Foi no blog The Silvertree Caféque li, ou reli talvez, não me recordo, este poema de Thomas Stearns Eliot, escrito, segundo ele próprio, depois da missa e de meia garrafa de gin. É inesperada a perspectiva da Natividade vista por um dos Reis Magos (que seriam reis/sacerdotes persas zoroastrianos), e perturbador ou mesmo subversivo o que ele tem para nos dizer.
A Jornada dos Reis Magos
Uma vaga de frio, que sorte a nossa, foi só a pior época do ano para uma viagem, e uma viagem tão longa: Os trilhos profundos e o clima agreste, no pino do inverno. E os camelos irritados, com os pés doridos, refractários, deitados sobre neve a derreter. Houve momentos em que chorámos os palácios de Verão em socalcos, os terraços, e as meninas de seda trazendo sorvete. Depois, os homens dos camelos que praguejam e resmungam e fogem, e querem álcool e mulheres, e o fogo nocturno que se apaga, e a falta de abrigos, e as cidades hostis e as vilas inóspitas e as aldeias sujas que cobram preços altos: Passámos momentos difíceis. Acabámos por preferir viajar toda a noite, dormindo de quando em quando, com vozes nos ouvidos a dizer que tudo isto é uma loucura.
Depois, de madrugada, descemos para um vale temperado, húmido, abaixo da cota da neve, um cheirinho a vegetação; Com um riacho a correr e um moínho de água vencendo a escuridão, e três árvores que se recortam no céu baixo, e um velho cavalo branco a galopar pelo prado. Depois passámos numa taberna com folhas de videira no lintel, seis mãos jogando aos dados por moedas de prata, e pés golpeando os odres vazios, mas não havia nenhuma informação, e então continuámos e chegámos ao anoitecer, por pouco já era tarde quando encontrámos o lugar; foi (por assim dizer) satisfatório.
Tudo isso foi há muito tempo, recordo, e eu voltaria a fazer o mesmo, mas que fique registado isto fique registado isto: o que nos guiou na caminhada foi Nascimento ou Morte? Houve um Nascimento, certamente, Ttvémos provas e nenhuma dúvida. Eu tinha visto nascimento e morte, mas pensava que eram diferentes; este Nascimento foi uma severa e amarga agonia para nós, como a Morte, a nossa morte. Voltámos às nossas terras, a estes Reinos, mas já não estamos à vontade, na antiga indulgência, entre um povo estranho agarrado aos seus deuses. Devia sentir-me feliz por outra morte.
T.S.Eliot, 1927
A narrativa dos Reis Magos encontra-se no Evangelho de S. Mateus; Eliot foi lá buscar muitas ideias e mesmo citações, como a dos "odres vazios" da taberna onde não há informação, leia-se, o mundo secular pagão sem regras, da magia e astrologia, onde o divino está ausente. Jorram metáforas, verso após verso - "jogando aos dados por moedas de prata", alusão à traição de Judas...
A primeira edição, na Faber and Gwyer
Eliot debatia-se com problemas teológicos, tendo aderido à igreja cristã anglicana. Disse que o poema pergunta “Até que ponto foi a Verdade revelada aos que foram inspirados a reconhecer Nosso Senhor tão depressa após a Natividade ?” Dúvida essencial: fomos todos ludibriados com 'fake news' que os Evangelhos propagaram ? O poema exprime abundantemente as dificuldades e contrariedades do percurso, não há nenhum guia seguro nem caminho sem perigos nem transporte fiável, é uma tragédia contínua, e afinal em demanda do Nascimento ou da Morte?
Mais importante: o nascimento de um mundo novo é o fim do mundo velho, nascimento e morte interligados. E tragicamente trata-se da NOSSA morte afinal.
Não existe outra tradução decente, as que há são brasileiras e muito más, de tradutores atabalhoados que desvirtuam tudo. Mas tive dúvidas também e ainda não compreendi bem o verso final. Se calhar traduzi-o mal - 'another death ' será 'outra' ou 'uma outra' , ou seja, no sentido de 'mais uma' ou de 'uma diferente' ?
Sugestões de livros para prenda, devidamente traduzidos em bom português.
1. Histórias Bizarras, de Olga Tokarczuk
Da Prémio Nobel polaca, depois do famoso 'Viagens' (Bieguni ), foi agora -bem - traduzido um grande volume de contos onde há sempre algo estranho, contos póximos do realismo fantástico.
2. O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury
De 1951, são 18 contos de ficção científica. Neles se encontram muitos dos temas actuais - racismo, viagens a Marte, fim do mundo, queima de livros ... Num dos contos, os autores falecidos de livros queimados têm uma segunda 'vida' espiritual em Marte. Só se todos os seus livros forem queimados é que um autor desaparece para sempre.
3. Lições, de Ian MacEwan
Completamente amoral história de vida, percorrendo os mais importantes acontecimentos desde a crise dos mísseis em Cuba, Thatcher, a queda do Muro, a SIDA, o 11 de Setembro e o Iraque, o Brexit ... o retrato que faz é um pouco o de nós todos nesta época insana.
4. Herbarium, de Emily Dickinson
Edição bilingue, com os poemas acompanhados de bonitas ilustrações do herbário de Dickinson.
5, A Matemática e a sua História, de John Stillwell
Uma explicação acessível, tanto quanto pode ser, dos vários ramos da Matemática e da sua evolução: Geometria e Números na Grécia, o Infinito, Equações, Geometria Analítica, Cálculo, Séries, Teoria dos Números, a Mecânica, Números Complexos, Geometrias não Euclidianas, Teoria dos Grupos, Topologia, Lógica, Combinatória. Em vez de ficção científica, o romance da verdadeira ciência.
E, prenda mais requintada, sem tradução - é um livro visual:
6. Enfances, de Sempé
Um belo Álbum do genial desenhador francês, onde a nostagia de outros tempos é também um encantamento.
Não sabia que post oferecer 'de prenda' neste Natal, acabei por optar por um país esquecido da Europa que tem vindo cada vez mais a merecê-la.
Dedico este post aos bravos e generosos moldavos que acolheram com tudo o que tinham os refugiados ucranianos, e vivem na aflição de vir a ter igual sorte. Estava longe de pensar que a ignorada Moldávia viria a ter tanto protagonismo, mas a verdade é que se tem esforçado por ser dignamente europeia. Vamos lá viajar.
Chișinău é a capital da República da Moldávia, na Europa; fica "antes" da Ucrânia (vista de cá) mas para lá dos Cárpatos. Há nestes nomes ressonâncias de aventuras de Tintin - o Cetro de Ottokar e o Affaire Tournesol passavam-se na Sildávia, país em conflito com a Bordúria, uma ditadura militar...
Lembro-me de ouvir falar da Bessarábia ironicamente, um país longínquo onde sucedem coisas estranhas, tal como se fala da Cochinchina; ora a Bessarábia é afinal a Moldávia ! (mais ou menos)
Um território retalhado - parte para a Roménia, parte para a Rússia, e outra para a Ucrânia; o mesmo sucede etnicamente.
Na História da antiguidade clássica, a Mésia foi local da última fronteira a leste do Império Romano, onde Trajano mandou construir também uma muralha (Limes Moesiae) para definir os limites do Império ao longo do Danúbio.
"Ondas de Trajano" - o que resta da muralha de Trajano, do séc. II-III, para defender a Moldávia dos ataques dos Hunos
Neste território sucederam-se conflitos, mudanças de poder e de fronteiras, conforme prevaleciam russos ou principados romenos; a invasão turca veio trazer uma longa guerra, terminada com a aceitação do domínio czarista.
A Bessarábia surgiu então como o nome com que o Império Russo identificava a parte oriental do principado da Moldávia, cedido pelo Império Otomano à Rússia, após a Guerra Russo-Turca (1806-1812). Sob o domínio russo, instituiu-se aí o Governo Geral da Bessarábia.
A actual Moldova é um território fértil delimitado pelo rio Dniester a nordeste, os Cárpatos a poente, a foz do Danúbio e o Mar Negro a sul. Actualmente a Ucrânia corta o acesso directo ao Mar Negro - os moldavos só têm acesso ao mar pelo rio Danúbio, no porto de Giurgiulesti - , mas a Bessarábia foi sempre rota de comércio entre leste e oeste e uma zona estratégica. O cruzamento de povos e sucessivas vagas de migração deram como resultado uma população muito variada - romenos, ucranianos, alemães, polacos, cossacos, gregos, arménios, turcos e judeus. Este cosmopolitismo foi interrompido em 1940 com a anexação pela URSS seguida por sucessivas deportações.
O Dniester na fronteira oriental da Moldávia. Do fértil território moldavo, 80% é agrícola - cereais, girassóis, vinhas, pomares e mel, muito mel.
País europeu "pobre" como é habitualmente adjectivado, a Moldávia corre perigo de vida. Com o enclave da Transnístria altamente militarizado, poderá acontecer ali outro crime como o da Ucrânia. Quero portanto mostrar a capital Moldava enquanto cidade europeia, antes que seja tarde.
Chişinău, capital da Moldávia População: ~ 600 000
Coordenadas: 47°00′ N, 28° 55′ E
Língua: Romeno
É uma cidade modesta que oferece um modo de vida que seria sossegado não fosse o excesso de trânsito rodoviário, e que concentra serviços e quase tudo o que há de vida cultural no país; tem vindo a melhorar o arranjo das ruas e o mobiliário urbano.
O conjunto arquitectónico do Parque da Catedral, de 1836, é o ex-libris de Chișinău, obra do arquitecto Avraam Melnikov. Teve de ser restaurado depois dos habituais 'tratos de polé' a que foi sujeito pelo regime soviético.
A Catedral e a Torre sineira (restaurada em 1997), neoclássicas
A catedral ortodoxa da Natividade, de 1830
Um interior intensamente colorido
O Arco do Triunfo de 1840, comemora a vitória na batalha que expulsou os Turcos. A torre sineira é uma réplica da que foi destruída pelo regime de Khrushchov em 1962.
Parque Stefan cel Mare, mesmo no centro da capital.
A Fonte no parque.
O herói nacional é Estevão o Grande, ou Estevão III, príncipe da Moldávia entre 1457 e 1504, que obteve 46 vitórias contra os Otomanos garantindo assim a independência do principado. Tem estátuas pela cidade e deu logicamente o nome à avenida central - bulevardul Stefan cel Mare - a rua mais importante da cidade, do país!
Nesta avenida encontram-se alguns dos edifícios históricos, como a Câmara de 1901, influenciada pelo revivalismo do gótico italiano:
Mesmo em frente, o prédio dos correios, de 1942, na esquina mais nobre de Chisinau.
A esquina dos correios em hora de ponta
Ao lado da câmara fica uma sala de concertos, a "Sala com Órgão", guardada por dois leões.
'Dixit Dominus' de Vivaldi, há poucos dias, dir. Cristian Florea.
Um vídeo (desculpem o som fraquinho):
Voltando à rua, não é raro encontrar influência estrangeira na arquitectura, como este palacete de barroco vienense, com elementos Arte Nova e mouriscos:
Casa de Vladimir Hertza, na av. Stefan cel Mare
Junto ao jardim da Catedral foi há pouco criada a primeira rua pedonal, a Strada Eugen Doga, onde se concentra alguma animação nas esplanadas e em torno do Bonjour Café.
Um Café-quiosque, o Bonjour Café é onde eu iria certamente mal chegasse à cidade.
Deve ser o sítio mais cosmopolita de Chisinau. Não é raro haver enchentes, de dia e de noite, sobretudo com músicos a animar.
As outras ruas centrais são pobres e feias, o melhor de Chisinau talvez sejam os Museus:
O Museu de História e Arqueologia é o mais importante do país, com muito material desde a pré-História (cultura Cucuteni-Tripolie) e dos Dacio-Getas, povo germânico do neolítico parente dos Godos que habitava a zona (Dácia, Trácia) na época dos romanos, e que atingiu um grau respeitável de civilização.
Vaso da cultura Cucuteni-Tripolie(5500-2750 AC)
A cultura Cucuteni-Tripolie desenvolveu-se desde o Neolítico entre os Cárpatos e as bacias do Dniepre e Dniestre, centrada no que hoje é a Moldávia e ocidente da Ucrânia.
A cerâmica desta cultura caracteriza-se pela decoração â base de espirais, labirintos, linhas onduladas e linhas duplas formando uma rede.
Selos moldavos
Ainda antes dos romanos, tinha havido colónias gregas na costa do Mar Negro, como Olbia, Tyras, Argamon. Não admira que tenha sido encontrado na Moldávia espólio dessa presença, como este vaso do séc. V-IV A.C.
Encontrada na aldeia de Manta, no extremo sul da Moldávia, já perto da foz do Danúbio. Representa a princesa Ariadna de Creta, rodeada de dois sátiros e protegida por Eros.
O colar Cita (Scita) de Tovsta Mohyla, finamente esculpido em ouro, faz parte do tesouro nacional da Ucrânia. Encontrado em 1971, pertence à colecção do Museu de Kiev; mas uma cópia fiel foi recentemente oferecida à Moldávia e está neste Museu.
Colar Cita, 350-340 A.C. (cópia)
Ouro da Bessarábia: Brincos Citas do séc IV A.C., encontrados em Orhei, região de Dubăsari.
Também não falta um Fabergé.
Um tinteiro de prata do século XIX , no estilo neo-bizantino russo, formado por formas esféricas montadas em pirâmide e decorado com pérolas.
Uma das peças mais vistosas é o bule de chá em prata executado em Paris pela Maison Cristophle, oficina de Charles Cristophle, de 1830.
Este modelo em alpaca de prata especialmente refinado foi lançado em 1868 para ser fornecido à famílias reais. O bule assenta sobre uma lamparina que mantém o chá quente.
O Museu tem três salas lindíssimas:
(clicar para aumentar)
Sala vermelha
Sala azul (alabastro)
Museu de Belas Artes
A visita vale pela casa, um belo edifício de 1901 que foi de início Ginásio Feminino.
Fora de Chisinau não há muito que ver, sendo obrigatório evitar a deplorável Transnístria. Há mosteiros, um lago, mas o sítio mais valioso é a fortaleza de Tighina, do século XV, que foi ocupada e reconstruída pelos Turcos em 1538, às ordens de Suleiman I; desgraçadamente encontra-se sob controle russo.
Maria Cebotari e Valentina Nafornita
A mais célebre personagem moldava fora do país, Maria Cebotari (1910 – 1949) foi uma soprano reputada que correu as melhores salas de Ópera da Europa. Nasceu em Chişinău.
Valentina Nafornita, timbre e firmeza excepcionais em Glück das mir Verlieb (Die tote Stadt), de Korngold.
Natal em Chisinau
A àrvore costuma ser instalada em frente ao Arco do Triunfo.
Muito frio é normal, ninguém deixa de ir à feira como noutras cidades do centro da Europa.
Boas festas, e vamos daí , Moldávia, para a União Europeia ! Livra-te de vizinhos perigosos.
Nota : não é difícil para nós comunicar com os moldavos, há muitas semelhanças pois falam uma língua românica. Por exemplo, "o museu e a opera são monumentos da capital" diz-se "muzeul și opera sunt monumente ale capitalei"; "em que direcção é o centro?" = "în ce direcție este centrul ?". Nos dois extremos da Europa, vimos do mesmo berço greco-latino.