sábado, 17 de setembro de 2016

Gand (Gent), a gloriosa Manhattan medieval flamenga


Tenho de decidir: Gent, Ghent ou Gand ? pois será Gand, que a língua francesa é bem mais bonita que o arranhado neerlandês de Flandres. 'Gante', versão dita portuguesa, é muito feio. De qualquer modo, a etimologia é gaulesa, de Condate (=confluência), acentuada em 'Con', e não de origem germânico-flamenga. Gand fica na confluência do rio Lys (Leie) com  o Escaut (Schelde).

Cheguei a uma sexta-feira e o fim de semana foi mau. Suja, e com estaleiros e obras por toda a cidade - incluindo junto à ponte St. Michiels, na catedral, no cais Graslei -, apinhada de turistas que deixam rasto de papéis e garrafas, a primeira impressão foi de uma cidade em catástrofe, nada da bela Gand limpa, sossegada e ordeira que tinha conhecido em 1994... Como as cidades mudam !

Durante a semana, a invasão foi mais reduzida e as ruas limpas. Menos mal. Pouco a pouco Gand foi abrindo recantos de beleza que não tinha observado na primeira visita. Mas primeiro a sala de visitas:

À hora certa, com a luz certa, Gand é gloriosa. Korenlei à esquerda, Graslei à direita, castelo dos Condes de Flandres ao fundo: a vista da ponte de S. Miguel sobre o rio Lys é uma das mais românticas da Europa, a lembrar Praga.

Korenlei, a Rua do Trigo, talvez o mais bonito dos cais do rio Lys. Esplanadas a mais.

Do outro lado do rio, em frente, fica Graslei, a Rua das Ervas; era aqui o antigo porto medieval, que fui encontrar parcialmente 'escondido' com obras, andaimes e guindastes, e pejado de guarda-sóis. Era assim, quando o vi em 1991:

As casas relacionadas com o comércio portuário (de 1200 a 1600): o Armazém de Grão, ao centro (séc. XIII), depois o pequenito Posto Fiscal, a seguir a Casa dos Pesadores de Grão (1435) com o "Big Ben" por trás, e a linda Guilda dos Barqueiros Livres à direita.

Desta vez fotografei detalhes:

A casinha fiscal onde Gand cobrava as taxas portuárias e alfandegárias.

Casa da Guilda dos Barqueiros Livres (Francs-Bateliers).

Muito ornamentada renascença flamenga, de 1531.

O emblema dos Barqueiros sobre o portão.

Gand não deixou de ser cidade portuária: actualmente o porto fica a Norte da cidade, comunicando com o mar por um canal de 32 km, construído no século XIX, cujos 200 m de largura permitem a navegação até ao porto e Terneuzen, no Mar do Norte.

Mas neste regresso dei mais tempo a outros atractivos: a zona residencial e boémia de Prinsenhof, as béguinages, o núcleo histórico de Patershol, e deambular à noite pelos cais do rio Lys, para um último café. E já não fui rever os Van Eyck que não aprecio por aí além. Preferi "viver" as ruas e as vias de água. A vida de Gand desenrolou-se sempre à volta dos rios e dos canais, até o Castelo dos Condes lá foi edificado:

O castelo dos Condes de Flandres, Gravensteen, uma as "top-attractions", mas de facto uma arquitectura única que vale a visita.

E também o Mercado do peixe:

Agora funcionam no edifício um restaurante e o Posto de Turismo.

Um dos mais pitorescos recantos da cidade.

Foi assim junto à água que Gand cresceu quando era porto de mar (Portus Ganda), quando a indústria dos tecidos e da cerveja - chegou a haver umas centenas de destilarias - transformou a cidade num inferno tal que foi baptizada por um médico inglês como a "Manchester do continente": cheiro nauseabundo, fumo irrespirável, o rio transformado em esgoto...

E é assim agora pela monumentalidade da frente urbana à volta dos cais fluviais. A verdade é que, também pelo passado industrial de grande urbe nos séculos XIX-XX, Gand tem um carácter que me agrada ainda mais que a pitoresca, bonita, pequena Bruges.


A réplica do 'Big Ben' foi construída pelos ingleses em 1913 para uma Exposição Mundial.


A Manhattan da Flandres

"One of the finest views of a medieval skyline in the whole of Europe", escreveu um visitante.


O piloto do barco turístico usou a expressão "Manhattan da Flandres", certamente repetida dezenas de vezes por dia. Mas faz algum sentido: o perfil das torres e agulhas góticas vistas da ponte Sint-Michiels permite a alusão. E é muito melhor assemelhar-se a Manhattan que a Manchester !

É indispensável o passeio de barco, que não tinha feito há anos e agora me deu uma visão mais adequada das várias fases que a cidade viveu.


Passeio de barco

O embarcadouro é em Korenlei, não há fila, parte em 5 minutos.

Predikherenlei, rua dos Pregadores, um ponto de encontro e de descanso. Detalhe:

Fachada neo-gótica do antigo posto dos Correios.

O que faz uma cidade: pontes, canais, barcos, torres, janelas, esplanadas... parece um conto das Cidades de Italo Calvino !

Também qualquer coisa de Veneza, claro.

Dolce far niente, em Gent. 




A florescente indústria de panos deixou uma herança marcante. Enquanto Bruges vive de um turismo de lojinhas de chocolate aos milhares, Gand trabalha e estuda, tem uma dimensão culta e cosmopolita, mais moderna para o bem e para o mal; ser cidade universitária ajuda muito.

Cá está o passado industrial, fonte de ar sufocante e água pestilenta.


O Rabot (1491), a Porta fortificada que resta da muralha que protegeu a cidade. Servia também de fecho para canal Lieve, em tempo de cheias.


O quarteirão Prinsenhof

Pontes é o que não falta, canais obrigam.

Perto do Rabot fica o bairro de Prinsenhof, tal como a antiga Béguinage de que já dei notícia.

É uma área muito tranquila de ruas pedonais ou de trânsito reduzido, onde uma vez por ano acontece uma feira da ladra, a Portobello local, com jazz ao vivo e uma multidão de Gantenses (?) a gozar o sol do domingo.



Sint-Antoniuskaai, 'far from the madding crowd' mas ainda no coração da cidade.

Voltando ao centro: estas são duas das casas mais bonitas de Gand, com a tradicional empena triangular (rococó) de frente para a rua, em Patershol.


Anno 1669.




Também a Arte Nova tem os seus bons exemplares:



Finalmente, as vistas do alto - uma do Beffroi / Belfort , outra do Castelo:





Adorei reviver Gand. É uma festa arquitectónica para os olhos. Cidades assim preenchem a pulsão urbana que sempre tive, mas não sei se gostaria de lá viver, talvez não, agitação a mais. Para viver prefiro cidades como Bath, de beleza mais sóbria e elegante, mais acolhedora como um berço. Ou Ravenna.

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A seguir, Gand à noite - um dos poucos sítios urbanos do mundo onde é um prazer tranquilo desfrutar a cidade a partir do sol posto.



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Béguinages de Flandres / Vlaamse begijnhoven


As béguinages dos Países Baixos são espaços urbanos medievais quase perfeitos de harmonia e de arquitectura amiga do residente. Foram construídas a partir do século XIII exclusivamente para mulheres sem obediência a ordens religiosas, em geral de classe alta, que pretendiam viver em sossego, privacidade e segurança num período em que esta rica região da Europa - rica da Liga Hanseática - era assolada por guerras quase permanentes: a guerra da Flandres (1297-1305), a revolta dos camponeses flamengos contra o excesso de taxas imposto pelo reino de França (1323-1328) - uma insurreição permanente de cinco anos... a guerra dos Cem Anos chegou depois (1337-1453), e tudo isto para além dos muitos que partiam nas Cruzadas para a Terra Santa. Há quem defenda que devido à elevada mortalidade masculina havia excesso de mulheres sós, o que terá sido uma razão para o surgimento destes espaços. De qualquer forma, foi uma conquista e uma evolução positiva no respeito pela condição feminina.

Batalha de Courtrai / Kortrijk, ou das Esporas Douradas (1302), em que o condado de Flandres derrotou o exército francês.

Uma begijnhof era em geral um quarteirão murado em torno de uma praceta rectangular relvada e arborizada, à volta da qual se fechavam quatro frentes de moradias em arquitectura barroca de dois a três andares, em tijolo ou pintadas de branco na frente ou nas traseiras, às quais se acedia por arruamentos estreitos e exclusivos. Uma igreja, várias capelas e uma enfermaria integravam o conjunto. Surgiram pela Holanda e Bélgica, num período violento e belicoso, quando o espaço urbano medieval era infrequentável para mulheres sós e avesso a mulheres emancipadas - em breve chegaria a era da caça às bruxas e as beguinas não escaparam a perseguições.

Plano da Oud Begijnhof Sint-Elisabeth de Gand.

Hoje em dia, as béguinages tornaram-se condomínios abertos de luxo, com belas moradias - muitas com jardim ou pátio próprio - à volta do jardim e da igreja. Na Flandres há 26, sendo 13 classificadas pela UNESCO; das que visitei em Gand (com obras de restauro a decorrer), em Courtrai e em Bruges, deixo aqui uma foto-reportagem.

Começo pela Oud Begijnhof (Antiga Beguinage) dedicada a Santa Isabel da Hungria, junto a Prinsenhof,em Gand. Antiga mesmo, de 1234, era bem protegida, rodeada de canais e murada, até ser desactivada no séc. XIX e aberta à malha urbana. A frente nobre, virada para a praça e a igreja, é em tijolo vermelho vivo, mas por trás circula uma rua residencial de fachadas brancas !




As beguinas eram na maioria viúvas ou celibatárias; sem fazer votos monásticos escolhiam uma vida religiosa independente mas solidária, numa "cidade de paz" de inegável cuidado arquitectónico.

Caiadas de branco como no Sul da Europa.


Esta é também conhecida como Groot Begijnhof, pois era uma das maiores dos Países Baixos, tendo chegado a albergar milhares de beguinas.

Desde 1956 é uma área residencial protegida, onde vivem artistas e gente abastada. Luxo na Idade Média...
                                                  Site: http://elisabethbegijnhof.be/nl


Também em Gand, a mais pequena Klein Begijnhof (ou Ter Hoye), fundada em 1235, ainda conserva a muralha à volta e acesso condicionado a um pórtico único:

Uma pequena capela logo a entrada.

Mais à frente, na esquina de outra capela, este Ecce Homo.

O relvado central.


Também classificada pela UNESCO (em 1982), é agora uma área residencial cara numa zona moderna de Gand.


Em Courtrai / Kortrijk, uma cidade flamenga rica junto à fronteira com França, perto de Lille, onde as lojas de costureiros famosos (quase todos !) alternam com casa de chá luxuosas, fui encontrar uma bonita béguinage mesmo no centro. É uma das mais antigas: data de 1238, e também faz parte do conjunto flamengo classificado.






Finalmente, a mais visitada, a Ten Wijngaerde em Bruges, de 1245. Esta é actualmente habitada por freiras beneditinas.

O canal e a cerca murada ainda isolam a antiga béguinage.


A entrada por uma ponte que termina num grande portal, como se fosse para um castelo.

Sauve Garde !





Parte da béguinage foi recentemente convertida em mosteiro beneditino.




A maioria das béguinages foi abandonada ou destruída durante a Reforma Protestante no século XVI. Antes, já várias acusações de "heresia" tinham dificultado a vida das beguinas; mas o pior viria com os excessos da Revolução Francesa, que encerrou muitas das que ainda restavam. Poucas sobreviveram até ao século XX  - entre elas a de Gand e a de Bruges, ainda activa.

Mas houve várias tentativas posteriores de voltar ao modelo das béguinages; recentemente, as Beguines of Mercy - as Sisters of Mercy da canção de Leonard Cohen - foi uma comunidade secular de mulheres, fundada em Vancouver, no Canadá. As Irmãs, católicas educadas e seculares, procuram a contemplação, as boas obras e uma vivência mais profunda dos valores espirituais.


domingo, 11 de setembro de 2016

Nine Eleven