domingo, 30 de maio de 2010

Breve interrupção, suponho

O Livro de Areia vai ter no mínimo uma semanita de paragem, não por viagem ou lazer, mas pelo que se costuma chamar "motivo de força maior".

Sem lamechices, tenho andado com dores cuja adjectivação seriam palavrões muito feios, e que me envenenam quase todos os momentos, impedido de caminhar. Após várias consultas com gente variada, concluí que tenho de fazer 3 buracos no lombo perto da L5, alargá-la e enfiar um aparelho que a impeça de continuar a deslizar. Chama-se artrodese. Parece que tem alta taxa de sucesso, e depois poderei voltar a dar longos passeios à beira mar ao pôr do sol :)

Com um longo, muito longo período de recuperação, vou ter horas, demasiadas horas para me dedicar ao blog depois do internamento. E para ir lendo estas colunas de livros em atraso... Até lá, os maiores sucessos na nobre arte de bloguear e que deuses, anjos, musas e querubins vos acompanhem e protejam...

sábado, 29 de maio de 2010

Brindemos à idade (continuação)

Como é sabido, isto da idade é um privilégio antigo. Os nossos remotos antepassados das cavernas raramente ultrapassavam 30 anos, tantas eram as mazelas de que sofriam, para além dos perigos que espreitavam fora da caverna. E as coisas evoluiram muito lentamente. Mesmo na Grécia antiga ou na África recente, chegar a velho é um privilégio tal que traz o reconhecimento de sabedoria e a respeitosa liderança da aldeia. Os jovens não servem senão para guerreiros...

Quem escreveu bastante sobre a questão nos povos do ártico foi Jack London.

Só com a segurança da civilização e os progressos da medicina as coisas evoluiram rapidamente, e de tal modo que subverteram a hierarquia: os velhos são muitos, demais, inúteis, um fardo; e duram demasiado. Os mais jovens ocupam os cargos de poder e influência, são os modelos de beleza e de conduta, mas o seu apogeu é breve.

Dois testemunhos muito belos de como ver a idade avançada:

Youth, large, lusty, loving-
Youth, full of grace, force, fascination.
Do you know that Old Age may come after you with equal grace, force,
fascination?

Walt Whitman

Age [along with retirement] appears to be best in four things — old wood best to burn, old wine to drink, old friends to trust, and old authors to read.
Francis Bacon

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Nenhum deus faria melhor

Duas árias da mais admirável música que jamais foi escrita, música de génio, se a há ; são duas preciosidades do super-dotado Georg Friedrich Händel, escritas para acompanhar uma pequena peça chamada "Alceste", esboço de ópera, ou "semi-ópera", que nunca chegou a ser representada. Quem procurar aqui dramatismo ou pathos, bravura ou longos vibratos, não encontra nada disso - só delicadeza, alegria e gentileza, e uma minuciosa articulação entre música e palavra, num contraponto que nenhum compositor conseguiu tão perfeito como Handel.

Come Fancy, empress of the brain

Come Fancy, empress of the brain,
and bring the choicest of thy train
to sooth the widow’d monarch's pain!

Close by his side
in mimic pride
let fair Alceste still display
her charms, as on the bridal day.

Canta Emma Kirkby

Gentle Morpheus, son of night

Gentle Morpheus, son of night,
hither speed thy airy flight!
and his weary senses steep
in the balmy dew of sleep.

That when bright Aurora's beams
glad the world with golden streams,
he, like Phoebus, blithe and gay
may retaste the healthful day.

Gentle Morpheus, son of night
Emma Kirkby George Frideric Handel: Alceste


A gravação é também uma absoluta obra prima dos tempos áureos de Emma Kirkby e da Academy of Ancient Music dirigida por Christopher Hogwood (L'oiseau Lyre). Apetece-me dizer que já não se faz música assim - os agrupamentos de referência das reinterpretações históricas têm vindo a perder frescura e agilidade. Tesouro para a minha ilha deserta, portanto.