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domingo, 25 de outubro de 2026

Música: CDs que ouvi este ano, em balanço


Em 2026 ouvi menos música, mas continuam a aparecer muito boas gravações, algumas de anos anteriores mas que só agora conheci. Aqui estão as que mais me entusiasmaram este ano.

Hourglass, Simone Dinnerstein e o agrupamento Baroklyn

3º andamento do Concerto do Tirol, para piano.

Que revelação ! Sublimes, estas obras de Philip Glass, e interpretadas como nunca - com sensibilidade, um conjunto de músicos de elite que nitidamente se apaixonaram pelo que tocavam, e a direcção mestra da pianista Simone Dinnerstein.

Começa pela suite musical "The Hours", composta por Glass para o filme de Stephen Daldry que aborda a vida e obra de Virginia Wolfe.


Para mim, é o disco do ano. Genial. 

Night, de Ola Gjeilo

É polémico de deveria figurar aqui, como música clássica. Há quem fale de 'nova' música clássica, mas é um disparate. Há música, há beleza sonora, um pouco de Phillip Glass, um pouco do fraquinho Einaudi e do mediano Wim Mertens.

Night é uma colecção de temas simples, fáceis, nocturnos. Musiquinha de embalar. Mas reconheço que Ola Gjeilo faz umas habilidades bem feitas, umas variações no final, que enriquecem bastante os 3 a 4 minutos de cada 'noite'.


Before Dawn

Gjeilo naceu na Noruega, estudou música na prestigiada Juliliard School de Nova Iorque e no Royal College of Music de Londres - lá pergaminhos, tem. Compõe sobretudo obras corais, que têm sido premiadas. Deixo 'Dreamweaver" ao vivo pelo coro de Vilnius:

Atenção ao 3º andamento, Bridge (aos 05:34)


Uma bela obra do século XXI (2023)

Bruckner, Sinfonia nº 7

Simon Rattle com a London Symphony Orchestra  (2023)

Eu nunca fui muito de Bruckner. Há um culto aficionado, sobretudo às interpretações de Celibidache e Furtwängler, diz-se que uma sinfonia de Bruckner é como escalar uma montanha, devagar. com muita pedra e tojo pelo caminho, sempre a sofrer até chegar lá acima - mas quando se chega é um êxtase. Tudo isto me parece uma treta de pedantes, que se aproveitam da impopularidade de Bruckner e se extasiam com as múltiplas versões, cada sinfonia foi alvo de mais que uma edição ! Comparar as edições Haas e Novak é um regalo para brucknerianos.

A audição é difícil, requer total dedicação (não serve de música de fundo), repete trinta vezes a mesma coisa, não há nada que se pareça com contraponto; apenas a massa orquestral com interminável 'legato' e a massa descomedida dos metais, trompas, trompetes, trombones e tubas - as reclamadas "catedrais de som". Até hoje, Gunter Wand parecia-me ter conseguido as interpretações mais focadas.

Mas enfim, a 7ª é das que têm mais novidade e tensão dramática, e Rattle é especialista. Usou uma edição ainda inédita em disco, e parece-me boa escolha. Não é Mahler nem Brahms, mas há nesta 7ª uma narração sinfónica criativa, rica de temas e variações, rica de contrastes, com momentos de dissonância mas também de bela suavidade, e até ums raríssimos diálogos contrapuntísticos.

O ponto forte é o Adagio. Bruckner conseguiu uma melodia notável, que desenvolve à maneira de Mahler, muitas vezes parece ter-se nele inspirado; mas compôs de facto à sua maneira uma bela peça de música, 21 minutos de Sehr feierlich und Langsam - muito solene e muito lento. O clássico Karajan demorava 23, Jochum 25... felizmente, Rattle soube encontrar o equilíbrio. Obra prima de Bruckner, que vai construindo sabiamente um crescendo e o faz explodir num clímax tremendo.

[N.B. Adagio aos 20:09]

Gosto menos dos dois últimos andamentos, espalhafato orquestral de energia descontrolada, volume excessivo nos metais; mas sou eu, não-bruckneriano.

Qualidade sonora quase impecável (a acústica da sala não é das melhores).

Aaron Copland, Sinfonia nº 3

LSO, dir. Antonio Pappano

Uma espantosa gravação da Sinfonia nº 3, onde Copland utiliza a sua famosíssima Fanfarra para o Homem Comum. Não há delicadeza nem introspecção aqui - é mesmo grandioso e épico, the american way. E a London Symphony Orchestra mais uma vez, tem estado em grande.

Deixo o 4º andamento, Molto deliberato


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Ah, também acabou de ser posto à venda o volume 20 de Haydn 2032, a colecção de sinfonias com a Orquestra de Basel dirigida por Giovanni Antonini. Normalmente dou aqui notícia com algum extracto, mas este volume tem três das mais fracas sinfonias Haydn, as nº 76, 77 e 78. Não recomendo.

domingo, 24 de maio de 2026

Novos CDs, sim! ainda se editam preciosidades.

Nos últimos meses poucas novidades tem havido de música clássica (ou não) em CD, mas estas que ouvi valem bem uma escuta atenta.

Imogen Cooper, Três Últimas Sonatas de Beethoven

Chandos, 2026

Imogen Cooper é uma grande pianista britânica, pouco conhecida em Portugal mas muitas vezes premiada na sua carreira. Gravou as 3 sublimes últimas sonatas de Beethoven com uma abordagem intensa e amadurecida, irrepreensível de execução.

Ouçam e julguem:

G. Antonini e o Giardino Armonico, Haydn 2032, vol 19 - "Trauer"

Alfa, 2026

Continua (Vol. 19) a produção de uma integral das Sinfonias de Haydn. Nem sempre o nível é o mais alto, mas é sempre de se ouvir.

Sinfonia 44 "Trauer" , III Adagio

René Jacobs + Orq. Câmara de Basileia   - Haydn, Missa Cellensis 

Alpha, 2025

Embora do final do ano passado, é outra surpreendente maravilha: a Missa Cellensis (Missa a Santa Cecília) de Haydn, gravada por René Jacobs e a insuperável Kammerochester Basel.  Supera a anterior recomendação, dirigida por Richard Hickox com o Collegium Musicum, de 2001.

Dona Nobis Pacem

Anna Prohaska + Ensemble Resonanz - Mozart

Harmonia Mundi, 2025

Mozart, sempre, agora com a soprano Anna Prohaska e o Ensemble Resonanz de Hamburgo dirrigido por Riccardo Minasi. Este disco 'Haffner-Akademie' é uma miscelânea: à sinfonia 35 Haffner (brilhante !) adiciona algumas árias de sucesso pela soprano, a mais  conseguida talvez sendo a obra-prima "Ch'io mi scordi di te".

Sugiro que ouçam o Allegro da sinfonia Haffner: é uma das melhores interpretações que já ouvi, cintilante, dinâmica, precisa, entusiástica.

Também do final de 2025 é esta gravação:

Joyce Didonato +  Pomo d'Oro, Dido e Eneias de Purcell

Erato, 2025

Já a tinha referido e recomendado num post anterior, mas justifica-se a insistência pois a audição repetida não me deixa dúvidas: é a gravação de referência actualmente. Didonato canta com intensidade nunca ouvida a parte de Dido, mas o côro também é excepcional:

To the hills and the vales


E ainda mais antigo, de 2023, refiro aqui uma notável gravação que só agora pude ouvir:

Isabelle Faust + Giardino Armonico - 'Il Virtuso, Il Poeta' : concertos de Locatelli

Harmonia Mundi, 2023

Concerto para violino Op. 3 No2 - Largo
(ao minuto 1:10 , um esfuziante solo de violino com Isabelle Faust a mostrar a sua arte.)



Boa música, sempre ! E mais ainda nos tempos que correm.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Portentoso ! As Portas de Kiev escancaradas !


Falo da recente gravação de Quadros de uma Exposição, de Musssorgsky, com Jon van Immerseel à frente da orquestra Anima Eterna de Bruges, segundo o arranjo orquestral de Ravel (1922).

Convém lembrar que von Immerseel, herói da interpretação autêntica (histórica) da música pré-romântica para muitos melómanos, era um radical da contenção e do detalhe, dos instrumentos antigos muitas vezes pífios, constantemente em audição no programa "Em Órbita" (o saudoso Em Órbita !) da Antena 2 aqui há poucos anos. Quase nunca gostava das gravações da Anima Eterna, exceptuando as sinfonias de Schubert, que já anunciavam isto que agora explodiu: os Quadros de uma Exposição mais espantosos de sempre !


Não é das minhas obras favoritas, na verdade; e costumo até apreciar melhor a versão original no piano. Vladimir Ashkenazy tem uma interpretação soberba. Mas reconheço que esta audição é entusiástica e reveladora, não se pode ficar indiferente sentado no sofá - há que saltar e gesticular.

 A dinâmica da orquestra é fenomenal, mas não menos fenomenal é a célebre atenção ao detalhe do mestre holandês, a doçura do fraseado nas cordas, a enfática delicadeza nas madeiras.

Grande Porta Bogatyr de Kiev.

Immerseel aplica a esta obra de 1884/1886 os mesmos princípios agógicos que se aplicariam a interpretar Haydn ou Mozart - a eliminação do legato em favor da frase seca em arco, o destaque da melodia do contraponto (normalmente abafada) em relação à linha principal, os metais com um grãozinho de acidez, a percussão muito afiada e enfatizada. O efeito é de uma surpresa total, a transformação do standard clássico numa irreverência divertida e contagiante. De histórico é que não tem nada, pelo contrário - é um completo anacronismo ao contrário : tocar uma obra moderna ao estilo antigo. Tanto mais que se recorre a um arranjo póstumo de 1922...

Mas onde é que a pequena, delicada, quase insípida, Anima Eterna, foi buscar este vigor portentoso ?

Um breve "cheirinho":