domingo, 28 de junho de 2015

Aasiaat, viagem ao Ártico para refrescar.


Deve ser a primeira na lista alfabética mundial das cidades, AAsiaat. E mostra bem como o Ártico está a mudar.

Aasiaat (em dinamarquês Egedesminde) é uma povoação ártica na costa oeste da Gronelândia, numa ilha ao largo de Disko Bay.



População:  ~ 4 800
Coordenadas: 68°42′ N, 52°52′ W (200 km a norte do círculo polar ártico).

Egedesmind em 1879, museu de Aasiaat

A povoação foi fundada em 1759 por Niels Egede, mercador e missionário dinamarquês, como colónia para o comércio de peles, para a caça à baleia beluga e outros animais marinhos - a foca, o narwhal. Na altura, a pesca era feita em kayaks e umiaks, embarcações tradicionais da população nativa.


Continua a ser uma comunidade piscatória, particularmente dedicada ao bacalhau, caranguejo e camarão desde 1930. Na década de 1950 foram instaladas unidades fabris, uma estação meteorológica e de telecomunicações, juntamente com a energia eléctrica, que trouxeram um súbito crescimento. Actualmente, boa parte da economia local depende da indústria do pescado.
Mais recente, a actividade turística já ocupa o segundo lugar.

O casario foi alastrando pela encosta rochosa, obrigando a construir uma rede de escadas e passadiços em madeira.


Aasiaat é um conjunto de moradias familiares coloridas espalhado sobre uma ilha, em torno de um porto de pesca e recreio.

Aasiaat é também o mair centro educativo do Norte da Gronelândia, com escola secundária e superior.
O complexo escolar.

Jovens de Aasiaat

A assistir à 'Maratona do Sol da meia-noite'

Além das escolas, Aasiaat tem Hospital, um Museu, centro desportivo, hotéis e restaurantes, café e lojas como a Anuni (roupas) ou a Telepost (informática e telemóveis).

O Hotel dos Marinheiros

O Sømandshjemmet (Seamen's Home) é o melhor hotel,  com vistas sobre o mar, a cidade e a Disko Bay. Os edifícios mais antigos são de 1778 e 1826, eram dormitórios da extinta estação baleeira.


Os espectáculos mais esperados são as baleias que visitam a baía no Verão e os icebergs no Inverno.



Café Puisi
Desde 1996.
Quem diria ?


Loja Anuni

Há dois (!) supermercados em Aasiaat, das cadeias Pisiffik e Pilersuisoq:


O Museu de Aasiaat


Instalado na antiga casa do telégrafo, foi estabelecido em 1978 para armazenar artefactos locais.


Actualmente tem uma exposição permanente sobre a história da indústria da pesca e caça, e arte tradicional inuit - trajes e artefactos.

Egesdesminde, 1879 - museu de Aasiaat

A galeria comum foi decorada com pinturas do dinamarquês Per Kirkeby.

Parede interior da galeria comum.


A velha casa de turfa


Uma extensão do museu no exterior, é uma cabana de pedra e turfa que ainda resiste dos tempos da fundação de Aasiaat; baixa, rectangular, é bem isolada e robusta, e foi habitada até 1950.

Na Aasiaat actual, a vida é bem diferente. O porto é visitado pelo ferry da Arctic Umiaq Line que percorre a costa, e por navios mercantes da Royal Arctic Line.

O Sarfaq Ittuk, ferry bi-semanal.

O aeroporto tem ligações diárias para a capital e cidades vizinhas.

Na sua pequenez e isolamento, Aasiaat encontrou também vantagens. A esta latitude não é fácil conseguir um tão bom nível de qualidade de vida.

A temperatura máxima em Julho pode chegar aos 8º C, a mínima em Janeiro a -16º C.

Roupa a secar no tímido sol do ártico.




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Viagem virtual com fotos públicas da net

quinta-feira, 25 de junho de 2015

συμφωνία - uma sinfonia grega


Acordo, em grego, é  συμφωνία ou seja: sinfonia ! Belíssima palavra, polissémica.

Com tudo o que tem sido o "processo da Grécia", sobretudo desde que o Syriza foi eleito,  já não há outra saída honrosa senão o acordo, queira o FMI ou não. Se estou a favor da perda de soberania dos países em favor de um governo central da União Europeia, é porque quero este forte e firme, na defesa da Europa. Muito bem, abdicamos da fronteira,  da moeda, de muita legislação nossa, de preceitos constituconais até; mas queremos que o poder central europeu seja um factor de unidade, equidade e justiça, e que se afirme e dê cartas no plano internacional.

Portanto, se só o FMI está contra o acordo, por pressões próprias ou alheias, que vá bugiar o FMI. Aqui, manda a Europa. E se tive dúvidas sobre a capacidade do primeiro ministro Tsipras, agora tiro-lhe o chapéu pela resiliência, pela sabedoria tanto em ceder como em ser firme recusando.

Pela Sinfonia da Grécia na Europa, fica aqui uma obra do compositor grego Manolis Kalomiris (1883-1962):

Sinfonia nº1 - Levendia (*)
3º andamento: Festa Helénica à mistura com lamento -- Scherzo. Vivo.
(versão 1920)
video



(*) Levendia = Valentia !

segunda-feira, 22 de junho de 2015

W. B. Yeats, 150 anos neste Junho


Uma importante celebração, também neste 18 de Junho, foi a de Yeats, o grande poeta irlandês, nascido nesse dia em Dublin (1865). Os 150 anos estão a ser largamente comemorados pelo mundo:

http://www.yeatsday.com/yeatsday-2015/
http://yeats2015.com/
http://www.theguardian.com/books/2015/apr/28/irish-poet-wb-yeats-150th-birthday-celebrations


Já aqui publiquei várias vezes poesia do admirável Yeats. Hoje a minha escolha
é a Canção do Aengus Errante. 'Aengus' é uma divindade da mitologia celta/gaélica irlandesa, ligado ao amor, juventude e poesia.


Song of Wandering Aengus

I went out to the hazel wood,
Because a fire was in my head,
And cut and peeled a hazel wand,
And hooked a berry to a thread;

And when white moths were on the wing,
And moth-like stars were flickering out,
I dropped the berry in a stream
And caught a little silver trout.

When I had laid it on the floor
I went to blow the fire a-flame,
But something rustled on the floor,
And someone called me by my name:

It had become a glimmering girl
With apple blossom in her hair
Who called me by my name and ran
And faded through the brightening air.

Though I am old with wandering
Through hollow lands and hilly lands,
I will find out where she has gone,
And kiss her lips and take her hands;

And walk among long dappled grass,
And pluck till time and times are done,
The silver apples of the moon,
The golden apples of the sun.


O poema musicado e cantado pelo escocês Donovan:
https://www.youtube.com/watch?v=UQUT6mS0eY8



tentativa de tradução:

Canção do Aengus Errante

Saí para o bosque das aveleiras
Pois estava com a cabeça a arder,
Cortei e alisei um ramo de aveleira,
E atei uma baga à ponta de um cordel.


E, quando as brancas mariposas voavam,
E estrelas-mariposas se extinguiam,
Lancei a baga para um riacho
E pesquei uma trutazita prateada.

Quando a pousei no chão
Fui soprar o lume a avivar a chama,
Mas alguma coisa se moveu no chão,
E alguém chamou pelo meu nome:


Tinha-se tornado numa jovem luminosa
Com flores de macieira nos cabelos
Que me chamou pelo nome e correu
e se desvaneceu na luz do amanhecer.

Apesar de envelhecido de tanto vaguear
Por terras cavadas e terras elevadas,
Hei-de descobrir para onde foi,
E beijar-lhe os lábios e tomar-lhe as mãos;


E caminhar entre ervas altas salpicadas de luz
E colher, até ao fim do tempo dos tempos
Os pomos prateados da lua,
Os pomos dourados do sol.



sábado, 20 de junho de 2015

O dia mais longo (N), o dia mais curto (S)


No dia 21,  7% da humanidade não vei ter luz do Sol, passando uma longa noite de 24 h. Na Europa e América do Norte, pelo contrário, teremos o dia mais longo.


A Norte do Círculo Polar Ártico (66º 30' N), no domingo, será dia durante 24 horas.

Salekhard, Rússia (66º 53')  ): o Sol apenas toca no horizonte, e logo volta a subir.

Iqaluit, Canadá (63º 43' N): o dia dura 20h 12m

Anchorage, Alasca (61º 13' N): o Sol nasce às 4:20 e põe-se às 23:42 , são 19 h de luz.

Círculo polar antártico (66º 30' S): no domingo, o Sol faz uma breve aparição de segundos, com um pico de luz no horizonte, e desaparece. Mais a sul, é uma noite de 24 h.

City
Country
Latitude
Sunrise
Sunset
Day Length
Greenland
77° 29'
None
None
24:00
Norway
69° 40'
None
None
24:00
Alaska
64° 54'
02:56
00:52
21:56
Alaska
61° 09'
04:21
23:42
19:21
Russia
59° 53'
04:35
23:25
18:50


Um excelente mapa interactivo:
http://time.unitarium.com/events/longest-day.html



Bom Solstício !


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Il signor Giorgio Morandi, f. 18 de Junho


Fora de moda, impopular, o pintor bolonhês Giorgio Morandi (1890-1964) pintou quase sempre "a mesma coisa". Sofre por isso de um injusto esquecimento.

Começou sob influência de Cézanne, Renoir, os primeiros futuristas, De Chirico, a pintura metafísica. Mas cedo rompeu com as vanguardas, e dedicou-se só a naturezas mortas, vasos de flores (poucos) e paisagens (ainda menos).



Até que estacionou sob um tema único - recipientes : vasos, garrafas, jarros, frascos, taças, copos, conchas, com uma total indiferença pelo que se ia passando à sua volta e no mundo.

Deste 'Botiglie e fruttera' de 1916 diz-se que é um dos mais belos do século.


O menos empenhado, o mais desatento dos pintores, um eremita indiferente ao frenético novecento italiano, Morandi pintava apenas objectos que tinha no seu quarto. Tensão ou erotismo é coisa que não existe nas suas aguarelas e gravuras.



Por outro lado, há uma procura, serena mas obstinada, da verdade intrínseca dos objectos, da essência das coisas - forma, côr e luz - que Morandi projecta numa espécie de metafísica suave.


O 'silêncio das cores' , uma esbatimento que impressionou Antonioni.


É quase um jogo a que se entrega afincadamente; Morandi torna-se mestre dos enquadramentos, do equilíbrio de conjuntos, dos jogos de luz e de cor nos volumes.


Com o tempo, foi simplificando, reduzindo as formas ao mínimo, à geometria de cones, cubos e pirâmides, a silhuetas sem perspectiva, a uma "densa pastosidade da matéria cromática". Um caminho pessoal para a abstracção.


Os objectos do quotidiano parecem respirar uma metafisica suave, evanescente, que condiz com a vida de solidão ascética do pintor.

Ausência de perspectiva, silhuetas - a realidade é só forma e abstracção.


Admirado por Antonioni, o realizador, Morandi teve obras suas no filme A Noite, e também na Dolce Vita de Fellini.


Faleceu a 18 de Junho, há 51 anos.

Sono un pittore di natura morta e voglio comunicare un senso di tranquillità e riservatezza, stati d'animo che valgono di più.
                                                                              Giorgio Morandi

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Fontes:
- Gabriele Simongini, artigo no Il Tempo
- Morandi, col. Génios da Pintura, ed. Fabbri/Abril Cultural, 1967