segunda-feira, 21 de Julho de 2014

Algo de fresco e alegre no Reino da Dinamarca


- isto é uma espécie de antídoto para ver se desfoco da tragédia na Ucrânia -

A Dinamarca mesmo no Verão parece-me um país triste, melancólico e algo deprimente. As pessoas com ar bem disposto que por lá observei eram estrangeiros em visita, no Nyhavn ou no Louisiana Museum, sítios imperdíveis, ou a passear nas belas falésias brancas de Møn. Ainda um dia hei-de aqui falar do Louisiana.

Nyhavn

O bem estar social evidente e o elevado nível de vida não traz àquelas gentes nem sorrisos nem um prazer em gozar a vida, e esse mau feitio nota-se também nas artes - o cinema de von Trier ! - e na pobreza musical (Nielsen ?). Nunca senti isto em nenhum outro país.

Mas este é um sinal diferente. Que jovialidade, que enorme sorriso.

Lars U. Mortensen dirige o Concerto Copenhagen.
Abertura do 'Giulio Cesare', G. F. Handel.


2º e 3º andamento do BWV 1054 de Bach:



Um nadinha trapalhões (o quê? dinamarqueses ?!!) mas perdoo pela energia.


Falésia de Møn

sexta-feira, 18 de Julho de 2014

Para as 298 vítimas do neo-nazismo russo


quinta-feira, 17 de Julho de 2014

Ilhas inesquecíveis, ilhas sem nome, ilhas afortunadas


Ilhas.
Aleutas, Faröe, Kerguelen, Diomede.
Ellesmere, Saaremaa, Lofoten, Pribilof.
Adelaide, Elephant, Deception, Jan Mayen.

Ilhas poesias.

Îles
Îles
Îles où l’on ne prendra jamais terre
Îles où l’on ne descendra jamais
Îles couvertes de végétation
Îles tapies comme des jaguars
Îles muettes
Îles immobiles
Îles inoubliables et sans nom
Je lance mes chaussures par-dessus bord car je voudrais
bien aller jusqu’à vous


Blaise Cendrars, Du monde entier au cœur du monde,1924



As ilhas afortunadas

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas se vamos dispertando,
Cala a voz, e há só o mar.


Fernando Pessoa, in Mensagem

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Há muita escolha do 'que levar', mas
'que trazer' da ilha deserta, senão poesia ?



segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Choveu Titânio #22


'And now for something completely different'
Monty Python


Cada vez há mais coisas fabricadas com titânio, quadros de bicicleta, turbinas de avião, jantes de "liga leve", relógios caros, parafusos para fixar a coluna vertebral ... pensei: donde vem isso tudo, será também do oriente ? Quem tiver titânio deve estar rico...

Barra de cristal de titânio. Os cristais, entre o turquesa e o lilás, podem ser muito bonitos.

O titânio foi descoberto pelo inglês William Gregor em 1791, ma só foi extraído como metal puro em 1910. É um elemento químico ( Ti ) com número atómico 22 da tabela periódica, entre o Escândio e o Vanádio, este usado em ligas de aço ultra-resistentes.


O titânio tem baixa densidade - é relativamente leve - e é um metal forte, com brilho de prata, resistente à corrosão (incluindo água do mar e cloro) e à torção.
E não há falta dele, não é nada raro - é o 9º elemento mais abundante na crosta terrestre, presente quer em rochas vulcânicas quer em sedimentares, sobretudo em dois minérios - rútilo e ilmenite.

Cristal tetraédrico de rútilo (TiO2). O rútilo é quase só aplicado em pigmentos para a indústria das tintas.

Ilmenite, FeTiO3, a principal fonte de titânio - também encontrada.... na Lua ! (cristal trigonal)

Pode formar ligas com ferro, alumínio, vanádio, de modo a melhorar as qualidades de leveza e/ou  resistência, sendo assim utilizado na indústria aeroespacial, militar (claro), automóvel e ferroviária, nas próteses ortopédicas, implantes dentários, na relojoaria e joalharia, e em artigos de desporto.

Quadro de bicicleta em titânio

Parafusos ortopédicos - tenho uns sete destes dentro de mim, daí este post...

Implante dentário.

Disco de lâminas para turbina : um objecto lindo, de arte tecnológica. Um mínimo defeito de fabrico e temos avião em perigo. Foi uma dessas que se estilhaçou, há dias, sobre Camarate !

Relógio com caixa de titânio.

A maior mina mundial a céu aberto de ilmenite é a de Tellnes, em Sokndal, Noruega, e produz cerca de 380 000 t. anuais de ilmenite. Também no norte da Finlândia, em Kolari, há uma jazida com milhões de toneladas, contendo uns 6 % de titânio.

Mas a Austrália é o maior produtor mundial com mais de 1 milhão de toneladas anuais, seguida pela África do Sul, Canadá, China, Noruega, Ucrânia. Há também importantes jazidas de ilmenite em Moçambique, já em produção. Afinal, com tanta abundância, não é ouro nem platina - por enquanto, nenhum país enriquece por ter titânio.

Fonte: mapsofworld.com

E uma coisa é ter titânio em minério bruto, outra é obter o metal pela indústria extractiva: deste, os maiores produtores são China (60 000 t), Japão, Rússia, Estados Unidos e Cazaquistão.

Uma rocha lunar basáltica rica em titânio:


Mais:
http://www.astrobio.net/pressrelease/4272/the-moons-titanium-treasure-trove

Por cá, no subsolo não se encontrou ainda, mas choveram pedaços de titânio do céu, esperemos que nunca mais.

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Pronto. 'Momento Wikipedia' de geologia e mineralogia terminado. Ao menos foi breve :)


sábado, 12 de Julho de 2014

Simmer Dim


Rigorosamente, o Sol só está nas noites de Verão acima do horizonte desde os 66ºN do círculo polar ártico, por umas semanitas, até ao Pólo, por uns meses.

Nordkapp, Noruega, 71º N - o mais visitado

Mas na prática, nas latitudes acima dos 60º N já há noites luminosas durante essas semanas de verão - o Simmer Dim ("crepúsculo de verão") visível nas ilhas Orkney, Shetland e Faröe, por exemplo.

Pescando na noite crepusclar, ilhas Orkney, 59º N.

Kulusuk, Gronelândia, 65º N.

Noite avançada, Jan Mayen, 71º N

Ny Ålesund, ilhas Svalbard, 79º N

Lofoten, Noruega, 67-68º N

Longyearbyen, Svalbard, muito procurada pelos cruzeiros, 78º N

Cá, o sol põe-se pelas 21 h, mas depois temos tido belas noites de Lua cheia. O melhor que consegui, (e repetindo-me):


¿Quién serás esta noche en el oscuro
sueño, del otro lado de su muro?



quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Frio, frio, é -93.2º


Agora que vem aí calor a valer, deixo aqui notícia dos valores extremos a que 'temos direito' no planeta.

A temperatura mais fria da Terra foi recentemente registada por satélite: -93.2º Celsius (-135.8 F).

Fica numa crista (ridge) montanhosa na Antártida, no Planalto Oriental, onde a temperatura pode descer a esses níveis numa noite límpida de Inverno.


A crista corre entre dois cumes na placa de gelo: Dome Argus (o mais alto, acima de 4000 m) e Dome Fuji .

Um cientista no cimo do Dome A

Dome A ou Dome Argus (80° 22′ S, 77° 21′ E) fica 1200 km para o interior do continente. É a mais alta formação de gelo na Antártida, mas não é realmente uma montanha no sentido convencional, apenas o mais alto ponto da crista de gelo.

As mais baixas temperaturas não são observadas no cimo mas sim em cavidades que se formam um pouco mais abaixo, nas encostas, onde sopram ventos violentos.


A cerca de 4000 m, a crista é fria e extremamente seca. Também está isenta de turbulência atmosférica, sendo portanto um excelente local para observações astronómicas.

É tão calmo no topo, não se sente vento nenhum. As imagens astronómicas  obtidas no 'Ridge A' são pelo menos três vezes mais nitidas que nos melhores locais da Terra onde se faz observação. Como o céu é tão negro e seco, até um modesto telescópio obteria imagens tão boas como os melhores do mundo.”

Ninguém sobrevive a -93º C, nem por poucos minutos, sem um fato isolado e aquecido, como o dos astronautas. Qualquer bocadinho do corpo exposto congelaria quase instantâneamente.

Esta zona fica em completa escuridão durante os 5 meses do inverno antártico.

Este vídeo explica o aparecimento das temperaturas mais baixas:

Pensa-se que a temperatura no Dome A pode descer até aos -102°C .

A presença humana mais próxima está na estação científica chinesa Kunlun :


A base Kunlun, a 4083 m de altitude, só está habitada durante o Verão antártico, por segurança, pois qualquer descuido com o isolamento térmico seria fatal.

Os investigadores chineses que construíram a base trabalharam sempre em fatos electricamente aquecidos, mesmo com os -40º C do Verão.

Já uma vez aqui mostrei a mais fria povoação do planeta, a aldeia russa de Oymyakon , com um recorde de -71.2 ºC.

Só para comparar, o ponto mais quente até hoje registado fica no deserto de sal Dasht-e Lut no sudeste do Irão, que atingiu +70.7º C em 2005. Uf !



Ler mais.



segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Los tesoros de la sombra, escribió Borges


Si el sueño fuera (como dicen) una
tregua, un puro reposo de la mente,
¿por qué, si te despiertan bruscamente,
sientes que te han robado una fortuna?
¿Por qué es tan triste madrugar? La hora
nos despoja de un don inconcebible,
tan íntimo que sólo es traducible
en un sopor que la vigilia dora
de sueños, que bien pueden ser reflejos
truncos de los tesoros de la sombra,
de un orbe intemporal que no se nombra
y que el día deforma en sus espejos.
¿Quién serás esta noche en el oscuro
sueño, del otro lado de su muro?


If sleep is truce, as it is sometimes said,
A pure time for the mind to rest and heal,
Why, when they suddenly wake you, do you feel
That they have stolen everything you had?
Why is it so sad to be awake at dawn?
It strips us of a gift so strange, so deep,
It can be remembered only in half-sleep,
Moments of drowsiness that gild and adorn
The waking mind with dreams, which may well be
But broken images of the night’s treasure,
A timeless world that has no name or measure
And breaks up in the mirrors of the day.
Who will you be tonight, in the dark thrall
Of sleep, when you have slipped across its wall?


— Jorge Luis Borges, “Sueño”

domingo, 6 de Julho de 2014

Requiem de Berlioz, dirige Gardiner, no Mezzo


Em cima da hora - é (foi) hoje às 20.30 : atenção à transmissão pelo Mezzo do
Requiem de Hector Berlioz no Festival de Saint-Denis, dirigido por John Eliot Gardiner e com Michael Spyres, em 2012.

[ repete dia 11 às... 8.30 :( ]

Com tempo, alerta para a Ariodante de Handel a ser transmitida no sábado às 20.30.


quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Cancelas do Barroso e quadros de Nadir


Fui finalmente a Boticas visitar o Centro de Artes Nadir Afonso, coisa decidida já há largos meses.

Na viagem , optei por subir ao Barroso por Cabeceiras de Basto, saindo para Alturas, Vilarinho Seco e Boticas pela N311.


Tive sorte. Fui brindado com um belo dia de sol, estrada bordada de plantas e arbustos floridos, campos de searas já crescida muito dourada, terrenos encerrados pelos lindos muros de pedra transmontanos e cancelas de madeira.



A floresta é sobretudo de carvalho, castanheiro e cedro, para variar da monotonia de pinheiros e eucaliptos.
A estrada, num bom piso cinzento claro, serpenteia no planalto de pedras e árvores com uma graça que se integra na decoração campestre.


Do Centro de Artes não vou falar muito.


A arquitectura magnífica e premiada já foi abundantemente divulgada, e na verdade a luminosidade interior é primorosa. A exposição é relativamente pequena, embora com algumas das melhores obras dee Nadir. Claro que me deliciei em particular com este pequeno guache 'Boticas':


Ainda nem tudo está a funcionar em pleno, o horário não contempla domingos, e o hotel ao lado ainda não abriu, pelo que a oferta de alojamento e restauração em Boticas é fraca. Em contrapartida, não faltam espaços floridos e  ajardinados.

Espero agora pela abertura do Museu de Chaves.


domingo, 29 de Junho de 2014

Sillly Season: duas obras de cravo ligeiras e bem dispostas.


Para começar o Verão, duas obras divertidas, onde o virtuosimo de compositor e intérprete é um duplo gosto. Disse 'música ligeira',  porque esta não desce às profundezas da alma, mas está longe de ser fácil : nesta escrita há muita técnica e sabedoria.
A mim, quando entram no ouvido não saem tão cedo.

1. As variações Harmonious Blacksmith de Handel, da suite No. 5, HWV 430

Começo por versões "sérias": esta, respeitando o original para cravo:


Vertiginosa rapidez, que mais nenhum instrumento é capaz de conseguir !

E esta, em piano, por Wilhelm Kempff - lenta, bem linda, a puxar para o introspectivo ( !!) :


É provavelmente a melhor que conheço.

Quem procurar encontra versões para harpa, flauta, etc.

Agora, em guitarra ? É de prever a dificuldade de execução, sobretudo das variações finais. Mas há quem não tema nada ! O resultado pode ser desagradável para alguns :D

Smaro Gregoriadou, menina prodígio grega, numa guitarra especialmente construída e afinada. Não começa mal...


mas as limitações da guitarra não dão hipótese.

Há uma transposição de Mauro Giuliani, tocada por John Williams, que se afasta muito do original justamente para evitar estes impossíveis últimos compassos.

A outra obra que proponho, um rondó também muito cantabile com variações, parece-me harmonica e estruturalmente similar :

2. A suite Les Niais de Sologne, de Rameau.

De novo, começo pela versão "autêntica", no cravo :

Sempre que ouço fica-me a cantarolar horas dentro da cabeça.

E acabo com Marcelle Meyer ao piano:
video
Mas que magnífica! Tocava-se muito bem, nos anos 50 !

Marcelle Meyer foi uma pianista francesa do entre-guerras (1897-1958) contemporânea de Milhaud, Poulenc, Honnegger, Satie, Ravel, que se dedicou à música de Rameau, pouco divulgada na época.

Marcelle Meyer retratada no "Grupo dos Seis"



quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Incêndio na Glasgow School of Arts de Mackintosh :(



Não sei porque só agora soube do desastre: a 23 de Maio passado, passou pouco mais de um mês, um incêndio consumiu boa parte da Glasgow School of Arts, um dos mais relevantes edifícios de Charles Rennie Mackintosh e um marco histórico e artístico na capital escocesa. Concluído em 1899, parecia um castelo escocês com elementos orientais, na visão modernista, geométrica, austera, de Mackintosh.



Se foi notícia cá, passou-me despercebida; provavelmente um minuto final ou um canto de página, que isto não mete bola nem mexericos, nem colunáveis ou papas.

Foi uma actividade artística (com espuma expansiva) que deu origem ao fogo, devido à explosão de um projector. Muitos cursos estavam em funcionamento, mas a evacuação foi eficaz e rápida. Só o edifício sofreu danos, muitos irreparáveis; se a maior parte da estrutura resistiu e permite restauro, já muito do interior e do espólio ficou em cinzas.

O mais lamentável provavelmenete é a famosas sala de leitura e sua biblioteca, reduzida a cinzas.

Era assim:
.

O estilo inimitável de Mackintosh notava-se sobretudo nas janelas:

As janelas da sala de leitura




Estive duas vezes em Glasgow, em 1993 e 2007, e estive sempre muito bem, com chuva ou com sol. A arquitectura da cidade é magnífica, assisti lá a um Peer Gynt excelente, e a paisagem da Escócia está ali tão perto -  alguns quilómetros a norte e estamos em terras de Glens. Tenho por tudo isso muita pena do desastre que caiu sobre a GSA.

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

Ars - no meio de salinas de Ré, um porto e a torre sineira mais alta da ilha.


Há certamente aldeias ou vilas mais merecedoras da classificação "plus belles villages de France" do que esta Ars-en-Ré; embora a ilha tenha sido invadida e saqueada por ingleses e holandeses, falta a Ars fazer-nos sentir História ou Arte. Mas é certamente airosa, florida, de arquitectura coerente e ainda autêntica ao longo das ruas e vielas ("venelles"). Casas de um a três pisos no máximo, fachadas brancas ou branco-sujo, janelas com portadas ou venezianas de madeira à boa maneira mediterrânica em cores suaves - azul, verde, cinzento.

E, claro, as omnipresentes bicicletas, às centenas.

A entrada da vila, junto ao porto, bordada de esplanadas.

Aquele edifício junto ao cais, à esquerda, foi em tempos a estação de combóio que serviu a ilha até 1935.

Lá dentro da vila é assim: caminhando ou pedalando, sempre um gosto.

Portadas venezianas e rosas tremedeiras, o bilhete postal.

O centro é a Place Carnot: tem a igreja de St. Étienne e a Maison do Sénéchal, com o seu torreão muito peculiar.

O portal da Igreja, romano-gótica (séc XI-XV)

A invulgar torre sineira, em flecha octogonal de 40 metros.

Esta casa já foi uma mercearia (épicerie) durante anos, agora é uma épicerie gourmande - ou seja: serve também comidas e bebidas. O pratinho de gambas estava excelente !

A Maison du Sénechal, único exemplar de edifício renascentista em pedra, começou por ser a sede do governador da ilha - o colector de impostos para o Rei e para a República.

Não faltam ângulos bonitos na Place Carnot.

Mas há surpresas modernas, como esta galeria de arte que muito me agradou:

Gilles Candelier - Paradoxes

O passeio à noite - e eram mornas as noites de Junho - sabia pela vida, depois de bem comido e regado.


La doulce vie. É difícil encontrar mais luminosa e harmoniosa suavidade.