segunda-feira, 30 de maio de 2016

Baikal, 3ª parte - o Circum-Baikal e a aldeia de Listvyanka



Irkutsk, partida.

Parte 3


A extensão do Trans-siberiano que circunda o Sul do Baikal é sem dúvida a menos rectilínea de todo o trajecto; não foi traçada a régua e esquadro, como a maior parte da linha entre Moscovo e Vladivostok. Aqui há curvas e contracurvas, há dezenas de túneis e contrafortes a reforçar a encosta; nas curvas mais apertadas e desanuviadas consegue ver-se, de uma janela, todo o combóio como uma longa serpente ondulante.


Esse ramo do trans-siberiano foi construído entre 1896 e 1905, exigindo 200 pontes e 33 túneis. Mas iria ser bastante alterado posteriormente.


A obra de engenharia deve ter sido tremenda, com trabalho garantido por uma multidão de prisioneiros dos campos - chegou a haver um na ilha de Olkhon - e feita à pressa sob pressão de unir o ramo ocidental e o ramo oriental da linha trans-siberiana, a que só faltava este troço de ligação. É considerada um trabalho único pelo traçado em encosta e pela engenharia de túneis, plataformas e paredes de retenção das encostas. Ficou por um preço astronómico, pois todo o material (pedra, ferro e cimento) tinha de vir transportado de longe.

E antes disso, como atravessavam o Baikal os passageiros do trans-siberiano? Existia um enorme ferry que transportava o combóio através do lago !


Construído em Newcastle-upon-Tyne (UK) foi transportado em peças e montado localmente. O  ferry quebra-gelos com 88 metros, denominado 'Baikal', entrou em funcionamento em Julho de 1899 e operou até 1918. Na primeira travessia levou 500 passageiros, 167 cavalos, 2 locomotivas com 3 vagões.


O 'Baikal'  engolia o combóio numa operação logística única e demorada. Na altura, tornou-se bem conhecido como obra arriscada das nova técnicas industriais.
Mais: https://en.wikipedia.org/wiki/SS_Baikal

No inverno, com o lago gelado, a travessia podia também ser feita a pé, de trenó ou em carruagens puxadas a cavalo, mas era sempre arriscada.

A primeira linha a contornar o Baikal descia de Irkutsk pelas margem sul do Angara e a partir de Porto Baikal percorria o perímetro do lago, via Slyudanka e Tankhoy:


Este percurso estava sujeito a tão frequentes derrocadas e inundações de lama do rio que se tornou insustentável; a linha foi fechada várias vezes e chegou a ser pensado o seu abandono. Em 1949 foi construída uma duplicação da linha ligando directamente Irkutsk a Slyudyanka pelo interior; do antigo percurso desactivado restava só um ramal, pela margem nordeste em direcção a Porto Baikal, na nascente do Angara, que foi recuperado recentemente:


É este ramal de 90 km que é agora explorado como "Circum-Baikal", uma linha vai-vém principalmente turística que permite disfrutar as margens do lago e dar apoio às aldeias locais. A manutenção em funcionamento requer meios dispendiosos, que só o turismo crescente justifica.

Troço de linha dupla perto de Slyudyanka.



Os troços que permitem uma visão livre do lago são poucos, interrompidos pelos numerosos túneis ao longo trajecto, já de si curto.


A viagem torna-se por isso demorada, com paragens programadas para ver as vistas. Em Polovinnaya por exemplo, que também tem uma praia onde se pode fazer ligação a um dos barcos turísticos.



São poucos os que fazem a viagem de regresso no mesmo combóio, que chega a Irkutsk muito tarde, noite dentro.


Para a maioria, o regresso faz-se atravessando o Angara de ferry (ou barco alugado) entre Porto Baikal e Listvyanka, onde se pode apanhar um autocarro para Irkutsk ou, melhor ainda , pernoitar e acordar com vistas deslumbrantes do lago a partir dum caminho pedestre que sobe ao alto de uma elevação junto ao Hotel. Vejamos como é

Listvyanka
Coordenadas:  51° 51′ N, 104° 52′ E
População:  ~ 2000


Listvyanka é a aldeia onde o Angara começa a correr para fora do lago Baikal. Fica a 65 km a montante de Irkutsk, a uma hora pelo rio Angara. Não faltam apoios para turistas, mas pouco mais - não é uma povoação que ofereça riqueza histórica ou cultural.

Um dos hotéis mais recentes.

Café, mmm, já lá posso ficar uns dias.

Barcos para excursões, ligação às ilhas, etc.

Os principais atractivos de Listvyanka derivam do lago: o clima temperado pelas suas águas, o peixe, e uma vista soberba do alto do pico de Chersky, com subida parcialmente ajudada com teleférico.

O caminho assusta, a pique sobre o lago.


Finalmente, a vista ! Mesmo em baixo, Listvyanka do lado de cá, Porto Baikal na outra margem, e o Angara a escorrer para fora do lago, à direita, em direcção a Irkutsk.
Naquele canto fica o términus do Circum-Baikal, e o porto de embarque do ferry.

Início do Angara com o caudal do degelo.

A povoação de Listvyanka tem cerca de 300 anos. Assistiu a episódios bélicos da História desde o séc. XVIII com a chegada dos Cossacos, depois com a guerra russo-japonesa em 1904-1905. Era no século XIX uma aldeia pobre, tradicional, de pesca e agricultura. No início do séc. XX teve maior desenvolvimento com a chegada do ferry 'Baikal': vieram e instalaram-se pilotos profissionais, operadores de faróis, meteorologistas, funcionários. Obteve ainda alguma notoriedade como base de apoio da expedição científica de Jean-Jacques Cousteau ao lago Baikal, a última do oficial explorador, nos anos 1997-1999.

Igreja de S. Nicolau, o centro da aldeia. É o edifício mais antigo.


Da antiga aldeia resta um núcleo de 'izbas' de madeira, com janelas decoradas e pintadas de cores claras, arrumadinho para turista ver (apesar de alguma sucata e outros lixos que aqui não mostro).





Antigo também é o famoso mercado, famoso pelas pedras do lago - jade, lápis-lazuli, jaspe, charoite - mas sobretudo pelo peixe - a umbra e o omul.

Fumado ou grelhado.


Nem o trans-siberiano lhe escapa: o menu ao passar no Baikal é sempre omul. 





E pronto.
Fim, konéc




sexta-feira, 27 de maio de 2016

Lago Baikal - 2ª parte: o Inverno



Evidentemente, nunca irei de malas aviadas a estas paragens. Precisava de outra vida, e de outra época - visitar a Rússia nesta altura far-me-ia urticária, o regime é detestável e no interior profundo a qualidade de vida deixa muito a desejar. É pena, porque a imensidão, a lonjura e o remoto isolamento aumentam o fascínio por esse território mal conhecido.


Parte 2
O Baikal gelado do Inverno

"Les premières neiges, qui devaient persister jusqu’à l’été, blanchissaient déjà les cimes voisines du Baïkal. Pendant l’hiver sibérien, cette mer intérieure, glacée sur une épaisseur de plusieurs pieds, est sillonnée par les traîneaux des courriers et des caravanes."
                                                                                  J. Verne, Michel Strogoff

O cabo Burkhan nem parece o mesmo totalmente rodeado de gelo.


A superfície do lago congela completamente entre o início de Janeiro e o fim de Abril, quando as temperaturas descem abaixo de -30ºC.  Fevereiro e Março são os meses mais frios.

"Un sang bleu coule d'une blessure de verre". - S. Tesson

Os campos de gelo, com o movimento das águas sobre as quais flutuam, abrem enormes fracturas ou brechas de 2 a 3 metros de largura e que se prolongam por muitos quilómetros. O ruído surdo destes movimentos é semelhante ao de um sismo, acompanhado do ranger de ferros num estaleiro naval.

"Les veinures de la glace. On croirait le fil d'une pensée." - S.T.

"Le dessin d'une arborescence à angles brisés." - S.T.

"Les serpentins nacrés dessinent des noeuds pareils aux images de tissus neuronaux." - S. T.

"On hésite a mettre le pied sur cette méduse de nacre."- S.T.

"La glace a absorvé l'énergie des chocs en la distribuant le long de faisceaux nerveux."- S. T.

"Des lignes de faille zèbrent la plaine mercurielle crachant des chaos de cristal." - S. T.

A costa da ilha de Olkhon. A superfície gelada é mais dura que vidro de segurança do mais resistente.

As enormes forças criam um verdadeiro caos, e lâminas que podem ser fatais emergem subitamente ao quebrar da placa de gelo, ampliando o efeito de espelho.


Conforme a incidência da luz, os jogos de brilho e cor fabricam autênticas 'jóias' de gelo.


Já na Primavera, o gelo ganha surpreendentes tonalidades turquesa à medida que quebra e dispersa revelando de novo a água cintilante.

Parece cenário de filme, mas é no norte do Baikal.

Pelo fim do Inverno, a camada gelada do lago atinge 1 m de altura. O correio chega em motociclo, e não em trenó como no tempo de Strogoff.  E não falta quem ande a brincar - de carro (SUV), de hovercraft alugado, de trenó... ou de bicicleta, o meio mais seguro.

A não ser que...



'Nascente' do Angara: aqui, do lado direito, o Baikal drena as suas águas para o rio.
Vista do cimo do pico Chersky, sobre Listvyanka. Só não está gelada a entrada do rio Angara. Como se chama o contrário de 'foz'? será estuário na mesma, mas de saída ?




"Et si la liberté consistait a posséder le temps?"
                                                                           Sylvain Tesson, "Dans les forêts de Sibérie".



A cabana onde Sylvain Tesson viveu durante um ano.


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A seguir: O Circum-Baikal, extensão do trans-siberiano, e a aldeia de Listvyanka, onde o rio Angara se escoa do lago.