quarta-feira, 30 de junho de 2021

Solstício de Verão das janelas de minha casa


Para morador urbano, não estou muito mal servido de janelas, é verdade. Note-se que as fotos foram tiradas com o vidro fechado.

Choupos à frente...

Amoreiras, um salgueiro chorão e pinheiros atrás, o mar ao fundo...

Varandita a poente...

E o solstício a jorrar ao fim da tarde da minha janela sobre o mundo, e sobre a música...

He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.
A veces como una moneda
se encendía un pedazo de sol entre mis manos.
                                                                              Pablo Neruda

Preferia as Shetland ou a Toscana? Sem dúvida. Mas devo contentar-me com a sorte que tenho, e que devo tanto...



sábado, 26 de junho de 2021

Não podia haver melhor lugar, escreve Anja Mazuhn


Sigo um blog chamado My Faroe Islands, de Anja Mazuhn, jornalista e escritora alemã; Anja escreve pequenos textos, como num diário, sobre a sua vida na ilha de Eysturoy. Reproduzo o mais recente, de 24 de Junho, a celebrar a chegada do Verão.

Anja vive em Elduvik, de que já aqui falei.

Um novo dia. Para falar verdade, o anterior nem tinha sequer terminado. A luz manteve-se toda a noite, compondo uma larga banda de vermelho leitoso no horizonte. Estendida na cama, fui ouvindo o som das aves marinhas até adormecer. Fazer o café da manhã, as galinhas à solta no quintal do vizinho, um carro que chega, dois turistas passeiam na aldeia, enquanto saboreio o café à janela da nossa cozinha. A previsão anuncia para amanhã um dia de sol, a brilhar até às dez da noite. A luz já está a mudar quando me sento na sala a escrever ; as cores todas a ganhar vida, o verde dos montes e da relva sobre os telhados, o azul do mar, as casas pintadas de vermelho, verde e amarelo, os campos a refulgir e  botões-de-ouro aos milhões. Dentro em pouco irei eu dar uma voltinha pela aldeia. O meu camisolão castanho das Faroé, o meu gorro de lã e as galochas estão à espera. Não podia haver um lugar melhor.


Não deve haver também melhor maneira de saudar o solstício. 



quarta-feira, 23 de junho de 2021

Passagem do primeiro ano do século em Graz, com o Euro a chegar

Memória de uma escapada europeia

Passei de 2001 para 2002 em Graz - inseguro, com o Euro a estrear, iria conseguir obter dinheiro quando precisasse ? Felizmente esse 'vírus' foi um flop e a moeda um sucesso.

O frio era de rachar, certamente abaixo de zero, e anoiteceu muito cedo. Quando saímos à rua, foi directo para a Herrengasse, a 'granvia' de Graz - que seria o nosso picadeiro ao longo da estadia. É uma rua larga e direita, não muito longa, percorrida por eléctricos nos dois sentidos, que como é de regra em país civilizado convivem sem desnível com os peões, o que torna a rua muito cómoda. 



No edifício mais notável, a renascentista Landhaus (séc. XVI) que é sede do parlamento da Styria, estava exposto o tradicional (e famoso) Eiskrippe, o presépio esculpido em gelo por Gert Hödl e que todos os anos aqui fica até derreter.


Como já lá estava há semanas (desde antes do Natal), dava sinal de alguma perda de formas; mas durante o tempo que estivemos em Graz ainda derreteu bastante.

Nos dias seguintes o tempo foi melhorando um pouco, e ao meio dia havia já mais luz.

Estamos em frente da Landshaus, a meio da rua. É um palácio de estilo italiano, desenhado pelo lombardo Domenico dell'Allio.


Varandas mediterrânicas sobre o portal principal.


O Pátio interior, um entre muitos em Graz.

É notável o poço com gazibo de bronze, de 1590, com 4 sátiros e 4 ninfas, encimado por um cavaleiro.

O pátio das Arcadas à noite.

Mais adiante, já na parte final, há este edifício profusamente decorado, a Herzoghof. A construção é de 1450 mas a primeira pintura foi só em 1600.


Já nada resta dos frescos originais, os actuais foram executados no séc XX.


A Herrengasse termina na praça cívica Hauptplatz, com a Câmara e um friso de bonitas casas com pinturas murais nas fachadas.



Luegg é a casa medieval da esquerda, que faz esquina com a Sporgasse; foi coberta de estuques barrocos no séc. XVII.


No meio da praça foi construída em 1878 uma fonte para celebrar o arquiduque Johann. 

A Hauptplatz é o centro cívico de Graz, com grande movimento de transportes urbanos.

O conjunto arquitectónico das casas barrocas e renascentistas, a fonte e a Torre do Relógio que se vê lá em cima levou à classificação de Graz como património mundial. A Sporgasse, a Hofgasse e a Burggasse são os principais arruamentos da Altstad, a cidade antiga; tive alguma desilusão com este quarteirão, de facto não tem a riqueza e valor histórico de outros centros antigos que vi pela Europa.

Subindo a Sporgasse encontramos a Höfbackerei, que parece ser um dos grandes chamarizes de Graz pela montra de madeira trabalhada. 


Desde 1569, agora já não padaria mas sim confeitaria.



Nestes passeio concluí ainda que Graz não tem nenhuma igreja digna de ser mencionada. Tirando a tardogogótica Franziskaner (séc XVII), são todas pesadamente barrocas, disformes.  Não sei se isto abona contra ou a até a favor da cidade, mas aplico o peremptório aforismo: todas as igrejas de Graz são feias

Voltando ao centro: da praça Hauptplatz em direcção à ponte sobre o rio Mur, segue um arruamento curvo e estreito mas muito comercial, com uma luminosidade particular - a Murgasse. Apesar do frio há ciclistas, como havia sempre e por toda a parte; a desilusão foi o café, que eu esperava aberto, o Schwalbennest:

Fechado até dia 2.

Havia que subir ao monte onde está a Torre do Relógio, o Schlossberg. Ao terceiro dia, tinha nevado de noite, depois um sol tímido apareceu; já era demasiado tarde quando fomos pela Sackstrasse até à Schlossberg Platz. Na passagem, o Mausoléu de Fernando II, antiga capela da Igreja de Sta Catarina. Neoclássico pesadão, interior feioso.


Seguimos para apanhar o elevador, que corre sobre carris puxado a cabo; era suposto dar belas vistas sobre a cidade, mas pousara uma  neblina húmida que não deixava ver quase nada. Ora então eis o mais famoso postal de Graz, a Uhrturm.



A partir do terraço há um caminho panorâmico no parque, que estava muito nevado ainda, talvez por ser virado a Norte.


Ao fim de poucos metros tive de desistir, com dores nos ossos todos !

Foi na cidade velha que fizemos o jantar de S. Silvestre, numa casa simpática e numa sala com tecto em abóbada em túnel, o Krebsenkeller


Foi bom. Depois saímos para a noite de festa, íamos a contar com ambiente tranquilo e pouca gente na ponte Radetzky que nos fora aconselhada; mas à medida que nos aproximávamos demos conta de que bom ambiente é que não íamos ter. A cidade tinha sido invadida pelos vizinhos húngaros e eslovenos, uma turba ruidosa, embriagada e abrutalhada; já nem se podia entrar na ponte com tantos cacos de garrafa e latas pelo chão. Com muito cuidado, empurrados e ensurdecidos, fomos furando até um intervalito na grade da ponte onde nos agarramos. 


À meia noite foi uma chaladice; meia dúzia de fogachos lá no alto da Torre, tudo a gritar e beber cá em baixo. Viemos embora assustados, sem esquecer de parar no multibanco a ver se funcionava. E sim ! Consegui os meus primeiros Euros ! Ena.

Vista a partir da ponte Radetsky.

No 1º dia de 2002 fomos no autocarro 250 até St. Radegund, ver a neve no alto das antenas em Schöckl (1400 m). Ao fim de meia hora, através de nevoeiros e ventos, chegamos ao topo. A ventania era de mais, multiplicava a temperatura gélida por dez. Só deu para um curto passeio antes de corrermos para o mesmo autocarro, que ia descer.


Apesar da luz mortiça e do frio, valeu a pena, havia uma estranha beleza no panorama desolado; as fotos, infelizmente. não mostram os cambiantes de luz.

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Nesse dia 1, ao fim da tarde, fomos à Ópera de Graz assistir ao Neujahrskonzert.


Phillipe Jordan dirigiu Haydn, V. Williams, Elgar, Strauss. Foi assim-assim, o que se espera de um concerto de ano, mas ... tristonho. Valeu mais ver a casa.

Graz não é Viena, claro, nem sequer cafés de jeito tem; mas soube bem estar uns dias no topo do mundo civilizado - e contudo (tirando o Silvester na ponte) num ambiente pacato com uma escala urbana confortável, que não esmaga.


domingo, 20 de junho de 2021

Viviane Hagner e Arvo Volmer trouxeram o melhor de Sibelius à Casa da Música


Para Arvo Volmer é um regresso: já em 2018 tinha estado na CdM com a 5ª de Sibelius, como dei conta num post aqui. Disse na altura que tinha sido o melhor concerto do ano na Casa; desta vez vai pelo mesmo caminho, até agora não houve nada a este nível. Volmer é especialista em Sibelius e Tuni, um compositor estoniano que está a procurar promover.

Também Viviane Hagner voltou à Casa, agora com o empolgante concerto para violino de Sibelius. A violinista ficou conhecida pelas gravações de conceros de Vieuxtemps, que são virtuosísticos quanto baste. 

Tanto quanto apurei, dedica mais tempo ao ensino que a concertos, mas na CdM exibiu à fartura as qualidades técnicas - não se poupou em passagens difíceis e foi sempre intensamente emotiva em pianíssimos ou em mudanças de ritmo ou de tensão. O 2º andamento foi um momento comovente de expressivo lirismo, muitíssimo bonito.

Nunca tinha ouvido este concerto tão bem interpretado, só por isso valeu a pena. Perante a aclamação da assistência, Viviane tocou como encore uma obra de ... Tárrega! Transcrita de guitarra para violino, claro. Bem difícil.

Depois veio a 5ª de Sibelius, uma obra genial, uma de duas ou três entre as 8 que Sibelius escreveu. Nunca me canso de a ouvir, de tal modo a orquestração é rica e variada, usando todos os naipes e secções, alternando ritmos - é também bastante visual se atentarmos à espacialidade orquestral no seu todo. Volmer deve tê-la dirigido em palco já centenas de vezes, fez com que a Orquestra da CdM se elevasse ao seu melhor, muito bem coordenada e quase deslumbrante; apenas me pareceu que poderia ter sido um pouco mais incisivo, dinâmico, aqui e ali, havendo momentos em que a música soava como estando em piloto automático (sem prejuízo da execução técnica).

18 de Junho
Arvo Volmer direcção
Viviane Hagner violin
Sibelius
- Concerto para violino e orquestra
- Sinfonia n.º 5

Não terminar sem música ! Sarah Chang no Adagio do Concerto.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Galerias envidraçadas galegas: Castro Caldelas em 2011


Castro Caldelas está situada numa colina que domina as margens do río Edo, e é encimada pelo castelo dos Condes de Lemos.

Esta vila galega, aqui bem perto, foi para mim uma das mais gratificantes surpresas nas nossas viagens pelo sul da Galiza. O conjunto histórico do castelo, das casas do centro e da praça arborizada constitui uma bonita miniatura, faz um dos cenários mais  pitorescos de aldeia do norte da Península. É o tipo de passeio que vale a pena agora que viagens maiores estão complicadas.


Em Castro Caldelas não há um valor patrimonial admirável, não há riqueza arquitectónica nem arte maior; vale pelo todo, por ser um espaço de harmonia onde apetece ficar, e pelo conjunto de galerias envidraçadas em madeira branca, tavez o mais bonito depois da famosa frente da Corunha. Estivemos lá na Páscoa de 2011, ficou vontade de lá voltar.

Praza do Prado, o centro cívico.





As galerías brancas brilham esplendorosamente entre o casario medieval de pedra. 

Rua do Sol

Casas nobres.

O núcleo antigo de Castro Caldelas foi declarado conjunto histórico artístico em 1998; abarca sobretudo as ruas que a partir da Praza do  Prado dão acesso ao Castelo e à Praza da Torre, no alto - a "Cima de Vila".

A Rua Grande começa com uma casa brasonada que agora é alojamento hoteleiro.


O Castelo foi construído por ordem do 7º Conde de Lemos, no século XIV. É uma fortaleza medieval que se manteve em bom estado, destacando-se a dupla muralha com torreões de vigilância, a Torre de Menagem, a Torre do Relógio, e o Pátio de Armas. 


Em 1560 foi renovado no espírito renascentista, convertendo-se numa fortaleza apalaçada. A Casa de Lemos viria a integrar-se na Casa de Alba a partir do séc. XVIII.


A galeria em madeira que contorna a Torre de Menagem dá acesso a exposições e a um pequeno museu etnográfico medieval (teares, peças de cerâmica, etc).




Vista para a Praça, com o Rubio Café.

A escolha do local torna-se evidente num passeio pela muralha: a imensidão de paisagem abarcada desde as montanhas de Ourense aos barrancos do rio Sil, a meseta de Lugo e os bosques em redor.


A Torre do Relógio, que ainda usa a maquinaria original.


Á saída, a Praza da Torre, com casa senhorial; era por aqui, na Cima de Vila, que se fazia o mercado medieval.


Uma casa brasonada renascentista domina a Praça da Torre, no Cimo de Vila


Cá em baixo de novo; este Hotel fica à entrada das Rua Grande e do Sol.


Nem falta também uma minúscula livraria, Librería Nós, ao lado do Hotel:


Castro Caldelas está 50 km a leste de Ourense e 120 km a norte de Chaves; tem 1200 habitantes (como Almeida, Portugal).