segunda-feira, 22 de maio de 2017

Oxford 3: nem faltaram os Romanos na pequena vila de Dorchester-on-Thames


A poucos minutos de Oxford, Dorchester-on-Thames é uma pequena vila inglesa agradável, com a inevitável Inn / hotel & pub, a inevitável igreja paroquial com jardins à volta, o relvado comunitário para jogos, a inevitável tea room. Está feito o cenário de um  inglês feliz. Ao longo da estrada rural, umas poucas casas em gaiola de madeira com cobertura de colmo enquadram a torre da Abadia. Sim, Dorchester tem uma Abadia !




Tudo normal, não fosse a longa história de Dorchester, desde o neolítico à invasão romana, seguindo-se os saxões e normandos até à era victoriana. A aldeia é um lugar único no Reino Unido: só aqui se sucederam povoados na Idade do Bronze e do Ferro, na era romana e na era anglo-saxónica, que não foram apagados pelo tempo.

Taça em sino invertido encontrada no campo arqueológico
(c. 2400 AC, ~ Stonehenge).

A posição da aldeia junto ao navegável Thames e ao seu afluente Thame, que a contornam em três quadrantes, fazia de Dorchester um sitio estratégico quer pelas vias de comunicação quer pelas defesas naturais. Uma sebe de turfa (neolitico) ou uma fortificação defensiva fechava um recinto quase rectangular.


Os romanos fizeram aqui um vicus (administração provincial), que ligava por estrada calcetada a um campus militar mais a Norte. Que o nome do aldeamento romano fosse Dorcic, como alguns reclamam, é puramente especulativo, mas há muitas evidências de ocupação desde o reinado de Cláudio até ao de Antonino (séc. IV).
Durante as excavações foram encontrados cemitérios da era romano-britânica.

Em 634 o Papa enviou um bispo, Birinus, para converter os saxões da região. Construiu uma catedral saxónica e Dorchester ganhou importância, tornando-se capital do Wessex, que viria a ser o reino dominante em Inglaterra. Entre disputas de bispos e reis, acabou por ser destruída a primitiva igreja saxónica para no seu lugar surgir uma grande igreja monacal agostiniana a partir de 1140 - a Abbey Church of St. Peter and St. Paul, ou simplesmente a Abadia de Dorchester ; durante o domínio normando multidões chegavam em peregrinação a Birino de Dorchester, venerado como santo. No séc. XV a abadia no seu auge voltaria a ser muito ampliada e enriquecida de vitrais, até que o edifício monástico foi encerrado em 1536 e a igreja passou para a paróquia.

Entremos.


A entrada faz-se por um alpendre vestibular lateral em pedra do séc. XV.


A nave e o grande janelão medieval. É a parte mais antiga, do séc. XII.


Quase todos os vitrais vêm do séc. XIV e XV, com alguns restauros posteriores. A rosácea do topo é muito mais recente (séc.XIX).

O forte pilar central foi um acrescento para evitar que a janela desmorone.

A Janela de Josué ('Jesse Wndow'), exemplar único do séc. XIV (c.1340), em forma de árvore com esculturas e pequenos vitrais que ilustram a narrativa bíblica.

Uma muito rara pia baptismal normanda, c. 1170, esculpida em chumbo.

Os apóstolos sob uma arcada dão a volta à pia. A base em pedra e a tampa de madeira são victorianas.


Uma das capelas laterais é a Lady's Chapel, com um mural sobre a Anunciação:

Pintura na Lady's Chapel, do pré-rafaelita tardio, W.T. Beane, 1894.


A Cloister Gallery

Uma galeria lateral que dava para o claustro foi reconstruída e adaptada a museu, num projecto bem integrado de arquitectura em carvalho e calcário rosa dos Cotswolds.


No interior

Medalha de bronze com cabeça de Medusa, museu da Abadia.
(data e uso desconhecidos, provavelmente séc.III-IV).

Fivela romana do séc. IV ou V, encontrada em 2010 (Museu Ashmolean de Oxford).

Ainda há pouco foi notícia o sarcófago romano (séc. II - III) em mármore branco que servia há anos como vaso de jardim em Dorchester:
Ao centro, Cupido conforta alguém que sofre, enquanto à esquerda e à direita deuses se refastelam em fartura montados sobre golfinhos e junto de palmeiras... assim até eu queria ser deus.

Mais sobre as excavações e os achados:
https://oxfordarchaeology.com/community-case-studies/217-discovering-dorchester-on-thames-project


A torre da Abadia também tem o seu relógio de sol do milénio !



Acabo em modo laico, com este único esquilo, e bem furtivo, num muro da ponte sobre o river Thame:




Esteve sol, foi um dia bem passado.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Oxford 2 - Pictures at the Ashmolean


Os dois grandes museus ingleses fora de Londres são o Fitzwilliam de Cambridge e o Ashmolean de Oxford.  Desta vez pensei que o visitaria demoradamente, mas tem tantas secções e galerias que dava para três dias; de modo que me fiquei pela pintura, e preferi ver e rever favoritos.


'Admission Free', excelente ! O lado mau é que o museu fecha cedo (16.30) e o estacionamento é um pavor - 5 libras para 2 horas, lá tive de pagar 10 £. Pelo menos fiquei próximo. Lá no alto, no terraço, tem um restaurante panorâmico luxuoso, subi, vi as vistas e desci à pintura europeia.

Ia desejoso, sobretudo, da cena de Caça na Floresta (Caccia Notturna) de Ucello. Não me lembrei de que está coberta de vidro, uma pena por causa dos reflexos. É uma obra fantástica, com um desenho invulgar, tão rica de detalhe e de cor como de estrutura formal - todos, homens e animais, convergem para um ponto de fuga ao centro da floresta. Esta obra é provavelmente a mais valiosa do museu.

"Caccia Notturna", 1470; as manchas azuis são résteas de luz crepuscular.

"O efeito geral é irreal e onírico, devido ao esquematismo dos figurantes, do colorido plano que faz ressaltar as silhuetas, das atitudes forçadas e repetidas que lembram uma sequência de bailado. É uma arte de mediação entre o renascimento e a tradição gótica".

Detalhes:

Nos panejamentos dos cavalos notam-se crescentes (cornos), símbolos de Diana, deusa da caça.

O centro da floresta é como um atractor caótico, um vórtice que suga as personagens de forma cada vez mais desenfreada. O animal a caçar - corça ou javali ? - não se vê, como se fosse o "buraco negro" desta cosmogonia.


Mesmo ao lado, o célebre Ghirlandaio, "Retrato de um Jovem" (c. 1480), que figurava nos manuais de História, penso.



Outra preciosidade florentina: "S. Nicolau de Bari acalmando a tempestade", de 1433-35, uma composição invulgar de Bicci di Lorenzo.


A dinâmica de linhas curvas num sentido e no outro:



Avançando nos séculos, deste Renoir pouco há a dizer; é uma obra menor, mas que beleza...

"Nos Jardins de Montmartre", 1895

O mesmo de Toulouse-Lautrec:
La Toilette, 1891

A beleza não está no detalhe, mas na composição toda.

De Pissarro, este lindo retrato pontilhista de Julie, sua mulher, transbordante de serenidade, conforto e intimismo; vale a pena clicar para ampliar :

"A senhora Pissarro a coser junto à janela", 1877-78

Adoro este Manet incompleto:

Corbeille de Poires,1880-82

Um grande quadro mitológico barroco de Claude Lorrain (Claude Gellée, le Lorrain):

"Ascanius Shooting the Stag of Sylvia", "Ascânio disparando sobre o cervo de Sílvia", uma cena da Eneida de Virgílio. Uma diagonal e uma horizontal que se cruzam no primeiro plano, conduzindo o olhar para a paisagem iluminada ao fundo.

Nesta sua derradeira obra, de 1682, Lorrain alonga a altura das figuras humanas.



Mas sem Turner não há museu inglês ! Ora cá está ele, e que Turner:

"A Ponte do Diabo, na passagem de St. Gothard", 1803-4:


Figurinhas minúsculas numa paisagem aterradora, uma pontezita frágil sobre as profundezas do desfiladeiro.

Bom, certo, mas não tem nenhum Michelangelo...
Mas sim! Mas tem!

Um desenho:
A Santa Familia com S. João Baptista, num estilo irreverente como é habitual em Michelangelo. Atribui-se ao esboço uma data estimativa de c. 1520.


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São magníficas as secções do Ashmolean de arte oriental e mesopotâmica, pois é. Não tenciono voltar, mas quem sabe ?




quarta-feira, 17 de maio de 2017

Oxford 1 - Relógios de Sol nos "quadrangles"


Como ainda agora regressei de Oxford e tenho pouco tempo, começo por um post fácil sobre a colecção de Sundials nos pátios relvados (quads, de 'quadrangles') dos vários Colégios.

Quads do Christ Church College.

Poucos sítios terão, como Oxford, percursos de descoberta de numerosos relógios de sol (*); a necessidade de medir a passagem do tempo diário não é certamente o principal motivo: há um culto do clássico, da Babilónia e Egipto, de Grécia e Roma, dos astros e da cosmologia medieval-renascentista, até ao séc. XVI.  Mas continuaram a ser usados, simultaneamente com os relógios mecânicos, até ao século XVIII, sobretudo para aferição e acerto da hora. A partir de então passaram a elemento decorativo de torres e jardins - ocupavam pessoas suficientemente educadas na matemática e na cosmologia celeste - meridianos, equinócios, equações, goniometria (ângulos, graus).

Também são, a par dos relógios de água, a única medição contínua do tempo (que supostamente flui continuamente): os relógios mecânicos, digitais, de areia, etc, procedem por saltam discretos. Penso que toda a gente sabe que os relógios de sol medem o tempo através da projecção da sombra de um mastro (gnómon) que se vai deslocando sobre um mostrador (dial, em inglês).

Os que vi em Oxford são todos do tipo vertical. Começo pelo do Christ Church College, onde a tradição avança o tempo de 5 minutos sobre o GMT, devido à diferença de 1º 15' (oeste) sobre o meridiano ! A diferença entre este tempo solar e a hora universal pode ir aos 15 minutos em Novembro...


Este relógio é da primeira metade do séc. XVIII. O quadrante, muito sóbrio, acerta a longitude para 1º 15' mais do que GMT.

Na parede voltada a sul.

O Brasenose College é menos prestigiado, mais vulgar na arquitectura, mas tem um dos mais antigos relógios de sol, de 1719. Fica mesmo ao lado da Bodleian Library, no centro histórico.

A parede não está exactamente virada a sul, mas a sudeste, portanto funciona melhor de manhã.

O Merton College é um dos mais bonitos, com vários jardins; a edificação principal data dos séc. XIII e XIV, um dos mais antigos portanto. Aqui estudou J. R. Tolkien.
No Fellow's Quad , encimando a frente norte, está este relógio, de feitura moderna - 1974. O quadrante dá também informação sobre as constelações do zodíaco:
O céu estava encoberto - suponho que é o normal, os sundials só funcionavam 'now and then' entre os pingos da chuva inglesa.

Uma breve aberta.

Um menos recente, inaugurado por Isabel II em 1953, é no belo e romântico St. Edmund's College Hall, talvez o meu favorito; substituiu o antigo que estava irreparável.
Na parede norte do Quad.


O Magdalen College é sem dúvida o mais belo dos colégios.  Na parede do recente Grove Auditorium, este relógio pintado sob MM (Mary Magdalen) marca também o segundo milénio MM - data em que foi construído.


Também de 2000 é o relógio solar do velhinho New College (séc. XV), mesmo no centro:


E termino com um dos mais antigos e espectaculares: o "Pelican Sundial" do Corpus Christi College (séc. XVI). Num quad feio, cimentado (sem jardim nem relvado), o relógio solar de 1581 circunda uma coluna encimada por um pelicano:

O pelicano a bicar o peito é um símbolo bíblico.(pelicano eucarístico).





Mais na The British Sundial Society (sundialsoc.org.uk)


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(*) Lisboa tem 11, pelo menos; hei-de os procurar.