sábado, 11 de junho de 2016

'The legendary Nikolaus Harnoncourt'


É assim, há pessoas que passam a legendárias mal nos deixam, ou se calhar ainda em vida. É pelo menos desta forma que o maestro Harnoncourt é anunciado na ClassicFm, numa obra de génio que ele interpretou como ninguém: a Fantasia Coral (Chorphantasie, 1808) de Beethoven. Ao piano, e bem, Laurent Aimard. Um dos melhores CDs de sempre, a ouvir muitas vezes.


Dura cerca de 20 minutos e está integralmente no youtube. Se só houver tempo para uma parte, que seja a grandiosa 3ª, onde se nota mais a mão de Harnoncourt. E de preferência em alta fidelidade.

1 Adagio (piano)

2 Finale I

3 Finale II



Harnoncourt Heritage.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Os 'Larousse' - cresci entre o Petit e o Grand


A minha tendência 'enciclopédica', que se nota aqui no Livro, talvez tenha esta explicação simples - foram dois 'Larousse' a monumental fonte de informação que me formatou.


Foi por influência das visitas à minha tia, a única que interessa para o caso, onde tinha liberdade nos anos 60 para consultar um livro bonito que era raro ver por cá: o Petit Larousse de 1963 - que comecei a coleccionar recortes de jornal (sobretudo o 'Primeiro de Janeiro'), que agrupava por temas, e depois colava nuns cadernos muito mal amanhados com capa de cartolina e folhas presas por agrafos. Chamava a isso "Enciclopédia Ilustrada", para enorme gozo do meu irmão. Era, na altura, o meu 'blog'.


Mas o que me interessa agora aqui é relembrar o Petit Larousse. 1798 páginas em formato A5, bem encadernado e muito usado, tanto que está encapado com protecção plástica. Uma jóia. Era editado por Claude Augé.

A letra A começava com um belíssimo Avion Caravelle, a letra T figurava sobre uma imagem do Tigre Royal.


Cada capítulo de Arte - românica, mexicana, muçulmana - tinha direito a uma ou duas páginas ilustradas de exemplos. Algumas pranchas a cor eram um luxo - Papillons, Energie nucleaire, Renaissance, Costumes. Cada país, cada continente, dava direito a um excelente mapa, a uma ou duas cores.

Aqui encontrei uma aprendizagem que a escola não dava.

As famosas pages rose separavam o volume em duas partes. Nelas listavam-se locuções latinas (quase todas !) e estrangeiras:

Um guia precioso!

Antes das páginas rosas, na primeira parte, que era a maior, os nomes comuns; na segunda parte, os nomes próprios - pessoas, personagens mitológicas, localidades. Desenvolvia-se a História e a Cultura, com mapas, pranchas e cronologias. A Suíça tinha um belo mapa de página inteira, detalhado, tão grande como o dedicado à Península Ibérica; lá ao norte ficava, sic, La Corogne. As últimas páginas eram outro suplemento - um pequeno Atlas dos países francófonos.

Era óbvio o peso maior da cultura clássica - havia muito mais informação sobre a Mesopotâmia, a villa Borghèse ou as igrejas Góticas, do que sobre arquitectura moderna, a pintura abstracta, as cidades de hoje. Todos esses enviesamentos influenciaram certamente o meu gosto, é verdade.

Matisse é o mais moderno a merecer referência ilustrada.

'Automobile'. Quando era quase uma arte.

Um dos poucos nomes portugueses, Camões: "grand poète portuguais (...) mort dans la misère. Il excèle dans les images hardies, les peintures éclatantes des phénomènes de la mer." Voilá.

Salazar, oh não, "homme d'état portuguais,  il a fondé le nouvel état sur le régime corporatif et maintenu son pays dans la neutralité."
Praticamente o mesmo número de linhas.

'Bateau' surpreende pelas duas referências a Portugal: o sardinier (suponho que é o barco da xávega) e o rahello, certamente rabelo do Douro.

É fácil, hoje, detectar erros, incorrecções e disparates. a net é tão mais rápida e auto-correctiva. Em 63 nem se sonhava com isso: ordinateur, s.m., 'calculateur arithmètique' (...). A proeza mais recente da humanidade era o satélite russo tripulado (1961), o Vostok 1 de Gagarine ainda algo misterioso, e a tecnologia de vanguarda era o transistor. "Trou noir" não existia, nem sequer "cassette", mas existe électrophone (uma caixa, tipo mala, com gira-discos e altifalante)!


O Larousse du XXème Siècle é de outro campeonato. São 6 enormes e pesados volumes, do A-Carl ao Ro-Z, sem esquecer o Carm-D, onde era suposto encontrar tudo, exaustivamente, sobre qualquer assunto até à data de publicação.


O forro da encadernação já era por si uma pequena enciclopédia.

Não é livro que se leve para ler na cama antes de adormecer, mesmo assim "li-o", quer dizer, folheei uma a uma todas as páginas consultando um ou outro artigo, duas vezes !

Assim abriam as letras.

Editado por Paul Augé, editor da família de Claude Augé.

Oiseaux.

'Arbres', uma das minhas pranchas favoritas.

No 'XXème', Portugal merecia três páginas, nada mal. Infelizmente, uma delas era a genealogia da monarquia portuguesa...

Uma das grandes qualidades do Larousse eram os magníficos desenhos, todos eles. Mas em particular os desenhos de obras de arte - igrejas, castelos, e mesmo pinturas ! - que faziam melhor efeito do que fotografias.

Louve du Capitole.

La foi.


Ave Cesar.

Bela coisa, as enciclopédias. Belos livros, sim, mas belos objectos também, testemunhos históricos de uma época.

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Hoje, a viagem virtual percorreu memórias de... livros! :)


domingo, 5 de junho de 2016

Poema do supermercado, Whitman e Ginsberg


Deparei há poucos dias (*) com este lindíssimo poema de Allen Ginsberg que nunca tinha lido, em que Walt Whitman é o principal interveniente, numa evocação que mais parece uma sentida homenagem. O supermercado é como um microcosmos da nação decadente, onde ambos andam à deriva, como deportados em país estranho. Há quem veja nele uma epécie de novo Inferno de Dante, onde somos guiados por corredores infestados de demónios. Mas Ginsberg, idealista da "beat generation", não esteve nunca em sintonia com Whitman, saudosista da Nação americana genuína.

Procurei traduções, mas não encontrei nenhuma decente. Aqui fica a minha tentativa.


Um supermercado na Califórnia

Como pensei em ti esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava debaixo das árvores por ruas travessas, a olhar para a lua cheia com uma dor de cabeça, conscientemente.

No meu faminto cansaço, e tentando comprar imagens, entrei no néon do supermercado de frutas sonhando com as tuas listas !

Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras às compras de noite! Corredores cheios de maridos!

Esposas entre os abacates, bébés entre os tomates! – e tu, Garcia Lorca, o que estavas a fazer junto das melancias?

Eu vi-te Walt Whitman, sem filhos, velho furão solitário, remexendo as carnes no refrigerador e fazendo olhinhos aos garotos da mercearia.

Ouvi-te fazer perguntas a cada um: Quem matou as costeletas de porco? Quanto custam, as bananas? Serás tu o meu Anjo?

Deambulei à esquerda e á direita entre as pilhas brilhantes de enlatados, seguindo-te e sendo seguido na minha imaginação pelo segurança da loja.

Passeámos juntos por largos corredores na nossa solitária fantasia provando alcachofras, pegando em todos os petiscos congelados, e sem nunca passar pela caixa.

Aonde vamos, Walt Whitman? As portas fecham dentro de uma hora. Para onde aponta a tua barba esta noite? (Toco o teu livro e sonho com a nossa odisseia no supermercado e sinto-me absurdo).

Vamos andar toda a noite por ruas solitárias ? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagadas nas casas, ambos ficaremos sós.

Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis na estrada, de volta à nossa silenciosa cabana?

Ah, querido pai, barba grisalha, velho professor de coragem, que América era a tua quando Caronte deixou de navegar a sua barca e tu foste para a margem enevoada, vendo a barca desaparecer nas negras águas do Letes ?

Berkeley, 1955


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Também tive uma fase de ódio e rejeição aos supers e hipers. Ficava doente lá dentro, sobretudo com enchente. Agora habituei-me, e se não é um lugar poético, passou pelo menos a rotineiro e indiferente.

Já agora, parabéns a ambos pelo aniversário recente - Whitman a 30 de Maio, Ginsberg na sexta passada, dia 3.



* The Paris Review