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quinta-feira, 26 de março de 2026

Westray, Orkney - a ilha brumosa e soturna do livro de Amy Sackville* tem as suas surpresas !


Tinha de ser uma ilha desolada, despida de árvores, batida pelo vento, imersa em nevoeiros e chuvadas, semeada de ruínas e casebres, rodeada por uma mar selvagem e povoado de focas. É na Ilha de Westray a norte das Orkney que Amy Sackville se inspirou para o seu livro 'Orkney' de que falei no post anterior.

Neste ambiente ensombrado não admira que surjam lendas e mitos, sendo familiar entre a população as histórias das 'selkies' , uma variante das sereias : são focas que se transmutam em humanos na praia, despindo a pele. E diz-se que, se acasalam com humanos, dão origem a fllhos com pele intra dedos. Deve ter havido alguns nascimentos . Esta mitologia é comum a todo o Atlântico Norte: Orkney, Shetland, Faroé, Islândia, Gronelândia (inuits).

Vou mostra uma Westray mais soalheira e convidativa que a do livro; a partir de Abril há verde e flores e sobretudo mais luz.

West Manse em Langskaill, ilha de Westray

O nome 'Westray' significa Ilha do Oeste em nórdico antigo. A população anda à volta de 600, sendo a ocupação do território muito dispersa, com a actividade centrada em quintas agrícolas no terreno plano e fértil; mar, prados verdes, areais e casas isoladas, é este o retrato de Westray.
 
A povoação principal é Pierowall: um semicírculo de casas ao longo da baía, que termina no cais (pier) que deu nome à aldeia.


Coordenadas: 59 20' N, -2 59' E

Pobre e triste, Pierowall apesar de tudo tem um Centro de Património com museu, uma Casa do Médico (Doctor's Surgery), um café ou dois, uma galeria de arte ou duas, uma loja com posto de correio, outra sem, um Hotel e outros alojamentos. Do passado, uma igreja e um castelo, em ruínas.

Casas ao longo do Gill Pier.

Não falta onde comer peixe e caranguejo, graças a uma pequena frota de traineiras que ancora no cais Gill Pier.

O Shaunette e o New Venture, barcos de pesca, e entre eles o ferry inter-ilhas.

O 'Golden Mariana', de 1973, faz o serviço de ferry para ilhas próximas. Ao longe, o antigo armazém do porto, de 1883.


Uma casa de Pierowall: a Rose Cottage.

A estrada B9066 é também a rua principal de Pierowall.

Património

O prédio que foi o armazém portuário para a seca e salga do peixe está situado no extremo da aldeia, onde termina o cais Gill Pier.


Casa de três andares de grande simetria.


A casa de 1883 é a mais marcante do passado desta aldeia piscatória. Serviu para a cura do peixe, sendo ainda usada como armazém.


Ruínas da Igreja de St Mary (Lady Kirk), séc XIII / XVII


A igreja, de planta rectangular e estreita, é também uma ruína sem cobertura; deve ter tido telhado de ardósia. Partes da igreja medieval do século XIII estão absorvidas na reconstrução quatro séculos mais tarde. 


Solitária e desabrigada, a Lady Kirk olha para o mar, como quase tudo. Esteve activa como sede de paróquia até cerca de 1900.


Noltland Castle

Encontra-se a uns 500 metros para o interior de Pierowall.


Construído para Gilbert Balfour of Fife, um escocês de família nobre mas conhecido pelo feitio violento e guerreiro com que ganhou muitos inimigos. Talvez por isso o castelo tenha forma de 'bunker', com nada menos que 71 orifícios para artilharia. Mais do que uma residência luxuosa, era um refúgio blindado onde se podia esconder.
  .
O castelo obedece a um modelo de planta em Z (Z-plan) comum na Escócia. torre central ladeada por torres na muralha exterior em diagonal. 


A torre central é rectangular, e as laterais em Z são quadradas.


Os pisos inferiores não tem janelas, apenas buracos para tiro. O interior devia sem extremamente escuro e desagradável.

A torre central ainda mantém uma impressionante escadaria em caracol, a única parte onde há relevos de pedra; tem um piolar central encimado por um capitel esculpido.



O castelo foi abandonado após um fogo em 1746.

Vista a partir da baía de Grobust.

Foi na praia de Grobust, a Norte do Castelo, que se encontrou a "Vénus de Orkney", a famosa escultura que é a mais antiga representação do rosto humano encontrada em todo o Reino Unido. 


O Hotel


Na estrada B9066, na parte sul da baía, fica o Hotel de Pierowall ; tem ao lado uma galeria, e não se deve estar mal na esplanada no Verão.


The Pierowall Cottage, alojamento.

Memoria dos barcos pesqueiros do passado, no muro da 'cottage' ao lado.

Por trás do Hotel, com acesso por uma viela , fica  o

Westray Heritage Centre


Abriu em 1997 mostrando sobretudo o arquivo fotográfico da ilha mas cedo se alargou a preservar e expor o legado neolítico - história e arqueologia. As estrelas da colecção são a Westray Stone e a Westray Wife ambas desenterradas no sítio arqueológico da praia de Grobust.


Westray Stone
Logo à entrada, um dos achados valiosos :


Em 1981, quando trabalhava numa pedreira, um equipa de trabalhadores desenterrou uma grande pedra decorada com espirais que foi posteriormente datada de há mais de 4000 anos. É um exemplo único de escultura Neolítica. Ficou conhecida como The Westray Stone.


O local, a praia de Grobust a Norte do Castelo de Noltland, era um túmulo da Idade da Pedra num conjunto habitacional datado de ~ 3000 anos AC.

Alfinetes de roupa.

A  Mulher de Westray (The Westray Wife)


É o mais famoso achado arqueológico da ilha, uma " Vénus " nórdica, com cerca de 5 000 anos !


É a mais antiga representação de rosto humano no Reino Unido.

Na saída de Pierowall para sul encontra-se ainda Hume Sweet Hume, uma casa de design e moda de malhas em lã com algum requinte.


https://humesweethume.co.uk/



O melhor de Westray é a costa. Baías, praias, falésias, grutas, ruínas pré-históricas e Vikings. Custa a acreditar que há mais de mil anos houvesse tanta povo a instalar-se aqui.


A via principal B9066 é como uma espinha dorsal, vem do aeródromo, desce até Pierowall junto à costa, passa por quintas e casas recuperadas para alojamento, até ao outro cais da ilha em Rapness, ligando de ferry à capital Kirkwall. Para oeste diverge um desvio - a B9067 para Langskaill no Westside. 
Paisagens pelo caminho:

West Manse, Langskaill (=Long House).

Praia de Aikerness Bay, extremo norte.

Banco miradouro em Grobust

O arco "The Scaun" , no topo norte da ilha, a oeste de Aikerness.


The Scaun, com mar bravo contra as falésias de Westray.


Grobust, com o farol de Noup Head ao longe.





Portanto, uma ilha sem qualquer interesse, como diriam alguns tropicalistas.

(*) Refiro-me à novela "Orkney" que aqui divulguei recentemente neste blog.



























domingo, 1 de março de 2026

"Orkney" de Amy Sackville, escrita criativa primorosa.


Finalmente ! Um daqueles raríssimos livros inclassificáveis - nem thriller, nem psicológico, nem novela, nem relato de viagem, mas tudo isso! - escrito de forma magistral, num inglês criativo riquíssimo de expressões e vocabulário, fluente mas não linear, onde se sugere tanto ou mais do que se narra ou se descreve e os diálogos surgem imprevisíveis, semeados de alusões misteriosas.

Só agora acabei as 250 páginas em letra miudinha desta 2ª obra de Amy Sackville. Não conseguia parar, é um livro para se viver intensamente e que no final deixa uma sensação de perda real, perturbante. Um livro estranho em tudo - personagens, locais, situações. Justificam-se os elogios no Times (Sackville's second novel is poetic, dreamlike and beautufully written), no New York Times (masterfully self-contained). 

Não quero resumir de forma a estragar a leitura de quem decida ler, portanto sendo o mais vago possível: Phillip, um professor universitário (talvez Cambridge) às portas da reforma, pelos seus 60 portanto, deixa-se envolver intensamente com uma aluna de literatura nos 20 e pouco. A iniciativa é mútua, não há um sedutor e um seduzido, a jovem talvez seja até um pouco mais atrevida e insistente. Casam ! E a promessa para o dia seguinte é ele levá-la para um sítio onde esteja a sós com o mar. As ilhas Orkney. 

Vão de núpcias para Westray, uma das Orkney setentrionais. A obsessão dela (o nome nunca é referido) pelo mar, desde o primeiro dia na casinha de pedra na praia, é a parte 'thriller psicológico' do livro, é um enigma que vai abarcando tudo na vida diária do casal. Amy Sackville narra esses dias com mestria, com detalhes brilhantes nas falas, nas descrições, e sobretudo nos pensamentos cada vez mais tempestuosos do professor que a escritora incarna como narrador, tanto extasiado como perplexo com a companheira. O pai dela fora pescador nesta ilha, ter-se-á afogado, há aqui qualquer coisa de tragédia sob as águas.

Extractos ( já se sabe que a tradução dá cabo da riqueza do texto) :

Where shall I take you, I asked, when we are wed? ‘The sea,’ she answered. ‘Will you take me to the sea?’


Está de olhar fixo ao longe quando a água lhe chega aos pés e ela recua, e quando a suave e insistente sucção da maré vem tão perto que lhe sorve os dedos ela arrasta-se a subir praia acima.

Voltou enregelada pela maresia que senti eu na face, para compensar. E acariciou esta sombra raivosa que às cinco desce sobre mim, urso velho e grisalho que sou. O cheiro de ar encharcado impregnava-a. Uma vibração no crepúsculo em volta dela, uma cintilação profunda, brilhante, não visível.

A ventania nocturna

O vendaval galopou pela noite, ao longo de toda a costa, chicoteando o mar e acumulando nuvens roxas de chuva que correm para o interior; nunca abrandou durante as horas mais negras. Chamam a este vento ' skreever', disseram-me, nome para algum demónio - e é mesmo assim como soa. Coisa de tempos remotos, com asas esfrangalhadas e a uivar, a rasgar e lacerar a urze seca e despida.

Bufava e assobiava à volta das paredes da nossa casota de pedra, e arranhava lá dentro, em cada recanto, à procura, como um intruso furtivo volteando as páginas sem parar e remexendo cada greta e cada mossa, relinchando em cada brecha, à procura, à procura, frenético, minucioso, implacável; desalojando as aranhas que se agarravam teimosamente às traves e observando como as teias se rompiam; respirando sobre a última centelha das brasas antes de se lançar pela chaminé acima numa onda de cinzas.

O céu

O céu pervinca, com um esboço de nuvens de grafite, o mais leve vestígio de lápis; lilás onde se encontra com o mar, aprofundando-se até ao ápice, azul-mexilhão. Esta foi dela. Estou a tentar ouvir a voz dela a dizer. Azul da Prússia. Tinta-da-China. Índigo... 'Azul para dormir, Richard ', diz ela. Azul para dormir. (*)

É azul celeste, é ametista, é preto, equimose, púrpura sangue, granada, sereno sem ondas, inofensivo, ou aguardando a hora certa. Está uma noite clara, hoje. O suave apagar ao anoitecer, todos os antigos fantasmas mortos das estrelas, perturbando o céu claro, a luzir contra a escuridão em 'glimmerans'. A fantástica palavra dos ​​ilhéus para crepúsculo. Como ela iria adorar isto.


The latch lifts




No.




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É possível achar livro chato, repetitivo ou obsessivo. Não me admirava que alguém me viesse dizer Ó, não é nada de especial. Pois eu gostei tanto da escrita fluída, expressiva e exuberante que nem dei conta dos defeitos possíveis.

(*) "Bedtime blue", com o duplo significado de blue (azul, melancolia)