quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Revelação: a obra de Manuela Mendes da Silva

Raramente tenho dado relevo à obra de artistas contemporâneos; para me limitar à pintura, foi Anselm Kiefer, Howard Hodgkin, Mark Edwards, Nadir Afonso... em Portugal, tenho aversão a joanas e paulas, que produzindo essencialmente fealdade estão nos antípodas desta pintora que hoje refiro.

Tive a sorte, a feliz oportunidade, de ver por convite uma exposição recente de Manuela Mendes da Silva, pintora do Porto já com carreira longa e obra vasta que eu como muitos desconhecia. E fiquei devidamente mudo, quedo e deslumbrado.

Não é  arte figurativa, mas como em Vieira da Silva podemos lá descobrir todo o tipo de objectos, cidades, paisagens, sonhos, ficções, janelas escondidas para universos que só se pressentem. Isto quanto à composição, onde a pincelada larga e a fina se entrelaçam e complementam. Também os campos de cor e luz são admiráveis, ricos de matizes e sobreposições, cores predominantemente vivas - ocres, azuis, vermelhos e negros - mas com tantas transições de tonalidade que me fica uma ideia de obras longamente retocadas, demoradas de execução. Resulta no fim um todo fortemente sugestivo - uma cascata ? uma cidade ? uma porta ? uma fuga ? um êxtase ?

Bem, acho que consegui transmitir a riqueza de significados, de sugestões e de expressão artística que encontrei nos luminosos quadros de Manuela Mendes da Silva. Alguns exemplos que obtive online:











Manuela Mendes da Silva é filha do pintor e aguarelista José Bastos e neta do pintor portuense Mestre Mendes da Silva, e licenciada em Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto.


Decorre ainda no Tribunal da Relação (Palácio da Justiça) do Porto uma exposição de obras de Manuela Mendes da Silva, até 15 de Outubro.



quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Relembrando os cromos 'Maravilhas do Mundo', edição da Bruguera/Ibis


Eu diria que o sector de viagens e turismo se tornou o ramo económico de maior sucesso no século XXI. Não são as Startup nem os telemóveis. A mercantilização da aventura é o negócio do século. Sinal disso é o excesso de páginas publicadas, em papel e na Net: o Traveller, a National Geographic, a Geo, as ediçóes especiais do Figaro ou do Histoire, biliões de sites de viagens, a multilicação de companhias aéreas privadas e de cruzeiros, a invasão dos hotéis em territórios rurais e urbanos. 

Na minha infância (anos 60) a oferta a que tinha acesso era outra: as colecções de cromos, que se colavam numa "caderneta" provida de quadradinhos com legenda, e que eram publicados e vendidos em envelopes de quatro; saiam sempre muitos repetidos, as expressões "falta" e "já há" permitiam a troca entre amigos ou vizinhos coleccionadores. Nasciam assim "redes sociais", ah ah, no fim do século passado. Não eram virtuais - eram físicas: na escola, no elétrico, no quiosque, na rua ou no pátio das traseiras.

Tenho ainda duas dessas, Maravilhas do Mundo e Maravilhas da Natureza. Os antepassados dos actuais 'best of' 'travel destinations'. É curioso notar que 1º - já pecavam por muito maus textos, informações erradas ou deturpadas, como agora; e  2º - tinham contudo uma preocupação puramente cultural, não havia entre essas Maravilhas tascas, nem bares ou lojecas, nem sequer indicavam hotéis. E muito menos se eram gay-friendly. "Bons tempos".

A  Agência Portuguesa de Revistas (1948-1987) tinha mais de 50 publicações, desde boa Banda Desenhada a revistas fúteis; e publicava as colecções de cromos, muitas delas adaptadas de edições da espanhola Bruguera, que viria a associar-se à concorrente Editorial Ibis. A partir de 1957 é esta associação Bruguera /Ibis que publicará os cromos:
História Natural, Enciclopedia Cultura, Navios e Navegadores,  Bandeiras. Raças Humanas (ah, 'raças' !...), e sobretudo estas Maravilhas do Mundo, Álbum I e II. Actualmente só há cromos de futebol.


O Álbum I era o que mais me fascinava: mostrava lugares que eu nem em sonhos imaginava, em cromos (de colorido fantasista, sei agora) que fui fixando de cor, junto com os textos, e com a crescente ânsia de viajar, de sair daqui, da ´pocilga'. O estímulo para fazer as malas começou aqui.


Nomes como 'O Halemaumau de noite', 'O Túnel de Torghatten', 'O Vale de Tonquin (Tonquin Valley)', 'Cascata de Angel'... tinham uma magia exótica sedutora.



Intrigava-me esta Cabeça da Velha na Serra da Estrela; parecia demasiado figurativa, só a mão humana podia ter produzido uma escultura assim.


Até que descobri que o calhau, na verdade, não passava disto:
 

Foi um grande choque e desilusão para os meus treze ou catorze anos. Que vigarice! E se o resto fosse tudo mentira também ? O que aconteceu (sei hoje) é que o editor português, face à inexistência de qualquer maravilha portuguesa na edição espanhola, resolveu inchado de patriotismo substituir alguns cromos por imagens de Portugal. E assim foi o Ilha da Madeira, a Cabeça da Velha e o Vale das Furnas. Todos horrivelmente falseados em forma e em cores.

Afinal foram poucas as maravilhas do álbum que visitei. Fui, por exemplo, ao Eisriesenwelt na Áustria: nenhuma semelhança com isto:

Gelo verde ?!

Afinal, uma infindável escadaria permite a visita, e é antes assim:


Ah, sonhos de criança desfeitos.
Valeu pelo estímulo, enfim, e pelas horas a devanear. 

Fui aos fiordes noruegueses e ao Cabo Norte, ao Monte Cervino e a Montserrat, ao Lago Bled e às Sete Irmãs de Geiranger, à Costa Brava de Gerona e ao Lago Uri, parte do Lago dos Quatro Cantões. Estes destinos, foi o álbum que os sugeriu, e por isso o relembro.


terça-feira, 5 de outubro de 2021

As casas-museu de Kirkjubøur e Saksun



Não se pode esperar grande arte europeia nos museus das ilhas Faroé. Se ainda hoje vivem à parte num modo de vida que beneficia de apoios mas não obedece às normas europeias, até há meio século atrás eram ilhas atrasadas, raramente visitadas, onde as comunidades piscatórias e de pastoreio viviam pouco melhor do que em modo de subsistência, conservando tradições milenares; o que por outro lado faz das ilhas no seu todo um museu.

Na verdade existe em Tórshávn, a capital, um museu com obras do pintor faroense Sámal Joensen-Mikines, o Listasavn Føroya. Mas o mais genuíno que as Faroé têm para mostrar da sua história está em casas-museu, em particular o conjunto que existe em Kirkjubøur, na ilha de Streymoy, a maior e mais povoada (~25 000 hab.) das Faroé e também uma das mais belas e incontornáveis.


A ilha de Stremoy fica à volta dos 62º N de latitude, tem numa extensão noroeste - sudeste 42 km por 10 de largura. Sem floresta, está coberta de verde excepto no Inverno. É uma das ilhas mais desenvolvidas, com rede de estradas e pontes.


Kirkjubøur
fica no extremo sul, na costa e sobranceira ao mar, como a larga maioria das povoações; actualmente só lá vivem umas 70 pessoas. É o mais importante local histórico das Faroé, residência de Erlendur, o bispo viking, filho do rei Horik da Dinamarca, que fez construir na aldeia, por volta do ano 1300, a grandiosa Catedral de Magnus, de que sobram só ruínas - ou talvez nunca tenha sido acabada. Marcava a cristianização das ilhas, até aí submetidas à Noruega e fiéis ao culto nórdico.

[- Esta imagem NÃO foi obtida em got2globe - ]


O que resta da catedral é testemunho suficiente da importância da diocese das Faroé e do seu bispado em Kirkjubøur. A residência episcopal Kirkjubøargarður - a Granja de Kirkjubøur - tinha portanto uma dignidade especial; foi contruída por volta de 1100, antes da nossa nacionalidade.

Roykstovan é a casa mais antiga, talvez anterior a 1100. A entrada era de costas para o mar.


Mais abaixo do complexo e perto do mar, a Igreja de St. Olav, também ela muito antiga, cujo interior moderno e despojado ainda serve o culto.


É uma das casas de madeira ainda habitadas mais antigas do mundo.


O leão empinado com machado é como um brasão, e indica submissão ao reino da Noruega.


Não havia árvores nas ilhas*, a madeira vinha da Noruega, ao que diz a lenda chegava à deriva por mar até dar à praia. A parte mais antiga da casa são as salas roykstova (sala de fumo) e loftstovan (águas furtadas), agora biblioteca.



A Roystova é a sala convivial, para trabalhar e jantar, a maior da casa, com uma abertura no tecto para a saída do fumo produzido pelos fogões.




Loftstovan, convertida em biblioteca.

As casas Kirkjubøargarður são propriedade do Estado cedidas à família Patursson, que as ocupa desde 1550, e actualmente vive na parte mais moderna e cuida das outras, declaradas património histórico.

O complexo mais recente data do séc. XVI/XVII




Sala da casa da família Patursson.

Saksun fica na costa noroeste da ilha Streymoy. Já foi uma entrada de mar entre montanhas, que formava um bom porto de abrigo. Uma tempestade violenta bloqueou a entrada com areia, criando uma lagoa de água salgada sem acesso do mar. 


Saksun deixou de ter um porto, é uma aldeia pitoresca no extremo da lagoa. Praticamente são meia dúzia de casas em redor de uma quinta de pastoreio do século XVII, e que foi estaurada como Casa-Museu Dúvugarður. Ainda se mantém activa como para criação e pastoreio de ovelhas.

Com os seus tectos cobertos de turfa relvada, as casas estão bem conservadas como exemplo da casa agrícola faroense.


No interior exibem-se sobretudo utensílios e mobílias no seu contexto original.


glasstova (sala do vidro) é a única com janela de vidro. É onde se dorme, come e trabalha.


A sala é aquecida com um fogão alimentado de carvão em brasa através de um furo na parede:



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Este post foi censurado e amputado de imagens que tinham sido importadas do site https://www.got2globe.com/ por decisão de Marco C. Pereira.
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* Desde há poucos anos foi possível plantar e manter uma pequena floresta e árvores dispersas.