
A Passagem do Nordeste é a rota marítima ao longo da costa norte da Europa e da Ásia - costa ártica da Rússia - entre o Oceano Atlântico e o Pacífico. A distância de São Petersburgo até Vladivostok pelo Mar do Norte é 14 280 km, enquanto via Canal de Suez são 23 200 km, e pelo cabo da Boa Esperança ainda mais, 29 400 km. Até ao século passado, a travessia pelo Ártico estava quase todo o ano interdita pelas placas de gelo oceânico.
Desde o século XVI, vários estudos foram feitos para encontrar uma outra rota marítima para a Índia e a China; o caminho português era demasiado longo. Muitos dos estudos procuravam uma passagem do Noroeste (pelo Norte do Canadá). Contudo, navegadores nórdicos, Holandeses e Russos, procuravam sobretudo uma Passagem do Nordeste navegando ao longo da costa ártica asiática.


É pouco conhecida a história das tentativas de navegação pelo ártico russo. Os holandeses, sobretudo, queriam encontrar esse caminho para serem eles a dominar o comércio com o Oriente.
Ainda na década de 1550, navios ingleses fizeram a primeira excursão séria para reconhecer esta passagem. O navegador holandês Willem Barentsz também tentou - e falhou - várias vezes. Os gelos do ártico fechavam a rota durante a maior parte ou mesmo todo o ano. Barentsz explorou a fundo as costas e as ilhas da parte ocidental do Mar do Norte, enfrentou gelos, tempestades, ursos polares e morsas em manada. Descobriu em 1596 as Ilhas Svalbard e a Bjørnøya, Ilha Ursos, e conseguiu aportar em Novaya Zemlya - mas não foi mais longe. O mar entre a Escandinávia e a Rússia ficou a chamar-se Mar de Barents em homenagem ao navegador.
Ainda na década de 1550, navios ingleses fizeram a primeira excursão séria para reconhecer esta passagem. O navegador holandês Willem Barentsz também tentou - e falhou - várias vezes. Os gelos do ártico fechavam a rota durante a maior parte ou mesmo todo o ano. Barentsz explorou a fundo as costas e as ilhas da parte ocidental do Mar do Norte, enfrentou gelos, tempestades, ursos polares e morsas em manada. Descobriu em 1596 as Ilhas Svalbard e a Bjørnøya, Ilha Ursos, e conseguiu aportar em Novaya Zemlya - mas não foi mais longe. O mar entre a Escandinávia e a Rússia ficou a chamar-se Mar de Barents em homenagem ao navegador.
Com o declínio do poder marítimo holandês, a exploração foi assumida pelo poder czarista russo; em 1648 o pioneiro Semen Dezhnev aventurou-se num pequeno barco a explorar a parte oriental e provou a existência de um estreito entre a Ásia e a América; descobriu as Ilhas Diomede, descreveu detalhadamente a região do Chukotka, e fundou a cidade de Anadyr. A sua expedição é um ponto alto da história russa e da sua expansão colonial, comparável aos feitos de Colombo na extensão de terra e mar que pela primeira vez foram percorridos e desvendados.
Outro russo mas nascido dinamarquês, o cartógrafo Vitus Bering, foi contratado como Oficial da marinha russa por Pedro o Grande para navegar a Rota; ao comando do S. Gabriel, liderou a partir de 1725 duas grandes expedições onde explorou e mapeou a parte oriental da passagem no sentido contrário, a partir da península de Kamchatka, e a costa nordeste da Ásia. Rodeado de cientistas - geógrafos e cartógrafos, botânicos, zoólogos, etnógrafos, a bordo do navio Sviatoi Gavriil (São Gabriel) e depois no Sviatoi Piotr (São Pedro), veleiros ainda de casco em madeira, comandou as viagens em que descobriu ilhas (as Aleutas...), litorais, populações, novas espécies vegetais.
O S. Pedro que naufragou na Ilha de Bering em 1741
O Chelyuskin, lançado em 1933
Entusiasmado com o sucesso, foi preparado então outro navio, o Chelyuskin, construído na Dinamarca em 1933, e com um poderoso motor de 2 500 cavalos, estrutura reforçada, e chapas de aço extra à proa. Poder à bruta. Seria comandado pelo medalhado camarada Otto Schmidt, um cientista e matemático nascido na Bielorússia e descendente de família Lituana; estudou em Kiev e acabou por aderir em grande ao aparelho soviético, membro de Comités e Comissariados, editor, professor e investigador na Universidade de Moscovo, acumulando cargos e distinções. Dedicou-se em 1929 e 30 a explorar as ilhas árticas da URSS, Franz Joseph Land e Severnaya Zemlya.
A rota do Chelyuskin 1933-34
Por alturas do agora chamado Cabo Chelyuskin, o Capitão Voronin deu conta de que o barco não estava à altura das expectativas, e as condições de navegação pioravam rapidamente. A meio de Setembro, o Chelyuskin ia progredindo penosamente, procurando estreitas linhas de água, virando e oscilando com as camadas de gelo, apontando sempre a Leste.
Chegado ao mar da Sibéria Oriental, a 200 milhas do estreito de Bering , subitamente estacou sem se poder mexer mais, bloqueado por todos os lados na sólida camada de gelo, a poderosa maquinaria completamente impotente.
Por rádio, o capitão soube que havia mar aberto 12 milhas adiante. Depois de semanas à deriva para Norte e Noroeste, Schmidt teve de concluir que estava prisioneiro da placa do gelo polar. Nunca conseguiria libertar-se. Com 5 membros da tripulação, começou a preparar o abandono do navio.
O naufrágio do Chelyuskin com a tripulação a fugir para o gelo.
A tripulação e os passageiros concordaram em construir o “camp Schmidt”, um acampamento sobre os flocos de gelo, isolados da terra firme. Não tinham rádio nem havia aviões por perto. A temperatura rondava -30º/-40º. Estava fora de causa o socorro em trenós. A própria aviação estava nos primórdios... Mesmo assim, um mês depois, em 13 de Abril, 92 homens, 10 mulheres e 2 crianças tinham sido finalmente transportadas por via aérea para local seguro - nem uma vida se perdeu. Os próprios "Chelyuskins" tinham à força de braços arranjado umas "pistas" para os aviões aterrarem no gelo !
Camp Schmidt
A resistência da equipa do Chelyuskin no acampamento e o seu resgate pelos pilotos pioneiros é reconhecido com um feito heróico dos exploradores russos do Ártico. Os pilotos fizeram 24 voos para conseguir salvar toda a gente. O resgate da expedição tornou-se um marco na história da Rússia, a aventura correu mundo e fez as primeiras páginas dos jornais.
Um dos Polykarpov P-5s equipados com skis que tiveram um papel chave no resgate da tripulação do Chelyuskin.
Os restos do navio foram descobertos em Setembro de 2006 à profundidade de 50 metros no mar de Choukchi, a 68º 16´ N , 173º 51´W.
- A Rota do Mar do Norte foi oficialmente declarada aberta em 1935, e a exploração comercial começou timidamente. Mas ainda não é navegável entre Fevereiro e Maio, sendo Agosto, Setembro e Outubro os melhor meses. A navegação exige sempre um quebra-gelos a abrir caminho aos navios mercantes, mas mesmo assim a tonelagem de carga transportada tem aumentado, até perto de 100 milhões em 2025. Com as sanções contra os petroleiros russos, o trânsito baixou de ~ 80 para ~ 40 navios /ano -
Um dos poderosos quebra-gelos nucleares, o Tajmyr, escolta um cargueiro ao longo da Rota do Nordeste.
Outra abordagem para servir as petrolíferas russas é a construção naval de navios-tanque com capacidade quebra-gelos, para operar nos mares de Kara, Pechora e Barents. Os custos são exorbitantes, mas Lukoil e Gazprom podem.
A fronteira de Kirkenes, no extremo da Noruega, com a Península de Kola onde abundam aeroportos com bombardeiros, portos com submarinos nucleares, bases de mísseis e radares, está sob permanente tensão, sujeita a provocações de todos os tipos. As ilhas Russas de Severnaya Zemlya, Franz Joeph Land e Novaya Zemlya são autênticos porta-aviões rodeados de submarinos. Longe vão os tempos em que protagonizaram a história das explorações navais no Ártico: hoje são buracos negros de poluição e armamento pesado.
Outro russo mas nascido dinamarquês, o cartógrafo Vitus Bering, foi contratado como Oficial da marinha russa por Pedro o Grande para navegar a Rota; ao comando do S. Gabriel, liderou a partir de 1725 duas grandes expedições onde explorou e mapeou a parte oriental da passagem no sentido contrário, a partir da península de Kamchatka, e a costa nordeste da Ásia. Rodeado de cientistas - geógrafos e cartógrafos, botânicos, zoólogos, etnógrafos, a bordo do navio Sviatoi Gavriil (São Gabriel) e depois no Sviatoi Piotr (São Pedro), veleiros ainda de casco em madeira, comandou as viagens em que descobriu ilhas (as Aleutas...), litorais, populações, novas espécies vegetais.
O seu nome é está nos mapas por ter sido atribuído ao famoso estreito de mar entre os dois continentes; mas também ao Mar de Bering, e no Golfo do Alasca ao Glaciar Bering, o maior da América do Norte, que se descarga no lago ... Vitus!
A grande expedição terminaria mal: o St, Peter's capitaneado por Bering naufragou na praia da ilha que hoje tem o seu nome, já ancorado, despedaçado por uma tempestade; além das vítimas que a tempestade afogou, o escorbuto dizimou depois parte da tripulação e o próprio Vitus Bering, em 1741. Só 46 marinheiros escaparam num bote feito dos restos de madeira, carregado de preciosas peles de lontra que iriam desencadear uma corrida ao leste da Sibéria.
Barents e Bering foram corajosos precursores, mas a Passagem pertence a
Nordenskjöld e o Vega
O vapor Vega junto ao cabo Cheluskin.
A Passagem do Nordeste não foi conseguida por ninguém até que o sueco Nils Nordenskjöld venceu o desafio no navio Vega , um veleiro reequipado com motor a vapor de 1872.
O Vega no final da viagem, na península de Chukotka.
A rota do Vega
O feito de Nordenskjöld foi amplamente festejado em Estocolmo.

O vapor Vega junto ao cabo Cheluskin.A Passagem do Nordeste não foi conseguida por ninguém até que o sueco Nils Nordenskjöld venceu o desafio no navio Vega , um veleiro reequipado com motor a vapor de 1872.
Partindo de Karlskrona em Junho de 1878, o Vega dobrou o Cabo Chelyuskin em Agosto, e depois de aprisionado no gelo ártico no fim de Setembro junto ao estreito de Bering, completou a travessia no verão seguinte.
O navio tinha uma máquina de 60 cavalos, estava equipado com velas e a velocidade máxima era de 7 nós (cerca de 2 Km/h!).
A rota do Vega
O feito de Nordenskjöld foi amplamente festejado em Estocolmo.
Este foi uma corajoso e gratificante empreendimento. Não se fizeram prisioneiros nem escravos, nem se estabeleceram colónias, houve apenas a pura descoberta de uma rota marítima e a recolha de dados científicos ao longo do caminho. A Suécia não celebra a expedição Vega com pompa e glória (como outros fazem), mas podia fazê-lo, pois pode ter orgulho na sua belíssima e luminosa vitória humana.

Medalha comemorativa da viagem de Nordenskjöld
Nos anos 1900, os primeiros quebra-gelos russos conseguiam navegar por étapas ao longo da Passagem, e na década de 1930 a Rota do mar do Norte, uma estrada marítima, foi oficialmente declarada pela USSR.
O poder soviético estava impaciente com os atrasos que impediam a prometida rota regular de carga e passageiros, o que seria uma vitória para o regime. O geofísico e veterano do ártico Otto Schmidt foi nomeado director do projecto Rota do Mar do Norte, desde Murmansk até Vladivostok, e em 1932, o quebra-gelos Sibiriakov, sob comando do capitão Vladimir Voronin , estava pronto para uma travessia da Passagem.
O Sibiriakov, veleiro e vapor de casco reforçado.
Embora o barco tenha sofrido sucessivas avarias, a viagem teve êxito: em apenas (!) 65 dias, o Sibiriakov foi de Arkhangelsk até ao Oceano Pacífico, sendo o primeiro navio de sempre a conseguir cumprir a rota da passagem do Nordeste numa só temporada, sem se abrigar num porto de Inverno.
Mas o Sibiriakov era um quebra-gelos, não um normal cargueiro. Para estabelecer comercialmente a Rota, era preciso melhor...
Embora o barco tenha sofrido sucessivas avarias, a viagem teve êxito: em apenas (!) 65 dias, o Sibiriakov foi de Arkhangelsk até ao Oceano Pacífico, sendo o primeiro navio de sempre a conseguir cumprir a rota da passagem do Nordeste numa só temporada, sem se abrigar num porto de Inverno.
Mas o Sibiriakov era um quebra-gelos, não um normal cargueiro. Para estabelecer comercialmente a Rota, era preciso melhor...

Entusiasmado com o sucesso, foi preparado então outro navio, o Chelyuskin, construído na Dinamarca em 1933, e com um poderoso motor de 2 500 cavalos, estrutura reforçada, e chapas de aço extra à proa. Poder à bruta. Seria comandado pelo medalhado camarada Otto Schmidt, um cientista e matemático nascido na Bielorússia e descendente de família Lituana; estudou em Kiev e acabou por aderir em grande ao aparelho soviético, membro de Comités e Comissariados, editor, professor e investigador na Universidade de Moscovo, acumulando cargos e distinções. Dedicou-se em 1929 e 30 a explorar as ilhas árticas da URSS, Franz Joseph Land e Severnaya Zemlya.
Finalmente em 1933, confiante de que o poderoso Chelyuskin abriria facilmente caminho através do gelo do Ártico e conseguiria uma viagem directa até ao estreito de Bering, Schmidt procedeu ao carregamento e embarque; com 100 passageiros (incluindo cientistas) e uma pesada carga, o navio deixou Murmansk e navegou facilmente boa parte da Rota até ser apanhado pelos campos de gelo em Setembro. Pelo caminho, os geógrafos foram mapeando a costa, os técnicos instalando estações de rádio (como dantes nós "plantávamos" padrões...)
A rota do Chelyuskin 1933-34 Por alturas do agora chamado Cabo Chelyuskin, o Capitão Voronin deu conta de que o barco não estava à altura das expectativas, e as condições de navegação pioravam rapidamente. A meio de Setembro, o Chelyuskin ia progredindo penosamente, procurando estreitas linhas de água, virando e oscilando com as camadas de gelo, apontando sempre a Leste.
Chegado ao mar da Sibéria Oriental, a 200 milhas do estreito de Bering , subitamente estacou sem se poder mexer mais, bloqueado por todos os lados na sólida camada de gelo, a poderosa maquinaria completamente impotente.
Por rádio, o capitão soube que havia mar aberto 12 milhas adiante. Depois de semanas à deriva para Norte e Noroeste, Schmidt teve de concluir que estava prisioneiro da placa do gelo polar. Nunca conseguiria libertar-se. Com 5 membros da tripulação, começou a preparar o abandono do navio.
O fim chegou em 13 de Fevereiro de 1934, quando uma montanha de gelo abriu um buraco de 40 pés no lado do navio, inundando as máquinas e caldeiras com água gelada. O barco levantou-se, por momentos ficou quase de pé na vertical, expeliu uma enorme nuvem de fumo e afundou - desapareceu numa água suja em remoinho. Aos gritos de "Todos para o gelo! Abandonem o navio!", o último homem saltara minutos antes...
A tripulação e os passageiros concordaram em construir o “camp Schmidt”, um acampamento sobre os flocos de gelo, isolados da terra firme. Não tinham rádio nem havia aviões por perto. A temperatura rondava -30º/-40º. Estava fora de causa o socorro em trenós. A própria aviação estava nos primórdios... Mesmo assim, um mês depois, em 13 de Abril, 92 homens, 10 mulheres e 2 crianças tinham sido finalmente transportadas por via aérea para local seguro - nem uma vida se perdeu. Os próprios "Chelyuskins" tinham à força de braços arranjado umas "pistas" para os aviões aterrarem no gelo !
Camp SchmidtA resistência da equipa do Chelyuskin no acampamento e o seu resgate pelos pilotos pioneiros é reconhecido com um feito heróico dos exploradores russos do Ártico. Os pilotos fizeram 24 voos para conseguir salvar toda a gente. O resgate da expedição tornou-se um marco na história da Rússia, a aventura correu mundo e fez as primeiras páginas dos jornais.
Um dos Polykarpov P-5s equipados com skis que tiveram um papel chave no resgate da tripulação do Chelyuskin.Os restos do navio foram descobertos em Setembro de 2006 à profundidade de 50 metros no mar de Choukchi, a 68º 16´ N , 173º 51´W.
- A Rota do Mar do Norte foi oficialmente declarada aberta em 1935, e a exploração comercial começou timidamente. Mas ainda não é navegável entre Fevereiro e Maio, sendo Agosto, Setembro e Outubro os melhor meses. A navegação exige sempre um quebra-gelos a abrir caminho aos navios mercantes, mas mesmo assim a tonelagem de carga transportada tem aumentado, até perto de 100 milhões em 2025. Com as sanções contra os petroleiros russos, o trânsito baixou de ~ 80 para ~ 40 navios /ano -
A Rússia dispõe agora de uma impressionante frota de navios quebra-gelos e de uma assustadora rede de bases militares, aéreas e navais, na costa e nas ilhas do Ártico.
As operações continuam a ser demasiado onerosas, gastando uma fatia importante do orçamento federal. Se o argumento oficial é de defesa e protecção para manter
a Rota sob controle exclusivo, a verdade é que quando se acumulam meios militares tão vastos a tentação para os usar agressivamente é grande. Não podem estar sempre parados, há que lhes dar uso.
A Europa está atenta às actividades marírimas e aéreas da Rússia no Ártico, que se aproximam demasiado da Escandinávia - sobretudo da Noruega -, da Gronelândia, das ilhas Svalbard.
Mais um exemplo da viciosa condição humana: depois de exemplos heróicos e gloriosos em expedições de descoberta marítima, de contactos com outros povos e outras terras, de vitórias contra as forças da Natureza, acabámos no pior da História da raça - a tentação da guerra.






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