humor, mas depois evoluía para "andantes" ou "adagios" de extrema beleza.
Até que se meteram a tocar Bach e, por mal dos meus pecados, foi um desconchavo. Escusado. O melhor momento, de grande beleza, foi um tema pausado com acompanhamento nas cordas a marcar o ritmo (violoncelo e contrabaixo) e com solos de violino, guitarra eléctrica (Nils-Olav Johansen, muito bom) e saxofone.
Uma excelente e agradável variante aos concertos da Casa da Música - e já agora, o Centro Cultural Vila Flor ganha em toda a linha - conforto, acessibilidade, serviços e preços.
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(*) Trondheim é uma das mais bonitas cidades da Noruega, muito perto do círculo polar ártico.
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