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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Zeghere van Male, o seu cancioneiro de 1542 e a música renascentista flamenga


Letra ' P' do Livro de Cânticos de Zeghere

Zeghere van Male (1504-1601) era um negociante de tecidos de Bruges, que coleccionou e reuniu cânticos e canções flamengas do século XV num cancioneiro (Liedboek) publicado em 1542. 

1ª página de um dos 4 volumes

Foi na altura em que a imprensa musical começava a conquistar as classes médias. São quatro volumes espessos (cada com mais de 300 páginas) cosidos a fio de linho que ele próprio fabricava.

Os exemplares do cancioneiro eram ilustrados com magníficas iluminuras, minuciosamente executadas a tinta, ilustrando as letras do alfabeto que iniciavam cada página, o que tornava os manuscritos particularmente apetecíveis para os cidadãos mais abastados. Os temas eram desde mitos clássicos e animais até aos humorísticos or grotescos, muitos violentamente obscenos (que me dispenso de publicar...).

Letra 'M'

Quanto à música, o cancioneiro contém 229 composições ! São 15 missas, 64 motetes, 137 peças seculares, sendo 125 francesas (as favoritas do público) , 9 flamencas, 3 italianas (madrigais de Verdelot), e ainda 12 obras instrumentais, a maioria danças e um prelúdio.
 
Gosto bem deste 'D'

Só falta ouvir. Vou inserir aqui gravações pela Capilla Flamenca, de Lovaina, agrupamento já extinto em 2014, e pelo Ars Cantus de Wroclaw, dir. Tomasz Dobrzański.

Começo por uma canção anónima, 'Amour vaut trop ' , com o Ars Cantus, sop. Monika Wieczorkowska:
Segue-se um Prelúdio do próprio Zeghere van Male:
                  Preludium


'Ogn'hor per voi sospiro'
 é um madrigal do franco-italiano Philippe Verdelot:

Philippe Verdelot (1480-1485, 1530-1540) é considerado o pai do madrigal italiano, e foi um dos mais prolíficos compositores da Renascença.
'Por ti suspiro a toda a hora' em tradução inglesa:
My heart forever yearns
For you, my dearest love.
Your love has claimed me,
I freely chose to be yours,
before the whole world's eyes.
Let all who hears or sees this know,
You alone have my heart.
So my love forsake me not.


Mais alegre, o festivo 'Tant que Vivray', de Claudin de Sermisy, pelo Ars Cantus :
E terminio com um favorito, 'Chantons, sonnons les trompettes' , de Clément Jannequin, seguido de uma Pavane:
Chantons, sonnons les trompettes
Tabourins, phifres & clerons
Si faisons la grant feste,
Plus nous ne craindrons.


Os séculos XV e XVI são os primeiros da Renascença e do Humanismo, quando o comércio e a interação com outros povos de outros continentes abriu a Europa a uma universalidade mais próspera, com o surgimento de uma primeira burguesia culta. No século seguinte teria início a grande Música Clássica, com compositores que dedicaram a vida à música e conquistaram a eternidade - Palestrina, Monteverdi, Scarlatti, Vivaldi, Bach ...

O original do Cancioneiro de Zeghere van Male está na mediateca de Cambrai.



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Capilla Flamenca, dir. Dirk Snellings, † 2014

Ars Cantus, dir. Tomasz Dobrzański
Monika Wieczorkowska – sopran 
Aleksandra Hanus – sopran 
Radosław Pachołek – alt 
Maciej Gocman – tenor 
Piotr Karpeta – bas

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Generalič e Rabuzin, os " naïfs " croatas


Em princípio, não me agrada arte 'nacional' : bonecas russas, relógios de cuco suíços, ou galos de barcelos. Nem 'artistas' ditos 'populares', como toureiros, grafiteiros, fadistas e a maioria dos fazedores de ruído que passam por músicos. Sendo nacionais ou populares, não são (nem tendem a ser) universais, portanto não é arte: é produto de consumo local.

A pintura naïve não é nacional da Croácia - é uma corrente ou um estilo mais ou menos primitivo que se encontra por toda a parte, desde os esquimós do Ártico às gravuras japonesas. Mas há, ou houve, na Croácia uma escola reputada, muito produtiva e incentivada por nacionalismo, de pintura naïve. Apercebi-me, quando lá estive, que eram objecto de 'culto' orgulhoso, um pouco incómodo; agora, à distância, sem culto, reconheço uma arte diferente que é pouco apreciada na Europa. Curioso, num país vizinho de Itália e do centro da Europa, ter surgido um estilo tão desalinhado.

Generalič, pai e filho

Ivan Generalič(1914-1992) e o filho Josip (1936-2004) exibem uma idealização lírica da vida campestre. A forma como representam a vegetação lembra a geometria fractal.

Ivan Generalič, Cervo Branco, 1856.

 
Outono, 1946.

Paisagem, 1956.

Josip Generalič, Aldeia no Inverno, 1967.

Josip Generalič, Campo de trigo, 1981

Ivan Rabuzin (1921 – 2008), também natural da Croácia, só começou a pintar aos 35 anos. Foi ainda mais longe na estlização da Natureza, usando os padrões geométricos de simetria e repetição em paisagens de fantasia e cores surpreendentes.

Floresta nos montes, 1960.

Dois Arbustos, 1973.

Rabuzin parece previlegiar o círculo/esfera nas suas paisagens, onde figuram "bolinhas" de nuvens, colinas, árvores e flores;  simetria e outras geometrias exprimem uma ideia de ordem, paz e harmonia, num todo algo "simplório" (naïf !) onde colorido e composoção criam um bonito mundo de fantasia. Infantil?

Caminho através dos campos, 1989


E um dos meus favoritos:

Abraço às Nuvens.


sábado, 23 de junho de 2018

Mily Possoz, admirável ilustradora e desenhadora, gentil modernista


Emília Possoz nasceu em 1888, de pais belgas, pessoas viajadas: partindo de Antuérpia e Liége, foram casar em Londres e vieram residir para Portugal. Mily foi ainda jovem para Paris, em 1905, frequentar uma Academia de pintura, e aos 16 anos viajou pela Holanda, Alemanha e Bélgica (e não havia Erasmus nem Interrail).

Muito independente, bem humorada, cosmopolita, aventureira, com intensa vivência em meios de vanguarda artística, grande amiga de Vieira da Silva e com um percurso de vida semelhante, Mily Possoz tornou-se uma mulher admirável do início do século XX. A visão serena e lírica que imprimiu a toda a sua criação reflecte o seu modo de ser, afectiva e delicada.

'Jardim com figuras', 1918

Em desenho, gravuras, guaches ou óleos, e como ilustradora, representou jovens e crianças, figuras do povo, gatos, paisagens com motivos de Sintra ou do Alentejo.
'Jeune femme lisant', 1925

'Mulher com leque', 1930 -  Chagal ? Foram contemporâneos.

'Petite fille au col de dentelle', 1935


'Les tulipes', 1937

A decoração dos pavilhões do Japão na Exposição do Mundo Português (1940), é na altura um dos seus trabalhos mais marcantes, inspirado nos biombos Namban.

Em 1957, é conviada a criar obras para a decoração do Hotel Tivoli em Lisboa; actualmente ainda é a instituição que tem a maior colecção de obras de Mily Possoz. A sua pintura de cores fortes e pincelada vigorosa contrasta com a delicadeza dos desenhos.

Paisagem, Hotel Tivoli

Paisagem (prov. Sintra), Hotel Tivoli

Chaminés Alentejanas, Hotel Tivoli


Mily Possoz dedicou-se também à ilustração, começando neste "Viagens Aventurosas de Felicio e Felizarda ao Pólo Norte" de Ana de Castro Osório.



Mas foi o Livro da Segunda Classe de 1958, que lhe trouxe mais notoriedade, e ainda hoje em Portugal é a sua obra mais reconhecida:






Entre o último meio século de XIX e o primeiro de XX, houve uma extraordinária geração de notáveis mulheres que é marca de uma certa emancipação e civilização que não nos envergonha, antes pelo contrário: é um privilégio. Não falo de Amálias nem de Ferreirinhas, de Simones nem das Três Marias !, mas sim de seres femininos criadores, superiores e universais:

Emília Possoz (1888)
Florbela Espanca (1894)
Vieira da Silva (1908)
Maria Keil (1914)
Sophia de Melo Breyner (1915)
Agustina Bessa Luís (1922)
Ana Hatherly (1929)

Desde os anos 70 que as artes portuguesas são o que se sabe, uma miséria. E a culpa não é só da outra, não, do 'outro senhor'.

Sem título, de Mily Possoz. Picasso ?

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Mily Possoz está representada na National Gallery de Londres e no Museu de Cleveland, onde é identificada assim:


O desgosto de estar num país que só é reconhecido pelo futebol não tem fim.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

O tranquilo Tamisa que aqui se chama - the Isis !


A denominação celta 'Tamesas' foi romanizada como 'Tamesis',  e com o passar dos anos acabou truncada para 'Isis' entre Oxford e Dorchester; os estudantes mantêm com gosto o culto dessa tradição, apesar da actual ressonância antipática. The Isis é o curso de água onde os universitários remam, e foi nome literário do Tamisa para Carroll, C. S. Lewis, Phillip Pullmann...


É um rio vagaroso, gentil, de margens planas. A maior beleza é a do arvoredo em redor e reflectido. Passear nas margens não é nada de especial - nos poucos percursos pedonais de jeito abundam ciclistas apressados; é sobretudo um curso de água para prática de remo, e para uns poucos anti-sociais ou excêntricos é uma rua onde morar, numa daquelas estreitas barcas de canal típicas de Inglaterra, que também se encontram no afluente Cherwell





" The Isis " foi também o título óbvio de uma revista estudantil, generalista (mas tendencialmente mais dedicada a ensaios, poesia e opinião), moderadamente provocatória, excêntrica e humoristica. Nasceu na Universidade em 1892 ( o século XIX foi mesmo o século das inovações !) e está quase a atingir 2000 números. Um dos requintes é a apresentação criativa, ela própria obra de artes gráficas.
http://isismagazine.org.uk/
https://www.facebook.com/isismagazine/

Actualmente já não é um semanário, mas uma publicação de fim de termo lectivo, com um website.

Um exemplo do design (sempre diferente de revista para revista) é a apresentação do índice:





Páginas de poesia:


Um festa de design gráfico e irreverência.



Ao contrário daquela coisa repelente que dá pelo mesmo nome, por desgraçada coincidência, The Isis é um triunfo civilizacional. Viva o Isis !