terça-feira, 17 de abril de 2018

Rapperswil, vila medieval, castelo e igreja à beira do lago Zurich


Viajar de combóio na Suíça é sempre boa ideia.

Na minha ultima estada na Suíça, fui de combóio num dia frio e cinzento até Rapperswil. Esta vila antiga deu-me sensações que já é raro ter - inesperada arquitectura, cenário lacustre, casario medieval, prazer de andar na rua, sossego urbano... Rapperswil situa-se numa rota de passagem dos Alpes para Itália, pelo que teve importância estratégica, quer como local de reabastecimento, quer como sítio de portagens. O imponente castelo e uma Igreja que parece excessiva para tão pequena vila testemunham essa importância.


A humidade mal deixava ver a neve no topo dos montes. Descendo desde a parte alta junto ao Castelo e à Igreja de S.João, as lindas fachadas e os telhados jogam com o cenário montanhoso.

A rua Herrenberg desce da elevada "ágora" até à baixa administrativa e comercial.

Algumas casas de enxaimel (traves de madeira de carvalho) dos séc XVI - XVII parecem acabadas de construir.

 Aqui funciona agora uma Escola primária.



Na Hauptplatz fica a câmara (Rathaus).
 


Situada no extremo sul do lago Zurique, Rapperswil foi fundada por volta de 1220 pelos nobres da Casa de Rapperswil, os condes Rudolf. Mas já existia no local um povoado fortificado desde tempos pré-romanos. Uma lenda menciona em 697 a chegada de um cavaleiro Raprecht, que daria origem ao nome Rapprechtswilare...

A Zeitturn, torre do relógio; o carrilhão é famoso.

As torres de Rapperswil, acima da linha dos telhados.

Burg café

Lá fora faziam ums 5º negativos, pelo menos. Sabia bem estar dentro a tomar um chazinho com o bolo da casa. As decorações na janela eram para Carnaval.

A quietude do lago, rodeado dos Alpes, não dá ideia de estarmos no centro da Europa; mas estamos. A leste falta pouco para a Áustria, a sul para Itália, a norte para a Alemanha. Ali em Rapperswil, o espaço e o tempo ficam suspensos numa pausa, mesmo que se ouçam os telemóveis, mesmo que haja caixas automáticas. Rodeados de Europa, num sossego feliz, o lago matricial a proteger-nos.

Vamos então lá acima.

A Igreja paroquial de S. João (Stadtpfarrkirche St. Johann)



É uma igreja românica de 1220-29. A segunda torre, menor, é de 1441, a decoração da nave e o côro já são Góticos. Depois da Reforma na Suíça, dois altares laterais renascentistas foram acrescentados.
https://en.wikipedia.org/wiki/Stadtpfarrkirche_Rapperswil

Janelas da parede lateral da nave.

Janelas dos altares renascentistas.


 Rosácea e órgão.

O Castelo dos Condes


Situado no topo da cidade alta, o Schloss Rapperswil data do século XIII. Controlava o lago num percurso de passagem para a Lombardia atravessando o Gothard.
O castelo e o lago em 1879.

Depois de um período de abandono e ruína, foi restaurado por um cidadão polaco e transformado em museu local da Cultura da Polónia.


Impressiona a monumentalidade deste conjunto castelo-igreja no alto de uma formação rochosa, a lembrar uma acrópole medieval de granito, e que vista ao longe, sobre as pontes ou da outra margem, constitui uma inconfundível marca arquitectónica, como mostram as fotos seguintes que não são minhas (dia soalheiro!):




Das lojas tradicionais nas ruas de Herrenberg e Kluggasse não vou aqui colocar imagens. Mas uma das casas bonitas de Rapperswil tem ao nível da rua uma loja de instrumentos musicais; e no 3º andar, um mural que descreve a lenda (*) das origens da vila.


 Musikhaus, numa vila de 7600 habitantes (Wiki dixit)

O 'mito criador', pintado em banda na fachada.

Um sítio onde tenciono voltar mais demoradamente e com sol aberto !


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(*)
  "Certa manhã, o conde Rudolf von Rapperswil e a esposa atravessaram o lago para caçar, e mal alcançaram a margem os cães farejaram uma corça e correram em perseguição dela até ao topo da penha rochosa.  Quando os caçadores chegaram ao covil, viram duas crias; a senhora ficou com pena delas e pediu ao conde que retirasse os cães e desistisse da fêmea.
  Estando eles a descansar numa sombra, a fêmea surgiu e pousou a cabeça no colo da senhora, grata pelas vidas salvas. O conde ficou comovido, pensou que recebera um sinal divino, e decidiu fundar no local um novo castelo com uma vila na encosta sul."

quinta-feira, 12 de abril de 2018

'o mar das horas humanas', por Catherine Barnett


Cheguei a Catherine Barnett pelo The New Yorker. Está entre os melhores poetas actuais que conheço. Este "Human Hours" é um bom exemplo:

John Locke says children don’t understand elapsed time,
and when I was a girl it was true
and it remains true—

It’s been three hundred years and still my feelings for Locke
must pass unrequited.
I keep his book in my satchel

with other pleasures—
lipstick, Ricola, matches, binder clips, and a tiny bar of soap
stolen from the Renaissance Inn

where I sometimes cheat on Locke with another man.
At least objects endure—
see how my old sofa holds up!

Locke would look pretty good lying here
with his long face, his furrowed brow and center part,
he who too quickly flourished

and outraced this crowded place.
La duration, I said, trying to roll my “r”
when some new French friends asked

what I’d been thinking about.
John Locke et la duration.
They thought I said l’adoration,

which is also true.
Turns out duration is not a French word,
no matter how badly I pronounce it.

The correct term is la durée,
another word I mispronounce
though once I passed a lovely durée

riding my rented Vélib’ from the Seine
to the Sacré-Coeur,
where had I planned in advance

I could have spent the night in adoration.
Instead I only leaned my bike against the church
and looked out across the sea of human hours.

Catherine Barnett, "Human Hours"



Dois poemas mais antigos (2012), que me vou atrever a traduzir:

Chorus

Everyone asks what we’re afraid of
but we aren’t supposed to say.
We could put loneliness on the list.
We could put this list on the list,
its infinity. We could put infinity down.
Who knows why we’re here, it’s a “mystery.”
We’re getting older,
and when no one’s watching
we climb right into it.

Catherine Barnett, The Game of Boxes

                         Toda a gente pergunta de que é que temos medo
                         Mas é suposto não dizermos.
                         Podíamos pôr a solidão na lista
                         E podíamos pôr essa lista na lista,
                         a sua infinidade. E podíamos pôr o infinito.
                         Sabe-se lá quem somos, é um "mistério".
                         Ficamos mais velhos,
                         E quando ninguém está a ver,
                         Trepamos direitinhos para lá.




Categories of Understanding

I’m studying the unspoken.
“What?” my son asks.
“What are you looking at?”
But there is no explaining,
I can only speak the way light
falls, the way the cotton sheet
lays itself over his sleeping or resting
or dissolving body, touching him with
its ephemera, its oblivion.


Catherine Barnett, The Game of Boxes

                       Ando a estudar o indizível.
                       "O quê?" pergunta o meu filho.
                       "De que andas à procura ?".
                       Mas não tem explicação,
                       Só posso dizer do modo como a luz
                       desce, o modo como o lençol de algodão
                       se deita sobre o seu corpo que dorme ou descansa
                       ou se dissolve, tocando-o com
                       a sua efemeridade, o seu oblívio.


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Catherine Barnett nasceu (1960) em Washington, D.C., e estudou na Universidade de Princeton. Vive em S. Francisco.


domingo, 8 de abril de 2018

'Wie der Hirsch schreit', o belíssimo Salmo 42 de Mendelssohn


A vasta obra coral de Felix Mendelssohn pode, em audição prolongada, soar excessiva, pesadona, repetitiva, indigesta; mas tem momentos tão sublimes que arrepiam. É o caso deste famoso Salmo 42, com dois corais de comover um muro de granito, composto em 1838 (durante a viagem de núpcias !) sobre o texto do Livro dos Salmos traduzido por Lutero. Parece reflectir a intensa felicidade que Mendelssohn sentia nesses dias...


Formalmente é uma cantata para soprano, côro e orquestra. Dele disse Herreweghe:
"Os apreciadores de coros ficarão eternamente gratos a Mendelssohn por ter posto assim em música um dos salmos mais populares".

Aqui fica por La Chapelle Royale e o Collegium Vocale, dir. Philippe Herreweghe. Recomendo o côro final,Was betruüst du dich, aos 20:20

'Wie der Hirsch schreit nach frischem Wasser'
(Como uma corça anseia por água fresca)


[É fácil encontrar o vídeo da gravação ao vivo]


A gravação de que mais gosto é a da Orquestra e Côro de câmara de Estugarda, dirigida por Frieder Bernius.