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domingo, 1 de março de 2026

"Orkney" de Amy Sackville, escrita criativa primorosa.


Finalmente ! Um daqueles raríssimos livros inclassificáveis - nem thriller, nem psicológico, nem novela, nem relato de viagem, mas tudo isso! - escrito de forma magistral, num inglês criativo riquíssimo de expressões e vocabulário, fluente mas não linear, onde se sugere tanto ou mais do que se narra ou se descreve e os diálogos surgem imprevisíveis, semeados de alusões misteriosas.

Só agora acabei as 250 páginas em letra miudinha desta 2ª obra de Amy Sackville. Não conseguia parar, é um livro para se viver intensamente e que no final deixa uma sensação de perda real, perturbante. Um livro estranho em tudo - personagens, locais, situações. Justificam-se os elogios no Times (Sackville's second novel is poetic, dreamlike and beautufully written), no New York Times (masterfully self-contained). 

Não quero resumir de forma a estragar a leitura de quem decida ler, portanto sendo o mais vago possível: Phillip, um professor universitário (talvez Cambridge) às portas da reforma, pelos seus 60 portanto, deixa-se envolver intensamente com uma aluna de literatura nos 20 e pouco. A iniciativa é mútua, não há um sedutor e um seduzido, a jovem talvez seja até um pouco mais atrevida e insistente. Casam ! E a promessa para o dia seguinte é ele levá-la para um sítio onde esteja a sós com o mar. As ilhas Orkney. 

Vão de núpcias para Westray, uma das Orkney setentrionais. A obsessão dela (o nome nunca é referido) pelo mar, desde o primeiro dia na casinha de pedra na praia, é a parte 'thriller psicológico' do livro, é um enigma que vai abarcando tudo na vida diária do casal. Amy Sackville narra esses dias com mestria, com detalhes brilhantes nas falas, nas descrições, e sobretudo nos pensamentos cada vez mais tempestuosos do professor que a escritora incarna como narrador, tanto extasiado como perplexo com a companheira. O pai dela fora pescador nesta ilha, ter-se-á afogado, há aqui qualquer coisa de tragédia sob as águas.

Extractos ( já se sabe que a tradução dá cabo da riqueza do texto) :

Where shall I take you, I asked, when we are wed? ‘The sea,’ she answered. ‘Will you take me to the sea?’


Está de olhar fixo ao longe quando a água lhe chega aos pés e ela recua, e quando a suave e insistente sucção da maré vem tão perto que lhe sorve os dedos ela arrasta-se a subir praia acima.

Voltou enregelada pela maresia que senti eu na face, para compensar. E acariciou esta sombra raivosa que às cinco desce sobre mim, urso velho e grisalho que sou. O cheiro de ar encharcado impregnava-a. Uma vibração no crepúsculo em volta dela, uma cintilação profunda, brilhante, não visível.

A ventania nocturna

O vendaval galopou pela noite, ao longo de toda a costa, chicoteando o mar e acumulando nuvens roxas de chuva que correm para o interior; nunca abrandou durante as horas mais negras. Chamam a este vento ' skreever', disseram-me, nome para algum demónio - e é mesmo assim como soa. Coisa de tempos remotos, com asas esfrangalhadas e a uivar, a rasgar e lacerar a urze seca e despida.

Bufava e assobiava à volta das paredes da nossa casota de pedra, e arranhava lá dentro, em cada recanto, à procura, como um intruso furtivo volteando as páginas sem parar e remexendo cada greta e cada mossa, relinchando em cada brecha, à procura, à procura, frenético, minucioso, implacável; desalojando as aranhas que se agarravam teimosamente às traves e observando como as teias se rompiam; respirando sobre a última centelha das brasas antes de se lançar pela chaminé acima numa onda de cinzas.

O céu

O céu pervinca, com um esboço de nuvens de grafite, o mais leve vestígio de lápis; lilás onde se encontra com o mar, aprofundando-se até ao ápice, azul-mexilhão. Esta foi dela. Estou a tentar ouvir a voz dela a dizer. Azul da Prússia. Tinta-da-China. Índigo... 'Azul para dormir, Richard ', diz ela. Azul para dormir. (*)

É azul celeste, é ametista, é preto, equimose, púrpura sangue, granada, sereno sem ondas, inofensivo, ou aguardando a hora certa. Está uma noite clara, hoje. O suave apagar ao anoitecer, todos os antigos fantasmas mortos das estrelas, perturbando o céu claro, a luzir contra a escuridão em 'glimmerans'. A fantástica palavra dos ​​ilhéus para crepúsculo. Como ela iria adorar isto.


The latch lifts




No.




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É possível achar livro chato, repetitivo ou obsessivo. Não me admirava que alguém me viesse dizer Ó, não é nada de especial. Pois eu gostei tanto da escrita fluída, expressiva e exuberante que nem dei conta dos defeitos possíveis.

(*) "Bedtime blue", com o duplo significado de blue (azul, melancolia)

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

A 61º N, na distante ilha de Kinn, uma igreja medieval em pedra


🎄Uma prenda de Natal 🎄

Kinn e o penedo rachado Kinnaklova
 
A ilha de Kinn (øya Kinn) é um extremo ocidental da Noruega, a uma boa distância para poente da cidade de Florø - ou seja, mar adentro.
 

É uma ilha agreste, ventosa e fria no Atlântico Norte, longe da terra firme; seria de esperar alguma construção Viking, uma stavkirke, mas não uma igreja medieval do século XII, em pedra e com torre sineira separada. É espantosa, mesmo agora depois do restauro: a Igreja de Santa Sunniva.

 

 


A Igreja de Sta. Sunniva em Kinn

É uma igreja românica de Kinn da segunda metade do século XII. Está construída com uma pedra calcária especial da ilha de Skorpa, um pouco a nordeste. 

Está situada no sopé de um pico íngreme - Kinnafjellet -, um rochedo de 300 m de altura . Em frente fica Kinnaklova, outro rochedo de perfil único, com uma fenda, visível a grande distância ao longo da costa e que por isso servia de guia aos marinheiros

No interior abundam madeiras em talha. O lectorium ( 'jubé' ou tribuna) é uma estrutura em madeira ou em pedra que separa a nave do altar-mor, encimada por uma galeria onde se faziam as leituras dos livros, antes de aparecerem os púlpitos. É mais comum em igrejas do Norte da Europa.



O lectorium é a parte mais antiga, talvez de pouco após 1100, e os baixo-relevos em madeira foram esculpidos em Bergen ao tempo do rei Håkon Håkonsson.
 


O campanário, de 1912, está afastado, assente sobre uma dupla arcada de pedra que conduz ao cemitério:
 
 
Há pouco tempo o conjunto foi sujeito a uma renovação exterior e interior, perdeu a 'patine' e mais parece obra feita de novo a imitar antigo.
 
Tinta preta e branca encobre a pedra e a madeira.


 
Kinn foi sítio de abrigo e assentamento para eremitas cristãos que nos séculos IX e X vagueavam em missão por vastos territórios. Esta ilha e a de Selja, onde há um mosteiro beneditino medieval, devem ter feito parte dos locais frequentados por eremitas das Igrejas Celtas irlandesa e britânica. 

Um relato nórdico da vida de Sto. Albano, do séc. XII, criou uma lenda, a lenda de Santa Sunniva.

Sunniva era filha de um rei celta cristão da Irlanda, ainda antes do ano 1000. O reino tinha grandes dificuldades em defender-se dos ataques Vikings, e quando foi invadido e sujeitado era de esperar que a filha do rei fosse obrigada a casar com o chefe dos pagãos. Horrorizada com essa perspectiva, Sunniva fugiu com as duas irmãs, o irmão (viria a ser Sto, Albano) e alguns súbditos, e atravessaram o mar sem saber onde iriam aportar. Arrearam as velas e largaram os remos para deixar o seu destino em mãos divinas. E assim foram parar às llhas Kinn e Selja, ao largo da costa norueguesa, onde seriam mortos numa gruta que colapsou quando se escondiam dos noruegueses. 
 

Os restos mortais foram encontrados em 996 na ilha de Selja, onde por volta de 1100 o rei Olav Tryggvason, que converteu o país ao cristianismo, mandou  construir o mosteiro dedicado ao inglês Sto. Albano, e mais tarde em Kinn a igreja de Sta. Sunniva.

A Ilha de Kinn


O acesso à ilha faz-se por um cais no lado nascente, onde o barco local aporta com os poucos habitantes, visitantes, e os muitos peregrinos durante as festas anuais a Sta. Sunniva. Que a Noruega também tem lugar de peregrinação !
 

    Junto ao cais há um alojamento e uma galeria de arte.



Dois caminhos dão a volta à ilha para aceder a pé ao local da igreja.


 


Espero que tenham gostado. Boas festas !

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Kópakonan de Mikladalur, II - a lenda

(continuação do post anterior)

Kópakonan , a mulher foca, é a variante nórdica Faroense das Sereias greco-europeias - Ondina, Melusina, a Selkie celta, a Rusalka eslava, a Lorelei germânica.

Segundo uma tradição antiga das Ilhas Faroé, na décima terceira noite do ano era permitido às focas subirem a terra, tirar as peles e assumir a sua existência humana, divertindo-se a dançar e a brincar. 

Um camponês da aldeia de Mikladalur, na ilha de Kalsóy, intrigado e querendo verificar se era verdade, foi deitar-se na praia à espera numa tarde de décimo terceiro dia. Viu as focas a chegar em grande número, a nadar para a costa. Juntaram-se na praia, despiram as peles e pousaram-nas cuidadosamente nos rochedos. Pareciam mesmo pessoas normais. O rapaz fixou a atenção numa jovem rapariga foca que deixou a pele pertinho dele, e quando a dança começou gatinhou uns metros e roubou-a. A dança e os jogos continuaram toda a noite, mas assim que o sol espreitou sobre o horizonte todas as focas correram a vestir as peles para voltar ao mar. A rapariga foca ficou aflita sem ver a sua, mesmo que o seu odor ainda pairasse no ar; então o rapaz de Mikladalur surgiu com a pele, mas não queria devolver-lha, apesar do desespero dela, e foi assim obrigada a segui-lo até à quinta.

Viveu com ela muitos anos como esposa, e ela deu-lhe muitos filhos, mas ele teve sempre o cuidado de não a deixar ter acesso à sua pele. Manteve-a fechada num baú de que só ele tinha a chave, chave essa que trazia sempre num cadeado preso ao cinto.

Um dia, quando estava no mar à pesca com os companheiros, deu conta de que deixara a chave em casa. Anunciou aos companheiros, pesaroso, "Hoje perdi a minha esposa !"  – e explicou o que acontecera. Os homens puxaram as redes e as linhas e remaram para a praia o mais rápido que puderam, mas quando chegaram à casa da quinta encontraram as crianças sozinhas e a mãe ausente.  O pai sabia que ela nunca mais voltaria, pois tinha apagado a lareira e arrumado todas as facas para prevenir que as crianças não se magoassem.

De facto, quando ela chegou à praia vestiu a pele de foca e mergulhou nas águas, onde uma foca rapaz, que a tinha amado desde sempre e ainda esperava por ela, surgiu a seu lado. Mais tarde, quando as crianças que ela tinha tido com o homem de Mikladalur viram um dia até à praia, uma foca emergiu das águas observando a terra; as pessoas naturalmente pensaram que era a mãe. E os anos passaram.

Depois um dia aconteceu que os homens de Mikladalur planearam entrar a fundo numa das cavernas da costa para caçar focas que lá viviam. Na noite anterior, a mulher-foca apareceu ao marido num sonho e disse-lhe que se ele fosse à caça na caverna, tinha de ter cuidado em não matar a grande foca macho deitada à entrada, pois essa era agora o seu marido. Nem devia ferir as duas crias de foca mais no fundo da cave, porque eram seus filhos, e descreveu as suas peles para ele não se enganar. 

Mas o camponês não deu atenção à mensagem do sonho. Juntou-se aos outros, e mataram todas as focas que estavam à mão. No regresso, dividiram a 'apanha', e o camponês recebeu o grande macho e as patas  trazeiras das crias.

À tarde, quando já estavam cozinhadas algumas partes das focas para jantar, houve uma grande estrondo na sala de fumo, e a foca-mulher apareceu na forma de um aterrador troll; foi cheirar a comida nas calhas e berrou uma maldição: ‘Aqui está a cabeça do meu marido com as sobrancelhas, a mão do Hárek e o pé do Fredrik! A vingança vai ser medonha, vingança contra os homens de Mikladalur, uns vão morrer no mar e outros cairão do topo dos penhascos, até haver tantos mortos que possam de mãos dadas dar a volta às praias da ilha de Kalsóy!"

Assim que pronunciou estas palavras, desapareceu com um grande trovão e nunca mais foi vista. Mas ainda hoje, infelizmente, acontece de tempos a tempos que homens da aldeia de Mikladalur se afogam no mar ou caem das altas falésias; o que deve ser motivo de grande preocupação é que o número de vítimas ainda esteja longe de que todos possam com as mãos dadas perfazer o perímetro da ilha de Kalsóy.


sexta-feira, 10 de junho de 2022

Dario e a lebre - a campanha Persa em terra dos Citas, segundo Heródoto


Esta História, nunca ninguém ensinou ou ensina nas escolas. Antiga, longínqua e irrelevante: dois grandes impérios, o Persa de Dario e o império Cita (ou Scyta, do grego Skythēs) confrontaram-se em torno do Mar Negro, onde pouco antes, no século VII AC, os Gregos tinham fundado as suas colónias pônticas, como Olbia que já mencionei anteriormente. Não imaginava que o território em torno do Mar Negro tivesse sido tão disputado e visitado na antiguidade, antes do Rus' de Kiev; a proto-história da Ucrânia tem muito que se lhe diga. 

A campanha de Dario I contra os Citas foi uma grande expedição do exército da Pérsia Aqueménida em 513 AC, à região entre o Danúbio e o Don que circunda o Mar Negro, terras que correspondem hoje aos Balcãs, Ucrânia e sul da Rússia.

O Império Aqueménida foi o maior da Antiguidade antes dos Romanos.

Os Citas eram uma confederação de povos falantes da língua persa, que depois de várias migrações se foram instalar nas planícies férteis a nordeste do Cáspio; atacaram o Império Aqueménida e ameaçavam as rotas de comércio de ouro, cerais, couros e peles entre a Europa Oriental e a Ásia Menor - o que prejudicava tanto os Persas como os Gregos. Na maioria os Citas eram pastores nómadas, não há 'cidades' Citas (a maior povoação era Gelonus, perto de Bilsk, Ucrânia), mas estabeleceram uma poucas quintas com enormes explorações agrícolas, maiores que alguns países. Eram também excepcionais cavaleiros. [há um museu Cita em Zaporizhzhya] 


O Rei Dario subiu de Persépolis com os seus setecentos mil homens, segundo Heródoto, atravessou o Bósforo e o Danúbio numa ponte de barcas, e contava com que os Citas surgissem a fazer-lhe frente. Mas, sendo nómadas, os Citas os seus guerreiros facilmente se furtaram a confrontar o exército Persa, que se foi desgastando na sua perseguição; enquanto os Citas se esquivavam e zigzagueavam, iam também destruindo todos os recursos, queimando as colheitas e bloqueando os poços na sua retirada, de modo a deixar o exército Persa à míngua, sem sequer ter cidades para conquistar. Na verdade, também os Citas passavam mal - tinham perdido as suas melhores terras, e Dario acabou por capturar e incendiar-lhes a povoação fortificada de Gelonus (de que só restam umas marcas no terreno - fosso e muro), já nos finais do século VI.
O sítio arqueológico de Bilsk, a leste de Kiev, já nos limites da estepe do Cáspio. Gelonus ocupava o terreno intra-muros (mais escuro).

Chegado ao Volga, Dario preferiu parar, consolidar o território já conquistado e recuperar forças. Construiu oito fortes em linha junto ao rio como fronteira defensiva.   

Até aqui há consenso histórico; mas o relato de Heródoto só começa a ter 'piada' quando entra a fantasia. Convém dizer que Heródoto tinha o máximo cuidado com as fontes, só acreditava em fontes múltiplas concordantes e alertava sempre para a falibilidade dos testemunhos. Mas prosseguindo, conta ele: 

O exército persa está num estado calamitoso. "- Mostrem-se !", grita em desespero o Rei persa para o vazio, onde se movem sombras, espectros, pequenas unidades de cavaleiros que atacam à socapa, como guerrilhas, e logo desaparecem. Um exército compacto, poderoso, de nada serve se o inimigo não lhe dá importância, e nem sequer comparece. 

Mas finalmente - chegado o momento ? - os Citas perfilam-se perante o exército persa, com a sua famosa cavalaria. 


Tudo o que se sabe dos achados arqueológicos leva a crer que os guerreiros Citas e os cavalos estavam cobertos de armaduras de ouro e bronze, tal como as espadas, machados e arcos abundantemente esculpidos e ornamentados. Mesmo sendo em menor número, metia respeito.

Deve ter havido um longo acumular de tensão entre as duas frentes de guerra e os seus generais. De repente, uma lebre passa entre as hostes Citas. Ao darem conta, os guerreiros lançam-se um após outro a persegui-la. Desordem e clamores foram tais que Dario quis saber o que provocava tamanho tumulto nas fileiras do inimigo. Ao saber da lebre, comentou aos homens de confiança: "Esta gente tem por nós um enorme desprezo (...) vamo-nos mas é daqui se queremos regressar a casa sãos e salvos".

Uma lebre !! Há unanimidade ente os historiadores em que foram os Citas que estacaram a avançada dos Persas sobre a Europa. Caso contrário a História do Mundo teria seguido um curso diferente. A retirada inglória de Dario foi decidida pelo detalhe ínfimo da lebre, que assumiu proporções dramática - os Citas ignoraram e desprezaram o exército Persa, e esse desdém, essa humilhação, foi para o rei dos Persas um golpe mais violento que uma derrota em batalha. 

E, pela calada da noite, o exército Persa retirou. A ponte sobre o Danúbio ainda lá estava, aguardando.

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Baseado na narrativa "Viagens com Heródoto" de Ryszard Kapuściński. Livros assim não se pode falhar. Voltarei a ele.



domingo, 31 de outubro de 2021

O Nykur de Sørvágsvatn ( lenda faroense no lago maior de Vágar )

 

O Nykur de Sørvágsvatn ! Adoro a sonoridade, só a expressão já promete ...

Vamos de Vágar. Nesta ilha das Faroé, aos 62° 5' N, 7°15' W, há dois lagos, dois, um deles bem grande - o lago Sørvágsvatn * - e o outro não tanto, o Fjallavatn (vatn = água). Numa ilha que não ultrapassa 18 km de extensão, um lago com 3.5 km2 é notável. Mas mais notável ainda é a geografia do local: o lago assenta sobre um planalto 40 metros acima do mar, do qual o separa uma alta mas curta falésia, que o impede de se esvaziar para o mar, deixando escorrer apenas uma estreita queda de água, a Bøsdalafossur


Há uma ilusão de óptica incrível causada pela forma da falésia costeira que faz parecer o lago a pairar muito mais alto acima do mar. São só 40 metros .



O lago visto do topo da falésia, no final do trilho.


Passear no trilho sobre a falésia Trælanípa dá uma ideia mais próxima de como a escarpa verde da falésia forma um vaso quase perfeito para o lago, que só verte por uma fenda que parece uma torneira para os deuses marinhos beberem água doce ...


O outro lago, o Fjallavatn, fica mais a norte, rodeado de encostas cobertas de tapete verde, e nem sequer tem estrada de acesso.


Voltando ao Sørvágsvatn: acontece que o aeroporto de Vágar fica junto à margem interior noroeste do grande lago, na povoação de Sørvágur. Foi aí que o artista local Pól Skarðenni, lembrando uma lenda faroense, esculpiu em 2017 um cavalo empinado que depositou no lago a poucos metros da margem.


O que é um Nykur ? Na mitologia nórdica local, é uma criatura marinha que emerge das águas na forma de de um animal cinzento semelhante a um cavalo com os cascos revirados. Assusta os humanos ao surgir empinado na margem do lago, metade do corpo submerso; mas é capaz de assumir formas sedutoras, de grande beleza, desafiando a que o montem. Assim que o incauto lhe salta para cima, fica colado ao dorso e é afogado de imediato pelo mergulho do cavalo. A lenda é invocada muitas vezes para meter medo às crianças de modo que não se aproximem das margens do lago. 

Feito de uma rede de arame enchida com pedras do lago, é de facto algo assustador.

Mas, há um mas, o Nykur tem uma fraqueza: se em voz forte o chamarem pelo nome, a criatura perde os seus poderes e regressa para o fundo das águas.

A narrativa tradicional em Vágar conta que - era uma vez um rapazinho de Sørvágur que viu um Nykur andar às voltas pelo Lago Sørvágsvatn. Espantado com a beleza da criatura, aproximou-se; queria que o irmão Niklas visse também o cavalo, e chamou por ele; mas como era muito novo ainda não pronunciava bem, e o que gritou parecia mais Nykur que Niclas. E assim o cavalo regressou às profundezas do lago.

O rapaz e o cavalo branco, Theodor Kittelsen, 1890-1909

Há outras versões. Curioso é que o Nykur é a variante Faroense / Islandesa de um mito comum aos povos europeus, principalmente os germânicos: o Nix ou Nixie britânico **, o Necker alemão, os escandinavos Näcken, Näkki, Nøkk. Regra geral a criatura é mais como uma sereia da mitologia grega, que com o seu canto atrai os homens para o fundo do lago, tal como a celta Mélusine ou a Lorelei do Reno; noutros casos é um homem, ou um lagarto; a forma de cavalo só vingou na Islândia e Faroé. 

Nykurin, chamam-lhe carinhosamente...

O Nix / Nykur e a cascata nos extremos opostos do Lago.

Gostava de terminar num tom mais ligeiro e agradável; vou mostrar a povoação mais bonita de Vágar, a aldeia de Bøur.


A primeira referência escrita a Bøur data de 1350. 



A igreja é de 1865.

Casa do séc. XVI que faz figura de palacete da aldeia.

Um armazém de 1861, Pakkhúsið í Bø, era a única loja da aldeia, com post de correios; oferece agora alojamento a visitantes.



Abrigos dos barcos de pesca.

Fascinante pedaço de Terra, as Faroé.

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*  ou Leitisvatn
** o Nicor do Beowulf