quarta-feira, 27 de abril de 2016

Excursão anual à FCG: Tom Koopman + ? CNB


Primeira passeata desde a malfadada operação de Março, este ano vou à capital para um programa de luxo na Gulbenkian dirigido por Tom Koopman. Depois conto.
Tenciono também ir ao Teatro Camões para o Romeu e Julieta de Shakespeare (excertos??) com a C.N.B., uma incógnita algo suspeita.

Como apetizer, daqui fica o belíssimo Laudate dominum das Vesperae Solennes de Confessore K339 de Mozart.
Canta Barbara Schlick, com a Orq. Barroca de Amsterdam, dir. Tom Koopman.


Infelizmente Koopman não traz a Lisboa a sua Amsterdam Baroque...  e quanto a solistas, nomes pouco conhecidos:
Yetzabel Fernandez, soprano
Bogna Bartoszmezzo/contralto

Com Bartosz, Koopman já trabalhou, por exemplo aqui em Bach (BWV 243a):


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Como extra turístico, quero ver se desta vez faço a carreira 28 Estrela acima, Estrela abaixo.


sábado, 23 de abril de 2016

Regresso primaveril ao Botânico, que gosto !


Esta tarde sempre fui dar um passeiozito de Primavera, mas ao pé da porta: com a nortada que fazia, preferi o aconchego do Jardim Botânico.

 O meu banquinho preferido, o de azulejo.


A varanda preferida, voltada a Sul.

Sendo muito pequeno, não falta variedade de caminhos no Botânico.




Madame la Raine et les nénuphars.

A bela Bétula, a árvore Raínha do Parque.

Sua Majestade !

Cerejeira em flor contra a parede cor de cereja.

Primavera !

Primavera !



sexta-feira, 22 de abril de 2016

Paris de memórias, Paris de cafés na bruma, Louki das zonas neutras


Volto ao meu primeiro Modiano, "Le Café de la Jeunesse Perdue". Já tinha ouvido dizer , mas não confirmado, que ele escreve praticamente sempre o mesmo livro, com lugares e nomes diferentes, mas este foi o primeiro e seduziu-me. A Paris dos anos 60 é o fundo desta pequena história melancólica, que respira a cidade por todos os poros. Ruas e avenidas, a beira-rio, alfarrabistas, esquinas e cafés, avenidas e bairros residenciais. Quer a época, quer a foto da capa, quer a escrita de Modiano, tudo sugere uma Paris brumosa a preto e branco. Há uma franja de gente boémia que se encontra num café 'habitual' ao fim do dia, uns convivem e bebem, outros lêm ou escrevem; frequentam às vezes palestras em casa de um dentre eles. Gente triste, em regra, que se arrasta de dia e só renasce quando entra no ambiente fumarento e ruidoso do café onde cada um cala os seus segredos.


Que a cidade seja tão cinzenta nos mesmos anos em que Londres começava a renascer com grande vitalidade à volta de uma nova forma de estar na vida e de fazer música, é um contraste que está por explicar. Vinha aí o Maio de 68...

Patrick Modiani :

"J'ai fait de Paris ma ville intérieure, une cité onirique, intemporelle où les époques se superposent et où s'incarne ce que Nietzsche appelait «l'éternel retour.» Il m'est très difficile maintenant de la quitter."


"Talvez ela tivesse ido ali parar por acaso, como eu. Estava no quarteirão e queria abrigar-se da chuva. Sempre achei que certos lugares são como ímans e que somos atraídos por eles se andarmos por perto. E isso de forma imperceptível, sem sequer darmos conta. Basta uma rua em declive, um passeio ensolarado, ou então um passeio à sombra. Ou uma chuveirada. Tudo isso nos leva ao ponto preciso onde devemos ir encalhar. Parece-me que o Condé, pela sua situação, tinha esse poder magnético e que se fizéssemos um cálculo de probabilidades o resultado iria confirmá-lo. Num perímetro bastante alargado, era inevitável derivarmos para lá."


"Das duas portas do café, ela  entrava sempre pela mais estreita, a que chamavam porta da sombra. Escolhia sempre a mesma mesa ao fundo da salinha. Nos primeiros tempos, não falava com ninguém, depois travou conhecimento com os habitantes do Condé cuja maioria teriam a nossa idade, eu diria entre dezanove e vinte e cinco anos. Sentava-se as vezes à mesa deles, mas quase sempre era fiel ao seu lugar, lá no fundo.
(...)
É preciso esclarecer isto: o nome 'Louki' foi-lhe atribuido a partir do momento em que ela começou a frequentar o Condé. Eu estava lá, numa vez que ela tinha chegado pela meia noite, e em que já só estavam Tarzan, Fred, Zacarias e Mireille, todos à mesma mesa. Foi Tarzan que exclamou 'olha, chegou a Louki. Pareceu de inicio assustada , depois sorriu. Zacarias levantou-se e, no mesmo tom de falsa gravidade Esta noite , eu te baptizo . De agora em diante, chamas-te Louki. E à medida que as horas passavam e que cada um a ia chamando Louki, penso que ela se sentia aliviada com o seu novo nome, sim, aliviada. De facto, quanto mais penso nisso, mais regresso à minha impresão inicial Ela refugiava-se aqui, no Condé. como se quisesse fugir de alguma coisa, escapar a um perigo."


Os pontos fixos.

"Nesse fluxo ininterrupto de mulheres, de homens, de crianças, de cães, que passam e acabam por se perder ao longo das ruas, gostaríamos de reter um rosto, de quando em quando. Sim, segundo Bowing, era preciso no meio do maëlstrom das grandes cidades encontrar alguns pontos fixos. Antes de partir para o estrangeiro, tinha-me dado um caderno onde estavam recenseados dia após dia, durante três anos, os clientes do Condé. Ela aparece com o nome fictício, Louki, e é mencionada pela primeira vez num 23 de Janeiro. O inverno desse ano foi particulamente rigoroso e alguns de nós nem saíam do Condé durante o dia inteiro para se protegerem do frio. O Capitão anotava também as nossas moradas de modo a poder-se imaginar o trajecto habitual que nos levava até ao Condé. Para Bowing era mais uma maneira de estabelecer pontos fixos."

As Zonas neutras.


"Lembro-me do texto que eu andava a tentar escrever quando conheci Louki. Tinha-o intitulado As Zonas Neutras. Havia em París zonas intermédias, terras de ninguém onde se estava na franja de tudo, em trânsito, ou mesmo em suspenso. Disfrutava-se uma certa imunidade. Podia chamar-lhes zonas francas, mas zonas neutras era mais exacto.(..) Tinha escrito como dedicatória: 'Para Louki das Zonas Neutras'. "


"A rua da Argentina, onde eu tinha um quarto de hotel alugado, era bem uma zona neutra. (...) O mais curioso nesta Rua da Argentina - mas eu tinha identificado algumas outras ruas de Paris semelhantes - , é que não correspondia ao bairro a que pertencia. não correspondia  a nada, estava desvinculada de tudo. Com aquela capa de neve, desembocava nos dois extremos sobre o vazio. "



Afinal a Paris das memórias de Modiano é tambem uma Paris de ficção, como ele diz - interior, onírica e intemporal. Essa Paris é Louki. E este livro é o melhor que li este ano, até agora.

[traduções minhas]


terça-feira, 19 de abril de 2016

O Arco das Kerguelen - viagens e literatura



As francesas Ilhas Kerguelen são um dos locais mais estranhos, fascinantes e lendários do Índico Sul, um território antes desabitado que mais ninguém pode reivindicar aos franceses, seus legítimos proprietários desde 1893. São também um dos locais mais remotos do planeta - a 3300 km do mais próximo povoado - sem aeroporto, e limitadas ao acesso por mar.


Existe lá uma base científica - Port-aux-Français - visitada três vezes por ano para abastecimento, transporte de expedições e renovação da equipa residente, e alguns outros pontos de apoio dispersos para abrigo de exploradores. O turismo não está autorizado. A vegetação é rasteira e exclusiva, predominando uma espécie de couve bolbosa, rica em vitamina C, que salvou do escorbuto muitos marinheiros. Para além de focas e pinguins há, pasme-se, gatos selvagens e coelhos (praga introduzidas no séc. XVIII), renas da Noruega (!) e... carneiros, muito apreciados e bem tratados ! Há finalmente uma (só) árvore - um cipreste plantado em Port-aux-Français, o único que tem resistido às formidáveis ventanias : entalado entre paredes dos edifícios da base, cresceu até essa altura de abrigo; daí para cima é 'tosquiado' pelos ventos.

As Kerguelen entraram na literatura fantástica por via de Edgar Alan Poe, primeiro, nas Aventuras de Gordon Pym ( tradução portuguesa, Colecção Livro B, Estampa, 1972); um extracto do texto original:

On the eighteenth [October] we made Kerguelen’s or Desolation Island, in the Southern Indian Ocean, and came to anchor in Christmas Harbour, having four fathoms of water.

This island, or rather group of islands, bears southeast from the Cape of Good Hope, and is distant therefrom nearly eight hundred leagues. It was first discovered in 1772, by the Baron de Kergulen, or Kerguelen, a Frenchman, who, thinking the land to form a portion of an extensive southern continent carried home information to that effect, which produced much excitement at the time. The government, taking the matter up, sent the baron back in the following year for the purpose of giving his new discovery a critical examination, when the mistake was discovered. In 1777, Captain Cook fell in with the same group, and gave to the principal one the name of Desolation Island, a title which it certainly well deserves. Upon approaching the land, however, the navigator might be induced to suppose otherwise, as the sides of most of the hills, from September to March, are clothed with very brilliant verdure. This deceitful appearance is caused by a small plant resembling saxifrage, which is abundant, growing in large patches on a species of crumbling moss. Besides this plant there is scarcely a sign of vegetation on the island, if we except some coarse rank grass near the harbor, some lichen, and a shrub which bears resemblance to a cabbage shooting into seed, and which has a bitter and acrid taste.



The face of the country is hilly, although none of the hills can be called lofty. Their tops are perpetually covered with snow. There are several harbors, of which Christmas Harbour is the most convenient. It is the first to be met with on the northeast side of the island after passing Cape Francois, which forms the northern shore, and, by its peculiar shape, serves to distinguish the harbour. Its projecting point terminates in a high rock, through which is a large hole, forming a natural arch. The entrance is in latitude 48 degrees 40′ S., longitude 69 degrees 6′ E.


Mais tarde também Victor Hugo refere as ilhas em Sphynx des Glaces (1897) :

Il serait difficile, pour le début de ces merveilleuses et terribles aventures, d’imaginer un lieu mieux approprié que les îles de la Désolation – nom qui leur fut donné, en 1779, par le capitaine Cook. (...) Je sais que l’on tient, dans les nomenclatures géographiques, au nom de Kerguelen, généralement adopté pour ce groupe situé par 49° 54’ de latitude sud et 69° 6’ de longitude est. Ce qui le justifie, c’est que, dès l’année 1772, le baron français Kerguelen fut le premier à signaler ces îles dans la partie méridionale de l’océan Indien. En effet, lors de ce voyage, le chef d’escadre avait cru découvrir un continent nouveau sur la limite des mers antarctiques ; mais, au cours d’une seconde expédition, il dut reconnaître son erreur. Il n’y avait là qu’un archipel. Que l’on veuille bien s’en rapporter à moi, îles de la Désolation est le seul nom qui convienne à ce groupe de trois cents îles ou îlots, au milieu de ces immenses solitudes océaniques que troublent presque incessamment les grandes tempêtes australes.


(...) Ce port de Christmas appartient à la plus importante des îles de cet archipel dont la superficie mesure quatre mille cinq cents kilomètres carrés, – soit la moitié de celle de la Corse. Il est assez sûr, d’accès franc et facile. Les bâtiments peuvent y mouiller par quatre brasses d’eau. Après avoir doublé, au nord, le cap François que le Table-Mount domine de douze cents pieds, regardez à travers l’arcade de basalte, largement évidée à sa pointe. Vous apercevrez une étroite baie, couverte par des îlots contre les furieux vents de l’est et de l’ouest. Au fond se découpe Christmas-Harbour.

O fascínio proveio em grande parte dos relatos e das gravuras que de lá traziam os primeiros navegadores, ingleses, franceses e noruegueses. Chegaram a considerar que se tratava de um território enorme, um novo continente (!) * ; depois de o visitarem, desiludidos, chamaram-lhe Ilhas da Desolação. Todos mencionavam o grande Arco, maior que o do Triunfo, e que se tornou quase mítico.

O navio 'Terror' (que com o 'Erebus' fazia parte da expedição de James Clark Ross) em dificuldades a contornar o Arco.

O Arco (foto de 1893): « L’endroit le plus remarquable, la pointe sud, est terminé par un très haut rocher perforé, de sorte qu’il ressemble à l’arche d’un pont. » - relato da 3ª viagem de James Cook.


Um bom relato dos dias de hoje é o de Jean-Paul Kauffmann , "L'Arche des Kuerguelen", de onde roubei o título deste post. O jornalista foi convidado pela equipa que gere a ilha, sob autoridade militar, a fazer uma reportagem durante uma breve estadia.

J'irai à Port-Christmas pour découvrir l'arche des Kerguelen. Cette voûte de cent trois mètres de hauteur, qui stupéfia tant de navigateurs, évoque l'entrée d'une crypte. Le sens caché de cette France australe longtemps maudite s'y trouve peut-être dissimulé. Ces îles dites de la Désolation, où règne le vent, passent pour être le point le plus isolé du globe. La solitude y est extrême, rompue seulement par des troupeaux de moutons, des régiments de chats sauvages, des lapins cachés dans les prairies profondes. (...) Il n'y a pas de Graal à découvrir dans ce district mystérieux que le chevalier de Kerguelen, emprisonné après avoir découvert ces îles en 1772, appelait le «troisième monde».»

Port-Christmas est devenu une obsession. Je ne pense plus qu'à l'oeil crevé de l'arche décrite par Edgar Poe. (...)  Cent trois mètres : le double de l'arc du Triomphe ! Les premiers navigateurs embouquant dans la baie de l'Oiseau ont tous décrit leur admiration à la vue de ce portique monumental. (...) La mer en fut l'architecte, mais c'est son maître d'oeuvre, le vent, qui a accompli l'essentiel de la besogne. Du travail de précision , éxécuté très proprement et qui coupa le souffle de Sir James Clark Ross. L'homme qui dirigea en 1840 la première expédition scientifique aux Kerguelen commandait l 'Erebus et le Terror. Les deux bateaux mouillèrent pendant soixante-huit jours dans le fond de Port Christmas, où fut édifiée une cabane destinée à des observations magnétiques.
(...)
Ce monument naturel est situé au nord-est de l’île principale de l’Archipel des Kerguelen (...) Ce fut d’abord un rocher percé très élevé formant une arche rectangulaire caractéristique qui fut remarquée par tous les navigateurs, depuis la découverte en 1774 (...). Le Havre de Noël est l’objet de l’une des plus célèbres gravures qui accompagnent le récit du troisième voyage de Cook.


Gravura de Port-Christmas (Havre de Noël) durante a 3ª viagem de James Cook às Kerguelen. O arco é visível à direita.


Detalhe de outra gravura da viagem de Cook.


Hélas
, o Arco já não existe: foi destruído por ventos e mares, entre 1909 e 1914. Restam duas colunas.




* A 48°41′ S, 69° 03′ E, as Kerguelen têm 7 215 km2, área semelhante à das Canárias. A zona mais elevada é coberta por uma pequena calote de gelo permanente (Cook Ice Cap), que alimenta alguns glaciares. Aí sim, parece a Antártida.




sábado, 16 de abril de 2016

Sarah Tynan canta Handel em Versailles


Handel divinal, sempre; neste caso, uma ária da oratória Solomon (1748), tal como foi ouvida em Versailles há dois anos dirigida pelo 'nosso' Paul McCresh na sua melhor forma. Foi recentemente transmitida no Mezzo, um dos melhores momentos televisivos do ano !

Não conhecia esta soprano Sarah Tynan, gostei bem de a ouvir cantar num impecável inglês... é raro perceberem-se as palavras todas, como aqui sucede. Não voa muito nas alturas mas a voz é límpida e de timbre bonito. Desiludido com estou com a Lezhneva, esta senhora, ainda jovem, parece uma promessa segura para os anos próximos.

No more shall armed bands our hopes destroy,
Peace waves her wing, and pours forth ev'ry joy.


Beneath the Vine

E agora em dueto com o excelente contratenor Iestyn Davies,
Thrice bless'd be the king [imagem distorcida]



quarta-feira, 13 de abril de 2016

Howard Hodgkins, belos 'abstractos' do século XXI


Nunca vi uma exposição de Howard Hodkins, e infelizmente, porque é cada vez mais difícil encontrar a beleza que para mim é essência da arte, muito mais que 'vida' ('arte é vida'), mal de vivre, angst ou rebeldia. Beleza, sim, é o que faz falta.

Hodkin diz que pinta memórias, estados emocionais, episódios da sua vida, e que as suas obras sugerem, e são abertas a, interpretação. Optando por um abstracionismo 'ímpuro' onde há sempre qualquer coisa reconhecível, constrói janelas de beleza. Janelas, digo eu, porque a maioria das obras está enquadrada, emoldurada, como se nos quisesse oferecer um quadro dentro do quadro - ou uma vista de janela sobre o mundo. No caso de Veneza isso é óbvio, mas não só nesse caso.

É pena mas estou a escrever só sobre fotos de revista e imagens da net. Falta quase tudo, a textura, a pincelada, os cambiantes de luz, a dimensão. Mesmo assim o estilo único de Hodkins transmite, com um uso luxuriante da cor saturada, em estruturas de equilíbrio dinâmico, aquilo que eu mais aprecio na pintura, como na música - harmonia e melodia, narrativa e surpresa, ritmo e complexidade, fantasia e colorido, beleza em suma.


In bed in Venice, 1988

Venice Evening, 1995

Venice Night, 1995

Pourville, 1996

Chez Stamos, 1998

Tears, idle tears, 2001

Come into my Garden, Maud - 2003

Home, Home on the Range - 2007

Uma das que mais gosto, dá para ficar horas a ver:

Where the deer and the antelope play, 2007

Dark Evening, 2011

Moss, 2011

Rain, 2011

Attack, 2012

Green Thoughts, 2014

Howard Hodgkin nasceu em Londres em 1932. O marco mais referido na sua carreira foi em 1995 a série de Venetian Views, a mesma vista de Veneza em horas diferentes do dia. Tem feito exposições e tem obras sobretudo na Tate, mas também na Gagosian de Paris, no MET, MoMA, Ashmolean, Kettle's Yard, Reina Sofia, Barbican, Serpentine, La Caixa... até em Kiev ! Serralves quando ?



domingo, 10 de abril de 2016

Concordia franco-italiana no Dome C


Um banho de pureza, então. Quando a casa tresanda, o escapismo parece tentador.

Muito, muito longe da Europa, há um projecto comum de dois países fundadores da União - França e Itália - onde me apetece projectar aquela solidariedade e identidade cultural europeias originais que aqui faltam agora. Era uma Europa assim moderna, cooperante, a enfrentar o futuro, um pouco aventureira nas ciências e nas artes, que eu queria ver à minha volta. Parece que - tal como na Estação Espacial Internacional - é mais fácil conseguir o que há de melhor no Homem quando está intransponivelmente longe de casa, das fronteiras, ou como se diz, da "zona de conforto"

Concordia, 75°05′ S, 123°19′ E

Chama-se Concordia, bonito nome ! Localizada no Dome C, uma das colinas de gelo mais frias do planalto Antártico, foi inaugurada em 2005 como base permanentemente habitada, uma estação científica de arquitectura simpática e original: dois grande cilindros facetados, de três andares, sobre pilares móveis, com uma galeria de interligação no 1º piso; revestimento branco com molduras vermelhas que grante um isolamento térmico resistente a 100º C de diferença entre o interior e o exterior.

À esquerda, os geradores e caldeiras; a galeria que atravessa os dois edifícios termina numa escadaria de acesso ao solo.

Os pilares que suportam os edifícios são comandados hidraulicamente para permitir regular a altura ao solo.

Um dos edifícios é dedicado a actividades "sossegadas": laboratórios, alojamento, enfermaria, sala de comunicações, estação meteorológica. A capacidade de alojamento normal é de 65 pessoas, a ocupação oscila entre umas 15 a 20 de Inverno a um excesso acima de 70 no Verão, com alojamento extra em tendas.

O outro edifício destina-se a actividades "agitadas": sala de reuniões, escritórios, biblioteca, refeitório e cozinha, ginásio, sala de vídeo, TV e convívio, apoio logístico.

Geradores eléctricos, caldeiras, tratamento das águas, etc., estão num edifício anexo, vermelho.

O transporte local é feito por reboques snowmobile.

A temperatura máxima será de uns -25ºC, no pico do Verão (Janeiro), a mínima desce regularmente aos -80º, que nenhuma arca frigorífica atinge - pode ser fatal qualquer minuto de exposição; o 'normal' são -40º. A humidade é fraquíssima, o ar seco. Felizmente os ventos aqui são fracos também, ao contrário de outros "Domes" ou colinas do planalto antártico sujeitos aos terríveis ventos catabáticos.

Protótipo experimental da Lotus, este veículo individual a biofuel (BIV) para longas expedições na neve atinge 130 km/h e esteve em testes na Concordia durante o Eclipse Solar de 2014.

Essa secura e quietude faz do local um sítio excepcional para observação astronómica. Além disso, não há poluição atmosférica nem luzes a encandear - excepto a da Lua cheia e as das Auroras Austrais. A Concordia trabalha em estreita cooperação com a ESA - Agência Espacial Europeia.

Um dos instrumentos de medição da condições de observação astronómica.

O Dome C eleva-se em encosta suave, mal se nota, até 3 233 m, como se fosse uma deformação da calote de gelo Antártica. Em qualquer direcção, não há "nada" num raio de 1100 km. A essa distância chega-se ao mar, ou a outra estação - italiana, francesa ou australiana. Destas estações provém o biocombustível, peças suplentes e outros produtos indispensáveis ao funcionamento da base. O transporte faz-se num longo combóio de contentores puxados por tractores com lagartas mais conhecido como "raid". A ida e volta demora um mês.

A sensação de se estar num futuro mais adiantado, séculos à frente, de pureza e quietude.

O menos agradável é o longo isolamento de 9 meses, de Fevereiro a Novembro, sem qualquer hipótese de chegada de mantimentos. O transporte de pessoal em caso de emergência ainda pode ser feito por um pequeno Twin-Otter, mas nos cinco meses de Inverno nem isso.

A chegada do primeiro carregamento de avião em Novembro é sempre festejada: um Basler 67 canadiano, o aparelho mais sólido e eficaz para pousar e levantar do gelo e em curtas distâncias, é o portador de novos mantimentos.

Laranjas, maçãs, tomate, verduras, jornais...

O Natal calha na melhor altura - Dezembro é Verão Antártico - com o armazém bem fornecido.

O Basler 67 é uma actualização high-tech do velhinho DC3, que já data de 1942...

Depois são 270 dias sem visitas, a viver dos mantimentos armazenados num túnel escavado no gelo, um frigorífico natural.

A noite polar dura 100 dias, mais de três meses sem ver a luz do Sol.





Mas há noites mágicas !




Detalhes:
http://www.wikiwand.com/fr/Base_antarctique_Concordia


"La solitude, l’isolement sont choses tristes, au-dessus des forces humaines…"

Jules Verne - L'Île Mystérieuse (1874)