Foi bem feito para mim, mas nunca aprendo. Estava fartinho desta minha vilória parola e caótica do Porto onde nada me faz querer sair de casa a não ser o mar, e quis retomar uma tradição de andarilho há muito interrompida. Achei que John Nelson na Gulbenkian a dirigir a Missa Solemnis seria motivo bastante - é coisa que agora a Casa da Música está nos antípodas de apresentar, centrada como anda em ninharias modernaças, pós-românticas ou barrocas de terceira ordem. Além disso, podia sempre frequentar o Jardim e a cafetaria de Ribeiro Telles, ou até meter-me de táxi a ver o que nunca vi, por exemplo, o B-MAD Art-Deco do proscrito Berardo.
O fiasco começou pela substituição à última hora do maestro John Nelson, em quem eu confiava para encher a sala de boa musicologia, pelo quase neófito Matthew Halls. Em boa verdade, estive quase para cancelar, e antes o tivesse feito; mas estava tudo pago e planeado.
Para ir, avião nem pensar, sou alérgico, toca a reservar o Alfa e um hotel barato e asseado ali pelas avenidas Viscondes. O concerto seria a 2 de Março, e poucos dias antes fico a saber da greve. GRRR. Não estava avisado, lixou-me logo o Alfa, tive de remarcar para serviços mínimos, com saída na horrível gare do Oriente em vez da cómoda e pacata Santa Apolónia.
A viagem correu lindamente, carruagem morninha, bar fechado, três horas foram passando. Sair na Gare do Oriente foi a descida aos infernos. Não há nada que funcione - elevadores, escadas rolantes, nada para descer com malas ao rés do chão. Correntes de ar gélidas às 6 da tarde por todo o espaço aberto, tudo fica longe, nem cafés de jeito há, abrigados. Chamado o Uber, julgávamos nós seria ao menos rápido, qual o quê: sucedem-se três mudanças por recusa do motorista, já somam 20 minutos e nós parados no Glaciar do Oriente; quando avisaram da Uber que tinha chegado, não vimos nada, e o homem não falava sequer inglês. percebemos vagamente que devia estar do outro lado... acabámos na fila dos táxis, eu a espirrar e com arrepios.
No Hotel, nem acreditava - 38.4 de febre, uma cachola de chumbo, garganta a picar. Mas porque é que acreditei que tinha direito a umas feriazitas ? Não tenho. Ficar em casa é a minha sorte, e grande sorte, casa é bom. Passei uma noite daquelas, a praguejar porque estou hiper e totalmente vacinado e de nada serviu para um bruto resfriado, ou Gripe A, ou lá o que foi; à força de benurons lá me levantei, somando cafés duplos, mais seca-narizes, mais rebuçados, e caminhei titubeante para a Gulbenkian. Ao menos que me levassem ao céu.
Ora o que aconteceu foi um purgatório. Não pelas tosses - até tive saudades das velhas tosses - nem sequer as minhas; nem pela orquestra, que tocou bem. A opção do maestro Matthew Halls e da direcção do côro de Inês Tavares Lopes foi fazer estardalhaço, mandar soprar forte em trombetas e esganiçar no monstruoso côro de quase 100. Nem a sala da Gulbenkian tem acústica que resista a tamanho chinfrim. Harnoncourt extasiava-se com esta obra litúrgica que é mais um hino, onde há momentos em que ele tinha de gerir quatro linhas melódicas ao mesmo tempo, um hiper-contraponto. Matthew Halls fez uma massa coral-orquestral de dinâmicas excessivas onde só se ouve uma linha. A Missa Solene de Beethoven, além de 'Solene', é muito meditativa, com momentos de intenso dramatismo mas também de recuo interior, de suavidade, de contenção. Foi tudo arrasado em fanfarra gloriosa, e no fim o público saltou, literalmente, ejectou-se no ar num frenesim de Bravos e uma aclamação desmesurada em vez de se recolher uns segundos no pedido implorado de "Pacem, Pacem".
Já ouvi muitas Missas Solenes, mas nunca tão bem mal-dirigida. Tenho ainda assim de salientar os solistas, portentosos - a sério! - porque se faziam ouvir bem acima do resto. Era um quarteto de respeito, belas vozes a quem foi pedida uma prestação sonora forte e que responderam com esmero. Já o coro, miserere vobis... Foi bem melhor a Missa que Olari Elts levou à Casa da Música !
A assistência não tinha nada de cosmopolita nem de tossidora, mas tinham como eu idade avançada; desconfio que eram pais, irmãos, tios e enteados de meninos e meninas do coro. Só assim se entende o entusiasmo acrítico. Quer isto dizer, portanto, que a Gulbenkian também acabou para mim. Pim.
Ah, antes do concerto tínhamos dado uma volta pelo jardim. Desgraça! Está todo todo em obras. É-se acompanhado de longos tapumes, grades e fitas zebradas. As alterações por causa do CAM deviam estar prontas há anos, mas sendo isto Portugal atrasou tudo para meados de 2024, e isto é uma daquelas previsões... Cinco anos , para reformular um jardim. O único cantinho que se salva é a cafetaria na Marquês de Sá da Bandeira, um minúsculo conforto.
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Não falo sequer do tempo sofrido no quarto de Hotel, eu todo avariado acima do pescoço, toneladas de lenços e sonos curtos. Falta-me a ida ao B-MAD de Alcântara, que vou ilustrar com fotografias. Fica para o próximo post.
Adeus, portanto, Lisboa, Gulbenkian e Alfa. Já foi tempo.




