segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

P.S. - o 'Mr. Turner' de Mike Leigh é uma vigarice de mau gosto


Quase não há nada de verdadeiro na história de J.M.W. Turner contada no filme "Mr. Turner" de Mike Leigh. Quase todos os factos estão ou distorcidos, ou invertidos na ordem temporal, ou são simplesmente inventados, enquanto outros que seriam fundamentais são omissos - a formação académica na Royal Academy, onde entrou como prodígio com apenas 14 anos e gozava de grande estima, as viagens frequentes pela Europa, em particular as idas à Suíça, Roma, Veneza, França, onde era bem-vindo na corte; a leitura constante de poesia que lhe incutiu ideais platónicos; o contacto com as as ciências, com especial interesse pela mecânica hidráulica - alguns quadros são belos estudos da hidrodinâmica das ondas e das marés. Onde estão estes traços de carácter no filme ?

É quase repelente a forma como Mike Leigh faz da pessoa de Turner um boçal abrutalhado quando de facto ele era educado num dos melhores colégios londrinos, era divertido, afectuoso e informado - além da hidrodinâmica, também estudava meteorologia, por causa da formação e tipos de nuvens; estava a par, com grande curiosidadade, dos progressos da tecnologia (máquinas a vapor, fotografia); frequentava as sociedades científicas de Londres - e embora não se "cuidasse", como acontece com muitos artistas, nem por isso tinha má figura. Mas é nisto que o filme insiste: num estilo "grunho" totalmente inventado.

Turner não era elegante, nem pedante, nem frequentava a "sociedade"- preferia uma vida culta e viajada mas algo solitária. Era de facto misantropo mas não da forma simiesca que o filme mostra. E mesmo misantropo não deixava de ser requisitado pela elite social - já no final de vida, em 1840, em vez de estar decrépito e desmiolado como no filme, foi de viagem a França e recebido pelo Rei seu amigo Luís Filipe.


Um testemunho esclarecedor da sua amiga Clara Wells:
'Of all the light-hearted, merry creatures I ever knew, Turner was the most so; and the laughter and fun that abounded when he was an intimate in our cottage was inconceivable, particularly with the juvenile members of the family. I remember coming in one day after a walk, and when the servant opened the door the uproar was so great that I asked the servant what was the matter. 'Oh,only the young ladies (my young sisters) playing with the young gentleman (Turner), Ma'am.' When I went into the sitting room, he was seated on the ground, and the children were winding his ridiculously long cravat round his neck;he said, 'See here, Clara, what these children are about!'(*)

Que Mike Leigh tenha querido fazer um auto-retrato como artista malquisto, nada a reclamar, está no seu direito; que se tenha servido de uma figura histórica consagrada que pertence à herança cultural britânica e europeia fazendo o retrato de um labrego lascivo, grosseiro e intratável, isso sinto-o como insulto pessoal e uma falta de respeito. Abaixo. Bola preta.

Fiquemos antes com Joseph Mallard William Turner.

Dutch Boats in a Gale, 1801 - um dos tais estudos de dinâmica das ondas e marés.

Fishermen upon a Lee Shore, 1802 - talvez a "onda" mais fantástica de toda a Pintura.

Na fase final, Turner passou a dar mais importância aos efeitos de luz e côr do que ao realismo. A dinâmica passou a estar imbuída nas próprias pinceladas, mais depuradas, quase abstractas. É a fase mais "mística" das sua visão platónica do mundo.

Waves Breaking on a Lee Shore, 1840

Peace- Burial at Sea, 1842

Snow Storm - Steam Boat off of a Harbour's Mouth, 1842


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(*) De todas as criaturas felizes e bem dispostas que conheci, Turner era-o mais do que qualquer outro; e o riso e a alegria que abundavam quando vinha à intimidade da nossa cottage era inconcebível, sobretudo com os mais novitos da família. Lembro-me de um dia, ao regressar de uma passeata, quando o criado abriu a porta a barulheira era tanta que perguntei o que se passava. "Oh, só as meninas (as minhas irmãs) a brincar com o jovem senhor (Turner)". Quando entrei na sala de visitas, estava sentado no chão e as crianças enrolavam-lhe a comprida gravata à volta do pescoço. E disse-me, "Estás a ver, Clara, o que estas crianças me fazem !".

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Medo - saudades de Tintin


O mais perigoso estado de alma numa sociedade é o medo. Pode desencadear todo o tipo de reacções - desde a auto-humilhação até à violência mais sangrenta. Nos casos benignos, se se podem chamar assim, dá origem à censura, própria e dos outros.

Foi o que sucedeu com a homenagem do Museu Hergé em Lovaina ao Charlie Hebdo.  Receosos das "consequências", os organizadores cancelaram a exposição que estava agendada para abrir a 22 de Janeiro. A Jihad vence em toda a linha, como já mestre Cabu previa:

desenho de Cabu

Custa-me que em nome do meu herói Tintin alguém meta assim o rabinho entre as pernas. Ah se ele fosse 'vivo'...


Aqui era Müller o patife, hoje os mullahs.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Enfim, o Palácio dos Marqueses de Fronteira:
vermelho, verde e muito azul.


Andava há anos à espera de oportunidade para visitar este Palácio em S. Domingos de Benfica, na orla do Parque de Monsanto. Não fica longe da Gulbenkian mas, não havendo Metro por perto e estando de chuva, preferi uma curta corrida de táxi.

A frente renascentista do Palácio (séc. XVII).

A última visita diária é ao meio-dia; o céu alternava nuvens velozes com boas abertas de luz, o que acabou por jogar a favor na visita aos jardins, os azulejos molhados reflectindo o sol de Inverno.

Construído em 1671, o Palácio era frequentado apenas no Verão, como pavilhão de caça, pois na altura estava rodeado de mata. Os Marquês residia na baixa lisboeta, mas foi desalojado pelo terramoto e tsunami de 1755 e teve de estabelecer residência no Palácio, que era muito frio (voltado a nordeste !) e desconfortável. Procedeu então a obras de ampliação (uma ala nova virada a sul) e melhoramentos vários; o arquitecto encomendou a decoração da parte superior das paredes (então nuas) a mestres estucadores na tradição italiana.



A 'loggia' envidraçada é também biblioteca, com a melhor vista sobre o jardim.


Detalhe da biblioteca.
[Não é permitido fotografar no interior - estas fotos não são minhas...]

A maior riqueza do palácio são os muros e paredes revestidos de azulejo do séc. XVII e XVIII; nalgumas salas, o azulejo cobre a faixa inferior, com mais de metro e meio de altura, tendo a parte superior sido revestida, já no século XVIII, com painéis de estuque e pintura em pastel à maneira italiana.

A Sala das Batalhas

É talvez a mais bela, onde se realizam eventos e recebem convidados.


Os azulejos representam cenas de guerra da Restauração, que o Palácio homenageia.

Sozinho a enfrentar todo um exército (espanhol, claro).


A Sala dos Painéis, agora utilizada como sala de jantar :


Sala revestida por seis painéis de azulejos holandeses do séc. XVII, atribuídos a Adrtiaen e Jan van Oort. Sobre o estuque da parte superior há retratos da autoria de pintores portugueses.

Cena pastoril

A combinação do azulejo com o estuque é visualmente algo estranha, mas percebe-se como várias épocas e tipos de residência justificam as duas opções.

Para mim, o encanto maior é o complexo de terraços e jardins exteriores; e a partir daqui muitas das imagens são minhas.

Reflexos dos azulejos ainda molhados da chuva, no início da Galeria das 7  Artes.

A Galeria das Artes, com a Capela de arquitectura renascentista ao fundo, a mais antiga edificação do complexo (séc XVI).

Os medalhões representam imperadores romanos, as estátuas são entidades mitológicas.

A Poesia, arte extra !

Mas muitos dos painéis de azulejo representam cenas pícaras, outros constituem sarcasmos grotescos.




No Jardim grande, dito "formal", com a famosa galeria sobre um tanque de água, também abundam estátuas da mitologia greco-romana e painéis de azulejos. A galeria é acessível por duas belas escadarias com esculturas que terminam em torreões nos dois extremos; é uma solução de arquitectura de jardim algo rara e de belo efeito.

Vista do terraço da casa para Sul: o jardim e ao fundo a galeria dos 12 Cavaleiros (por baixo) e a Galeria dos Reis (por cima).


Se é assim no Inverno, o que não será num lindo dia de Primavera ?

Esplendor neoclássico.

Reis e Cavaleiros, um monumento à nacionalidade nobre e heróica.

O Tanque dos Cavaleiros.



A bela escadaria de acesso à galeria, do lado nascente, e o respectivo torreão.

Escadaria poente: um cuidado especial nas simetrias.

Galeria dos Reis - só faltam os Filipes, naturalmente.


Cuidado com o cisne feroz (sério!)


Fechem-se os portões, aqui ainda residem marqueses.
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Vista no 'Google maps': a casa à direita, virada quase a leste, o jardim muito geométrico, e ao fundo, a Sul, a linha de água do tanque protegida dos ventos pela galeria.



sábado, 17 de janeiro de 2015

Elisabeth Leonskaja com Ainars Rubikis: brilhante !


Pessimismo desmentido: nenhum dos meus receios se concretizou no concerto desta 6ª feira na Gulbenkian. E sobretudo a articulação e o entrosamento entre a pianista e a direcção de orquestra foram perfeitos - perfeitos como é raro acontecer. Apesar da diferença de idades, Leonskaja e o letão Rubikis entendem-se musicalmente às mil maravilhas, talvez com uma pequena tendência do maestro para contenção e timidez, ao contrário do que eu tinha lido.

A orquestra Gulbenkian foi tão bem dirigida, tão meticulosmente acertada com o piano extrovertido e intensamente romântico, às vezes explosivo, de Leonskaja, que posso afirmar, contente: esta foi a melhor interpretação que ouvi até hoje ao vivo das duas obras primas para piano de Brahms.

Talvez gostasse de um andamento um pouco mais rápido nos andantes sobretudo; houve um ou outro dedilhado demasiado seco onde ou gostaria de mais detalhe ou delicadeza; mas uma interpretação nunca é perfeita. Esta transmitiu de forma transbordante todo o pathos que há em Brahms, com particular entusiasmo da pianista, e conseguiu esse milagre raro de acerto milimétrico entre entradas da orquestra e do piano - muitas vezes mal tratadas - e que resultaram mesmo por vezes surpreendentes, como se nunca antes tivesse ouvido 'aquele' sublinhado nas cordas, 'aquele' staccato onde não se esperava e que resulta tão expressivo.



No final, o entusiasmo foi recíproco - a pianista não se cansava de agradecer efusivamente ao amigo Rubikis, e igualmente às secções da orquestra, as cordas graves, os sopros - divinalmente executados ! De brinde, ofereceu  a repetição do allegretto final do 2º concerto.

Ganhou Brahms, de forma contundente ! Que grande música esta.


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O concerto foi gravado, provavelmente passará no Mezzo. Sala esgotada, poucas tosses.





terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Lisboa, FCG, dois "Brahms" com Elisabeth Leonskaja.


Escapada anual a Lisboa, desta vez mais cedo que o habitual. É que, podendo, não perco um concerto de Brahms para piano, e Elisabeth Leonskaja vem à FCG tocar os dois de uma assentada. Raridade.


Leonskaja não é conhecida pela delicadeza, nem pela subtileza, nem pela excelência do toque. Não é nenhuma Maria João Pires. É uma pianista à boa maneira russa (por acaso é georgiana), técnica impecável, força máscula, um pouco martelado às vezes, mas abundante em dinâmica e pathos. Em Brahms pode resultar ora melhor, ora pior. Não espero pianíssimos sublimes, mas sangue, suor e lágrimas.

Preocupa-me mais Ainars Rubikis, que vai dirigir a orquestra da Fundação, do qual tenho ouvido dizer praticamente a mesma coisa: falta de subtileza e empenho nos momentos delicados, tendência para os fortíssimos  com excesso de metais. As duas sensibilidades parecem demasiado ressonantes, preferia algum equilíbrio.

Veremos. De resto, há pouco para fazer em Lisboa, por esta altura.

Fica a Leonskaja com Paavo Järvi :

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

To change the mood


Hoje esteve mais um lindo dia de Inverno, que entre passeio e café à beira-mar e almoço na varanda ensolarada (em Janeiro!) ajudou a atenuar o mau estado de espírito em que tenho andado (nota-se ?).

Muita gente, de cachecóis bem enrolados à volta do pescoço, ciclistas de gorro e lenço pára-vento, bastantes idosos de sobretudo, e alguns em cadeira de rodas - ninguém perde aquela hora de solzinho entre o meio-dia  e as 15. É até bonito de se ver, a boa disposição apesar do frio !

Imagine-se, até abriu um restaurante novo, nesta altura do ano.

E o dia acabou assim :



É assim, a Natureza afinal serve de alienação para a cretinice humana. A olhar o mar, tudo fica para trás, tudo é passado, pode-se enfim descansar. E pensar nos cartoonistas que gostaria de ter ali comigo.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Os 'amigos' culturais dos Kouachi


Não costumo polemizar aqui sobre a actualidade mediática. Abro uma excepção porque estou irritado com tanta estupidez que tenho lido.

Uma deputada europeia nossa acha que quem matou os jornalistas /caricaturistas do Charlie Hebdo foi a austeridade neoliberal. Portanto, o FMI, o BCE, a srª Merkel. Portanto, a polícia francesa cercou e matou dois inocentes.

Um dito comentador e líder de um ínfimo partido 'to-be', de apelido Oliveira, acha que o objectivo dos irmãos Kouachi com a carnificina era reforçar a extrema direita e o partido da LePen, o medo e a xenofobia. No fundo, para ele é pela xenofobia (islamofobia) que se desencadeiam acções destas.

Se não fosse grotesco ao ponto de vómito, seria revoltante. Os delinquentes Kouachi, homicidas ao serviço do califado islâmico, devem fartar-se de rir com gosto. Certos europeus não se enxergam. E prestam-lhes um grande serviço, continuando a aceitar o islão e os islâmicos de igual para igual, como gente digna, merecedora de todo o respeito. Prestam também um grande serviço a todos os candidatos a atentados e genocídios, atribuindo as culpas ao ódio de outros.

Sinto-me tentado a 'despachar' o sr. Oliveira. Não seria culpado - mas vítima, sim, vítima manipulada pela austeridade e a xenofobia, ambos vendo bem da responsabilidade dos grandes banqueiros, do grande capital, da política neoliberal europeia e da Alemanha.

Deve haver, há com certeza, árabes, magrebinos, persas, egípcios, filipinos, indonésios cultos, inteligentes, dignos e merecedores de respeito; mas não os que são islâmicos. Esses nunca se demarcarão nem condenarão em absoluto, pelos nomes e com as letras todas, os violadores, lapidadores, bombistas e assassinos islâmicos, islâmicos por definição. Islâmicos que vão ao corão buscar a base legitimadora da mutilação e a pedofilia. Porque o corão é tão inocente como o "mein kampf", já Churchill aproximava os dois livros-mostrengos. O corão deve, sim, ser proíbido, para começar na Europa. As escolas islâmicas que impingem obediência ao corão, de cor e salteado, devem ser fechadas, proíbidas, para começar na Europa. As mesquitas onda se juntam os conspiradores de atentados devem ser demolidas. Para começar, na Europa.

Não vai haver nunca, never ever, um mundo pacífico sob o culto ao maomé dos asnos. Só acredito em árabes quando arrasarem Meca. Só acredito em árabes quando vir um estado árabe laico, e ateus no governo.

Sou Charlie, mas não sou Ahmed, sr. Oliveira. Respeito o Ahmed vítima do comando islâmico, mas não me identifico com ele.

O sr. Oliveira gosta de confundir valores, numa mistela multicultural. O sr. Olivera diz que é Ahmed, porque no fundo despreza os valores europeus. Ou, o que vai dar ao mesmo, põe os valores europeus ao nível dos do Islão. O sr. Oliveira é pregador de outra religião fundamentalista, e tal como a Al Qaeda, tal como Putin-apoiante-de-Le-Pen, tal como a própria FN, ele sim, quer a Europa destruída, transformada noutra coisa, uma coisa cobarde, o califado quem sabe. Ahmed a presidente, como no livro.

A Europa cosmopolita que eu admiro tem raízes por todo o mundo - da Argentina ao Canadá, da Nova Zelândia ao Ártico, do Japão à Ucrânia. Uma coisa ela não é: muçulmana. Rejeitou o islamismo, há séculos atrás. Não sabe disso, sr. Oliveira ? Usa o véu sobre os olhos ? A Europa valorosa, corajosa, está com Rushdie, está nos cartoons dinamarqueses, está contra o Islão, perdão, o islão, com i pequeno..

E note-se: sou ateu, não cristão. Quero lá saber de deus. Só me dá desgostos.



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P.S. leio agora que o presidente francês alinha na mesma onda: o atentado contra o C.H. "não teve nada a ver com a religião muçulmana". Pobre criatura, de quem a História não rezará. Quer estar nas boas graças de quem ?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Ni dieu ni maître     لا الله لا سيد


Cette parole d'Évangile
Qui fait plier les imbéciles
...

Saudades de Leo Ferré:

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Homenagem à islamofobia - Le Coran c'est de la merde.


Não, eu não gostava do estilo do Charlie Hebdo. Agora gosto.
Um jornal dizimado, exterminado. Pior que os meus piores pesadelos misantropos para 2015. É isto, o Islão.

Vive Charlie Hebdo.
Le Coran c'est de la merde.


Adeus Cabu, adeus Wolinski, fazem cá falta :(

NON !

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Cello & Double Bass: Música terna para começar bem


Chegou-me a meio de Dezembro este disquinho melancólico, doce e aveludado, que vai rodando todos os dias em suaves floreados e variações. Maravilha, ainda mais apreciável na escura quietude da noite.


Original Works for Cello and Double Bass, por Jörg Baumann (violoncelo) e Klaus Stoll (contrabaixo), é uma gravação apex de 1980 (Teldec) reeditada em 2005; os dois CDs incluem composições de Pleyel, Benda, Boccherini, Telemann, Haydn e alguns outros não menos meritórios, todas elas com uma predominância nas notas baixas e lindíssimos deslizamentos do arco sobre as cordas.

Posso voltar ao princípio continuamente sem cansar !
Exemplos:

Anton Kkraft,  sonata Nº1, adagio

Haydn, divertimento em Re, minueto

Boccherini,  sonata Nº3, allegro


O CD duplo está disponível no youtube,  aqui

sábado, 3 de janeiro de 2015

2015, nada de novo sob a roda do Sol, suponho


Parece um título de ficção futurista, 'Dois Mil e Quinze'.


Nos anos 80, digamos, nunca me veio à ideia que um dia estaria a viver em 2015. Parece uma coisa tão longínqua, inverosímil, e contudo...

Que há de novo, entretanto? Sim, afinal, neste futuro de ficção inimaginável, que coisas fantásticas se vivem assim tão diferentes dos anos 80 ?

Há computadores e telemóveis;  e de resto ? modos de vida ?

Nada, ou quase nada. Ouve-se tantas vezes falar da mudança vertiginosa e acelerada que o tempo moderno introduziu na nossa vida, mas vai-se a ver, e em 40 anos não mudou quase nada.

Continua a haver povos civilizados e povos bárbaros; doenças curáveis e doenças incuráveis; gente obesa e gente com fome; cidades limpas e cidades sujas; escassa boa literatura e vasto lixo publicado; ditaduras e não-ditaduras (democracias ?) ; presos sem culpa e patifes livres; ricos e pobres, ladrões e falidos.

Nem sequer tivemos nenhuma aventura nova, que motivasse multidões - o cometa e a Philae duraram dois dias; nem nenhuma nova moda que mudasse hábitos em larga escala. Cartões em vez de notas: isso mudou estilos de vida ? Já havia as 'letras' de crédito.

Se mudança há, é suave e em aspectos de pequeno detalhe. Nas grandes coisas, a humanidade tem-se mostrado particularmente resistente à mudança. Pior que tudo, a violência, em variedade de formas, e a guerra, a pior delas, não mostram tendência de abrandamento.

Pouco espero deste 2015, e sobretudo não espero qualquer utopia. O mais certo é ser um ano igual aos outros. Já não é mau se for encontrada alguma nova vacina, alguma nova cura, ou algum progresso real nas fontes de energia. Bater recordes, só se for o de mínimo número de atentados, de baixas, de mutilações e de lapidações.

Citando Emil Cioran,

Tudo é possivel, e afinal nada é. Tudo é permitido, e mais uma vez, nada é. Seja por que caminho seguirmos, não é melhor do que qualquer outro. Não há nada que valha a pena, mais do que qualquer outra coisa. Todo o ganho é uma perda, toda a perda é um ganho.


Sê um floco de neve bailando no ar, uma flor flutuando na corrente pela encosta.

[adaptado]

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A minha escolha de melhores gravações de 2014


As orquestras suecas estiveram em alta este ano.

Maria João Pires, concertos nº 3 e 4 de Beethoven ; RSO Sueca, dir. Daniel Harding. Delicado, diferente, and yet perfeito.

Schubert, ciclo das Sinfonias (1 a 6) - Orq. Câmara da Suécia, dir. Thomas Dausgaard. Estilo e frescura inesperados.

Schumann, sinfonias 1-4, Orq. Câmara Escocesa, dir. Robin Ticciati.

Bruckner, a 9ª, por Claudio Abbado - uma herança de mestre numa obra difícil. Karajan destronado.

Missa Solemnis de Beethoven - J. Eliot Gardiner dirige de novo a O.R.&R. e o Monteverdi Choir. E de novo superlativo.

Na música barroca, nenhum disco me encheu as medidas; houve o Stella di Napoli de Joyce DiDonato, os Brandeburgueses do Dunedin Consort. Nada de indispensável.

DVD - Ópera
Eugene Onegin, de Tchaikovsky.
Metropolitan Opera, Anna Netrebko, dir. Gergiev.
Irrepetível. Nunca houve uma Tatiana assim.