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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Voto branco? voto preto? não, voto azul e verde.


Aprendi que azul e verde ligam mal, são uma combinação de mau gosto. Discordo. Estou, como de costume, indeciso, polticamente paralisado - não sei a favor de quem hei-de desenhar uma cruz. Já pensei branco, até se vai formar um Partido do Voto Branco, que anda a recolher assinaturas para poder reclamar lugares vazios na Assembleia para os votos em branco. É justo. Mas depois pareceu-me demasiado conformista com o sistema, é um bocado como passar carta branca, sois todos iguais, é-me indiferente. E não é.

Pensei votar preto - borrar o boletim com tinta spray negra, apagar os partidos todos, para se poder começar de novo, como um quadro preto na sala de aulas pela primeira hora da manhã, limpinho-preto. Mas podem pensar que é pelo Obama. E não é.

Não voto vermelho, claro, qualquer que seja o matiz. Nem laranja, nem azul, nem rosa. Nem verde-eco. Puxa, então? Então, optei pelo azul-e-verde. Primeiro, não é cor de nenhuma força concorrente (fico à espera...). Segundo, azul pelo mar, verde pela vegetação, é a imagem do planeta Terra para quem o vê do espaço cósmico.

Vou pintar o voto de azul e verde. Há várias sugestões:





ou mesmo


Na verdade, não corremos perigo nenhum de ditadura, os partidos que podem ganhar são ambos pró-europeus - e é o que mais me interessa. Quanto mais Europa, menos nação. São as nacionalidades que dão cabo da vida na Terra, mais ainda que as religiões. Os partidos mais nacionalistas (ou 'patrióticos', dizem alguns), à esquerda e à direita, têm a minha profunda repulsa. A minha nação, supostamente esta, dá-me cabo da vida. A leste e a oeste, só interesses nacionais prevalecem e fazem a vida planetária um inferno.

É uma utopia, bem sei, mas quero que isso acabe. Quero Europa, quero outras vastas regiões, federações, onde pouco interessa onde se nasceu, onde as pessoas valem por serem pessoas.

Voto verde e azul.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Voltar a Itália, onde foi concebida a Europa


A ideia de Europa não é grega, ao contrário do que se diz nos jornais. Na Grécia havia apenas uma classificação geográfica - o ''mundo" estava dividido em três continentes. Os gregos contribuíram com o pensamento, a sabedoria e os mitos, como também contribuíram as sagas nórdicas e a narrativa judaica.

Foi na República Romana que o conceito espacial e político de Europa adquriu dimensão, através do Império e das suas fronteiras extremas. Havia a noção geográfica, claro - para leste até aos Urais, a Ultima Thule a norte ... - mas a unidade politica, civil, económica, religiosa, linguística, jurídica, era o Império Romano, submetido à pax romana e conectado pela primeira rede, europeia, de estradas e pontes. Unindo a Europa até na privacidade, com a canalização doméstica e a promoção da higiene pelo hábito dos banhos.

A 'Europa' romana, 140 D.C.

Fora da actual Europa, o Império incluia a Turquia e o Norte de África; e dentro excluía as zonas bárbaras do Norte (a Escócia dos pictos, a Germânia de diversos vândalos e nórdicos), delimitando-se pelos muros, valas e fortificações que marcavam os limes: o Muro de Adriano, o Limes Gemanicus, o Limes Moesiae (Bessarábia), até ao Mar Negro.

Na Idade Média começou a vocação planetária : Marco Pólo, a rota da seda, portos abertos ao oriente. E a cidade medieval italiana era modelo que alastrava não só na costa mediterrânica - para Norte também.

No séc. X, o sacro império romano-germânico era o coração da Europa.

Depois, a partir da Renascença, a Itália volta a ser central na Europa: era lá que se fazia pintura, escultura e arquitectura, e por lá a música começou a ser coisa séria; era um glorioso museu vivo e da arte clássica, protegido por mecenas do comércio e da banca; toda a élite culta visitava obrigatoriamente Itália em longas estadias, e muitos iam lá aprender a sua Arte.

Cerca de 1500, e até finais da Renascença: as mais prósperas cidades. Não há melhor definição de 'centro' histórico da Europa.

A cidade italiana, herdeira da cidade romana, não é a mais bela de todas ? As praças inimitáveis, os palácios, as torres (desde a Idade Média !) e campanários, as loggias e colunatas, a esplanada, a fonte monumental, o Teatro de Ópera...


Em que outro pais se sente, com tal intensidade, a história cultural - dos mosteiros aos mecenatos, da música à revolução industrial (Fermi, Volta, Marconi), das ciências e do pensamento (Fibonacci, Galileu, da Vinci) às técnicas (barómetro, termómetro, lâmpada, bateria, dínamo, rádio, automóvel, óculos), em quase todas as formas de arte - as que já referi, mas também o cinema !  Que outro país europeu é assim conhecido e falado em todos os países do mundo,

Martini, Ferrari, Armani, Chicco, Benetton, Pirelli, Ferrero, Geox, Max Mara, Alfa Romeo, Buondi, Versace, Cinzano, Bugatti, Alessi, Cimbali, Lamborghini, Zanetti, Olivetti, Zanussi, Maserati (che macchina!), Bulgari, Nutella, Ariston, Gucci, Lancia, Chianti, jacuzzi, Pendolino...
pizza, spaghetti, tagliatelle, tortellini, lasagna, ricotta, mozarella, mascarpone, parma, risotto, mortadella, panacotta, espresso...
Cinecittá, La Scala, San Marco, traghetto, Duomo, gondola, Arena (Verona), Palio (Siena), Salute, Ponte Vecchio, Sospiri, Caracalla, Fellini, Dolce Vita...
andante, con moto, allegro, vivace, assai, brio, adagio, non troppo, sustenuto, fortissimo, pianissimo, tutti, mezzo, a capella, cantata, concerto, sonata, opera, castrato, coloratura, largo, vibrato, bravo, oratorio, maestro...
sfumato, chiaroscuro, velatura, fresco, pigmento, trittico, graffitto/tti, caricatura, loggia, cupola, galleria, campanario...

Por tudo isso, não seria justo que França e Alemanha (o centro) e mesmo Reino Unido (o norte) cedessem à Itália mais algum protagonismo na actual construção europeia ? Ficava-lhes bem, a estratégia altruísta de não impor a força circunstancial de hoje contra a força da História. Não tenho dúvidas que os italianos saberiam ser justos na integração e na equidade: afinal são a primeira das Repúblicas, a segunda das Democracias (mas a primeira representativa) ... e o país mais rico da Europa, em património !


Talvez nos devêssemos unir em volta da Itália, nesse tal lobby pela Europa de que se fala para lhe dar novo alento. Voto nisso.

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Tudo este arrazoado ficou aqui escrito hoje porque estou a dias de partir para Roma, agora em Setembro. Será certamente também uma despedida :( ,  mais vagarosa e atenta que em visitas anteriores.

Trastevere será a minha casa. Villa Adriana o sonho.





domingo, 23 de agosto de 2015

Etienne Klein, entrevista e vídeo


Um número recente do Le Point publicava um artigo com entrevista ao cientista e pensador francês Etienne Klein. Já há algum tempo que não lia propósitos tão saudáveis e inteligentes. Aqui está o que chamo 'élite': alguém que sabe pensar e agir com convicção a favor do saber, como os antigos Gregos, contra a credulidade e patetice relativista que se alastra nos círculos supostamente cultos.

Extractos (a entrevista é longa), com vénia ao Le Point, que soube fazer perguntas inteligentes e bem formuladas:

...
Il est vrai que prédire le pire est devenu un filon littéraire à écho médiatique garanti. Mais des irréductibles résistent. Étienne Klein en fait partie. Physicien au Commissariat à l'énergie atomique, professeur à Centrale, auteur d'essais scientifiques.

Quelles sont les dernières grandes avancées en science qui vous ont le plus bouleversé ?

La détection du boson de Higgs au CERN, les prouesses de "Rosetta" et "Philae", les mesures du satellite "Planck" sur le fond diffus cosmologique. Ces trois belles aventures européennes ont révélé des choses respectivement sur le vide quantique, la formation du système solaire et la structuration de l'Univers. Qui dit mieux ? Mis en face d'elles, il faudrait être de marbre pour le rester.

Si nous n'avons plus foi dans le progrès, est-ce parce que nous avons perdu l'espoir ?

L'idée de progrès a une anagramme qui la résume en partie : le degré d'espoir. Elle mélange en effet l'espérance et la consolation. En étayant la perspective d'une amélioration future de nos conditions de vie, elle rend l'histoire humainement supportable : loin sur la ligne du temps, elle fait miroiter un monde meilleur. Mais il y a un revers à cela : cet autre monde n'adviendra pas tout seul. L'idée de progrès a donc aussi à voir avec celle de sacrifice : le genre humain est sommé de travailler à un progrès général dont l'individu ne fera pas lui-même toute l'expérience. Croire au progrès, c'est accepter de sacrifier du présent personnel au nom d'une certaine idée du futur collectif qui donne du sens et une direction à nos efforts. Cela suppose donc d'avoir... une certaine idée du futur collectif ! Or, pour quel dessein global sommes-nous prêts à faire des sacrifices ?
...............

A-t-on raison de dire que nous sommes la "société du risque" ?

Laissé en jachère, le futur se laisse coloniser par la peur. C'est pourquoi la question du risque en est venue à catalyser l'angoisse que nous ressentons devant la perspective d'un avenir qui n'est ni configuré ni porté par un projet explicite. En outre, notre perception des risques est souvent construite au travers de multiples biais, ainsi, nous nous montrons beaucoup plus prompts à évaluer moralement ou économiquement les conséquences de nos actions plutôt que celles de nos inactions. Nous sortons des commémorations du 8 mai 1945, des images des camps ou des empilements de corps à Dresde. Il faut bien voir d'où nous venons ! Est-ce que les gens à l'époque se disaient : on est la société du risque ? Nous, nous nous laissons parfois séduire par les délices de l'effroi facile. Regardez ce qui s'est passé lors de la dernière éclipse de Soleil. Un tel phénomène, parfaitement prévisible, offre l'occasion d'une expérience pédagogique unique. Mais l'Éducation nationale a d'abord recommandé d'enfermer les élèves dans les classes, au nom du principe de précaution. Lequel n'avait rien à voir, car où était l'incertitude ? Heureusement, ces consignes ont finalement été modifiées, mais le ciel s'est quand même vengé : il a fait mauvais le jour J...

Le relativisme gagne du terrain. Dans un monde dominé par les technologies, n'est-ce pas paradoxal ?

Oui, même si un certain relativisme a certainement raison d'insister sur l'importance du contexte. Si Galilée avait vécu dans la forêt amazonienne, il n'aurait sans doute pas pu faire ses découvertes. Mais faut-il tirer de ce constat la conclusion que toutes nos connaissances seraient artificielles ? Il est permis d'en douter. Si l'atome et la physique quantique n'étaient que de simples constructions sociales, par quels miracles - oui, je dis bien miracles - serions-nous parvenus à concevoir des lasers ? Si les lasers fonctionnent, n'est-ce pas l'indice qu'il y a un peu de vrai dans les théories physiques à partir desquelles on a pu les concevoir, de "vrai" avec autant de guillemets que vous voudrez et un v aussi minuscule que vous le souhaiterez ? La prochaine fois que vous glisserez un CD dans votre lecteur laser, si vos oreilles entendent alors les Rolling Stones, ne sera-ce pas la preuve rétrospective que Max Planck, Albert Einstein et quelques autres avaient bel et bien compris deux ou trois bricoles non à propos d'eux-mêmes, ou de leur culture, mais carrément à propos des interactions entre la lumière et la matière ?

C'est pourquoi vous dites que les scientifiques doivent "cogner" ?

Je pense du moins qu'ils doivent monter au créneau pour entraver la propagation de ce que le sociologue Gérald Bronner appelle le démagogisme cognitif, cette ambiance qui donne du crédit aux points de vue les plus intuitifs, et parfois les plus erronés, sur toutes sortes de sujets. Pour l'alimenter, on déploie divers stratagèmes, à commencer par l'invocation du prétendu "bon sens". Or il faut se méfier du bon sens. Prenez la pseudo-controverse laborieusement entretenue sur le changement climatique, parfois en faisant semblant de confondre météorologie et climatologie : "Vous avez vu, il n'a pas fait chaud-chaud le mois dernier à Paris ; alors, le changement, c'est pour quand ?"... Ce sophisme est bien sûr faux, mais il est éloquent et peut convaincre ceux qui sont les plus prompts à déclarer vraies les idées qu'ils aiment. La science, comme le reste, est devenue la cible d'un certain populisme.

Permettez-moi une anecdote. Lors d'un cours, alors que je venais d'effectuer un calcul montrant que, selon la théorie de la relativité, la durée d'un phénomène dépend de la vitesse de l'observateur, un étudiant prit la parole : "Monsieur, personnellement, je ne suis pas d'accord avec Einstein !" Je crus qu'il allait défendre une théorie alternative, en tout cas qu'il allait argumenter, mais il se contenta de dire : "Je ne crois pas à cette relativité des durées, parce que je ne la... sens pas !" En clair, ce jeune homme avait suffisamment confiance dans son "ressenti" pour s'autoriser à contester un résultat qu'un siècle d'expériences innombrables avait cautionné. Lorsqu'elle se transforme en alliée du narcissisme, la subjectivité semble avoir du mal à s'incliner devant ce qui a été objectivé, du moins si ce qui a été objectivé la dérange ou lui déplaît.

Entre connaissances et croyances, l'antagonisme a toujours existé, mais n'est-on pas à un moment charnière ?

Difficile à dire, car notre société se trouve parcourue par deux courants de pensée à la fois contradictoires et associés. D'une part, un attachement intense à la véracité, un souci de ne pas se laisser tromper, bref une attitude de défiance généralisée qui s'étend désormais jusqu'aux sciences les plus dures. D'autre part, une défiance aussi grande à l'égard de l'idée même de vérité : la vérité existe-t-elle ? se demande-t-on. Si oui, peut-elle être autre que relative, subjective, culturelle, contextuelle, éphémère ? La chose étonnante est que ces deux attitudes, qui devraient s'exclure mutuellement, se révèlent compatibles. Elles sont même mécaniquement liées, puisque le désir de véracité suffit à enclencher un processus critique qui vient ensuite fragiliser l'assurance qu'il y aurait des vérités bien établies.

La science rend l'homme de plus en plus puissant. À quoi doit servir ce pouvoir, et qui peut en décider ?

La connaissance scientifique a ceci de paradoxal que sa progression ouvre des options tout en produisant de l'incertitude, une incertitude d'un type très spécial : nous ne pouvons pas savoir grâce à nos seules connaissances scientifiques ce que nous devons faire d'elles. Par exemple, nos connaissances en biologie nous permettent de savoir comment produire des OGM, mais elles ne nous disent pas si nous devons le faire ou non. Depuis que l'idée de progrès s'est problématisée, cela devient affaire de valeurs qui s'affrontent et non plus de principes qui s'appliquent. Or les valeurs, moins universelles que les principes (la valeur d'une valeur dépend de ses évaluateurs), tendent à s'exhiber et à se combattre lorsque les principes, eux, reculent. C'est pourquoi les décisions en matière de technosciences sont devenues si difficiles à prendre, et sont si contestées lorsqu'elles sont prises. Elles le sont d'autant plus que nous avons compris de surcroît que nous ne pouvons pas connaître d'avance toutes les conséquences de nos actes : "L'homme sait assez souvent ce qu'il fait, avertissait Paul Valéry, mais il ne sait jamais ce que fait ce qu'il fait." D'où une sorte de réflexe collectif qui nous conduit désormais à valoriser l'incertitude, la défiance, la perplexité. Finalement, c'est rien de moins que la question politique du projet de la cité, de ses fins, qui se trouve aujourd'hui posée : que voulons-nous faire socialement des savoirs et des pouvoirs que la science nous donne ? Y répondre présuppose de ne pas laisser les sciences et les technologies en lévitation intellectuelle.

Vous avez écrit dans les colonnes du Point que la science était insuffisamment "mise en culture" à l'école...

Donner le goût des sciences passe d'abord par donner du goût aux sciences, par les ré-érotiser. Je suggère une chose : qu'une fois l'an, depuis les classes primaires jusqu'au lycée, l'un des professeurs raconte aux élèves une "histoire de science", par exemple celle d'une découverte importante qu'il aura pris le temps d'étudier en détail : comment a-t-on compris que la Terre est ronde ? Qu'elle tourne autour du Soleil, qui lui-même tourne autour du centre de notre galaxie, qui lui-même... ? Le professeur devra expliquer comment les arguments se sont combattus, ce qui a fait que certains ont fini par convaincre. Cela montrerait par des exemples concrets comment les démarches des scientifiques aboutissent parfois à de véritables chocs. Or, pour l'esprit, qu'y a-t-il de plus pédagogique qu'un choc ? Quelqu'un qui sait que l'homme est là depuis trois millions d'années dans un Univers qui existe depuis au moins 13,7 milliards d'années ne pense pas son rapport au monde de la même manière qu'un autre qui croit que l'univers a 6 000 ans et que l'homme y est apparu tel qu'il est aujourd'hui. La connaissance nous permet d'interroger nos préjugés les plus solides. La découverte du boson de Higgs, par exemple, est venue contester le lien systématique que notre intellect établit entre l'idée de matière et celle de masse. Cela devrait intéresser au premier chef les philosophes, car il s'agit bien là de ce que Maurice Merleau-Ponty appelait une "découverte philosophique négative". Attention, je ne suis pas en train de vous dire que la physique devrait coloniser la philosophie, seulement qu'elle éclaire certaines de ses questions et chatouille certaines de ses réponses.

Vos cours à Centrale sont, dit-on, des numéros d'improvisation. Faut-il maintenant quand on est professeur "assurer le spectacle" ?

Je ne vois pas qui a pu vous dire cela (sourire). Je n'utilise pas toujours de notes écrites, c'est vrai, mais je prépare très soigneusement le sujet dont je vais parler. Ce qui est improvisé, c'est ma façon de le mettre en scène. En fait, je tente de revenir à la base : l'enseignement, c'est du corps-à-corps. Lorsque je fais cours, je ne sais pas a priori ce que savent mes étudiants. Ce n'est qu'en les regardant que je me rends compte s'ils suivent ou non. Je peux ainsi adapter l'impédance de mon discours à l'auditoire tel qu'il est... Pour qu'il y ait transmission, il faut d'abord installer une ligne de transmission, n'est-ce pas ? C'est pourquoi je n'utilise plus guère de fichiers PowerPoint. D'abord, parce qu'ils font barrière entre celui qui parle et ceux qui écoutent. Ensuite, parce qu'ils créent l'impression que tout est déjà mis en boîte. Or un cours doit réserver une place aux chemins de traverse, au surgissement de la passion. J'irai même plus loin : je pense que les grands cours sont donnés presque dans une forme de transe.

Comment rendre notre système scolaire plus performant ?

Vaste programme, si j'ose dire. Prenez le statut de l'erreur. Apprendre, c'est commencer par ne pas savoir. Le rappel de ce truisme devrait suffire à modifier le regard qu'on porte sur l'erreur. Dans la phase d'apprentissage, elle ne saurait être considérée comme l'équivalent d'une faute morale, mais plutôt comme une étape nécessaire permettant de passer de l'incompris au compris.
Nietzsche a prédit que la passion pour la science allait forcément décroître au fur et à mesure que l'on s'apercevrait que, contrairement à la religion, à l'art, ou à l'idéologie, la science ne console pas...

Oui, il a écrit cela dans L'avenir de la science. Extrait : "Le goût du vrai va disparaître au fur et à mesure qu'il garantira moins de plaisir ; l'illusion, l'erreur, la chimère vont reconquérir pas à pas, parce qu'il s'y attache du plaisir, le terrain qu'elles tenaient autrefois : la ruine des sciences, la rechute dans la barbarie en seront la conséquence immédiate ; telle Pénélope, l'humanité devra se remettre à tisser sa toile après l'avoir défaite pendant la nuit. Mais qui nous garantira qu'elle en retrouvera toujours la force ?" J'ai lu ce texte à mes étudiants le lendemain des attentats de janvier, juste après la minute de silence. Cela a produit un effet certain sur eux.

Vous êtes donc un optimiste convaincu ?

Oui, puisque tout finit par s'arranger, même mal.


Vídeo de Etienne Klein (30/07/2015)


Etienne Klein : Des mythes aux scienceslepointhd



sexta-feira, 29 de maio de 2015

Ainda sobre fealdade na arte


E também a propósito, ainda, das más encenações de Ópera.

Não é só nas encenações que se faz falsa Arte, lixo que se quer fazer passar por Arte. A mercantilização, o valor monetário e financeiro da Arte, promovem esse lixo em Pintura, em Escultura, em Música, no Teatro e no Cinema ...

Se não vendessem gato por lebre, como conseguiriam valor de venda para gatafunhos, calhaus e molduras em branco ?

"Três painéis em branco", de Rauschenberg, que atingiu recentemente muitos milhões num leilão.

Pollock: valem fortunas coisas que não se distinguem de borradelas de criança.

Os critérios para mim são claros e transparentes:

- Se é feio, não é arte. "Feio" pode ser subjectivo, bem sei, neste critério pode haver divergências, mas não aceito os estetas da fealdade. Rejeito o que for monstruoso, disforme, deselegante, vil, ordinário, ofensivo, kitsch, enfadonho; mas não forçosamente o que for rude ou provocatório, desde que lá consiga encontrar beleza e génio criativo.

- Se "até eu era capaz de fazer isto", não é arte. Simplório, primário, cansativo, totalmente desestruturado, não é arte. Vão assim para o caixote os painéis brancos, as borradelas, os 4' 33'' de silêncio de Cage, os filmes de écran preto...

'Quadrado preto', de Malevich - nada a ver com Mondrian, pois não há nada para ver.

Há tempos uma jornalista de TV deliciava-se divertida porque na feira ARCO de Madrid o público comentava elogiosamente, e até com discurso erudito, uma suposta obra de arte que afinal eram garatujas e borrifos de criança.  Conclui ela: Arte não é nada de transcendente ou excepcional ou genial, não passa de uma convenção de élites, uma vez que não se consegue distinguir de uma borradela qualquer.

Ora é precisamente o contrário, mas a jornalista boçal não podia entender certamente: nem a borradela, nem o resto da tralha que estava pelas paredes da feira, são Arte. É tudo lixo. A Arte, quando existe, distingue-se logo, impõe-se, é avassaladora de beleza, de elegância, de equilíbrio, na alegria ou na tristeza; quase sempre surpreendente, nunca é aborrecida nem repelente, nunca vulgar nem infantil, nunca se encaixa em conversa monetária de investidor nem na vulgata de jornalista. Nunca é balão para o parolo olhar.

O calhau de 340 toneladas que Michael Heizer foi buscar com uma escavadora - só lhe deu o trabalho de transportar o mais pesado pedregulho de sempre (Guinness ?). Durou um ano e custou 10 milhões. Um disparate.


A diferença, por exemplo, entre a Música da 'Iphigénie en Tauride' de Gluck e a horrenda encenação de que aqui dei conta é que esta, qualquer um a fazia, na sua vulgar fealdade; mas a primeira, a Música, exige saber muito, ser compositor - ter um talento ao alcance de poucos, de uma élite.

É por isso que as escolas, a Escola, na sua tendência que vem desde os finais do séc. XX para rejeitar o saber de élites, e o valor superior da História, já quase só forma para a vulgaridade. Nunca produzirá Renoirs, mas apenas pintores de feira. Já estamos a assistir ao resultado.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Boulevard of broken dreams [ The Paris Review]


Não resisto a chamar a atenção para este magnífico post há pouco publicado na The Paris Review:

http://www.theparisreview.org/blog/2014/11/06/berlins-boulevard-of-broken-dreams-part-1/

Às vezes esquecemos depressa, convém lembrar que ainda há pouco os sonhos eram permitidos, e bonitos, onde parecia não haver fim para uma desolada e vil tristeza.

sábado, 11 de outubro de 2014

Planos



Um humano e um planeta, assim, parece uma imagem de um deus no paraíso.



Muito ao perto, uma flor, um poema, o mundo ainda é fabulosamente lindo.



O pior é a meia distância, o plano intermédio.



Neste, vivemos o dia a dia. Se o real se reduz à nossa percepção, poderá este ser o plano ilusório ?

[wishful thinking]


quarta-feira, 2 de abril de 2014

As ruínas do pensamento


THE MIND IS AN ANCIENT AND FAMOUS CAPITAL

The mind is a city like London,
Smoky and populous: it is a capital
Like Rome, ruined and eternal,
Marked by the monuments which no one
Now remembers. For the mind, like Rome, contains  
Catacombs, aqueducts, amphitheatres, palaces,
Churches and equestrian statues, fallen, broken or soiled.  
The mind possesses and is possessed by all the ruins  
Of every haunted, hunted generation’s celebration.


Delmore Schwarz



domingo, 23 de março de 2014

Grrrrunf para eles


Pois, Dudamel é pelo glorioso Bolívar de pacotilha e Gergiev pela gloriosa Rossya e seu grande líder.

De Dudamel nunca fui admirador, apesar de alguma histeria  sobretudo norte-americana left-wing. Não tem uma única gravação de referência, toca Beethoven com brutalidade como se fosse Pompa e Circunstância, Mozart com total incompetência histórica, e cultiva acima de tudo a sua própria imagem. É um divulgador? sim , e basta.

Gergiev é outra loiça - um grande sinfonista, por exemplo, em Brahms. Já se sabe que houve muitas histórias duvidosas de maestros sob o regime nazi, tal como sob o regime soviético, que a muito custo ultrapassamos (alguns de nós) tendo em conta o nível artístico e a importância histórica. Que Gergiev seja apoiante incondicional de Putin, logo anti-ucraniano e anti-europeu, faz-me irritação dos pés à cabeça, tão cedo não o ouço sem rosnar baixinho. Não o ouço, pronto.

Será que a Netrebko também tem um pensamento sobre tudo isto?

Não tenho dúvidas que a comunidade musical, a comunidade artística, está com a liberdade e o futuro, na Venezuela como na Ucrânia. Ou seja, que a música está do lado bom.




quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Uma era a terminar: coisas que valeram a pena.


Balanço de geração, ainda na ressaca dos 5 anos do Livro.

Nestes tempos parece que se respira o fim de uma era, em que muitos princípios, valores e modos de vida são postos em causa por aparentemente não terem conduzido ao esperado progresso de uma vida melhor para a humanidade.

Para quem partilha a minha geração (nascida, digamos,  nos anos 1940-60) não faltaram motivos de espanto, maravilha, deslumbramento e mesmo orgulho. Atravessando agora um momento depressivo de esterilidade e vacuidade, é bom relembrar tanta coisa boa, relembrar que mais ninguém antes desfrutara destas criações, descobertas e inventos em todo o seu original esplendor e frescura, um ciclo feliz de humanidade imaginativa e aventurosa.

✸  Anos 60 – nasce a música pop/rock/folk : Beatles, Simon e Garfunkel, Pink Floyd, Fairport Convention e Sandy Denny, Leonard Cohen, Donovan, Bob Dylan, Beach Boys... e aos poucos nascem também imensos festivais, rurais ou urbanos, que reúnem multidões para, 'apenas', ouvir música. Nunca visto.


✸  A aventura espacial : as viagens à Lua, o Space Shuttle a a construção da Estação Espacial orbital, o telescópio Hubble e a nova visão do Universo pelas sua fabulosas imagens. Finalmente conhecemos os nossos vizinhos mais de perto, e até encontramos mundos semelhantes fora do sistema solar; mas nada se compara a vermo-nos a nós próprios no espaço.


✸  BD, a banda desenhada, nova forma de arte: o universal Tintin de Hergé e as suas inúmeras viagens, o Príncipe Valente, o mágico Mandrake, Mickey Mouse e Scrooge MacDuff, Calvin, as aventuras conspirativas de Black and Mortimer, a personagem ímpar de Corto Maltese,  Fred e a imaginação à solta.


  A redescoberta da Música Barroca e Antiga : interpretações historicamente informadas revelam um universo musical dos séculos XVI/XVII quase desconhecido e revalorizam de forma deslumbrante alguns clássicos: Händel, Mozart, Vivaldi, Telemann, Gluck, e depois Beethoven, Mendelssohn. Nomes como Christopher Hogwood, J. Eliot Gardiner, Nicolaus Harnoncourt, Tom Koopman, Phillip Herreweghe, Jordi Savall, David Daniels, Andrea Scholl, Emma Kirkby, Cecilia Bartoli, fazem parte da herança e do imaginário da nossa geração pioneira desta redescoberta entusiasmante.


✸  A Queda do Muro de Berlim : fim do regime e do império soviético, fim da maior mentira política de todos os tempos, fim da guerra fria - só não o festejou quem não o sofreu. Somos muito mais livres, falta-nos encontrar a responsabilidade correspondente. Desde aí, a Europa reencontrou-se na sua vastidão e variedade, e na sua longa e sofrida História, onde não faltam disparidades e conflitos por resolver. Talvez por isso mesmo seja o continente com mais potencialidades de inovar, reinventando-se. Pelo menos é sem dúvida o mais colorido !

✸  O Ártico : cada vez mais valorizado; com a descoberta de um território imenso e variado na sua natureza e nos seus povos, uma história esquecida foi-nos devolvida: um novo mundo de glaciares, imensidões geladas, fiordes, vida animal, longas noites e longos dias, luzes que bailam no céu, aldeias coloridas, artes e costumes das comunidades do gelo, que vem sendo revelado para nosso espanto - e também para nossa preocupação com a riqueza finita da água potável.


✸  Portugal na Europa : somos quase iguais... cafés e pizzarias à italiana, boulangeries à francesa, fast-food, casas gourmet; esplanadas mediterrânicas por todo o lado que trouxeram animação e colorido; salas de cultura e de concerto até em recônditos concelhos, espaços urbanos melhorados, percursos pedestres, passadiços, ciclovias, e, claro, cartões, multibancos, moeda única. Serviços de saúde quase exemplares, longevidade acrescida. Mas a riqueza não trouxe visão, a liberdade não trouxe juízo nem honestidade, e a cultura propriamente dita, essa decaiu, hélas.

✸  A Internet, claro (aproxima os afastados e afasta os próximos), e os computadores pessoais, genial coisa. Há tão pouco tempo ainda imprevisíveis, depois mostrados como temíveis na ficção científica, agora quem os usa uma vez não mais os dispensará. A Internet é a cultura de massas levada à quase perfeição. Por definir ainda os efeitos da rede mundial a longo prazo - há quem aposte até numa possível mutação.

Para mudança, tivemos Mudança !  E olhando retrospectivamente não será fácil encontrar uma geração que possa gabar-se de tanta coisa nova ter trazido para a História.

Não conseguimos resolver as mais básicas injustiças e desigualdades.
É a nódoa na herança que deixamos: um mundo em perigoso desequilíbrio.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Ópera: quem merece um Wagner assim?


Decididamente não entendo o gosto dos encenadores modernos, que ao contrário dos intérpretes h.i. da música antiga, tudo fazem para revisitar óperas de qualquer época ao estilo modernaço, com os mais horrendos e kitsch cenários e adereços.
Tudo o que seja decadente, feio, grotesco e sujo é moderno e mesmo avant-garde! Convém insistir muito na sexualidade mais exibicionista e repelente possível.

Enfim. Wagner em Bayreuth, 2013, é assim: um posto de gasolina algures nos EEUU, prostitutas e bêbados... como joga isto com música enfaticamente grandiosa ? mal, só pode.


Moda abjecta, só resta desejar que passe depressinha. Porque quem se atreve a encenar "convencionalmente" é adjectivado do pior, retrógrado, suporífero, entediante, burguês, e poucos têm ainda coragem de respeitar a época da composição.

Maus anos para ver ópera. Pena, porque há belíssimas vozes...

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Excelente post sobre Tonalidade vs. Atonalidade

O indispensável  "Diz que não gosta de música clássica" publicou sobre este tema o post:

http://guiadamusicaclassica.blogspot.pt/2013/04/tonalidade-versus-atonalidade.html

Inclui um vídeo da conferência clarividente de  Jérôme Ducros no Collège de France, onde mostra magistralmente porque a música moderna (séc. XX) "erudita" se tornou tão estéril e impopular.

Muito agradeço ao Fernando Vasconcelos a partilha deste documento.

terça-feira, 19 de março de 2013

As coisas não são o que se diz

Depois da União Europeia, através do Eurogrupo, ter tomado a brilhante iniciativa suicida de confisco bancário no Chipre que vai direitinha ao fim do euro e se calhar da U.E., pelo exemplo que dá e por minar a confiança no sistema, convém também não esquecer que os ditos países emergentes não são o que se diz.

A economia chinesa, por exemplo, está a um passo de uma explosão de dimensões inauditas, donde pode sair um "primavera árabe" arrasadora. A BBC já o denunciou há tempos:



Parece mesmo que, afinal, são mais uma vez os ultra-liberais Estados Unidos quem vai sair por cima, e se assim for o dólar será forte como nunca. Mais uma vez se comprovará a vitalidade do capitalismo minimamente regulado.

Ainda bem. Porque a "visão" que a Europa apresenta do seu futuro parece-se cada vez mais com a de uma espécie de jugoslávia titista, uma aglomeração forçada de estados que se odeiam, através do medo comum de horrores passados, mas uma aglomeração em auto-gestão socializante que tudo pode sacrificar ao interesse central do estado em nome do povo, ou da "comunidade", ou da estabilidade (Stabilizujte, Stabilizujte) que vai dar ao mesmo. Ou seja, uma visão de esquerda imposta por gente de direita. Que engraçado.

Ninguém diz ao que vem. Qualquer coisa se prepara que não é bem o que se diz.

domingo, 17 de março de 2013

A União Europeia com tiques de ditadura estalinista 'das bananas'

Esta sim, a maior machadada de sempre na minha simpatia e apoio ao projecto europeu.

Não se faz: entrar por um país membro adentro, não com tanques mas com ordem de confisco às contas bancárias dos cidadãos, e à boa maneira socialista soviética, esbulhar a classe média (oh, burgueses !) das suas poupanças.

Como não são os 'pobres' mas os 'ricos' que assim pagam a crise, não se vê por aí grande movimento solidário ou de protesto. Cá, a notícia vem sempre depois do Papa e dos futebóis - afinal é apenas o Chipre.

Pois este sim, é o momento de ter medo, raiva e revolta: anuncia-se o tipo de tirania que pode estar à espreita, e não é neo-liberal, é de raiz colectivista. O Estado está falido, vai-se ao bolso dos endinheirados: é 'os ricos que paguem a crise' a ser levado à prática pelo poder central europeu. Podia ser num regime militar sul-americano, mas não: é aqui.

Mil vezes antes a estratégia do FMI, que nos empobrece também, sim, mas com algum sentido de justiça e equidade. Porque sabe o valor do dinheiro, não lhe toca senão com luvas. Pode penalizar ganhos futuros, mas a propriedade de cada um é intocável. Ao ponto de dar as tais garantias sobre depósitos, que a UE tanto apregoa mas foi a primeira a atropelar.

É a primeira vez que me sinto um inimigo, e um fraco e vulnerável inimigo, para quem manda na Europa.

Tristeza, enorme.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Este governo ou outro?

Por mais malvadezas que sejam praticadas contra o contribuinte em nome da crise, não consigo acreditar nem alinhar com aqueles que se dizem oposição radical ou alternativa e que de facto só têm a propor uma albanização rápida do país - via caloteira, bancarrota, vendas ao desbarato, saída do euro, abandono da Europa, aliança afro-brasileira. Há até quem advogue uma solução Chávez.

Tivemos a infelicidade de votar (quem votou) e eleger duas personagens criançolas, que sem sabedoria, maturidade ou experiência, alcançaram o poder pela amaldiçoada via da ascenção partidária e clientelista: Passos Coelho e Miguel Relvas. Parecem brincar na governação, como quem joga um jogo, arriscando perder ou ganhar sem uma estratégia consistente.

Nao tenho dúvidas da seriedade pessoal e sinceridade de convicções de Passos Coelho. Ele não é outro Sócrates. No carácter, deixa a milhas muita gentinha famosa da oposição que tanto contra ele berra. Mas numa situação aflitiva como a que passamos, não é homem para estar ao leme, nem para ser grumete. E perdeu toda a confiança da tripulação.

Partindo daí, não me parece que possamos ter melhor governo que este. Na Saúde, na Justiça, na Economia, na Educação, nas Finanças, na Administração Interna e na Agricultura e Pescas estão pessoas sérias e respeitáveis, sabedoras e convictas. Têm prestígio e currículo difícil de igualar. Não se consegue melhor neste país, não no PS, muito menos noutro lado. É escusado ter ilusões: só podem ser trocados para pior.

Como não se pode remodelar o PM , resta o remodelável Relvas. Se ele sair, não vejo mesmo razão nenhuma para deitar abaixo um governo que nos vai ao bolso de forma indecente, iníqua, mas com razões de extrema aflicção que compreendo. Podia fazer melhor, sim. Pode-se sempre. Mas não confio em ninguém do PS para isso. Nem quero pagar inúteis eleições.

Finalmente, a Europa. Hesita entre exigir rigor e ser solidária. Também compreendo - ao desbaratar os fundos que recebemos, fomos altamente não-solidários: o dinheiro não era nosso, era de outros povos, tínhamos de o poupar, e respeitar quem no-lo facultou.  Mas quando o "castigo" cai, não mais sobre a clique governante, não mais sobre a banca irresponsável e gananciosa - que devia, ela sim, pagar a crise quase por inteiro -  mas sobre os cidadãos menos abonados, então a Europa tem o dever de estar atenta a uma necessidade de ajuda solidária. Conseguir conciliar as duas coisas é tarefa que se exige aos dirigentes deste espaço de cultura e inteligência que é a União Europeia: difícil será, mas temos gente à altura com certeza. Ou não somos Europa.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

(des) gostos do 25

Não sei realmente o que escrever hoje... dia de ânimo ou de desânimo?

Há muitos modos de não-democracia. Além dos modos extremos do nazismo e do estalinismo, indefensáveis em absoluto, há estas modalidades mais suaves em vigor na China, em Cuba, na Venezuela, na Bielorrússia, nuns casos sob o anonimato de um partido único, noutros sob o abuso de poder de um demagogo populista. Não vejo caso nenhum, contudo, em que haja "despotismo iluminado", como tenho ouvido defender, em que o poder absoluto seja exercido por alguém superiormente culto e dedicado ao bem estar da população.

Desanimados com as ditaduras, estaremos animados pela expansão da democracia no mundo ? Nem por isso. Ouvem-se queixas crescentes contra os partidos, a liberdade dos mercados, os poderes encobertos, as ditaduras financeiras. O engraçado é que há unidade em volta destas críticas entre os mais à esquerda e os mais à direita. Surge a dúvida se não são os patrocinadores das ditaduras acima referidas quem mais ferozmente critica estas débeis democracias.

Como poderei então estar "animado" com o 25 de Abril, coisa anacrónica de há 38 anos ? Ou desembocava no primeiro cenário, ou desembocava no segundo. Cá estamos.



Contra o que cada vez mais se diz por aí, penso que o único ânimo que posso acalentar tem a ver com estarmos na Europa, estarmos no Euro. É como uma velha casa aristocrática que empobrece a olhos vistos, mas mesmo arruinada continua acolhedora, bonita e cheia de boas recordações. Tem uma dignidade como há poucas, boa vizinhança e portas abertas ao exterior. É onde fizemos amigos e trocámos amores. Sinto-me bem nesta casinha, nem que tenha de comer côdeas.

E percebo que terei de comer côdeas.

Não sei se tenho que agradecer a Abril.
Não era isto que eles queriam.
O Abril dos militares heróicos era o Abril das côdeas, sim, mas sem Europa. Era o "despotismo iluminado" ao contrário - a certeza de uma mediocridade social e cultural igual para todos. O que me anima, talvez, é que eles foram derrotados, e que, melhor ou pior, sempre fomos subindo os degraus na casa europeia. Porque nisso votámos.

Mas também... não era "isto" que eu queria.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Camiñante, no hay camiño

Camiñante, son tus huellas
el camiño, y nada mas;
camiñante, no hay camiño,
se hace camiño al andar.

Al andar se hace camiño,
y al volver la vista atras
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Camiñante, no hay camiño,
sino estelas en la mar.


Estranhamente, o poema de Antonio Machado parece aplicar-se mais que nunca à actual Europa. Não há caminho, não há plano nem mapa nem rota, vai-se fazendo caminho ao andar. É às cegas, confiando em Sarkozy /Merkel, tacteando, um paso ao lado em falso aqui, um passo atrás ali, cair e voltar a levantar, talvez...

Estranhamente, como digo, é da suposta "esquerda" que vêm as certezas, as receitas infalíveis, os caminhos pré-fabricados. Sabem tudo, o que está mal, o que estaria bem, os maus da fita, o rumo a seguir sem hesitação. E apontam o dedo e as culpas, convictos e heróicos.

Acontece que a História, essa escola de todos os ensinamentos, mostra o que acontece aos rumos infa
líveis.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Paul Klee e a Música: quadros que se ouvem

Je soupire après la musique! Musique ! [...]
La musique est pour moi comme une bien-aimée ensorcelée. [...]

Paul Klee, Journal

Entre os maiores nomes da arte do início do séc XX, o suíço Paul Klee (1879 - 1940) distingue-se pela síntese, na sua obra e na sua vida, entre música e pintura.

Paul Klee pensava a pintura numa perspectiva de compositor. Filho de um professor de música e de uma cantora lírica, tocava bem violino desde criança, e hesitou muito entre a carreira musical e a pintura. Tinha um magnífico violino Testore de 1702. Admirava mais intensamente Bach, Mozart, Beethoven, Brahms, como era norma nesse início do séc XX. Tocava as suas obras a solo, em duo com a esposa, a pianista de Munique Lily Stumpf, às vezes em quarteto. Frequentava assiduamente salas de concerto e de ópera, tomava notas, escrevia comentários críticos.

Ao estilo de Bach (Im Bachschen Stil), 1919

Quando se decidiu pela pintura, fundou o seu estilo sobre o movimento, o ritmo, as oposições e tensões que experimentava ouvindo música da "Idade de Ouro", como lhe chamava - Bach e sobretudo Mozart, que era para Klee o expoente máximo da música, a que aspirava corresponder com a sua arte.

Pequena paisagem ritmada (Kleine rhythmische Landschaft), 1920

Klee pretendia captar o tempo (o fluir do tempo na música) e fundi-lo com o espaço, construindo uma visão nova da "simultaneidade". Achava que assim podia com a sua arte atingir um novo patamar de liberdade criativa.

Rítmico (Rhythmisches), 1930

Rítmico, mais forte e mais livre (Rhythmisches, strenger und freier), 1930

A composição, o ritmo, a variação, a harmonia e a melodia estão presentes em quase toda a obra de Klee. Alguns quadros quase se podem interpretar como «partituras» musicais:

Jardim abstracto-fantástico (Abstract-phantastischer Garten), 1920

Pastoral (Ritmos) [Pastorale (Rhythmen)], 1927

A melodia toma em geral forma de linha. O ritmo manifesta-se em sequências - a dois tempos, a três tempos ... - e na sobreposição de motivos e de campos cromáticos. Às harmonias sonoras correspondem harmonias de cor, brilho, luz e sombra.

Som antigo - abstracto sobre negro (Alter Klang, Abstrakt auf Schwarz), 1925

Em Som antigo há uma estrutura modular que marca o ritmo, uma correlação entre módulos que marca a cadência, e campos de côr que são ilustração sinestésica (inter-sensorial) da qualidade e intensidade do som. Pode ser uma sinfonia, pode ser um acorde a vários instrumentos...

O apogeu deste processo de composição surge quando Klee consegue uma pintura " a várias vozes, polifónica", à imagem da arte de Bach:


Polifonias, de 1932,
uma das mais conseguidas, intercala pontos e quadrados, tons e cores, de forma contrapuntística (clicar para ver mais detalhe). Mais do que associar esta ou aquela cor a esta ou aquela nota, há em vários níveis de estrutura uma espécie de vibração harmónica que faz a ponte entre as duas formas de arte. Ainda mais evidente nesta outra obra, onde encaixes complexos viajam da luz à sombra ou vice-versa, com subtis sobreposições de tons e permitindo uma polissemia de leituras:

Branco em conjunto polifónico(Polyphon Gefasstes Weiss), 1930

Klee refere-se também a óperas da sua predilecção - por exemplo personagens das óperas de Mozart, de Rossini ou de Verdi:

Don Giovanni bávaro (Der bayrische Don Giovanni), 1919.

Bartolo: La vendetta, oh! la vendetta!, 1921 (das Bodas de Fígaro)


A FUGA EM VERMELHO:

A par­tir de 1920, Klee integra a Bauhaus de Weimar, onde será professor. Lá encontra Bartók, Hindemith, Busoni, Stravinsky... é nesse período que pinta "Fuga em vermelho":

Fuge in Rot, 1921

Inspirado por uma fuga de Bach, este é talvez o quadro onde Klee mais claramente exprime os seus estudos sobre harmonia. "Ouve-se" ou "lê-se" uma composição/partitura a múltiplas vozes, quatro temas como um côro de formas que vão tomando variações na cor e na dimensão, partindo da forma vaga e obscura no sentido da nitidez e da luz, sobrepondo-se parcialmente, sendo retomados mais adiante numa ligeira mutação. A simultaneidade de campos sonoros, a gradação, a vibração harmónica de todo o conjunto, realizam a tese de sinestesia proposta por Klee.

Bach, Fuga da Sonata No. 1
Henryk Szeryng



Saber mais:

L'Express - Cité de la musique
Exposition Polyphonies

Centro Paul Klee de Berna
Museu de Arte de Basileia

Analogias Musicales, Museo Thyssen-Bornemisza, 2003

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Estranha imagem - castigo de deus ?

Para além da tragédia, da incompetência e de algum grotesco à volta do Costa Concordia: uma imagem como esta introduz uma nova dimensão, como se tivéssemos os olhos de deus sobre as nuvens e observássemos a nossa obra, o castigo inflingido aos homens na Terra:


Será um olhar de satisfação, de regozijo pelo efeito da punição? Um olhar piedoso, do pai que lamenta a bofetada que teve de dar ? Um olhar de espanto e pavor perante as consequências do seu gesto divino ? Um olhar indiferente, que vê o que tinha de ser, como um insignificante fotograma, um instantâneo do grande universo ?

imagem de satélite DigitalGlobe

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Holanda, Suíça, Áustria, pequenos grandes países


São três países pequenos, com dimensão semelhante à nossa, um com mar, outros sem, modestos de recursos naturais - a Holanda não tem o nosso potencial de pescas, a Áustria não tem olivais nem as praias do Algarve, a Suíça não tem a região vinícola do Douro, nem campos de golfe à beira mar.

O que tiveram, foi sabedoria, iniciativa, empenho, criatividade, visão, trabalho. Criaram indústrias inimitáveis - relógios, farmacêutica, cutelaria e o turismo alpino na Suíça; turismo cultural, pianos, seguros e jóias na Áustria; lâmpadas, grandes portos e ... flores, na Holanda. Tudo com imagem de marca. Constroem ainda maquinaria pesada - na Suíça, combóios e perfuradoras de túneis; na Áustria teleféricos, combóios e automóveis; na Holanda, barcos e guindastes.

A saber:
Holanda - Unilever, Phillips, Heineken, Shell, o porto de Roterdão
Suíça - Tissot, Swatch, Nestlé, Roche, Nescafé, Suchard
Áustria - Svarowsky, AKG, Bösendorfer, Generali, Red Bull

Além disso, não ignoraram a produção agrícola. Protegeram com cuidado os terrenos férteis. Não precisam de importar carne, lacticínios e cereais . O trabalho nos campos é altamente mecanizado e rentável. Na Holanda, foram até conquistados ao mar, e hoje esse território minúsculo, largamente excedentário na produção, é o terceiro exportador agrícola mundial ! Em maçãs e tomate, batem-nos aos pontos. Porquê?

Claro que têm uma banca sólida, a banca cresce com a indústria e as trocas comerciais. Uma banca saudável é sinal de uma economia saudável. Demonizar a banca, só nosso, de país com tiques de aristocrata arruinado.

Finalmente, investiram em devido tempo com racionalidade nos transportes. Privilegiaram o combóio, com uma densa rede que vai a toda a parte. Na cidade, tudo fizeram em prol da bicicleta, que é raínha nas cidades universitárias, dos "eléctricos" que sempre mantiveram convivendo saudavelmente com o resto do trânsito, em vez de mudar para o "metro de superfície" que atrapalha a cidade.

O chamado "centro histórico" das cidades holandesas, suíças e austríacas é geralmente uma extensa zona pedonal, um paraíso para passear e andar às compras, com árvores, jardins, bancos para sentar e muitas esplanadas. A poluição, diminuta. Viena, Zurique, Basileia, são repetidamente eleitas cidades com a melhor qualidade de vida.

E como se compreende que um festival "elitista" de música clássica numa pequena vila austríaca (Salzburgo) atraia multidões e dê milhões de lucro em poucos dias, como há pouco reportou o Intermezzo ? Qualquer festival cultural em Portugal tem de ser fortemente subsidiado e mesmo assim dá prejuízo.

Há em Portugal, desde há sei lá quantos séculos, um problema: não sabemos gerir o nosso pais, a nossa riqueza, os nossos recursos. Não sabemos. Nem a floresta, nem a riqueza das Índias, nem o ouro do Brasil; nem as colónias, nem os mares, nem as terras férteis; nem os fundos da U.E., nem o Douro vinhateiro e o seu património, nem a rede de caminhos de ferro, nem a frota mercante. E as coisa mal governadas acabam sempre por ir em benefício de oportunistas, cavando grandes diferenças de classe e gerando corrupção um pouco por toda a parte. Sem governo de jeito, cada um governa-se como pode.



terça-feira, 27 de dezembro de 2011

vem aí 2012

Que trará o novo ano? Entre esperanças e desilusões, eis algumas expectativas:

Ano do dragão

1 ELEIÇÔES

Estados Unidos e França vão a votos, e na China há mudança de dirigentes. Em que sentido serão as mudanças? E que gente vem aí, gente mais capaz ou apenas outras fabricações mediáticas?

2 CONVULSÕES

Incógnita perturbante: como vai a China encarar a sua própria bolha imobiliária, absolutamente assustadora pela dimensão, como tudo naquele país?

Queda de ditaduras: vai continuar? que vai suceder na insustentável Síria? e na complexa, confusa e também enorme Rússia?

Euro: aguenta-se firme ou prossegue aos trambolhões?

3 EVENTOS

Inevitável: os Jogos Olímpicos de Londres !
Barrete: Guimarães, Capital Europeia de ... qualquer coisa dispensável. Programação confrangedora, multicultural no seu pior - é mais um não-evento.

4 CRISE

Dará a União Europeia algum passito em frente, ou vai continuar a consumir-se na indefinição e na sua secundarização face aos outros poderes mundiais?

Bem minúscula preocupação: irá um pequeno país marginal, entregue à incompetência e à corrupção, conseguir a redução do défice à custa de uma nunca vista queda súbita do nível de vida dos seus cidadãos? e conseguirá reganhar a confiança dos credores?

Espero bem que sim. Senão, os "séculos de História" que passamos a vida a invocar terminam na indigência.

Mas só uma coisa tenho como certa: a profecia Maia é um flop, o fim do mundo NÃO será em 2012  :D


Para cada um, que seja um Bom Ano, com muita saúde, amigos, carinhos, sucesso e sonhos  realizados.