sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Preâmbulo a Rayuela, de Julio Cortázar.


Cortázar cita no início um texto de César Bruto que, evidentemente, é um pseudónimo - no caso, do jornalista e humorista argentino Carlos Warnes (1905 - 1984). Warnes ganhou popularidade em parte pelo humor ortográfico - escrevia erros propositados como solójicO em vez de zoológico, ou desprastijio em vez de desprestigio - e pelo humor narrativo, como neste texto em que o começo leva a divagações mais ou menos disparatadas que terminam numa coisa totalmente diferente e sem qualquer lógica narrativa. Claro que Cortázar adorava esta não-linearidade, ele que foi mestre das narrativas múltiplas, intrincadas, dos tempos paradoxais e sobreposições misteriosas.

Acho este curto preâmbulo delicioso, deixa-me bem disposto, por isso o publico. No final, deixo alguas notas de tradução para quem tiver mais dificuldades com a prosa de Warnes.

Siempre que viene el tiempo fresco, o sea el medio del otonio, a mí me da la loca de pensar ideas de tipo eséntrico y esótico, como ser por egenplo que me gustaría venirme golondrina para agarrar y volar a los paíx donde haiga calor, o de ser hormiga para meterme bien dentro de una cueva y comer los productos guardados en el verano o de ser bívora como las del solójico, que las tienen bien guardadas en una jaula de vidrio con calefación para que no se queden duras de frío, que es lo que les pasa a los pobres seres humanos que no pueden comprarse ropa con lo cara questá, ni pueden calentarse por la falta del querosén, la falta de carbón, la falta de lenia, la falta de petrolio y tamién la falta de plata, porque cuando uno anda con biyuya encima puede entrar a cualquier boliche y mandarse una buena grapa que hay que ver lo que calienta, aunque no conbiene abusar, porque del abuso entra el visio y del visio la dejeneradés tanto del cuerpo como de las taras moral de cada cual, y cuando se viene abajo por la pendiente fatal de la falta de buena condupta en todo sentido, ya nadie ni nadies lo salva de acabar en el más espantoso tacho de basura del desprastijio humano, y nunca le van a dar una mano para sacarlo de adentro del fango enmundo entre el cual se rebuelca, ni más ni meno que si fuera un cóndor que cuando joven supo correr y volar por la punta de las altas montanias, pero que al ser viejo cayó parabajo como bombardero en picada que le falia el motor moral. ¡Y ojalá que lo que estoy escribiendo le sirbalguno para que mire bien su comportamiento y que no searrepienta cuando es tarde y ya todo se haiga ido al corno por culpa suya!

César Bruto, 'Lo que me gustaria ser a mi si no fuera lo que soy'
   (Capítulo: Perro de San Bernaldo).


Notas:
golondrina - andorinha
byuya - dinheiro (arg.)
boliche - taberna (arg.)
grapa - bagaço
bívora - claro, é víbora :)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Le dormeur du val, Rimbaud e Anselm Kiefer


Foi em 2014, quando visitei a Fundação Beyeler em Basileia, que tive a primeira experiência visual com Anselm Kiefer. A poesia visual, a novidade, a dimensão, o detalhe e aquilo que me parecia ser dito obrigaram-me a voltar a observar várias vezes com espanto. Não conhecia o nome, mas logo me pareceu obra de mestre contemporâneo, finalmente algo de génio para emparelhar com os clássicos.

Na Fundação Beyeler.

Esta 'Lilith', de 1997, parece uma antevisão do 11 de Setembro. Um 'caça' de chumbo, uma mecha de cabelo pendurada na asa, uma cidade de arranha-céus coberta de cinza. Um aviso de apocalipse.

Anselm Kiefer nasceu em 1945, e cresceu na Floresta Negra, junto ao Reno. Ficou marcado pela paisagem desolada do pós-guerra na Alemanha. A primeira parte da sua obra situa-se nos anos 70-90, inspira-se em temas da história germânica, mitos nórdicos, poesia (Paul Célan, Baudelaire, Rimbaud), música (Parsifal de Wagner), filosofia, na arquitectura de Albert Speer, folclore; explora também ícones contemporâneos e o uso da propaganda  visual no 3º Reich. A escala das obras foi crescendo e nelas Kiefer usa os materiais mais invulgares - rochas, flores, chumbo, vidros, areia, argila - sobre várias camadas de tinta. Desde 1991 passou a viver em França e alargou os temas de vida, morte e decadência muito para além da tragédia alemã. Kiefer tem também residência temporária na nossa Alcácer do Sal, e criou um projecto cultural para a Comporta que está à espera de melhores dias (*).

" Vejo os meus quadros de ruínas como blocos de uma construção, que se podem compor numa construção. São material de uma construção inacabada. Estão mais próximos do nada que da completude."

Está agora em exibição no Centro Pompidou, com enorme afluência e cobertura dos media, onde já é referência comum. Tanto quanto me lembro, foi o meu primeiro contacto com o génio no século XXI.

'Eisen Steig' ( Passeio de Ferro), 1986

'Tempelhof', de 2010-11, com 3,8 m. Catástrofe num hangar ? O Tempelhof servia de abrigo em Berlim durante a guerra.

'Lilith am Rotte Meer' (Lilith no Mar Vermelho), 1990, de 2,8 m. O holocausto?

A série Lilith é talvez a mais conhecida obra de Kiefer, pelo choque plástico visceral, mais forte numa exposição conjunta. Para Kiefer, Lilith é a "guia espiritual, anima e anima mundi ".

'Lilith' (1987-89), tela de 5.6 m. Tempestade sobre S. Paulo (?), tragédia bíblica, uma mecha de cabelo.

Sobre poema de Paul Célan, 'O teu cabelo de ouro, Margarida' faz parte de uma série temática - 'Todesfuge', fuga da morte, alusiva aos campos de concentração.

'Dein Goldenes Haar, Margaret´, de 1980


Uma das obras mais assombrosas é a recente 'Le dormeur du Val' (2013-15), sobre um poema de Rimbaud. Aqui ficam, ambos sublimes, estarrecedores.

C’est un trou de verdure, où chante une rivière
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent; où le soleil, de la montagne fière,
Luit: c’est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme:
Nature, berce-le chaudement: il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.


                                                                        Rimbaud

C’est un trou de verdure, où chante une rivière.


     “ Não há nenhuma lei que se aplique igualmente ao macrocosmos e ao
     microcosmos. No século XVII, Robert Fludd criou artificialmente essa
     correspondência quando disse que a cada planta corresponde a sua estrela
     no firmamento. Asserção admiravelmente poética, mas também utópica."

La vie secrète des plantes.


[Centro Pompidou, até 18 de Abril]
(*) Ver no Público

sábado, 6 de fevereiro de 2016

A Danaë de Gentileschi, pai


Encomendada em 1621 para decorar um palazzo em Génova, esta obra de Orazio Gentileschi representa uma cena do mito da princesa Danaë, filha do rei de Argos, enclausurada numa câmara secreta sem portas nem janelas - só uma clarabóia - para se manter intocada pelos homens. Mas, hélas, não basta protegê-la dos homens: os deuses também "estão loucos", e o malandro Júpiter fica apaixonado mal a vê lá de cima. Aquela chuva de moedas douradas... é assim que Júpiter se materializa para engravidar a bela Danaë, enquando o cúmplice Cupido abre as cortinas para a entrada do deus. E assim nascerá Perseu, que acidentalmente virá a matar o avô - o tal rei de Argos - como o destino mandava.


Orazio Gentileschi, figura importante do barroco italiano, nasceu em Pisa, morreu em Londres, mas viveu sobretudo em Roma na companhia de Caravaggio, no séc. XVII; em 1621 iniciou um período de viagens, começando por Génova, depois Turim, Paris e Londres. O seu talento transmitiu-se à filha, Artemisia Gentileschi, que já mencionei aqui. Nesta Danaë nota-se a mestria de Orazio com a luz e as texturas - seda, linho, metais - e uma dinâmica de composição classicamente perfeita.


Veio agora à luz da ribalta porque foi a grande operação da Sotheby's neste início do ano. Antes da venda, a Sotheby's expôs a obra em Nova Iorque, Los Angeles e Londres. Há muito que nenhuma pintura italiana desta época ia à praça, daí os 30.5 milhões pagos no leilão pelo J. P. Getty Museum de Los Angeles, onde vai ficar exposta na companhia de Lot e as suas Filhas, a outra obra prima de Orazio Gentileschi:


Para os felizes que lá puderem ir.


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Há outras Danaë famosas, de Rembrandt e Klimt por exemplo.