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terça-feira, 28 de setembro de 2021

Trude, Cidade Invisível, muitas vezes visitada


De As Cidades Invisíveis
Italo Calvino

     Se ao tocar terra em Trude não tivesse lido o nome da cidade escrito em grandes letras,  julgaria que tinha chegado ao mesmo aeroporto de onde partira.  Os subúrbios que me fizeram atravessar não eram diferentes desses outros, com a mesmas casas amareladas e esverdeadas. Seguindo as mesmas setas dava-se a volta aos mesmos canteiros das mesmas praças. As ruas do centro mostravam mercadorias embalagens dísticos que em nada eram diferentes. Era a primeira vez que vinha a Trude, mas já conhecia  a pousada onde me calhou ficar; já tinha ouvido e dito os meus diálogos com compradores e vendedores de sucata; outros dias iguais a esse tinham terminado a olhar através dos mesmos copos os mesmos umbigos que ondulavam.
      - Porquê vir a Trude , perguntava. E já queria voltar a partir. - Pode  retomar o voo quando quiser, - disseram-me - mas chegará a mais outra Trude, igual ponto por ponto, o mundo está coberto por uma única Trude que não começa nem acaba, muda só o nome do aeroporto.

As cidades contínuas. 2.


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Ao fim de alguns voos e alguns aeroportos, é essa a sensação que cresce. Apetece-me a não-cidade. Mas então a angústia de ser pequeno, indefeso, irrelevante, zero, na vasta e agressiva Natureza, pode fazer-me correr de volta à confiável Trude.


quinta-feira, 1 de outubro de 2020

'Limiar' , a pandemia lida num poema de R. S. Thomas

 
Parece escrito intencionalmente sobre o Covid (apesar da alusão feita a uma 'bactéria'). Publicado em 1983, é um dos grande poemas de Thomas sobre a procura de um Deus que não encontra; agora, a leitura revela uma  impressionante actualidade, sobretudo o verso final, "hoping for the reciprocal touch".
 
    Elevo-me dos pensamentos
    cavernosos para a escuridão pior
    lá fora, onde coisas acontecem e
    não há Deus nenhum nelas.

    Tenho ouvido a quieta, pequena voz
    que era a das bactérias
    a demolir o meu cosmos. Eu
    demorei tempo demais 
 
    neste limiar, mas onde hei-de ir ?
    Olhar para tras é perder o ânimo
    que eu ia levantando em direcção à
    luz. Olhar para a frente? Ah,

    que equilíbrio é preciso ter
    nas bordas de um tal abismo.
    Estou só, na superficie
    de um planeta em rotação. Que

    fazer, senão, como o Adão
    de Michelangelo, estender a mão
    pelo espaço desconhecido,
    à espera do toque recíproco?
 
 
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Threshold, by R.S. Thomas

      I emerge from the mind’s
      cave into the worse darkness
      outside, where things pass and
      the Lord is in none of them.

      I have heard the still, small voice
      and it was that of the bacteria
      demolishing my cosmos. I
      have lingered too long on

      this threshold, but where can I go?
      To look back is to lose the soul
      I was leading upwards towards
      the light. To look forward? Ah,

      what balance is needed at
      the edges of such an abyss.
      I am alone on the surface
      of a turning planet. What

      to do but, like Michelangelo’s
      Adam, put my hand
      out into unknown space,
      hoping for the reciprocating touch?

                                                        Ronald Stuart Thomas, 1983

                                                        [Poeta do País de Gales, um dos maiore do séc XX]


sexta-feira, 3 de abril de 2020

A uma Campaínha de Inverno, de Wordsworth.


Um poema de que ainda não encontrei tradução, e onde a genial melancolia de Wordsworth transborda os limites. Poesia contra a reclusão e a ameaça.


To A Snowdrop, by William Wordsworth

Lone Flower, hemmed in with snows and white as they
But hardier far, once more I see thee bend
Thy forehead, as if fearful to offend,
Like an unbidden guest. Though day by day,
Storms, sallying from the mountain-tops, waylay
The rising sun, and on the plains descend;
Yet art thou welcome, welcome as a friend
Whose zeal outruns his promise! Blue-eyed May
Shall soon behold this border thickly set
With bright jonquils, their odours lavishing
On the soft west-wind and his frolic peers;
Nor will I then thy modest grace forget,
Chaste Snowdrop, venturous harbinger of Spring,
And pensive monitor of fleeting years!


                                 Florzita solitária, rodeada de neves e branca como elas
                                 Mas muito mais rija, mais uma vez te vejo descer
                                 A fronte, como quem receia ofender,
                                 Como visita inoportuna. Se bem que, dia após dia,
                                 Do cimo dos montes rompem chuva e ventania 
                                 Encobrindo o sol nascente, desabando sobre os prados;
                                 Tu és sempre bem vinda, bem vinda como amiga
                                 Cujo zelo supera a promessa! Os olhos azuis de Maio
                                 Irão em breve contemplar nestas paragens a densa
                                 Claridade dos junquilhos, seus aromas dispersados
                                 Na suave brisa de oeste e outros ventos insanos;
                                 Por nada a tua graça modesta eu então esqueça,
                                 Casta Campaínha, venturosa pioneira da Primavera
                                 E pensativa monitora de fugazes anos !





domingo, 15 de dezembro de 2019

Olivia, cidade-mentira, uma das 'Invisíveis' de Calvino


Já mais de uma vez referi que As Cidades Invisíveis de Italo Calvino é para mim uma das obras primas da literatura de sempre, livro a que sempre regresso e que foi também em parte fundador deste meu Livro de Areia.

Um dos mais geniais textos é o que descreve a imaginada Olívia. Espanta-me como nesta metafórica cidade há tanto das cidades onde actualmente vivemos na Europa, cidades de bem estar, requinte e cultura para muitos, mas de miséria, escravidão no trabalho ou servilismo para muitos outros; são duas cidades numa, e designá-la por um só nome é uma forma de mentira; mas a mentira, diz Calvino, "está nas coisas".

Há um colega bloguista que mostra o Porto nesta duplicidade - Cidade Surpreendente e Cidade Deprimente. Isso aplica-se a muitas outras por essa Europa fora.


[Marco Polo dirige-se a Kublai Khan (1260-1294), o neto de Gengis Khan, Imperador da Mongólia]

As cidades e os sinais.   5.

Ninguém sabe melhor que tu, sábio Kublai, que nunca se deve confundir a cidade com o discurso que a descreve. E contudo entre eles há uma relação. Se te descrevo Olívia, cidade rica de produtos e de lucros, para significar a sua prosperidade não tenho outro meio que não seja falar de palácios de filigrana com coxins de franjas nos parapeitos das janelas geminadas; para lá das grades de um pátio, uma girândola de repuxos rega um prado onde um pavão branco abre em leque a sua cauda. Mas deste discurso tu compreendes logo que Olívia está envolvida numa nuvem de fuligem e gordura que se pega às paredes das casas; que no tropel das ruas os reboques em manobra esmagam os peões contra as paredes. Se devo contar-te da laboriosidade dos habitantes, falo das oficinas dos arreeiros odorosas de couro, das mulheres que tagarelam entrelaçando tapetes de ráfia, dos canais suspensos cujas cascatas movem as pás dos moinhos: mas a imagem que essas palavras evocam na tua consciência iluminada é o gesto que acompanha o mandril contra os dentes da fresa ao ritmo fixado pelos turnos das equipas de trabalho. Se devo explicar-te de que maneira o espírito de Olívia tem a tendência para uma vida livre e uma civilização requintada, falar-te-ei de damas que navegam cantando de noite em canoas iluminadas por entre as margens de um verde estuário, mas é só para te recordar que, nos subúrbios onde desembarcam todas as noites homens e mulheres como filas de sonâmbulos, há sempre quem  no meio do escuro desate a rir, quem dê o sinal de partida às brincadeiras e aos sarcasmos.

Isto talvez tu não saibas: que para falar de Olívia não poderia fazer outro discurso. Se houvesse uma Olívia realmente de janelas e pavões, de arreeiros e tecelões de tapetes e canoas e estuários, seria um miserável buraco negro de moscas, e para o descrever deveria recorrer às metáforas da fuligem, do chiar das rodas, dos gestos repetidos, dos sarcasmos. A mentira não está no discurso, está nas coisas.



Há dias em que é assim que sinto a minha cidade. E cada vez mais.


segunda-feira, 10 de junho de 2019

A Primavera no Porto de que ainda gosto (sem 'NOS')


Na primeira fase da minha vida, odiava a cidade. O Porto era cinzento, húmido, sujo, bêbados a praguejar pelas esquinas, medo de falar nos cafés, tascos mal cheirosos e sebentos. Havia mictórios, um nojo, muros e fachadas ao abandono a cair de podres, água fétida nas bermas e bueiros. E nos cinemas ou no Coliseu só raramente passava coisa que valesse a pena, tolerada pela censura.

Depois veio côr, mais sol, alguma pouca abertura ao mundo e à cultura (?), dinheiro europeu para restauros e obras, mais-valias urbanas. Alguma coisa melhorou. Os eléctricos ronceiros foram retirados do centro, a rua Sá da Bandeira ficou mais bonita, e a Júlio Dinis; o Rivoli e depois a Casa da Música mudaram o panorama da cultura, Serralves também ajudou, menos.

Passeios e árvores deram nova cara a algumas ruas do Porto desde 2001. Pouca dura.

Quando o Porto ficou mais bonito. Agora, a Galeria de Paris é infrenquentável.

Actualmente, e lamento muito, estamos a estragar tudo a alta velocidade. Voltou o mau gosto e a parolice, o descuido e a fealdade, as obras permanentes e eternas, tapumes com camadas de cartazes velhos, a sujidade e o ruído de gente variadamente embriagada. Tags e graffitis, garrafas partidas e embalagens pelos passeios desfeiam a baixa. A programação do Rivoli, Coliseu, Teatro S. João e Serralves é miserável, terceiro-mundista. Só se salva, meia dúzia de dias por ano, a Casa da Música.


Infante, Ribeira, Leões (que é do Chiadinho?) , Batalha, 31 de Janeiro, Clérigos - está tudo em degradação, o bom comércio a fechar, restando um Porto kitsch para turistas de mau gosto e portuenses portistas, feito de bares e lojas de artesanato quincalheiro, ou de "emblemáticos" tipo Disneyland: é uma dor de alma passar pela Lello ou no Majestic, no Piolho (tão sujo de tags), na Quinta do Paço, a ver entre mochilas e trolleys os azulejos em S. Bento ou tudo o que já não há no Bolhão. Cedofeita está semi-decadente, alternam lojas de cadeias plásticas globais, comedoiros plásticos rápidos, e fachadas entaipadas de comércio que fechou; renovadas, só as fachadas que dão alojamento turístico. Das tradicionais relojoarias, casas de miudezas, luvas e guarda-chuvas, chapelarias, queijarias e mercearias, quiosques e alfarrabistas - não sobra nada.

31 de Janeiro: o postal autêntico que devia promover a imagem da cidade.

Será este o 'emblemático' Porto antigo que ganha prémios?

Ou este? Noutro lado chamavam-lhe 'favela'. Na Europa, disto só no Porto, que eu saiba.

Também não há nenhuma zona residencial bonita; semearam a antiga periferia de super-mercados, semáforos, picos sinalizadores; há na mesma estacionamento abusivo e cada vez mais prédios de mau gosto, alguns com excesso de altura; e ruas com algum interesse de arquitectura urbana como Álvares Cabral foram reconvertidas num continuum de hostéis e apartamentos turísticos.


Na minha área de 'conforto', há a Livraria Bertrand, com cafetaria Arcádia, no feio C.C. 'Cidade do Porto'; a excelente pastelaria e salão de chá Petúlia, noutros tempos mal frequentada; o Orfeuzinho para ler o jornal com um café; o mercadinho ('mercearia fina') Casa São Miguel, um pomar grande com frescos de qualidade; o Bazar Paris logo no início da Avenida da Boavista.


O salão da Petúlia

Bar dos Artistas da CdM

Os sítios que me sobram são
- os Jardins: Parque da Cidade, Botânico, Palácio, Casa das Artes, Casa Tait...
- a Beira-mar, ou seja, a Foz e o Passeio Alegre / Cantareira
- a Casa da Música, oásis onde encontrar cosmopolitismo de qualidade (como na Gulbenkian de Lisboa)
- o centro moderno dentro e à volta do Bom Sucesso - feio mas com comércio de qualidade.

A Foz




O Molhe

O Passeio Alegre


Água e café...

Talvez no Chalé.


O Jardim Botânico:




Pronto, já esqueci que estou na Invicta. Óptimo.

Os jardins do Palácio


Sob as tílias, e lá ao fundo...



Os Jardins de Serralves

Difícil é já escapar da multidão. Há que escolher dia, hora, sítio...

A mais que centenária oliveira,

e o terreiro da Casa de Chá:
Desta 'arte contemporânea' é que eu gosto.


Finalmente, o Parque da Cidade, cada vez melhor:






O que eu gosto no Porto, não é do espaço urbano. São os parques e jardins, o rio e o mar. Só aí é que o Porto, na Primavera, é único.

[Excepto, como agora, quando uma multidão de selvagens intitulada "NOS Primavera Sound" invade os espaços verdes, sob a amplificação ribombante, expulsa os pássaros e não deixa ouvir o silêncio. Raio de conceito pós-moderno de Primavera.]



sexta-feira, 22 de abril de 2016

Paris de memórias, Paris de cafés na bruma, Louki das zonas neutras


Volto ao meu primeiro Modiano, "Le Café de la Jeunesse Perdue". Já tinha ouvido dizer , mas não confirmado, que ele escreve praticamente sempre o mesmo livro, com lugares e nomes diferentes, mas este foi o primeiro e seduziu-me. A Paris dos anos 60 é o fundo desta pequena história melancólica, que respira a cidade por todos os poros. Ruas e avenidas, a beira-rio, alfarrabistas, esquinas e cafés, avenidas e bairros residenciais. Quer a época, quer a foto da capa, quer a escrita de Modiano, tudo sugere uma Paris brumosa a preto e branco. Há uma franja de gente boémia que se encontra num café 'habitual' ao fim do dia, uns convivem e bebem, outros lêm ou escrevem; frequentam às vezes palestras em casa de um dentre eles. Gente triste, em regra, que se arrasta de dia e só renasce quando entra no ambiente fumarento e ruidoso do café onde cada um cala os seus segredos.


Que a cidade seja tão cinzenta nos mesmos anos em que Londres começava a renascer com grande vitalidade à volta de uma nova forma de estar na vida e de fazer música, é um contraste que está por explicar. Vinha aí o Maio de 68...

Patrick Modiani :

"J'ai fait de Paris ma ville intérieure, une cité onirique, intemporelle où les époques se superposent et où s'incarne ce que Nietzsche appelait «l'éternel retour.» Il m'est très difficile maintenant de la quitter."


"Talvez ela tivesse ido ali parar por acaso, como eu. Estava no quarteirão e queria abrigar-se da chuva. Sempre achei que certos lugares são como ímans e que somos atraídos por eles se andarmos por perto. E isso de forma imperceptível, sem sequer darmos conta. Basta uma rua em declive, um passeio ensolarado, ou então um passeio à sombra. Ou uma chuveirada. Tudo isso nos leva ao ponto preciso onde devemos ir encalhar. Parece-me que o Condé, pela sua situação, tinha esse poder magnético e que se fizéssemos um cálculo de probabilidades o resultado iria confirmá-lo. Num perímetro bastante alargado, era inevitável derivarmos para lá."


"Das duas portas do café, ela  entrava sempre pela mais estreita, a que chamavam porta da sombra. Escolhia sempre a mesma mesa ao fundo da salinha. Nos primeiros tempos, não falava com ninguém, depois travou conhecimento com os habitantes do Condé cuja maioria teriam a nossa idade, eu diria entre dezanove e vinte e cinco anos. Sentava-se as vezes à mesa deles, mas quase sempre era fiel ao seu lugar, lá no fundo.
(...)
É preciso esclarecer isto: o nome 'Louki' foi-lhe atribuido a partir do momento em que ela começou a frequentar o Condé. Eu estava lá, numa vez que ela tinha chegado pela meia noite, e em que já só estavam Tarzan, Fred, Zacarias e Mireille, todos à mesma mesa. Foi Tarzan que exclamou 'olha, chegou a Louki. Pareceu de inicio assustada , depois sorriu. Zacarias levantou-se e, no mesmo tom de falsa gravidade Esta noite , eu te baptizo . De agora em diante, chamas-te Louki. E à medida que as horas passavam e que cada um a ia chamando Louki, penso que ela se sentia aliviada com o seu novo nome, sim, aliviada. De facto, quanto mais penso nisso, mais regresso à minha impresão inicial Ela refugiava-se aqui, no Condé. como se quisesse fugir de alguma coisa, escapar a um perigo."


Os pontos fixos.

"Nesse fluxo ininterrupto de mulheres, de homens, de crianças, de cães, que passam e acabam por se perder ao longo das ruas, gostaríamos de reter um rosto, de quando em quando. Sim, segundo Bowing, era preciso no meio do maëlstrom das grandes cidades encontrar alguns pontos fixos. Antes de partir para o estrangeiro, tinha-me dado um caderno onde estavam recenseados dia após dia, durante três anos, os clientes do Condé. Ela aparece com o nome fictício, Louki, e é mencionada pela primeira vez num 23 de Janeiro. O inverno desse ano foi particulamente rigoroso e alguns de nós nem saíam do Condé durante o dia inteiro para se protegerem do frio. O Capitão anotava também as nossas moradas de modo a poder-se imaginar o trajecto habitual que nos levava até ao Condé. Para Bowing era mais uma maneira de estabelecer pontos fixos."

As Zonas neutras.


"Lembro-me do texto que eu andava a tentar escrever quando conheci Louki. Tinha-o intitulado As Zonas Neutras. Havia em París zonas intermédias, terras de ninguém onde se estava na franja de tudo, em trânsito, ou mesmo em suspenso. Disfrutava-se uma certa imunidade. Podia chamar-lhes zonas francas, mas zonas neutras era mais exacto.(..) Tinha escrito como dedicatória: 'Para Louki das Zonas Neutras'. "


"A rua da Argentina, onde eu tinha um quarto de hotel alugado, era bem uma zona neutra. (...) O mais curioso nesta Rua da Argentina - mas eu tinha identificado algumas outras ruas de Paris semelhantes - , é que não correspondia ao bairro a que pertencia. não correspondia  a nada, estava desvinculada de tudo. Com aquela capa de neve, desembocava nos dois extremos sobre o vazio. "



Afinal a Paris das memórias de Modiano é tambem uma Paris de ficção, como ele diz - interior, onírica e intemporal. Essa Paris é Louki. E este livro é o melhor que li este ano, até agora.

[traduções minhas]


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

To change the mood


Hoje esteve mais um lindo dia de Inverno, que entre passeio e café à beira-mar e almoço na varanda ensolarada (em Janeiro!) ajudou a atenuar o mau estado de espírito em que tenho andado (nota-se ?).

Muita gente, de cachecóis bem enrolados à volta do pescoço, ciclistas de gorro e lenço pára-vento, bastantes idosos de sobretudo, e alguns em cadeira de rodas - ninguém perde aquela hora de solzinho entre o meio-dia  e as 15. É até bonito de se ver, a boa disposição apesar do frio !

Imagine-se, até abriu um restaurante novo, nesta altura do ano.

E o dia acabou assim :



É assim, a Natureza afinal serve de alienação para a cretinice humana. A olhar o mar, tudo fica para trás, tudo é passado, pode-se enfim descansar. E pensar nos cartoonistas que gostaria de ter ali comigo.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Incêndio na Glasgow School of Arts de Mackintosh :(



Não sei porque só agora soube do desastre: a 23 de Maio passado, passou pouco mais de um mês, um incêndio consumiu boa parte da Glasgow School of Arts, um dos mais relevantes edifícios de Charles Rennie Mackintosh e um marco histórico e artístico na capital escocesa. Concluído em 1899, parecia um castelo escocês com elementos orientais, na visão modernista, geométrica, austera, de Mackintosh.



Se foi notícia cá, passou-me despercebida; provavelmente um minuto final ou um canto de página, que isto não mete bola nem mexericos, nem colunáveis ou papas.

Foi uma actividade artística (com espuma expansiva) que deu origem ao fogo, devido à explosão de um projector. Muitos cursos estavam em funcionamento, mas a evacuação foi eficaz e rápida. Só o edifício sofreu danos, muitos irreparáveis; se a maior parte da estrutura resistiu e permite restauro, já muito do interior e do espólio ficou em cinzas.

O mais lamentável provavelmenete é a famosas sala de leitura e sua biblioteca, reduzida a cinzas.

Era assim:
.

O estilo inimitável de Mackintosh notava-se sobretudo nas janelas:

As janelas da sala de leitura




Estive duas vezes em Glasgow, em 1993 e 2007, e estive sempre muito bem, com chuva ou com sol. A arquitectura da cidade é magnífica, assisti lá a um Peer Gynt excelente, e a paisagem da Escócia está ali tão perto -  alguns quilómetros a norte e estamos em terras de Glens. Tenho por tudo isso muita pena do desastre que caiu sobre a GSA.