sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Princesa Kaguya de Isao Takahata


A sessão de cinema começou com trailers da Disney e do Astérix. Horríveis, intragáveis, falados aos gritos, bonecos feiíssimos, apologia do mal, da violência (Disney) e assassínio cultural (Astérix: "- Não é , Cúbito?" tradução de "N'est-ce pas, Cubitus?" - o latim não interessa nada, os Romanos são só bonecos maus, do humor nada resta).

Felizmente, o anime japonês está bem e recomenda-se, pelo menos ao nível dos melhores, como este Conto da Princesa Kaguya, adaptado da mais antiga narrativa tradicional japonesa (*), e produzido pelo famoso Estúdio Ghibli que Miyazaki fundou em 1985. Mal começa, as paisagens, como aguarelas, da floresta de bambus, dos ramos com botões a florir, e os pássaros a pousar neles, são um deslumbramento que já é habitual numa animação de cuidada estética. É a primeira obra que vejo do realizador Isao Takahata.



O conto desenrola-se calmamente, placidamente, em torno de uma cabana da floresta onde um casal já de meia idade recebe como 'prenda' divina, celestial, uma menina-bébé que cresce muito rapidamente no feliz ambiente campestre. As cenas com a bébé são verdadeiros estudos de desenho animado, com uma graça e imaginação irresistíveis. Até que a ambição do 'pai' estraga tudo, querendo à força fazer dela princesa, casá-la com algum príncipe e tirar daí proveito próprio.

Constrói um belo palácio com o ouro 'caído do céu', na cidade onde se irão alojar para instruir a menina à altura da nobreza - tocar música, vestir sedas, arrancar sobrancelhas, maquilhar-se.



O trabalho de expressão facial, ponto fraco da animação, tem apesar de tudo alguns belos momentos.

As imagens do palácio são também belíssimas, casa de madeira com os espaços japoneses tradicionais, varandas, pontes, lagos e jardins. A sequência da descoberta dos espaços pela princesa em alegre correria é uma das melhores do filme.

É no decurso dos pedidos de casamento que o filme perde algum ritmo e se torna por vezes entediante. Mas na sua sequência, a princesa Kaguya tem uma crise existencial súbita e foge de casa de volta à cabana da floresta. Esta fuga é animada de forma vertiginosa, não me lembro de uma sequência de animação tão espantosa na coreografia da velocidade e do desespero, um retrato da aflição extrema da menina que me vai ficar como uma das mais belas coisas que vi em cinema. Não há imagem fixa que dê sequer uma ideia.

A cerejeira em flor, parte do mito da Primavera.

A história vai hesitar entre o happy-end e o sad-end lacrimoso, entre a realização do amor de menina com um jovem, bonito e pobre campesino ('Romeu e Julieta' nipónico...), e a fatalidade ditada pela divindade lunar.


A Lua foi de facto a entidade celestial que tudo orquestrou. São "eles" que vêm buscar de volta a princesa que desceu à Terra porque quis ver as flores, os animais, as árvores, a relva e os rios...


Este lirismo ingénuo traduziu-se melhor, mais poeticamente, na primeira metade do filme, do que na sua finalização, onde surge uma estética entre o hippie e o folclore indiano, na verdade a raiar a ópera-kitsch. Não estraga o filme, de modo nenhum, mas o tom já é um pouco mais vulgar.

Não posso animar as imagens aqui no blog, mas quem quiser tem os trailers e o site do filme.
Extended trailerhttps://youtu.be/9lDrkokymLQ
(alguns excertos da fuga da Princesa a que me referi, a partir de 4:14)


A notícia triste é que esta foi a derradeira produção do Estúdio Ghibli, que suspende a activividade, talvez definitivamente. Filmes como O Castelo Andante, A princesa Mononoke, As Asas do Vento, ficam como obras-primas da animação japonesa.



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(*) A História do Cortador de Bambu, um conto fundador que terá dado o nome ao Monte Fuji, cujas erupções seriam sinal da fúria da Princesa.



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Bryan Hymel, tenor


Finalmente um tenor de jeito ?

Bryan Hymel (n. 1979) foi de New Orleans para o MET. Estreou-se no Covent Garden, no papel de Eneias (de Les Troyens de Berlioz), Eneias esse que também o levou ao MET, e até agora é o seu maior sucesso.

Obteve em 2013 o The Laurence Olivier Award for Outstanding Achievement in Opera, prémio a que só os melhores acedem (recentemente, Joyce DiDonato e Jonas Kaufmann por exemplo).

Um sotaquezito mal dominado no francês, é verdade, que talvez melhore com o tempo. Mas ainda me lembro do Pavarotti a cantar francês.

'Je veux encore entendre ta voix' da Jérusalem de  Giuseppe Verdi:

 - ária aos 2:20 -

Je veux encore entendre 
ta voix, ta voix si tendre.
Pour fuir, il faut attendre
les ombres du soir.
Ange, vers qui s’envole 
mon rêve d’espoir!
Ah, bel ange, mon idole,
je veux encore te voir!


Também gosto de o ouvir neste 'Asyle Hereditaire' do Guilherme Tell:




segunda-feira, 13 de abril de 2015

Hummel, para piano e violino, op. 17


Voltando à música: cá está uma grande obra injustiçada. Um concerto para dois instrumentos solistas não é para qualquer um. Mozart fez um (flauta e harpa), Beethoven atreveu-se mesmo até três instrumentos (triplo concerto), Brahms tem um duplo mas menos conseguido. Johann Nepomuk Hummel, aluno de Mozart, era contemporâneo e amigo de Beethoven, e um compositor meritório prejudicado pelo brilho maior do genial colega. Mas este concerto é extraordinário, de uma escrita muito burilada e bem conseguida mesmo que sem grande complexidade. Falta-lhe em emoção e intensidade (nisso Beethoven é inexcedível) o que lhe sobra em técnica e muito trabalho. Se fosse necessário, bastavam estes dois para provar que Arte é trabalho, sim, mas não só - não só de modo nenhum.

O que Hummel consegue no 'duplo concerto' op. 17 de 1805 é um contagiante, agradável, requintado divertimento. É um gosto com sorriso ouvir o diálogo entre piano e violino esculpido e rendilhado em múltiplas variações, com muita mestria na parte de piano. No fundo, mais próximo da música antiga que da romântica. Soa imenso a Beethoven mas de forma mais académica (brilhantemente académica), prazenteira, como se nos estivesse a dizer 'olhem como eu me divirto a compor, olhem que voltas eu dou à música, olhem como eu  gozo a variar mais um bocadinho'. Música adequada a esta Primavera que se inicia, cheia de côr e trinados.

Se o inicial Allegro já é admirável, o Andante é talvez um ponto alto, com o tema a ser desenvolvido em seis variações pelos dois solistas, mas não só - há pequenos apontamentos de oboé, violoncelo e trompa, num inesgotável fluxo de ideias decorativas, como se diz no livrito do CD. As ressonâncias mozartianas entrelaçam-se de forma engraçada com as beethovenianas.

Porque não é tocada esta obra em concerto? Sobretudo porque precisa de dois solistas, o que sai caro, e de ser bastante ensaiada. Com a sua meia hora, ocupa uma das partes do concerto. Seria ideal para complementar o triplo de Beethoven.


London Mozart Players
Dir. e piano: Howard Shelley
Hagai Shaham, violino

I. Allegro con brio 00:00
II. Theme & Variations: Andante con moto 14:17
III. Rondo 23:58

(se está com pouco tempo, comece pelo Andante e as suas variações alternadas em crescendo).

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Valencia III :
Das Águas e do Graal.


Dois em um, neste post, para acabar a reportagem.
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Há nas ruas pedonais do centro de Valencia um percurso artístico-patrimonial pintado a branco no chão, para orientar visitantes a pé ou ciclistas. Uma das paragens ficava mesmo em frente à minha varanda de hotel - o Palácio dos Marqueses de Dos Aguas.



No Palácio funciona agora o Museu de Cerâmica.

A porta mais fotografada da cidade.

Uma janela como eu a via da varanda.


 
                     Da exibição, dois pratos de que gostei particularmente.

E uma fonte mesmo ao lado. Um recanto com ar 'italiano'.


As águas foram sempre uma questão vital nesta região. Ao ponto de existir um Tribunal das Águas desde a presença árabe ( talvez desde 960 DC), e que ainda reúne por tradição (quere merecer atenção da UNESCO).


Às quintas-feiras, nas escadas da Catedral (Porta dos Apóstolos), pontualmente ao tocar meio-dia no sino da Torre do Miguelete.

A chamada do Alguacil, que lembra o "town cryer" inglês.

Encarregado de dirimir os conflitos derivados do uso da água de rega entre os agricultores da Comunidades de Regantes, o Tribunal funciona a partir das queixas que podem ser de um denunciante ou do próprio alguacil.

O símbolo do tribunal, um bastão com foice ('gancho') que servia para desentupir os canais de rega.

Ao que parece é caso único na Europa, um tribunal camponês que funciona em auto-gestão e garante o acordo final entre as partes.

Está em curso uma campanha para a classificação como Património da Humanidade.

Mesmo ao lado, em frente à Basílica, uma magnífica fonte ao estilo italiano representa o rio Túria - um homem recostado - e os seus oito canais de rega, oito jovens camponesas, cada uma com o seu cântaro a jorrar água.

Fonte do Tribunal de las Aguas, ou Fonte do Túria.


Mais aqui ou em
http://www.tribunaldelasaguas.org/en/




O Graal.

O Museo Almudin (armazém do séc XIV), onde está a exposição sobre o Graal.

Confesso a minha profunda ignorância em questões bíblicas e também na gesta medieval, cavaleiresca e depois wagneriana do Graal. Do que li, julgava o Graal um objecto místico, de culto esotérico, quando muito desaparecido se alguma vez sequer existiu. Mas eis que deparo no medieval Museo Almudin com uma bela exposição, muito documentada, a reivindicar que o verdadeiro cálice sagrado está ali mesmo, ao lado, na Catedral de Valencia !  Será bairrismo histórico duvidoso, ou coisa para levar a sério ?

No chão, o percurso artístico conduz á entrada.

A verdade é que dá gosto ver a exposição - até repeti duas vezes. E depois fui ver o Graal! Ah cavaleiros Templários, tenho mais sorte que vós.

Uma esplêndida tapeçaria da Última Ceia logo a abrir.

Pinturas medievais.

Cálices para todos os gostos, de várias proveniências ibéricas.

Não, ainda não é nenhum destes !

É
          Este ! (réplica)
Taça em ágata carneliana, sem decoração, datada entre  I AC e II DC, na região entre Síria e Egipto.

Resumo dos textos da exposição: De Jerusalém terá passado no séc. I a Antioquia e depois a Roma, onde foi utilizado até Sixto II. Em 258, Valeriano proíbe o culto cristão. O cálice é enviado para Huesca, e a partir do séc. VIII anda a escapar aos mouros pelos Pirinéus aragoneses, de mosteiro em mosteiro. Só em 1399 volta a ser mencionado como estando na posse dos monjes de San Juan de la Peña,
perto de Huesca. É trasladado para Saragoza, onde vai fazer parte do relicário real ; depois para Barcelona, onde é recuperado pelo rei Afonso V que o leva para Valência, sendo definitivamente depositado na Catedral em 1437. Mas várias vezes voltaria a sair temporariamente - nas guerras napoleónicas, na guerra civil espanhola , ou a pedido de alguns Papas.

A taça chegou até nós luxuosamente montada numa base constituída por outra taça invertida em calcedónia, decorada com 28 pérolas 2 rubis e 2 esmeraldas, revestida a ouro, do séc. XI. Assim:


Eis o Graal, réplica do que está guardado na Catedral de Valência :


Está (estará?) na Capilla del Santo Caliz:



Assim atestam respeitáveis calhamaços. Gostaria de saber mais sobre a autenticidade histórica...

D. Antonio Beltrán, “El Sangrado Cáliz", a principal fonte da tese valenciana.

Por mim, aprecio mais um copo de delicioso sumo de laranja valenciana, de preferência na Plaza de la Reina. Ou mesmo, apenas, um copinho de água da fonte do Túria.



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Valencia, II:
A Llotja (Lonja) de la Seda



Não faltam edifícios bonitos em Valencia. Algumas ruas do centro histórico, no antigo intra-muros, são um contínuo desfilar de belas fachadas ocre ou cor de limão, com varandas de ferro forjado alinhadas muito certinhas por vários andares e lá em cima frontões mais ou menos trabalhados; alguns prédios de esquina do século passado, com torreões, exibem também arte decorativa em frisos de azulejo ou trabalho de gesso art deco. Mas a mais notável das casas é sem dúvida a Lonja de la Seda, frente ao Mercado Central, um edifício civil medieval único na Europa.

Situada num bairro de ruelas estreitas, é difícil ter uma boa perspectiva das duas frentes da Casa da Seda.


Foi construída para funcionar como Bolsa do Comércio da seda; é um edifício em calcário, do gótico tardio (séc. XV-XVI), que testemunha a vitalidade mercantil da cidade mediterrânica de Valencia no período final do Império Aragonês.



Ao nível da entrada, em planta rectangular, dispõem-se quatro espaços:

- A Sala das Colunas ou Sala da Contratação.
- A Cala do Consulado do Mar, posterior, com três pisos.
- A Torre.
- O Pátio das Laranjeiras (Patio de los Naranjos) que faz a articulação entre os blocos.

Há ainda, junto à parede amuralhada, uma escadaria de acesso ao segundo andar do Consulado do Mar, onde actualmente funciona a Academia Cultural.



A Sala das Colunas


A Sala das Colunas (ou Columnario), no seu esplêndido gótico flamejante, é a mais impressionante; o tecto, a 16 metros de altura, é formado por várias abóbadas com nervuras em ogiva, que nascem de oito colunas helicoidais com mais de 15 metros. Parecem palmeiras em pedra.


As duas filas de quatro colunas formam três naves na sala. Funcionava aqui desde 1407 a Mesa de Câmbios (Taula de Canvis) onde se realizavam as operações financeiras.


Ao longo das quatro paredes e à altura do topo das colunas corre um friso escuro com uma inscrição em latim e a letra de ouro, que começa assim: "Casa Ilustre, fui construída em quinze anos". E continua:

"Gustate et videte concives quoniam bona est negotiatio, quae non agit dolum in lingua, quae jurat proximo et non deficit, quae pecuniam non dedit ad usuram eius."

"Apreciai e vede, concidadãos, como é bom o comércio que não mente com as palavras, que promete ao próximo e não falha, que não empresta dinheiro para usura própria."

E termina: "O mercador que assim age acumulará riqueza e gozará a vida eterna".

Saídas do fundo do Columnario.

Acesso à escada em espiral para a Torre.

O portal gótico de acesso ao jardim.

Entrada interior para o Consulado do Mar.

O Consulado do Mar


Construída entre 1498 e 1548, esta casa já refecte a influência renascentista. Reunia-se aqui o Tribunal do "Consolat del Mar", instituição do Reino de Aragão que se ocupava desde 1283 dos negócios marítimos no Mediterrâneo. No século XVI Aragão e Castela estavam já unificados mas mantinham ainda uma grande autonomia.


No 1º andar, a Câmara Dourada com tecto gótico em madeira policromada.



Finalmente, ao ar livre, o Pátio das Laranjeiras, jardim tranquilo, verde e perfumado onde os corpos do edifício encontram unidade.


Gótico, Renascimento e Laranjas de Valencia.