domingo, 11 de outubro de 2020

Dois poemas de Louise Glück


Não fiquei muito entusiasmado com a atribuição do Nobel a Louise Glück:  parece mesmo forçado por questão de género, já havia muitos homens nomeados na Ciência...  

A poesia de Glück parece-me pouco mais que mediana. Mas pior ainda, os poemas que apareceram na imprensa portuguesa são escolhas infelizes. Encontrei dois que me agradam mais, traduzi e aqui estão:

 O passado

   Um pouco de luz no céu surgindo
   de súbito por entre
   dois galhos de pinheiro, as finas agulhas

   agora impressas na superfície radiante
   e por cima este
   alto, plumoso éden -

   Aspirem o ar. É o aroma do pinheiro branco,
   intenso quando o vento sopra através dele,
   e o som que produz é igualmente estranho,
   como o som do vento ouvido num filme -

   Sombras que se movem. As cordas
   soando como cordas. O que se ouve agora
   será o som do rouxinol, Chordata,
   o macho que corteja a fêmea -

   As cordas escorregam. A cama de rede
   oscila ao vento, atada
   com firmeza entre dois pinheiros.

   Aspirem o ar. É o aroma do pinheiro branco.

   É a voz da miha mãe que ouvem
   ou é só o som das árvores
   quando o ar as atravessa

   pois que som havia de fazer
   se nada houvesse para atravessar?

 

 

          Borboleta

                 Olha, um borboleta. Pediste um desejo?
                 Não se deseja com borboletas.
                 Sim, pois. Pediste um ?
                 Pedi.
                 Esse não conta.



quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Almoço portuário em Wismar

Covid oblige, tenho-me ocupado um pouco mais a reviver memórias de sitios onde estive; e para além de museus e concertos, paisagens e cidades, também me sabe bem recordar quando me sentava faminto numa mesa simpática para reestabelecer energias. Restaurantes, portanto, quase sempre económicos e vulgares, mas onde estive com agrado.

Começo em Wismar, uma das cidades alemãs mais bonitas, onde me senti europeu feliz, num dia de sol a descer a zona histórica em direcção ao porto. Percorrida a Dankwartstrasse recheada de edifícios hanseáticos, passada vasta Marktplatz, curvamos para a Frische Grube, uma rua bonita ao longo do emparedado rio Gruben, muito dado a cheias.

A rua termina junto ao porto numa casa vistosa que atravessa o rio, a Gewölbehaus (casa sobre arco). É uma casa em enxaimel do séc. XVII, sobre uma ponte em abóbada. O seu uso foi variando ao longo dos anos.

Já a tarde ia adiantada, e a fominha obrigou a escolher depressa, ali.

E foi este Kutterkaten, no cais fluvial em frente com os barcos e a cidade.

A Lübzer cumpriu, matou a sede.

Dorschfillet é filete de bacalhau, frito. Escolhi, claro, batatas para acompanhar.


Veio modesto mas agradável, para o preço estava bem. Claro que a mais valia foi a vista !

Wismar hanseática: à direita, Wassertor, a Torre da Água, uma das portas de entrada da muralha, a única que ainda existe (gótica, 1450); a casa ao centro é a Alfândega neogótica de 1888, agora restaurante. Por trás, a torre da Igreja medieval de S. Nicolau, igreja dos pescadoes. Uma festa do gótico em tijolo.

 https://de.wikipedia.org/wiki/Nikolaikirche_(Wismar)

 

 

domingo, 4 de outubro de 2020

Artemisia Gentileschi, agora na National Gallery



O auto-retrato recentemente adquirido pela Galeria é a jóia da exposição.

Na reabertura da National Gallery, uma exposição imperdível que vou perder à mon grand dam : o tributo devido, finalmene, a Artemisia Gentileschi, a grande pintora da Renascença italiana.


Artemisia Gentileschi

(1593, Roma - 1654, Nápoles)

Caso raro de talento e de coragem de enfrentar convenções, Artemisia  merece ser mais universalmente conhecida. Usava a côr (amarelos e azuis ficaram famosos) e a luz/sombra como poucos, fazia sobretudo retratos e nas cenas bíblicas projectava com violência o ressentimento pelos maus tratos sofridos por parte do tutor e um seu aluno.

Foi difícil afirmar-se, mas a sua primeira obra teve um sucesso tal que foi requisitada por príncipes e cardeais, construiu uma carreira única na época, e tem lugar entre os mestres da pintura barroca. Artemisia rodeou-se de um atelier de assistentes que recebia encomendas de gente rica em Roma, Florença, Nápoles.

Amarelos fabulosos na bela Allegoria dell'Inclinazione (1615-16).

A jovem regula uma bússula apontada para o céu, de onde uma estrela ilumina a sua cabeleira ruiva. Foi um sucesso, embora a Igreja tenha forçado a cobertura com roupas do corpo nu.


Artemisia ...
"... queria representar uma jovem bem fornecida, despida e que incarnasse a Allegoria dell'inclinazione, a alegoria de todas as propensões artísticas do divino Michelangelo. Com uma liberdade desconcertante, Artemisia retratou-se a si mesma, reivindicando na obra a beleza do próprio corpo, e o génio do seu pincel."

Num prematuro 'feminismo' assumido, Artemisia pintava mulheres, deusas, musas ou figuras históricas trágicas: Santa Cecília (várias), Santa Catarina, Madalena, Minerva, a musa Clio, Cleópatra, Judith ... e Artemisia ela própria, em vários auto-retratos.

Gosto imenso deste em que ela se retrata a tocar alaúde:

Autoritratto come suonatrice di liuto (tocadora de alaúde), ~1617


Cleópatra (1633-35)

A Cleópatra, no seu triste destino de mulher heróica, é retratada com carinho em tons de azul e amarelo... O uso do lapis-lazuli, o pigmento mais caro de todos, a que só recorriam os artistas mais reputados, nota-se no azul vivo do pano.

Em 1638, Artemisia viajou para Inglaterra a convite do rei Carlos I, indo fazer companhia ao pai Orazio que já era pintor da corte desde 1626. Em Londres ela iria pintar algumas das melhores obras - o Auto-retrato como Alegoria da Pintura.

Allegoria della pittura - auto-retrato de Artemisia, de 1638 - uma obra espantosamente moderna.

Esteve em Londres, onde encontrou o seu pai, pintor da corte, que poucos dias depois viria a morrer; terminou um fresco alegórico que ele só começara no tecto de um salão na residência real em Greenwich, actualmente a Marlborough House.

Allegoria della Pace e delle Arti sotto la Corona inglese, 1639
Ao centro, a Paz encimando a Vitória, e à volta as Artes - o Trivium e o Quadrivium.


Artemisia abandonaria Londres antes de 1642, e pouco mais se sabe dela a partir daí. Provavelmente morreu vítima da peste em Nápoles.

Maria Madalena em êxtase.

E mais um auto-retrato, um dos seus mais belos:

Musa della Pittura, 1635 - notável chiaroscuro.

Seria este o olhar de Artemisia ?

-----------------------------------------------------------------------------------
Mais:
https://www.widewalls.ch/magazine/artemisia-national-gallery