terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Arvo Pärt, Cantus In Memoriam
- não na CdM, afinal :(


Obra de 1977, para orquestra de cordas e um sino, o Cantus in Memoriam dedicado a Benjamin Britten é talvez uma das composições de Pärt mais frequentes nos programas de concerto. Contudo, depois de prevista para o próximo 15 de Abril, já foi cancelada na programação da Casa da Música, hélas.

Basicamente, a orquestra toca uma escala descendente das 8 notas de La menor, a que se contrapõe desfasada outra secção das cordas que toca as três notas do acorde de La menor, em progressiva complexidade. No conjunto, as duas ou mais linhas criam uma sensação de vagas sucessivas, ou de torvelinho, de crescente intensidade, até à última descida para o silêncio, quando apenas prevalece uma ténue badalada do sino em La, como uma subtil nota de esperança.
[adaptado de Jeremy Grishaw,

Strings of Hungarian State Opera, dir.Tamas Benedek

Benjamin Britten faleceu a 4 de Dezembro de 1976, antes que Arvo Pärt tivesse oportunidade para o conhecer;  Pärt admirava e até se identificava com a música de Britten, pelo que lamentou esse infeliz desencontro.

Uma interpretação ao vivo revela melhor o trabalho de orquestra. Esta que se segue talvez peque por um tempo demasiado rápido para meu gosto, mas é dirigida com precisão e ... é uma oportunidade para voltar a ouvir !

Radio Filharmonisch Orkest, dir. James Gaffigan.

[com uma piscadela ao Compasso Bucólico]


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Um post de Natal: as estrelas vermelho-alaranjadas que decoram janelas na Gronelândia.


O Natal é celebrado com particular empenho e alegria na Gronelândia: por esta altura a noite polar de quase 24 horas já há muito se instalou, e uma festa de luzes, com cânticos e fartas gulodices é uma diversão muito bem-vinda. Iluminam-se árvores (importadas, claro) e nas janelas brilha uma estrela, geralmente alaranjada ou vermelha, uma luz que dá algum ânimo na escuridão.

As luzes da árvore em Nuuk, a capital, foram acesas na presença de uma pequena multidão. É um acontecimento especial na noite ártica.

Em Sisimiut, já acima do círculo polar (66º N), toda a cidade - uns 6 000 - veio assistir.


Quem tem a janela mais bonita ? ( mesmo que o modelo 'único' à venda no país seja o mais frequente )






Kamgan Ukudigaa                      Boas Festas
Quyanaghhalek Kuusmemi        Feliz Natal




terça-feira, 8 de dezembro de 2015

80º N, a última latitude em terra habitável.


Viagem imaginária ! Agora que se aproxima o solstício de inverno, o passeio é sobre o paralelo 80, de nascente para poente, do Canadá Ártico para o Ártico siberiano.

Há poucas áreas de terra firme a 80º norte:

- as ilhas Axel Heiberg e Ellesmere,no Canadá.
- o extremo norte da Gronelândia.
- as norueguesas ilhas Svalbard.
- os arquipélagos Franz Josef e Severnaya Zemlya (Terra do Norte) no oceano     ártico ao largo da Sibéria.

Há plantas e flores a 80º N, durante os três meses de luz solar, como estas papoilas em Svalbard.

Partida: em Axel Heiberg, uma das ilhas mais setentrionais do Arquipélago Ártico canadiano, encontra-se um terreno arenoso, desértico, que foi escolhido como uma boa aproximação do que se espera em Marte. Pareceu adequado a testes em condições similares, e a NASA instalou lá uma base - a estação MARS ("McGill Arctic Research Station"), perto da latitude 80º N.

Uma das regiões mais secas da Terra - é raro chover, e sempre pouco.

A nascente 'Lost Hammer Spring' é um caso único - contém bactérias que se alimentam de metano e conseguem sobreviver a -60º, em condições extremas de hiper-salinidade, sem oxigénio. Parece Marte ?

Estação McGill, 79º 26' N.

Mais:
http://ultima0thule.blogspot.com/2014/07/axel-heiberg-arctic-as-arctic-can-be.html

Sigamos para a vizinha Ellesmere, a maior do arquipélago e a que mais se aproxima do Pólo Norte. É tão grande como a Grã-Bretanha !

Cadeias montanhosas de beleza precipitosa e formas estranhas.

O fiorde Tanquary, um dos maiores e mais bonitos em Ellesmere.

A 80º N situa-se a estação Eureka, base militar e de estudos meteorológicos, permanente desde 1947.

Eureka ao longe na planície gelada.

Em Eureka já houve várias gerações de construção. O mais recente centro de operações vem de 2005.

Continuando para Leste, atravessamos o Estreito de Nares e aportamos na costa poente da Gronelândia, ao encontro do célebre glaciar Humboldt (ou Sermersuaq, em inuit), o mais largo glaciar no Hemisfério Norte :


A frente marítima estende-se por 110 km.

Reflexo do glaciar sobre a Kane Basin, um braço de mar que separa Ellesmere da Gronelãndia.

Station Nord81º N

A estação Villum da Universidade de Aarhus integra a Station Nord.

Apenas 1 grau acima dos 80º, a base dinamarquesa Station Nord é uma das mais frias e remotas estações polares do planeta, na longínqua e desabitada costa nordeste da Gronelândia:


- 40º C é 'normal' por aqui.



Atravessamos o Atlântico Norte para o europeu (norueguês) Arquipélago de Svalbard. O paralelo 80 mal toca o extremo norte das ilhas.


Magdalenefjorden é um curto mas largo fiorde a cerca de 79º 30' N, na costa oeste de Spitsbergen, a ilha maior. Os cruzeiros do Ártico visitam com frequência este deslumbrante fiorde e os seus glaciares.


A povoação mais próxima é Ny Ålesund, para sul, a 79º N, uma estação científica permanente que ficou célebre pela aventura do zeppelin Norge:
http://ultima0thule.blogspot.com/2009/05/ny-alesund-and-adventure-of-norge-part.html

Mas em Svalbard há também um terreno avermelhado onde a NASA faz testes para a expedição a Marte: o Bockfjorden e o circundante deserto montanhosos de sedimentos vermelhos.


O Bockfjorden fica a 80ºN; é um lugar intrigante onde o quente e o frio convivem: não há capa de gelo, o clima é frio mas seco, e nascentes de água quente ainda borbulham no terreno vulcânico. Pouco gelo, águas quentes e águas frias, terreno ferido de erupções, este local lembra o que Marte teria sido no passado.

O vulcão Sverrefjell criou este lugar único.

Uma de várias fontes termais criadas pelo Sverrefjell a 80º N.

A expedição AMASE testando um robot em condições 'marcianas'.


Franz Josef Land

Estas ilhas mais que remotas estão quase todas acima do paralelo 80, muito ao largo da costa ártica siberiana. Uma delas, a Ilha de Bell, está exactamente nos 80ºN.
A ilha de Bell sempre fascinou exploradores e cientistas.

Nagurskoye, uma base na ilha Alexandra:

Esta base russa situada a 81º N esteve semi-abandonada até recentemente ter sido renovada com algum esmero.

Mais:
http://ultima0thule.blogspot.pt/2012/06/franz-joseph-land-strange-islands-lost.html


Cabo Tegettoff, Ilha de Hall, 80º N.

Há poucos lugares na Terra mais adequados a um filme de ficção fantástica !


Espectacular.


A Terra do Norte, Severnaya Zemlya, consegue ser ainda mais isolada, um nenhures a sul e a norte de coisa nenhuma, perfeito para misantropos se refugiarem da civilização no mais longe que o alto ártico russo permite.

Sim, há uma estação meteorológica em Golomyanniy, 79º 33' N, na Ilha Sredniy, mas é um desafio tremendo dar com ela, uma 'dacha' perdida num canto de uma ilhota gelada, uma das mais minúsculas e anónimas.


A estação de Golomyanniy funciona desde 1954. Agora os russos planeiam construir ali uma base militar, hélas.


A meteorologista-chefe. Lembra-me o livrinho "Le Météorologiste" de Olivier Rolin: longos dias de solidão, só entretida com os mapas e relatórios das medições.

------------------------

Pode surpreender, mas há vida animal a esta latitude. E bichos bem grandes !

Uma fofinha raposa do ártico em Novaya Zemlya.

O antipático e arisco boi almiscarado, Ilha de Ellesmere.

Bonito mas temível, um urso polar em Franz Josef Land.


A acabar, como comecei: uma florinha contente nos 80º N !



O Ártico vive esta contradição: cada vez mais acessível e cada vez mais ameaçado, pelas mesmas causas - o avanço tecnológico e o aquecimento das águas. Muito do seu apelo à aventura fantástica e solitária estará em risco pelo crescente povoamento, pela exploração de recursos, pela travessia de frotas comerciais. Mas os 80º N devem ter ainda muitos anos de deserto gelado e inóspito pela frente, que lhe garantem algum recato, felizmente.