terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Francesco Alberoni: a educação sem datas

Do jornal i , um texto do escritor e jornalista a denunciar a moda educativa que, em Itália como cá, tem formado a incompetência e a corrupção que sabemos.

Nos últimos 40 anos, os pedagogos quase destruíram as bases do pensamento racional e os fundamentos da nossa civilização. E fizeram-no com a ajuda de uma única decisão: eliminando as datas, acabando com a obrigatoriedade de apresentar os factos por ordem cronológica. Agora é normal ouvir dizer que Manzoni viveu no século xvi. Não há razões para espanto porque na escola já não se ensinam os acontecimentos pela respectiva ordem temporal, dizendo, por exemplo, que Alexandre Magno viveu antes de César, que, por sua vez, viveu antes de Carlos Magno, e só depois vem Dante e, em seguida, Cristóvão Colombo.

Esta pedagogia foi importada dos Estados Unidos, um país sem história que tenta anular as raízes históricas dos seus habitantes para que se tornem cidadãos norte-americanos. Aplicá--la a Itália, produto de uma estratificação histórica com 3 mil anos, e ao resto da Europa, que tem raízes culturais gregas, romano e judaico-cristãs, é equivalente a destruir-lhes a identidade. Ao contrário de nós, as civilizações islâmica e chinesa estudam obstinadamente a sua história, para se conhecerem melhor e se reforçarem.


Ler mais:
http://www.ionline.pt/conteudo/32100-estudar-as-datas-na-escola-ajuda-compreender-identidade-do-pais

O Vivaldi de Vivica Genaux

A minha mezzo favorita em trailer de apresentação do novo CD. Sonoridade imbatível, voz inacreditável de maleabilidade, timbre único, a Europa Galante - ´heaven on earth!

Vivaldi pyrotechnics trailer

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Espectacular Marte ! Planeta lindo...

...para onde ia já a correr se nave espacial houvera que me levasse.

Algumas das fotografias (tratadas) da NASA - ver mais em


http://www.boston.com/bigpicture/2009/11/martian_landscapes.html











Dunas, ventos, vapores, canyons, crateras, e afinal muita côr e água q.b. no subsolo. Só faltam árvores e marcianos.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Ciclo Árvores e Poesia - XIII

Robert Burns (1759–1796), Poems and Songs.


On hearing a Thrush sing

Sing on, sweet thrush, upon the leafless bough,
Sing on, sweet bird, I listen to thy strain,
See aged Winter, ’mid his surly reign,
At thy blythe carol, clears his furrowed brow.




Canta, meigo tordo, no ramo desfolhado,
Canta, pássaro amigo, a melodia estou a escutar
Vê o idoso Inverno, no seu soturno reinado
À alegre cantiga o sobrolho franzido alçar.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Sortes e azares, privilégios que até nem são

Terei eu sorte por morar a 5 min. de Serralves e 10 min. da Casa da Música? Parece que sim , à primeira vista é um privilégio. Quem dera a muita gente. É o cúmulo querer o Quai d'Orsay ou o Concertgebow ao lado de casa...

A dimensão, o protagonismo, a projecção nos media de Serralves e da CM estarão ao mesmo nível da qualidade da programação, quando comparados com os congéneres de outras cidades europeias? Não falo do espaço físico -magnífico, superlativo - mas apenas da programação. Não há uma itinerância artística relevante que passe pelo Porto. O Porto não está em tournée nenhuma de seja quem fôr . O Porto só conta com prata da casa. Ora era bem melhor termos uns museus pequeninos, como os da Suíça, ou velhinhos, como os de Praga, que até estão incluídos em itinerâncias de primeira grandeza; e salas de concerto modestas, como em Graz ou Bergen, onde passam intérpretes primeiros da actualidade.

Os 10 min. até à Casa da Música vão afinal proporcionar-me até final de 2010 ... muito pouco. Mesmo. - como agora se diz :(

É uma programação abundante, muito variada e em brochura de luxo, bom papel, cores e impressão. Tal como a Casa, invólucro de muitíssmo boa qualidade. Mas quem temos para ouvir? Do barroco ao contemporâneo, sempre os mesmos intérpretes "da casa". Não há dinheiro para convidar ninguém , gasta-se todo .... na Casa ! A Casa fecha-se , sem portas nem janelas, contente de si, investindo em si.

Longe de mim, claro, depreciar a ONP ou a OBCM ou o Remix. Tenho muito gosto neles, desejo que tenham todas as oportunidades de se aperfeiçoar e se fazer ouvir. Mas 48 concertos da ONP, é obra ! e de fora, só da Galiza - a orquestra Filarmónica Real, uma noite. É pouquíssimo. E a Midori, com a ONP. Muito Mahler ? Sim, mas com a ONP sempre. Handel ? com a ONP. Mozart, Beethoven, Ravel ? ONP. Convenhamos que cansa e não educa o público a ouvir outras sonoridades. Antes tivesse uma casa mais modesta e baratinha cheia de vida cosmopolita.


A programação da CM para 2010 é TRISTE. Muito abundante e variada- mas TRISTE.

Tenho sorte por morar a 10 min. da Casa da Música? Não me venha ninguém dizer que menos sorte tem porque mora em S. Miguel de Baixo, ou porque não ganha sequer para a sopa. Porque, evidentemente, tem toda a razão.

Eu é que não me consolo com a minha....sorte.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

António Vieira e Caim - que literatura!

Grande vénia ao blog De Rerum Natura, e re-cito, de António Vieira, este trecho do "Sermão do Primeiro Domingo do Advento":

"Matou Caim a Abel, e diz a Escritura, conforme o texto onginal: Vox sanguinum fratris tui clamantium ad me: «Caim, a voz dos sangues de teu irmão Abel está bradando a mim». Notável dizer! O sangue de Abel era um, como era um o mesmo Abel morto. Pois se Abel morto e o sangue de Abel derramado era um, como diz Deus que clamaram contra Caim muitos sangues? Vox sanguinum? Declarou o mistério o Parafraste caldaico temerosamente: Vox sanguinum generationum, quæ futuræ erant de fatre tuo, clamat ad me: Se Caim não matara a Abel, haviam de nascer de Abel quase tantas outras gerações como nasceram de Adão, com que dobradamente se propagasse o género humano; e o sangue ou sangues de todos estes homens que haviam de nascer de Abel, e não nasceram, eram os que clamaram a Deus e pediam vingança contra Caim; porque, matando Caim e arrancando da terra a árvore de que eles haviam de nascer, o mesmo dano lhes fez que se os matara. De sorte que Caim parecia homicida de um só homem, e era homicida de um género humano; o pecado era um, as consequências infinitas. Pois se Deus castiga nos pecados até as consequências possíveis; e os possíveis hão-de aparecer e ressuscitar no dia do juízo contra vós, não porque foram, nem porque deixaram de ser. senão porque haviam de ser; se os possíveis têm sangue e vozes que clamam ao Céu, que clamores serão os do verdadeiro sangue derramado de verdadeiras veias? Que vozes serão, as de verdadeiras lágrimas, choradas de verdadeiros olhos? Que gemidos serão os de verdadeira dor, saldos de verdadeiros corações? Que serão as viudezas, as orfandades, os desamparos? Que serão as opressões, as destruições, as tiranias? E que serão as consequências de tudo isto, multiplicadas em tantas pessoas, continuada em tantas idades e propagadas em tantas descendências, ou futuras ou possíveis, até o fim do mundo! Há quem faça escrúpulo disto? "

Assim é que é escrever, e assim é que é reflectir.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Ler e Reler - Yourcenar


"Golpe de misericórdia" ( Coup de grâce ) de Margerite Yourcenar

Retomo o "Ler e Reler" para referir uma das obras que mais marcou a minha juventude, tendo-me desde logo obrigado a várias releituras de tal modo denso e polissémico é este romance-conto. Comecei por receber uma bofetada gelada, mas aos poucos a releitura revelou-me a profunda sabedoria e sensibilidade que demonstra uma escrita que tanto exige também do leitor. Fica-se com este livro inscrito na carne e no sangue. Aprendi mais com ele do que com qualquer outro professor : é uma obra iluminadora para a vida, um tratado do amor e do ódio.


Segundo Augustina, "o Golpe de Misericórdia (...) é um livro cruel porque o seu tema é o da liberdade que confina com a mais ardente paixão da solidão.(...) Yourcenar descobre sob as camadas do tempo um gesto, um tremor, um sulco de lágrima ou de sangue – e todo um acidente se explica. O ódio ilumina-se com um clarão que só o amor pode atingir às vezes. O seu monólogo torna-se claro e mais ardente do que qualquer troca de razões entre pessoas.Ler este livro não implica uma distracção. É a descida a um abismo saudoso que na adolescência percorremos sem medo porque não nos limitam as penalidades da razão prática (…). Aos dezasseis anos a lógica é trágica; depois torna-se técnica. Depois – quando? Quando o golpe da misericórdia é desferido e o rosto se perde para sempre, embora o mistério do movimento perdure."

Em 1919, nos países bálticos assolados pela guerra e pelo desespero, três jovens entram nos jogos perigosos do amor. Atracção, rejeição, aparências, conflito, mentira, erotismo, a loucura cada vez mais próxima.


Marguerite Yourcenar escalpeliza com precisão cirúrgica a alma humana. A escrita num francês belo e clássico é simples e sóbria. Brutal, apenas o desenlace : o fim deste curto romance, uma facada de gelo, tristemente sublime.

Outros livros anteriormente relidos:

O Jogo das Contas de vidro, de Herman Hesse

Um Outro Mar , de Claudio Magris

Ondine, de Friedrich de la Motte-Fouqué

A Invenção de Morel, de Bioy Casares

Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, de
Mário de Carvalho

"An Equal Music", de Vikram Seth

O Castelo dos Cárpatos , de Jules Verne

sábado, 31 de Outubro de 2009

Lindíssimo blog de leituras e escritas, que passo a seguir


de Patrícia Guerreiro Nunes

Em Urano, ainda não fiz 1 ano!

Um site engraçado para descobrir quão novos ou quão velhos seríamos noutro planeta :

http://www.minerva.uevora.pt/ticiencia/estrelas/idade_noutros_planetas.htm

O que me deprimiu mais foi que desde que nasci, Urano não fez sequer UMA órbita ao Sol! Neptuno e Plutão, pior ainda, mal se mexeram... a vida de um homem é um sopro fugaz na Galáxia...

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Bartoli como eu gosto...

Semele é uma dessas magníficas e pouco conhecidas semi-óperas de Haendel. Nesta ária, Cecília Bartoli consegue o seu melhor - contenção, flexibilidade, pureza de tom, e nada de malabarismos. Fantástica !

O sleep, why dost thou leave me,
Why thy visionary joys remove?
O sleep, again deceive me,
To my arms restore my wand'ring love!


Semele de Haendel, Zürich 2007. Dirige William Christie.




Só para comparar:

Montserrat Caballe é completamente outra coisa... Não é Haendel ? Pois não, mas que voz, que respiração e fluidez, que graves, que agudos ! Ouvi-la assim deve ter sido uma experiência transcendente. Outros tempos. Só o sotaque é que, enfim...



Como fazer tudo mal? "à americana", claro(*). Se quiserem sofrer um bocado ou adormecer de tédio,

Maestro Robert W. Butts, The Baroque Orchestra of New Jersey, 2008, soprano Marjorie Berg (credo, que pavor!)



(*)ver comentários

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Mais uma vez, Maria João Pires...

...cancela um concerto, desta feita já no dia 28 na Casa da Música.


GRRRRRR...

domingo, 25 de Outubro de 2009

"O que falta aqui é cimento!"

Trailer do documentário "Pare, Escute, Olhe" de Jorge Pelicano, sobre a defesa da linha ferroviária do Tua em Trás-os-Montes.




O que falta neste país é tapá-lo com cimento. Está quase.

o nobel que temos


Portento
Quezilento

Fraudulento
Argumento

Cimento
Ferrugento

Talento
sem acento

Vento
sem alento


[ NB: sou hereje de todas as igrejas e de todos os partidos]

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

A mais bela de todas as óperas

Não, não vou pôr aqui à votação a melhor ópera de sempre - deixo isso a cargo do Fernando Vasconcelos.

Isto é só um panfleto apaixonado. Há 4 óperas que se puder nunca perco, que me enchem de beata felicidade melómana e teatral, que ouço e canto frequentemente em casa ( e no banho...) , que ponho nos píncaros das melhores obras da humanidade, e são: a Flauta Mágica, o Fidelio, os Mestres Cantores e o Guilherme Tell. Sem desprimor para mais uma dúzia de outras excelentes óperas.

Todas estas quatro são "sérias" , com um libretto suficientemente rico e complexo, personagens fascinantes, situações comoventes e música absolutamente divinal.

Mesmo assim, das três, uma sobressai para mim como a obra prima suprema: o Guilherme Tell (1828, tinha Rossini 36 anos). Poucas vezes interpretado nos nossos dias, talvez devido a particulares dificuldades de canto e encenação, e de encontrar o ritmo certo para não tornar pesadas as 3 a 5h que demora (conforme os cortes...), o Guilherme Tell é de uma enormidade genial . A narrativa (libretto baseado no poema dramático 'Wilhelm Tell' de Schiller) prende, as árias desencadeiam fortes sentimentos, da lágrima à expectativa receosa, à indignação e ao contentamento, o enredo progride para um belo clímax final. A música flui de forma avassaladora como em nenhuma outra ópera - imaginativa, comovedora e contrastada mas estilisticamente coerente e organizada por motivos recorrentes.

O herói Tell nem sequer é o personagem principal - é a Suíça. A simpatia de Rossini pelo pequeno país em luta pela liberdade é tocante, todo o oposto do chauvinismo; alguma vez Rossini compôs uma ópera de glorificação a Itália? e já agora, alguma vez a ópera foi representada em Áustria?

O acto II é particularmente bem conseguido: progressão dramática, deslumbramento da melodia, beleza do canto.

Nenhum dos papéis é mal tratado do ponto de vista lírico - para todos há boas árias. Não há um contraste excessivo recitativo / ária (aliás como no Fidelio e na Flauta), garantindo-se uma razoável continuidade da acção cantada. O final é uma página prodigiosa da arte de composição, como Wagner reconheceu.

É um bocado pesadona ? É, mas cabe a quem dirige, canta e encena ultrapassar o problema. Soa melhor em francês que em italiano? Verdade, foi composta em França, Rossini escreveu a música de forma a casá-la bem com a sonoridade mais suave do francês. A tradução para italiano é difícil e mais agreste.

De qualque modo, a sensação no final é a de se ter assistido a um fenomenal épico, coadjuvado por fenomenal invenção musical. Pede-se silêncio e um longo descanso antes de sair da sala!

Consegui ver Guillaumes e Guglielmos, um bem fraco, em Pesaro, um bem bom, em Lisboa, um excelente no ROH Covent Garden 1990.

Gravações:

Merritt e Gedda foram inigualáveis no papel de Arnoldo (tenor), o mais difícil, que precisa de agudos e sobreagudos certeiros, ágeis, cristalinos, poderosos. Já deu cabo de muitas vozes - daí o receio de alguns tenores. Diego Florez é o melhor que temos hoje, por enquanto.

Inacreditavelmente, não há uma única versão inteiramente satisfatória de ponto de vista da direcção musical. Gardelli é antiquadamente pesado e desajeitado mas tem o melhor elenco, Gedda e Caballe; Mutti é obviamente mau ao longo de 5h e quase estraga a benesse de contar com Merritt; Chailly é o melhor, mas em italiano, com Pavarotti em alta... mas o resto do cast não ajuda muito. Enfim, tem que se ouvir as três...

Algumas escolhas no Tube:

Asile Hereditaire, Chris Merritt


"Selva opaca, deserta brughiera", Mirella Freni


Sur la rive étrangère Caballe / Gedda


O Finale com Thomas Hampson, Marcello Giordani, Hasmik Papian , Opera Bastille 2003



Por estranho que pareça, o Guilherme Tell nunca deu uma ópera perfeita - dá o desejo sempre adiadao da ópera perfeita. Do que podia ser, se...
Deve ser isso o que mais me fascina.

Donizetti dizia que Rossini fizera o resto do Tell, mas o 2º acto tinha sido feito por Deus!

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Aaaaaaaa....

....tchimmm!








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O beu dariz escorre, doi-be a cabeda...baldito cliba