terça-feira, 18 de junho de 2019

Magnum Mysterium de Morten Lauridsen por Akiko Meyers - 'extraordinaire'


Há pouco salientei aqui as muitas violinistas que se têm destacado em anos recentes, e uma referida era Akiko Meyers, de quem postei o Fratres de Arvo Pärt.

Mas na mesma gravação em CD, há outra obra ainda mais assombrosa: o 'Magnum Mysterium' de Morten Lauridsen, uma das suas composições mais conhecidas e justamente apreciadas, recriada por uma Akiko Meyers prodigiosa, arrepiante !



Que intensidade, rara.

Na gravação de Meyers em CD, 'Mirror in Mirror', com obras de Philip Glass e Arvo Pärt como o nome indica, ela é acompanhada com a Orquestra Philarmonia. Fica qui também, para comparar, mas gosto mais do duo com piano de Akira Eguchi.




Quanto mais ouço, mais gosto. Não há melhor desmentido para quem acha que já ninguém compõe música como-deve-ser. Recomendo vivamente a escassa mas muito bela obra de Lauridsen, sobretudo os poemas de Rilke que ele musicou:
https://olivrodaareia.blogspot.com/2014/10/rose-complete.html

Ouvir o original de Lauridsen, com o coro ? aqui.



sexta-feira, 14 de junho de 2019

Junho é mês de Estrelas !


Estrelas-do-mar, não do céu.


Na Praia de Salgueiros, litoral de Gaia, vi este ano pela primeira vez desde há não sei quantos anos um número elevado destes seres marinhos 'de fantasia'. Por acaso uma das praias concessionadas da zona chama-se mesmo Praia Estrela do Mar, talvez porque já em tempos havia lá muitas; mas agora tem sido uma encantadora fartura.



Estes equinodermes "asteroides" * movem-se muito lentamente, aproveitam as pequenas correntes de água que vêm e vão com as ondas, mas não aguentam mais que poucos minutos fora de água. Na maré baixa, descem cada vez mais, das rochas onde se agarravam para o fundo de areia. Um vídeo da família:
* classe Asteroidea

Claro que me lembrei de Sophia de Mello Breyner: assim como me pus a cantar o gaélico Donovan Leich:

Fine rock a-pooling coast 
This starfish on the toast 


E esta estrela mensageira to Belgium from England ?

Donovan, 'Epistle to Derroll'


Come all thee starry starfish
living in the deep blue sea
crawl to me i have a
proposition to make thee
would you walk the north sea floor
to Belgium from England
Bring me word of a banjo man
With a tattoo on his hand.

The spokesman of the starfish
spoke as spokesman should
"If’n you met our fee then
certainly we would,
should you cast a looking-glass
upon the scallopped sand
You'll have word o' this banjo man
with a tattoo on his hand."

"O Come ye starry starfish
I know your ways are caped
maybe its because you're 

astrologically shaped,
Converse with the herring shoals
as I know you can
Bring me word o' the banjo man
with a tattoo on his hand."

The eldest of the starfish
spoke, after a sigh,
"Youthfull as you are young man
you have a 'Wisdom Eye';
Surely you must know a looking-glass
is made from sand?
These youngfish are fooling you
about your banjo man."

"O Come then aged starfish
Riddle me no more,
for news I am weary
and my heart is sore;
All on the silent seashore,
help me if you can,
Tell to me if you know
of the banjo man."

"Now all through the seven oceans
I am a star, most famed,
Many 'leggys' have I lost
and many have I gained,
Strange to say quite recently
I've been to Flemish Land
And if you are courteous
I'll tell you all I can."

"You have my full attention"
I answered him with glee,
His brother stars were twinkling
in the sky above the sea
There I sat there with rapt
attention, on the sand,
very anxious for to hear
of the banjo man.

"I have seen this tattooed hand
through a ship port-hole,
Steaming on the watery main
through the waves so cold,
Heard his tinkling banjo and
his voice so grand
but you must come to Belgium
to shake his tattooed hand."

"O Gladly would I come
gladly would I go,
Had I not my work to do
and my face to show,
But I rejoice to hear he's well
but I must go inland,
thank you for the words you brought
of the banjo man."

I walked along the evening sand
as charcoal clouds did shift
revealing the moon shining
on the pebble drift
Contemplating every other word
the starfish said
whistly winds they filled my dreams
in my dreaming bed.


segunda-feira, 10 de junho de 2019

A Primavera no Porto de que ainda gosto (sem 'NOS')


Na primeira fase da minha vida, odiava a cidade. O Porto era cinzento, húmido, sujo, bêbados a praguejar pelas esquinas, medo de falar nos cafés, tascos mal cheirosos e sebentos. Havia mictórios, um nojo, muros e fachadas ao abandono a cair de podres, água fétida nas bermas e bueiros. E nos cinemas ou no Coliseu só raramente passava coisa que valesse a pena, tolerada pela censura.

Depois veio côr, mais sol, alguma pouca abertura ao mundo e à cultura (?), dinheiro europeu para restauros e obras, mais-valias urbanas. Alguma coisa melhorou. Os eléctricos ronceiros foram retirados do centro, a rua Sá da Bandeira ficou mais bonita, e a Júlio Dinis; o Rivoli e depois a Casa da Música mudaram o panorama da cultura, Serralves também ajudou, menos.

Passeios e árvores deram nova cara a algumas ruas do Porto desde 2001. Pouca dura.

Quando o Porto ficou mais bonito. Agora, a Galeria de Paris é infrenquentável.

Actualmente, e lamento muito, estamos a estragar tudo a alta velocidade. Voltou o mau gosto e a parolice, o descuido e a fealdade, as obras permanentes e eternas, tapumes com camadas de cartazes velhos, a sujidade e o ruído de gente variadamente embriagada. Tags e graffitis, garrafas partidas e embalagens pelos passeios desfeiam a baixa. A programação do Rivoli, Coliseu, Teatro S. João e Serralves é miserável, terceiro-mundista. Só se salva, meia dúzia de dias por ano, a Casa da Música.


Infante, Ribeira, Leões (que é do Chiadinho?) , Batalha, 31 de Janeiro, Clérigos - está tudo em degradação, o bom comércio a fechar, restando um Porto kitsch para turistas de mau gosto e portuenses portistas, feito de bares e lojas de artesanato quincalheiro, ou de "emblemáticos" tipo Disneyland: é uma dor de alma passar pela Lello ou no Majestic, no Piolho (tão sujo de tags), na Quinta do Paço, a ver entre mochilas e trolleys os azulejos em S. Bento ou tudo o que já não há no Bolhão. Cedofeita está semi-decadente, alternam lojas de cadeias plásticas globais, comedoiros plásticos rápidos, e fachadas entaipadas de comércio que fechou; renovadas, só as fachadas que dão alojamento turístico. Das tradicionais relojoarias, casas de miudezas, luvas e guarda-chuvas, chapelarias, queijarias e mercearias, quiosques e alfarrabistas - não sobra nada.

31 de Janeiro: o postal autêntico que devia promover a imagem da cidade.

Será este o 'emblemático' Porto antigo que ganha prémios?

Ou este? Noutro lado chamavam-lhe 'favela'. Na Europa, disto só no Porto, que eu saiba.

Também não há nenhuma zona residencial bonita; semearam a antiga periferia de super-mercados, semáforos, picos sinalizadores; há na mesma estacionamento abusivo e cada vez mais prédios de mau gosto, alguns com excesso de altura; e ruas com algum interesse de arquitectura urbana como Álvares Cabral foram reconvertidas num continuum de hostéis e apartamentos turísticos.


Na minha área de 'conforto', há a Livraria Bertrand, com cafetaria Arcádia, no feio C.C. 'Cidade do Porto'; a excelente pastelaria e salão de chá Petúlia, noutros tempos mal frequentada; o Orfeuzinho para ler o jornal com um café; o mercadinho ('mercearia fina') Casa São Miguel, um pomar grande com frescos de qualidade; o Bazar Paris logo no início da Avenida da Boavista.


O salão da Petúlia

Bar dos Artistas da CdM

Os sítios que me sobram são
- os Jardins: Parque da Cidade, Botânico, Palácio, Casa das Artes, Casa Tait...
- a Beira-mar, ou seja, a Foz e o Passeio Alegre / Cantareira
- a Casa da Música, oásis onde encontrar cosmopolitismo de qualidade (como na Gulbenkian de Lisboa)
- o centro moderno dentro e à volta do Bom Sucesso - feio mas com comércio de qualidade.

A Foz




O Molhe

O Passeio Alegre


Água e café...

Talvez no Chalé.


O Jardim Botânico:




Pronto, já esqueci que estou na Invicta. Óptimo.

Os jardins do Palácio


Sob as tílias, e lá ao fundo...



Os Jardins de Serralves

Difícil é já escapar da multidão. Há que escolher dia, hora, sítio...

A mais que centenária oliveira,

e o terreiro da Casa de Chá:
Desta 'arte contemporânea' é que eu gosto.


Finalmente, o Parque da Cidade, cada vez melhor:






O que eu gosto no Porto, não é do espaço urbano. São os parques e jardins, o rio e o mar. Só aí é que o Porto, na Primavera, é único.

[Excepto, como agora, quando uma multidão de selvagens intitulada "NOS Primavera Sound" invade os espaços verdes, sob a amplificação ribombante, expulsa os pássaros e não deixa ouvir o silêncio. Raio de conceito pós-moderno de Primavera.]