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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Armadura da luz - texto bíblico da grande sinfonia coral de Mendelssohn


Não é todos os dias que cito aqui no Livro versos bíblicos ! Estes são da carta aos Romanos, cap. XIII, 12.

A noite está a acabar, o dia chega em breve
afastemos as obras da escuridão
e enverguemos a armadura da luz.

Foram estes, em alemão, que Mendelssohn usou na Sinfonia nº2, Lobgesang, para celebrar a 'Luz '. Mas atenção, aqui é louvada a Luz da Razão, do Iluminismo, pois o que Mendelssohn celebra são os 400 anos da Prensa Móvel de Gutemberg, e a explosão editorial de livros que lhe sucedeu.

Uma sinfonia/cantata em 11 andamentos para solistas, coro e orquestra, de 1840, que anos mais tarde viria a ser registada como Sinfonia nº 2. É uma obra grandiosa e de beleza empolgante que infelizmente poucas vezes tem sido levada ao palco com dignidade, embora haja boas gravações.

O coral "Der nacht is Vergangen" cantado na sinfonia é este:

der nacht ist vergangen der tag aber herbei kommen: 
so lasst uns ablegen die Werke der Finsternis
und anlegen die Waffen des Lichts.

Paavo Järvi dirige a Tonhalle de Zurique.

Talvez a melhor interpretação seja a de Riccardo Chailly; não me é permitido inserir o vídeo, mas deixo o 'link ':

Riccardo Chailly com a Gewandhaus Leipzig:
https://youtu.be/V18uiBni654?si=ctVoPhFgD5fIDpxz&t=2471

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Bónus:  O Dueto "Ich harrete des Herrn", um dos trechos mais conseguidos da Lobgesang, cantam Sonya Yoncheva e Regula Mühlemann, com a orquestra de Dresden.



sábado, 25 de outubro de 2025

'O Liberty thy choicest treasure' : luta pela liberdade segundo Handel / Morell


Na ópera Judas Maccabaeus de Handel, chamou-me a atenção esta quadra:

O liberty, thou choicest treasure
Seat of virtue, source of pleasure!
Life without thee knows no blessing,
No endearment worth caressing 

             Ó liberdade, mais precioso tesouro 
             Lugar da virtude, fonte de prazer! 
             A vida sem ti não conhece alegria 
             Nem afecto que peça carinhos.

Isto escreveu Thomas Morell, libretista de alguma das mais belas óperas de Handel, em 1747, exaltando a libertação da população da Judeia - os Israelitas - da ocupação Síria Helenística (= Império Selêucida) em 134 AC, a chamada Revolta dos Macabeus. Muito actual portanto. Ouçamos então O Liberty, em 3 versões:

Nuria Rial, Rolf Beck

Susan Gritton, uma soprano mais poderosa, com o King's Consort

Para uma versão 'fora de moda' com uma voz sublime à maneira antiga:
Janet Baker , com a English Chamber Orchestra, dir. Mackerras
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Já mais para o fim do Judas Maccabaeus, conseguida a vitória e a paz, Handel oferece um novo hino:

O Lovely peace

O lovely peace, with plenty crown'd, 
Come, spread thy blessings all around. 
Let fleecy flocks the hills adorn, 
And valleys smile with wavy corn. 
Let the shrill trumpet cease, nor other sound 
But nature's songsters wake the cheerful morn

          Ó paz querida, premiada de fartura,
          Vem, espalha as tuas graças em redor.
          Que os montes se adornem de rebanhos felpudos,
          E os vales sorriam com o milho a ondular.
          Que as trombetas se calem, e nenhum outro som
          Só o canto da natureza ao despertar a manhã.

Nuria Rial de novo, em dueto com Lucia Duchonova e com a Elb Barockorchester,  Rolf Beck 


Sarah Connolly, Rosemary Joshua
Uma versão mais pausada da Scottish Chamber Orchestra com William Christie



domingo, 12 de outubro de 2025

Livros e Discos para o Outono

O mundo está tenebroso, de candeias às avessas, mas a edição delivros e discos nem por isso: não faltam novidades empolgantes ou no mínimo sedutoras. O negócio das gravações de música clássica não parece mau, a ver por estes exemplos, mesmo que não renda tanto como a coqueluche Taylor Swift.

Discos CD

Haydn 2032 , volume No.17


Giovanni Antonini,  Dmitri Smirnov
(violino), Orq. Câmara de Basileia 

É daqueles de que nunca se diz bem de mais: fabuloso. Tudo - orquestra, direcção, dinâmica, detalhe, solista (violino). Ainda se publicam discos assim ?!!! Que gosto. Direitinho para o meu Top. Antonini faz milagres com os basilienses. Deixo só o andante famoso do HOB VIIA:I , fatto Per il Luigi , escrito para o violinista Luigi Tomasini de Pesaro. 

E depois, Haydn era mesmo genial. A prova está aqui, esqueçamaos a Oxford, Urso, Militar e outros pastelões desses. Este é o Haydn mais precioso, criativo, bem disposto, feliz mesmo, como o das famosas nº 6-7-8. Antonini dirige com um prazer tão intenso, uma atenção, um empenho, quase lúbrico. A Sinfonia nº 13 é um mundo. Em 1763 !!! Quando Haydn dirigia os seus próprios concertos em palco, havia momentos especiais - uma melodia, um contraponto em flauta, qualquer detalhe - que o público adorava; Haydn sorria de contente e o público batia palmas, era costume nessa altura bater palmas sempre que se ouvia um trecho favorito durante um concerto. Era engraçada, essa cumplicidade entre compositor e público, que se saudavam mutuamente em plena execução.

Handel, Judas Maccabaeus

Laurence Cummings, Orq. Festival de Göttingen, coro da NDR

Sim, sim ! Laurence Cummnings, o 'nosso' director da orquestra barroca da CDM. 

Neste disco, Cummings voa um pouco mais alto com a orquestra do Festival de Göttingen,  solistas medianos, mas a sua direcção é cuidada, seguindo os pressupostos da música de Handel, mas sem instrumentios da época. No global, é a melhor gravação desta excelente obra de Handel: um oratório - quase ópera - para celebrar metaforicamente a vitória na batalha de Culloden *.

Dois momentos-chave da obra: 

Coro: See the conquering hero, que Handel retoma no ano seguinte em Joshua; ouçamos com Laurence Cummings:




Dueto: O lovely peace

Cantam em celebração o Homem e a Mulher israelitas. Não consegui a versão dirigida por Cummings, mas está ao mesmo nível esta que conta com as excelentes solistas Nuria Rial e Lucia Duchoňová, e com a orquestra barroca de Hamburgo:

É um belo hino à Paz, um entre vários que Handel compôs, e à paz justamente do povo judaico ! O libretto de Judas Maccabaeus conta a história da resistência dos Judeus aos conquistadores Sírios do Império Selêucida de Antióquia, em 169 AC, que invadiram e arrasaram o Reino da Judeia. Judas Maccabaeus foi o clérigo e general que comandou a revolta. No século II antes de Cristo, notem bem.

O episódio histórico e o personagem de Judas Macccabaeus fizeram sempre parte do imaginário cristão. As récitas em Covent Garden foram o maior sucesso de Handel, depois do Messias.

Para comparar com a mais clássica e pausada versão de William Christie, com as sublimes vozes de Sarah Connolly e Rosemary Joshua.


Dido e Aeneas , Purcell 

Joyce Didonato, Fatma Said com Il Pomo d'Oro, dir. Emelyanychev

Nem diria que esperava grande coisa de uma Dido cantada por Joyce Didonato; engano: esta gravação veio marcar uma nova referência, pela frescura interpretaiva da orquestra e pelo naipe insuperável de vozes. Toda a gente (revistas, críticos) a coloca como uma das melhores do ano. Como se diaz muitas vezes, parece que ouvimos a obra de Purcell perla primeira vez, tal é a atenção aos detalhes e a pureza do som; finalmente uma gravação "da época" com peso orquestral e sem correrias, com poucas excepções. "Trough the hills", por exemplo, resplandece de vigorosa alegria. Um regalo de audição: prenda de Natal aconselhada.

Coro: "Cupid only throws the dart" :

Fatma Said, "Pursue thy conquest, love" :


Livros

Ainda à espera de ser lidos:

Ce que prend la Mer, de Manon Fargetton

A jovem Maxine, ao encontrar memórias inesperadas de um pai distante, parte à procura de respostas numa pequena ilha escocesa das Hébridas Interiores, a sul de Oban. A ilha, o mar, os ferries, a costa, os cais, um jardim improvável... O relato da viagem, entrecortado de regressos ao passado, e onde não falta a música - o pai era violoncelista.

Orkney, Amy Sackville

Continuando nas minhas míticas ilhas escocesas, 'Orkney' é um romance invulgar, mesmo estranho, que começa como conto de fadas algo folclórico e vai acabar fragmentado num desconcertante negrume, marcado pelo ritmo das ondas, das correntes, das marés. Desde o suspeito New York Times até ao insuspeito Times Literary Supplement, elogios à escrita de Amy Sackville.

Kairos, Jenny Erpenbeck

Situado em Berlim, 1986, em plena crise das Alemanhas, uma história de ciúme. engano, crueldade, polícia política, onde vive a História e memória cultural de uma época de crise. No topo das escolhas do Spectator e New York Times.

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* Em 1746, perto de Inverness na Escócia, travou-se uma brutal batalha em que o duque de Cumberland derrotou os jacobitas que, a partir da Escócia, queriam restaurar a dinastia Stuart, apoiada por França.


terça-feira, 3 de junho de 2025

À Chloris, por Léa Desandre e Thomas Dunford

As canções de Reynaldo Hahn marcaram os anos de paz entre duas guerras conhecidos por Belle Époque - entre a guerra Franco-Prussa e a 1ª Grande Guerra. Foi uma época de bem-estar e esperança no futuro, de renascimento cultural e de confiança na humanidade; pensava-se até na utopia dos Estados Unidos da Europa.

Reynaldo Hahn ganhou prestigio como compositor de canções 'populares' mas 'cultas', que o público feminino adorava. Musicava sobre poemas simbolistas - Verlaine, Daudet, Victor Hugo ...

Este À Chloris faz parte do programa a apresentar pela Soprano Léa Désandre e o alaúdista Thomas Dunford no FIME de Espinho a 28 de Junho.

 


Outra canção francesa belíssima, esta de Barbara:

domingo, 4 de agosto de 2024

A 'Allemande' da Suite francesa nº4 de Bach, em audição comparada

As suites francesas de Bach deviam ser ensinadas na escola, a sua estrutura, a base tonal, o contraponto, os conceitos de harmonia, melodia e ritmo, e sobretudo a habilidade criativa do compositor; Património da Humanidade é uma classificação bem aplicada.

Escolhi a Allemande da suite BWV 815 como poderia ter escolhido outras; acontece que por acaso (ou)vi no Mezzo Live David Fray interpretando em 'encore' esta peça e fiquei em êxtase, mesmo já a tendo ouvido algumas dezenas de vezes. 

A Allemande começa com arpeggios em crescente que gradualmente divergem harmonicamente. O ritmo e as pausas são parte essencial do estilo de cada interpretação: quem está ao piano define um modo, a interpretação é uma recriação. Começo por uma bem antiga, quando ainda não se tinha generalizado o estudo histórico para aproximar o que seria o estilo interpretativo da época.

Sviatoslav Richter, consegue intensidade com rapidez, em 2.20 min,

András Schiff é brilhante mas parece que ligou o turbo e corre pelas teclas vertiginoso, sem pausas: 2.13 !
Gosto muito de Murray Perahia, pausado e meditativo, já próximo do ideal para piano com o tempo de 2.50 min

Agora no cravo: Pierre Hantai, a perfeição é eterna... 3.23, tempo ideal.

O cravista Richard Egarr é lento mas majestoso, em 3.34 !




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Em extra, outro exemplo, a Gigue da Suite nº5 BWV 816 com András Schiff:

domingo, 1 de outubro de 2017

Dia da Música - algumas audições que perduram.


À falta de um concerto como devia ser, os discos que vieram cá ter recentemente e vão sendo ouvidos - alguns merecem bem várias audições.


Vivaldi
em destaque em duas gravações:
-- sonatas para flauta solo, com Lorenzo Cavasanti acompanhado  no baixo contínuo (violoncelo, cravo ou orgão).(Arcana, 2013)
-- Árias e Concertos, com a mazzo Kristina Hammarström e o Concerto de' Cavalieri. A voz é muito precisa e bonita, a ária Di Verde Ulivo incomparável. (Sony/HM, 2014).

-- para quem gosta de clarinete, um disco magnífico de Sharon Kam a interpretar Mendelssohn, Spohr, Weber e ... Rossini !

-- dos irmãos Wranitzky (Vranický), violinistas e compositores da Morávia (actual Rep. Checa), três obras da escola de Viena, onde praticaram com Haydn e Mozart. Mais notável o concerto para violoncelo de Paul (Pavel), com a solista Chiara Enderle; obras dirigidas por Howard Griffiths.

-- o incomparável piano de Murray Perahia nas suites francesas de Bach, disco justamente premiado pela Gramophone que nunca cansa ouvir; destaco as nº 4, 5 e 6, do segundo disco.

-- Mozart por Alessandrini com o piano de Olivier Cave (concertos nº 5,13,25), muito à italiana; uma refrescadela das interpretações tradicionais que pode não ser ao gosto de todos mas a que não falta moto e brio. (alfa, 2016)

-- clássicos por um Mestre: a 2ª e a 6ª de Beethoven com Bernard Haitink a dirigir a LSO; a novidade está 'só' na perfeição. O som digital (2006, Barbican) ajuda.

Discos vocais:


-- obviamente Didonato, em mais um prémio Gramophone no já celebre In War and Peace, que virá à Gulbenkian em 2018.

-- a Esther dos Dunedin Consort, que revitalizaram uma ópera algo esquecida de Handel, recheada de árias e coros como só ele sabe. Já aqui falei desta gravação.

-- finalmente, o disco editado na Hyperion pelo barítono Matthew Rose com a orquestra Arcangelo - espantosa orquestra ! uma revelação - "Arias for Benucci", com obras de Paisiello, Salieri, e sobretudo Mozart, ex.  Il core vi dono. Uma voz e uma dinâmica fantásticas, sinto-me frente ao palco ao ouvir o disco.


Em vídeo, só tenho ouvido ( e basta, é fabuloso) o DVD em que Harnoncourt dirige o Concentus Musicus em obras litúrgicas de Mozart. As vozes (Sylvia Schwarz!), o côro, são coisa angelical, mas o som da orquestra é mais que isso, é divino ! Foi no festival de Salzburgo, em 2012.

Tenho que encerrar com música, claro; primeiro, do CD de sonatas para flauta de Vivaldi por Cavasanti:


Das suites francesas por Perahia, a Gigue da nº 5:



Agora ao vivo com Sharon Kam a exibir boa pirotecnia no clarinete no op.74 de Weber (III):



Mas outra coisa além de talento é atingir o sublime, como é agora caso na música sacra de Mozart por Harnoncourt e o Concentus Music em 2012. Fica aqui só o vídeo promocional com uma série de excertos:




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Guimarães Jazz 2016, + Baldych & Lien Trio


Este ano o 'GuiJazz' traz no último dia dois concertos que prometem valer a pena:

Sábado 19 de Novembro

Pequeno Auditório / 17h00
Adam Bałdych & Helge Lien Trio, “Bridges”

Grande Auditório / 22h00
Charlie Haden´s Liberation Music Orchestra
Com direcção de Carla Bley



http://www.ccvf.pt/

Gosto dos Adam Baldych & Helge Lien; "Dreamer" tem um alegre som celta, norte-da-Europa cool, que me agrada.



E este muito soft "Karina", com o violino em crescente ? 




Lá estarei.