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domingo, 24 de maio de 2026

Novos CDs, sim! ainda se editam preciosidades.

Nos últimos meses poucas novidades tem havido de música clássica (ou não) em CD, mas estas que ouvi valem bem uma escuta atenta.

Imogen Cooper, Três Últimas Sonatas de Beethoven

Chandos, 2026

Imogen Cooper é uma grande pianista britânica, pouco conhecida em Portugal mas muitas vezes premiada na sua carreira. Gravou as 3 sublimes últimas sonatas de Beethoven com uma abordagem intensa e amadurecida, irrepreensível de execução.

Ouçam e julguem:

G. Antonini e o Giardino Armonico, Haydn 2032, vol 19 - "Trauer"

Alfa, 2026

Continua (Vol. 19) a produção de uma integral das Sinfonias de Haydn. Nem sempre o nível é o mais alto, mas é sempre de se ouvir.

Sinfonia 44 "Trauer" , III Adagio

René Jacobs + Orq. Câmara de Basileia   - Haydn, Missa Cellensis 

Alpha, 2025

Embora do final do ano passado, é outra surpreendente maravilha: a Missa Cellensis (Missa a Santa Cecília) de Haydn, gravada por René Jacobs e a insuperável Kammerochester Basel.  Supera a anterior recomendação, dirigida por Richard Hickox com o Collegium Musicum, de 2001.

Dona Nobis Pacem

Anna ProhaskaEnsemble Resonanz - Mozart

Harmonia Mundi, 2025

Mozart, sempre, agora com a soprano Anna Prohaska e o Ensemble Resonanz de Hamburgo dirrigido por Riccardo Minasi. Este disco 'Haffner-Akademie' é uma miscelânea: à sinfonia 35 Haffner (brilhante !) adiciona algumas árias de sucesso pela soprano, a mais  conseguida talvez sendo a obra-prima "Ch'io mi scordi di te".

Sugiro que ouçam o Allegro da sinfonia Haffner: é uma das melhores interpretações que já ouvi, cintilante, dinâmica, precisa, entusiástica.

Também do final de 2025 é esta gravação:

Joyce DidonatoPomo d'Oro, Dido e Eneias de Purcell

Erato, 2025

Já a tinha referido e recomendado num post anterior, mas justifica-se a insistência pois a audição repetida não me deixa dúvidas: é a gravação de referência actualmente. Didonato canta com intensidade nunca ouvida a parte de Dido, mas o côro também é excepcional:

To the hills and the vales


E ainda mais antigo, de 2023, refiro aqui uma notável gravação que só agora pude ouvir:

Isabelle Faust + Giardino Armonico - 'Il Virtuso, Il Poeta' : concertos de Locatelli

Harmonia Mundi, 2023

Concerto para violino Op. 3 No2 - Largo
(ao minuto 1:10 , um esfuziante solo de violino com Isabelle Faust a mostrar a sua arte.)



Boa música, sempre ! E mais ainda nos tempos que correm.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Portentoso ! As Portas de Kiev escancaradas !


Falo da recente gravação de Quadros de uma Exposição, de Musssorgsky, com Jon van Immerseel à frente da orquestra Anima Eterna de Bruges, segundo o arranjo orquestral de Ravel (1922).

Convém lembrar que von Immerseel, herói da interpretação autêntica (histórica) da música pré-romântica para muitos melómanos, era um radical da contenção e do detalhe, dos instrumentos antigos muitas vezes pífios, constantemente em audição no programa "Em Órbita" (o saudoso Em Órbita !) da Antena 2 aqui há poucos anos. Quase nunca gostava das gravações da Anima Eterna, exceptuando as sinfonias de Schubert, que já anunciavam isto que agora explodiu: os Quadros de uma Exposição mais espantosos de sempre !


Não é das minhas obras favoritas, na verdade; e costumo até apreciar melhor a versão original no piano. Vladimir Ashkenazy tem uma interpretação soberba. Mas reconheço que esta audição é entusiástica e reveladora, não se pode ficar indiferente sentado no sofá - há que saltar e gesticular.

 A dinâmica da orquestra é fenomenal, mas não menos fenomenal é a célebre atenção ao detalhe do mestre holandês, a doçura do fraseado nas cordas, a enfática delicadeza nas madeiras.

Grande Porta Bogatyr de Kiev.

Immerseel aplica a esta obra de 1884/1886 os mesmos princípios agógicos que se aplicariam a interpretar Haydn ou Mozart - a eliminação do legato em favor da frase seca em arco, o destaque da melodia do contraponto (normalmente abafada) em relação à linha principal, os metais com um grãozinho de acidez, a percussão muito afiada e enfatizada. O efeito é de uma surpresa total, a transformação do standard clássico numa irreverência divertida e contagiante. De histórico é que não tem nada, pelo contrário - é um completo anacronismo ao contrário : tocar uma obra moderna ao estilo antigo. Tanto mais que se recorre a um arranjo póstumo de 1922...

Mas onde é que a pequena, delicada, quase insípida, Anima Eterna, foi buscar este vigor portentoso ?

Um breve "cheirinho":