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terça-feira, 3 de junho de 2025

À Chloris, por Léa Desandre e Thomas Dunford

As canções de Reynaldo Hahn marcaram os anos de paz entre duas guerras conhecidos por Belle Époque - entre a guerra Franco-Prussa e a 1ª Grande Guerra. Foi uma época de bem-estar e esperança no futuro, de renascimento cultural e de confiança na humanidade; pensava-se até na utopia dos Estados Unidos da Europa.

Reynaldo Hahn ganhou prestigio como compositor de canções 'populares' mas 'cultas', que o público feminino adorava. Musicava sobre poemas simbolistas - Verlaine, Daudet, Victor Hugo ...

Este À Chloris faz parte do programa a apresentar pela Soprano Léa Désandre e o alaúdista Thomas Dunford no FIME de Espinho a 28 de Junho.

 


Outra canção francesa belíssima, esta de Barbara:

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Em Espinho, com canções de John Dowland na Academia


Estive no Festival de Música de Espinho, para ouvir canções de Dowland pelo alaúdista Edin Karamazov e a voz do alto Andreas Scholl. Já lá vamos, primeiro um pouco de turismo.

A cidade de Espinho nasceu pobre, um bairro de pescadores em modo de subsistência, sem qualquer ambição a cidade próspera. Mas o tempo lá se encarregou de levar burguesia a banhos desde o século XIX (o combóio chegara em 1867)  e mais tarde também ao jogo no Casino, e com ela algum requinte onde só havia sardinha na brasa, ou cavala.

Aos poucos algumas casitas com mais gosto e decoração iam surgindo ao acaso, sem plano nem sequência; o revestimento a azulejo e algum trabalho de alvenaria, ou ferro forjado na porta ou na varanda, faziam a diferença. Por exemplo, a rua 16 tem alguns exemplares:


E a vizinha rua 14 também:



A parte mais central de Espinho é uma rede de ruas em quadrícula perfeita onde cada uma é identificada não por um nome mas por um número. Da rua 1 à 66 pelo menos a numeração é a única forma de indicar o endereço; ruas pares paralelas à orla marítima, rua ímpares perpendiculares, de norte para sul. A rua 2 é a via panorâmica frente ao mar. onde se sucedem restaurantes. Da rua 3 em diante, misturam comércio, serviços e residências. A Rua e a Avenida 8 foram a via principal da cidade entre a zona balnear, a via férrea e a cidade, a rua 19 é arborizada, pedonal e comercial, a sua paralela rua 23, de passeios largos, onde fica o mercado e as melhores lojas, é agora a mais importante.

A rua 19 quase só tem lojas, mas há uma ou outra casita com estilo:

Rua ' europeia', arborizada, mobilada.

A maior preciosidade é a Livraria Bertrand, uma das mais bonitas casas Bertrand do país.
Nem no Porto há uma Bertrand assim.


A rua 23 na esquina do Mercado é outro sítio central.

A esquina da  rua 10 com a rua 29 tem sido bem tratada, com revalorização de algumas casas.

Esquina das ruas 10 e 19


Sabe bem passear 'às compras' nesta cidade tranquila, plana e amigável para peões.
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No dia 22, aconteceu no Auditório o concerto de Andreas Scholl com Edin Karamazov em alaúde. 

Foto: Público

Dowland foi o mais convocado, estavam programadas as suas mais belas canções - como Come again e Time stands still, que Scholl cantou com expressiva sensibilidade, tomando algumas liberdades nesse sentido, e acompanhado criativamente (com algum improviso)  pelo alaúde. Muito bom, até mesmo com fífias nas cordas e pigarro na voz uma ou outra vez, coisas que acontecem a quem arrisca; mestria e autenticidade. Mas além de Dowland houve outros bons momentos.

Scholl, Have you seen the bright lily grow, de Robert Johnson (1583 ?-1633)

Scholl, Karamazov - Down by the sally gardens, poema de Yeats

Scholl e Karamazov em canções de John Dowland:


Umas mini-férias como ainda podemos fazer.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

To see, to hear, to touch, to kiss, to die. [John Dowland, há 425 anos]


"Come again ! Sweet love doth now invite" é uma canção de John Dowland para voz e alaúde, de 1597.  Tem portanto 425 anos; mas foi e ainda é um 'greatest hit', um sucesso tremendo com centenas de gravações e versões - piano em vez de alaúde, a capella, côro acompanhado, vozes tão díspares como soprano, tenor, alto, ou simplesmente Sting ou Maddy Prior, versões pop/folk !  Veio aqui à baila porque a sublime Joyce Didonato a cantou em Lisboa, na Gulbenkian, no passado dia 9, conforme relata o Fanáticos da Ópera; e lastimo amargamente não ter estado lá para ouvir. 

No youtube e congéneres consegue-se ouvir sopranos barrocas de bonita voz como Barbara Bonney ou Emma Kirkby, vozes mais poderosas como Danielle de Niese, e mesmo Maddy Prior, esforçada intérprete do folclore britânico. Fico à espera de uma gravação da Joyce... to sit, to sigh, to weep, to faint, to die.

Come again !
Sweet love doth now invite
Thy graces that refrain
To do me due delight,
To see, to hear, to touch, to kiss, to die,
With thee again in sweetest sympathy.

Come again !

That I may cease to mourn
Through thy unkind disdain;
For now left and forlorn
I sit, I sigh, I weep, I faint, I die
In deadly pain and endless misery.

...

Gentle Love,
draw forth thy wounding dart,
Thou canst not pierce her heart;
For I, that do approve
By sighs and tears more hot than are thy shafts
Do tempt while she for triumphs laughs.


Apetece-me dizer: bons tempos esses, em que os lamentos do poeta, que suspira, chora, desmaia e morre, se devem ao amor e não às desgraças todas que assolam o mundo; não se afligia portanto com atentados, racismo, xenofobia e outras fobias, violência de género, catástrofes climáticas, vagas migratórias, desastres ambientais, genocídios e ditaduras. Havia guerras, sim, faziam parte da rotina quotidiana, amor e guerra.

As pessoas eram tão 'felizes' (!?) que os poetas só choravam a indiferença da pessoa amada. Outros tempos, sim, há 425 anos.

- Versão integral:
Grace Davidson, soprano e David Miller, alaúde

Emma Kirkby (soprano) e Joel Frederiksen (baixo e alaúde). 

- Versão abreviada:
Maddy Prior, folk singer, com John Banks em harpa

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[vi agora - atenção ! - que o Mezzo está a transmitir o concerto de Didonato com o Pomo d´Oro em Bayreuth, onde canta não só Come Again de Dowland como o fabuloso, belíssimo, sublime "As with rosy steps the morn", de Handel]

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

"M'appari" da ópera 'Martha'


Uma breve ária romântica daquelas em que os tenores puxam pelo aplauso.
Do compositor alemão Friedrich von Flotow e das suas muitas óperas - basicamete pastiches melodramático/cómicos franceses do tipo Offenbach - só não foi esquecida esta ária popular da ópera Martha, raramente interpretada.

A acção passa-se em Richmond, Inglaterra, no ano de 1710. Duas jovens aristocratas aborrecidos da vida decidem procurar animação numa feira rural, disfarçadas de criadas, Marta e Julia. Mas Lyonel, um camponês, deslumbra-se com Marta e contrata-a para o seu serviço; Martha será mesmo obrigada, legalmente, a servi-lo como criada por um ano. Entretanto Lyonel perde-se de amores pela servente, ela escapa-se de noite pela janela, e é no seu desespero que Lyonel canta a ária 'M'appari'. Texto xaroposo, mas vale a pena ouvir.

Para além dos óbvios del Monaco, Lanza, Caruso, Pavarotti, Domingos, Alagna, escolho esta interpretação de Vittorio Grigolo:

          M'appari tutto amor
          Il mio sguardo l'incontrò
          Bella si che il mio cor
          Ansioso a lei volò
          Mi ferì, mi invaghì
          Quell'angelica beltà
          Sculta in cor dall'amor
          Cancellarsi non potrà
          Il pensier di poter
          Palpitar con lei d'amor
          Può sopir il martir
          Che m'affanna
          E strazia il cor
          E strazia il cor
          M'appari tutto amor
          Il mio sguardo l'incontrò
          Bella si che il mio cor
          Ansioso a lei volo.

          Marta, Marta, tu sparisti
          E il mio corcol tuo n'ando!
          Tu la pace mi rapisti,
          Di dolor io moriro.
          
Ao vivo, Marcelo Alvarez, entre os melhores:

A ópera Martha tem um happy end meloso do tipo casaram e foram muito felizes, que deve ter ajudado ao grande sucesso popular na época, e a que rapidamente tenha sido esquecida. Nem a abertura de fanfarra se salva.

À maneira antiga, lembremos o mítico Beniamino Gigli, em 1959, ainda havia público para Martha:


Tu la pace mi rapisti !
Bra'vo!

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Fui à beira do mar, ver o que lá havia...





Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia:

Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria
... 

Uma das canções mais bonitas e evocativas de José Afonso.
Se ainda há muito para andar, a noite, contudo, está mais morna ou mais abafada do que fria, e nem por isso a alegria regressa. Antes pelo contrário. Os melhores tempos passaram, e já não há cantadores alegres.