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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Kunsthaus (I) - o Salon de l'Académie de Paris


Terceira visita a um dos meus museus preferidos: a Kunsthaus de Zurique. Sem filas, sem multidão em frente aos quadros, e com máximas comodidades, o acesso a uma vasta colecção de obras-primas ao longo de corredores, espreitando por portas e janelas.


Começo pela exposição temporária de Janeiro, ilustrando o que se via e fazia no Salon de l'Académie de Paris no século XIX - desde o admirável ao ridículo, como diz o título da exposição, Gefeiert und verspottet .


Muitos pintores que ficaram com nome grande para a História frequentaram esses salões, mas também mutos medíocres e outros injustamente esquecidos ou menorizados. Não vou aqui perder tempo e espaço com o 'ridículo' e o 'menor' ; deixo só o que me deu mais gosto ver, com prejuizo do tal diálogo. A mostra começa com uma escultura em bronze da suíça Adèle d'Affry (Friburgo, 1836-1879 ) que expôs no Salão de 1863 sob o pseudónmo "Marcello".

Marcello, Pythia, 1870.


Estamos entre 1820 e 1880, os anos de ouro do Salão. Várias correntes se cruzam, guerreiam, influenciam; Géricault, Delacroix, Corot, Millet, Courbet, Manet, Sisley, Monet e Renoir voltam as costas ao academismo neo-clássico, fazendo nascer uma corrente que seria chamada "modernismo", Contudo, ainda uma vez por outra revisitam os grandes temas clássicos. Outros pintores, mais acomodados ao regime e à moda, não deixam por isso de inovar à sua maneira, e com o mérito de alimentar a polémica nos salões. São estas tensões que a exposição quer mostrar.

Monet, Sur la plage de Trouville, 1870

Renoir, Au café, 1877
Provavelmente o Guerbois. Pertence à Kunsthaus.

Corot, La liseuse, 1845-50

Fantin-Latour, Oeillets, 1880
Um daqueles poucos casos em que a moldura beneficia o quadro.



Retorno à mitologia clássica:

Corot, Orfeu trazendo Euridice dos Infernos, exposto no Salão em 1861

Grande obra de Corot, onde o 'realismo mágico' das suas florestas se conjuga com uma das mais frequentadas histórias das divindades gregas.

O Styx e as almas no Hades

A trágica escapada.

Corot viu a ópera de Gluck em Paris, em 1859, que o deve ter emocionado.

Jules Dalou, Eva, 1866

Vinda do Petit Palais de Paris, era a peça central da exposição, à volta da qual se dispunham as várias 'salas'. Um belo mármore.


Um dos quadros que mais apreciei - e não conhecia - foi esta obra de Degas, pintada duranta a sua estadia em Nova Orleães :

Degas, La garde-malade, 1872-73

Degas viajou para Nova Orleães em 1872, para visitar um ramo da família. Ficou por lá seis meses, e pintou coisas muito diferentes das habituais danseuses. Neste guache, uma enfermeira vigia um quarto de doente (invisível) de onde emana uma luminosidade coada que lhe ilumina o perfil calmo mas preocupado. Está sentada numa cadeira no corredor em frente ao quarto, e tudo o que se vê como décor são linhas verticais, mais ou menos sombrias, acentuando a tensão. Contrastam com o branco e redondo da touca e da fralda da robe da enfermeira.

O quadro esteve fechado ao público durante 40 anos; agora pertence à Kunsthaus.

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Até dia 28 de Janeiro
https://www.facebook.com/pg/kunsthauszuerich/


A seguir: a colecção permanente, com destaque para Giacometti, claro.

sábado, 28 de outubro de 2017

Ana Hatherly está na F. Gulbenkian


É o terceiro post aqui dedicado a Ana Hatherly, talvez a mulher das artes da minha cidade que mais admiro. Poeta e artista gráfica, nasceu no Porto em 1929.

Auto-retrato

Anjos suspensos

Paz

As lágrimas do poeta

Um poeta barroco disse:
As palavras são
As línguas dos olhos
Mas o que é um poema
Senão
Um telescópio do desejo
Fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
As altas ondas do mar
A calmaria do vento:
Tudo
Tudo cabe dentro das palavras
E o poeta que vê
Chora lágrimas de tinta.



[FCG, exposição "Ana Hatherly e o barroco", até Janeiro]

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Nos Museus de Arte Moderna de Edimburgo


São dois os edifícios neo-clássicos da National Gallery of Modern Art de Edimburgo. Os jardins, embora bonitos, ficam a perder com os nossos; mas as colecções, exposições temporárias, lojas e cafetarias  convidam a longas e repetidas visitas.

Depois de Dean Village, procurámos o caminho para os Museus, enganámo-nos, andámos às voltas, mas lá chegamos: frente a frente, dos dois lados da estrada de Belford Road, estão o NGMA One e o NGMA Two, este mais dedicado a exposições temporárias e de autores britânicos.

Everything WAS alright.

Ao longo do relvado da ONE, há Miró, Henry Moore (quem não tem ?) e outros que procuram enquadrar arte e paisagem.

Henry Moore, Reclining Figure, 1978

Eram outras coisas que eu procurava. Primeiro, a Onda. É uma escultura famosa de Dame Barbara Hepworth, uma daquelas obras que marcam à primeira vista e quanto mais se roda em torno dela mais se gosta. Nada de bonecos e palhaçadas provocatórias: apenas uma genial peça de escultura.




Também extraordinário é este corredor em bronze:

Germaine Richier, Le Coureur, 1955

Um Mondrian, todo equilíbrio e oposição de formas:


Vou passar os Malèvitch, Braque, Popova, Naum Gabo, um Matisse (menos bom), Léger, Bonnard, Warhol, Dali... estaquei em Lichtenstein:

Roy Linchtenstein, In the car. Psicologia, conflito e velocidade numa estética de banda desenhada.

Mas tudo o que eu queria era ficar em pasmo diante deste Picasso:

Mère et enfant, 1902.

Um quadro do período azul onde sofrimento e vergonha são retratados com toda a cumplicidade do pintor, de forma austera e discreta - por um rosto que se esconde.


Dei várias voltas às galerias mas regressava sempre aqui. Este quadro é quase um padrão de arte perfeita. Transmite o essencial da humanidade e da vida, pelo sublime da expressão plástica mais depurada. Quase poderia ter sido feito em qualquer parte do mundo, em qualquer altura da História - mas por um homem de génio, sempre. Quase podia ser uma pintura mural das cavernas. Universal, intemporal.

Gate, William Turnbull

Mais esculturas nos jardins.

Master of the Universe, Eduardo Paolozzi

https://www.nationalgalleries.org/visit/scottish-national-gallery-modern-art

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O tesouro Viking de Galloway, Escócia



Habitualmente designado The Galloway Hoard, foi descoberto em 2014, soterrado, um espólio Viking riquíssimo, prováveis pertences de gente importante. Já é famoso o alfinete do pássaro dourado:

Peça única, o pássaro de ouro tem um bico curvo como o de um flamingo, que só havia no Mediterrâneo.

Foi um entusiasta de achados, usando um detector de metais ao passear em terras de pasto pertencentes à Church of Scotland, quem alertou para o que lhe pareciam várias peças de ouro. E eram, do século IX ou X, e de um valor actualmente milionário.


Peças de ouro e prata, incluindo contas, braceletes e broches, enchiam um vaso Carolíngio com tampa que era um verdadeiro pote de ouro. A exposição actualmente a decorrer no National Museum of Scotland ( a não confundir com a National Gallery) ocupa um pequeno mas precioso espaço do enorme edifício.
Um dos broches encontrado dentro do vaso. A forma de anel aberto nunca tinha sido encontrada na Escócia.


Os broches em quadrifólio, têm duas faces simbolizando a vista e o ouvido.




Contas de colar, amuletos e broches, alguns embrulhados em tecido, enchiam até cima o vaso selado.

Entretanto decorre uma campanha para conseguir dois milhões de forma a garantir que o espólio fica no dominio público e não para a Igreja.
http://www.nms.ac.uk/national-museum-of-scotland/whats-on/the-galloway-hoard/

Galloway fica no extremo sudoeste da Escócia.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Almada Negreiros, (2) quadros dentro do quadro


Desenho, pintura, vitral, tapeçaria, poesia, romance e novela, conferência, teatro, bailado até... Almada Negreiros percorria vários caminhos na arte, simultaneamente, sendo nos estudos e artigos de opinião que ele exprimia de forma mais radical - chegando a ser violento e apologista da violência - as suas ideias sobre arte e sociedade.

O tempo relativizou a experiência futurista, que em parte se associou com culpas ideológicas ao pesadelo das guerras e suas indústrias, ditaduras e fanatismos, que arruinaram a Europa Feliz dos anos 20-30. Por mais interessante e até simpática que seja a adesão furiosa ao progresso, à tecnologia e à "libertação do homem" que prometia a geração do Orfeu, a verdade é que desempenhou um papel em última análise criminoso.

Nas artes plásticas, Almada Negreiros era de certa forma mais romântico, ou clássico, enfim, era mais temperado. Muita da sua arte acaba por ser de certa forma 'burguesa', ou seja, o insulto que ele mais odiava. Começo por este painel mural para os Correios de Portugal nos Restauradores.


Gente fina de calèche no terreiro do Paço. Burguesia.

Almada capricha mais no desenho e nas vestes que no rosto. Bonito, decorativo, pouco humano ?

Os famosos vitrais para o côro da Igreja de Nª Sª de Fátima (1938) são também exemplo de uma perspectiva estética inovadora mas que ao mesmo tempo contemporiza com a tradição, e em que elegância e harmonia prevalecem sobre a provocação.
Detalhes:
Lindo, maravilhoso até, mas algo frio, geométrico, formal demasiado. Cravo.

Alaúde.

Órgão.


Grafite e guache, sem título: atletas a jogar a bola:


Quadro dentro do quadro.

Este detalhe podia ser um abstracto dos anos 30 ou 40:



Mas o meu gosto "burguês" encanta-se mais com outro painel, o célebre "Eros e Psique" de 1954 (Almada tem 61 anos) que está na A.R., sortudos, privilegiados... haverá sítio mais conservador, institucional ?





Almada era, ele próprio, um verdadeiro Arlequim. Multifacetado, mascarado, faceto, enganador. E nem mesmo o Arlequim sabia bem se era ou não era.
Tinta da china, 1931.

Não tinha uma, tinha muitas maneiras de ser moderno, Almada. Nem todas admiráveis, diga-se.