Não é todos os dias que cito aqui no Livro versos bíblicos ! Estes são da carta aos Romanos, cap. XIII, 12.
A noite está a acabar, o dia chega em breve afastemos as obras da escuridão e enverguemos a armadura da luz.
Foram estes, em alemão, que Mendelssohn usou na Sinfonia nº2, Lobgesang, para celebrar a 'Luz '. Mas atenção, aqui é louvada a Luz da Razão, do Iluminismo, pois o que
Mendelssohn celebra são os 400 anos da Prensa Móvel de Gutemberg, e a
explosão editorial de livros que lhe sucedeu.
Uma sinfonia/cantata em 11 andamentos para solistas, coro e
orquestra, de 1840, que anos mais tarde viria a ser registada como Sinfonia
nº 2. É uma obra grandiosa e de beleza empolgante que infelizmente poucas vezes tem sido levada ao palco com dignidade, embora haja boas gravações.
O coral "Der nacht is Vergangen" cantado na sinfonia é este:
der nacht ist vergangen der tag aber herbei kommen: so lasst uns ablegen die Werke der Finsternis und anlegen die Waffen des Lichts.
Paavo Järvi dirige a Tonhalle de Zurique.
Talvez a melhor interpretação seja a de Riccardo Chailly; não me é permitido inserir o vídeo, mas deixo o 'link ':
Bónus: O Dueto "Ich harrete des Herrn", um dos trechos mais conseguidos da Lobgesang, cantam Sonya Yoncheva e Regula Mühlemann, com a orquestra de Dresden.
Na ópera Judas Maccabaeus de Handel, chamou-me a atenção esta quadra:
O liberty, thou choicest treasure
Seat of virtue, source of pleasure!
Life without thee knows no blessing,
No endearment worth caressing
Ó liberdade, mais precioso tesouro
Lugar da virtude, fonte de prazer!
A vida sem ti não conhece alegria
Nem afecto que peça carinhos.
Isto escreveu Thomas Morell, libretista de alguma das mais belas óperas de Handel, em 1747, exaltando a libertação da população da Judeia - os Israelitas - da ocupação Síria Helenística (= Império Selêucida) em 134 AC, a chamada Revolta dos Macabeus. Muito actual portanto. Ouçamos então O Liberty, em 3 versões:
Nuria Rial, Rolf Beck
Susan Gritton, uma soprano mais poderosa, com o King's Consort
Para uma versão 'fora de moda' com uma voz sublime à maneira antiga:
Janet Baker , com a English Chamber Orchestra, dir. Mackerras
O mundo está tenebroso, de candeias às avessas, mas a edição delivros e discos nem por isso: não faltam novidades empolgantes ou no mínimo sedutoras. O negócio das gravações de música clássica não parece mau, a ver por estes exemplos, mesmo que não renda tanto como a coqueluche Taylor Swift.
Discos CD
Haydn 2032 , volume No.17
Giovanni Antonini, Dmitri Smirnov (violino), Orq. Câmara de Basileia
É daqueles de que nunca se diz bem de mais: fabuloso. Tudo - orquestra, direcção, dinâmica, detalhe, solista (violino). Ainda se publicam discos assim ?!!! Que gosto. Direitinho para o meu Top. Antonini faz milagres com os basilienses. Deixo só o andante famoso do HOB VIIA:I , fattoPer il Luigi , escrito para o violinista Luigi Tomasini de Pesaro.
E depois, Haydn era mesmo genial. A prova está aqui, esqueçamaos a Oxford, Urso, Militar e outros pastelões desses. Este é o Haydn mais precioso, criativo, bem disposto, feliz mesmo, como o das famosas nº 6-7-8. Antonini dirige com um prazer tão intenso, uma atenção, um empenho, quase lúbrico. A Sinfonia nº 13 é um mundo. Em 1763 !!! Quando Haydn dirigia os seus próprios concertos em palco, havia momentos especiais - uma melodia, um contraponto em flauta, qualquer detalhe - que o público adorava; Haydn sorria de contente e o público batia palmas, era costume nessa altura bater palmas sempre que se ouvia um trecho favorito durante um concerto. Era engraçada, essa cumplicidade entre compositor e público, que se saudavam mutuamente em plena execução.
Handel, Judas Maccabaeus
Laurence Cummings, Orq. Festival de Göttingen, coro da NDR
Sim, sim ! Laurence Cummnings, o 'nosso' director da orquestra barroca da CDM.
Neste disco, Cummings voa um pouco mais alto com a orquestra do Festival de Göttingen, solistas medianos, mas a sua direcção é cuidada, seguindo os pressupostos da música de Handel, mas sem instrumentios da época. No global, é a melhor gravação desta excelente obra de Handel: um oratório - quase ópera - para celebrar metaforicamente a vitória na batalha de Culloden *.
Dois momentos-chave da obra:
Coro: See the conquering hero, que Handel retoma no ano seguinte em Joshua; ouçamos com Laurence Cummings:
Dueto:O lovely peace
Cantam em celebração o Homem e a Mulher israelitas. Não consegui a versão dirigida por Cummings, mas está ao mesmo nível esta que conta com as excelentes solistas Nuria Rial e Lucia Duchoňová, e com a orquestra barroca de Hamburgo:
É um belo hino à Paz, um entre vários que Handel compôs, e à paz justamente do povo judaico ! O libretto de Judas Maccabaeus conta a história da resistência dos Judeus aos conquistadores Sírios do Império Selêucida de Antióquia, em 169 AC, que invadiram e arrasaram o Reino da Judeia. Judas Maccabaeus foi o clérigo e general que comandou a revolta. No século II antes de Cristo, notem bem.
O episódio histórico e o personagem de Judas Macccabaeus fizeram sempre parte do imaginário cristão. As récitas em Covent Garden foram o maior sucesso de Handel, depois do Messias.
Para comparar com a mais clássica e pausada versão de William Christie, com as sublimes vozes de Sarah Connolly e Rosemary Joshua.
Dido e Aeneas , Purcell
Joyce Didonato, Fatma Said com Il Pomo d'Oro, dir. Emelyanychev
Nem diria que esperava grande coisa de uma Dido cantada por Joyce Didonato; engano: esta gravação veio marcar uma nova referência, pela frescura interpretaiva da orquestra e pelo naipe insuperável de vozes. Toda a gente (revistas, críticos) a coloca como uma das melhores do ano. Como se diaz muitas vezes, parece que ouvimos a obra de Purcell perla primeira vez, tal é a atenção aos detalhes e a pureza do som; finalmente uma gravação "da época" com peso orquestral e sem correrias, com poucas excepções. "Trough the hills", por exemplo, resplandece de vigorosa alegria. Um regalo de audição: prenda de Natal aconselhada.
Coro: "Cupid only throws the dart" :
Fatma Said, "Pursue thy conquest, love" :
Livros
Ainda à espera de ser lidos:
Ce que prend la Mer, de Manon Fargetton
A jovem Maxine, ao encontrar memórias inesperadas de um pai distante, parte à procura de respostas numa pequena ilha escocesa das Hébridas Interiores, a sul de Oban. A ilha, o mar, os ferries, a costa, os cais, um jardim improvável... O relato da viagem, entrecortado de regressos ao passado, e onde não falta a música - o pai era violoncelista.
Orkney, Amy Sackville
Continuando nas minhas míticas ilhas escocesas, 'Orkney' é um romance invulgar, mesmo estranho, que começa como conto de fadas algo folclórico e vai acabar fragmentado num desconcertante negrume, marcado pelo ritmo das ondas, das correntes, das marés. Desde o suspeito New York Times até ao insuspeito Times Literary Supplement, elogios à escrita de Amy Sackville.
Kairos, Jenny Erpenbeck
Situado em Berlim, 1986, em plena crise das Alemanhas, uma história de ciúme. engano, crueldade, polícia política, onde vive a História e memória cultural de uma época de crise. No topo das escolhas do Spectator e New York Times.
* Em 1746, perto de Inverness na Escócia, travou-se uma brutal batalha em que o duque de Cumberland derrotou os jacobitas que, a partir da Escócia, queriam restaurar a dinastia Stuart, apoiada por França.
As canções de Reynaldo Hahn marcaram os anos de paz entre duas guerras conhecidos por Belle Époque - entre a guerra Franco-Prussa e a 1ª Grande Guerra. Foi uma época de bem-estar e esperança no futuro, de renascimento cultural e de confiança na humanidade; pensava-se até na utopia dos Estados Unidos da Europa.
Reynaldo Hahn ganhou prestigio como compositor de canções 'populares' mas 'cultas', que o público feminino adorava. Musicava sobre poemas simbolistas - Verlaine, Daudet, Victor Hugo ...
EsteÀ Chloris faz parte do programa a apresentar pela Soprano Léa Désandre e o alaúdista Thomas Dunford no FIME de Espinho a 28 de Junho.
As suites francesas de Bach deviam ser ensinadas na escola, a sua estrutura, a base tonal, o contraponto, os conceitos de harmonia, melodia e ritmo, e sobretudo a habilidade criativa do compositor; Património da Humanidade é uma classificação bem aplicada.
Escolhi a Allemande da suite BWV 815 como poderia ter escolhido outras; acontece que por acaso (ou)vi no Mezzo LiveDavid Fray interpretando em 'encore' esta peça e fiquei em êxtase, mesmo já a tendo ouvido algumas dezenas de vezes.
A Allemande começa com arpeggios em crescente que gradualmente divergem harmonicamente. O ritmo e as pausas são parte essencial do estilo de cada interpretação: quem está ao piano define um modo, a interpretação é uma recriação. Começo por uma bem antiga, quando ainda não se tinha generalizado o estudo histórico para aproximar o que seria o estilo interpretativo da época.
Sviatoslav Richter, consegue intensidade com rapidez, em 2.20 min,
András Schiff é brilhante mas parece que ligou o turbo e corre pelas teclas vertiginoso, sem pausas: 2.13 !
Gosto muito de Murray Perahia, pausado e meditativo, já próximo do ideal para piano com o tempo de 2.50 min
Agora no cravo: Pierre Hantai, a perfeição é eterna... 3.23, tempo ideal.
O cravista Richard Egarr é lento mas majestoso, em 3.34 !
---------------------------------------------------------------------- Em extra, outro exemplo, a Gigue da Suite nº5 BWV 816 com András Schiff:
À falta de um concerto como devia ser, os discos que vieram cá ter recentemente e vão sendo ouvidos - alguns merecem bem várias audições.
Vivaldi em destaque em duas gravações:
-- sonatas para flauta solo, com Lorenzo Cavasanti acompanhado no baixo contínuo (violoncelo, cravo ou orgão).(Arcana, 2013)
-- Árias e Concertos, com a mazzo Kristina Hammarström e o Concerto de' Cavalieri. A voz é muito precisa e bonita, a ária Di Verde Ulivo incomparável. (Sony/HM, 2014).
-- para quem gosta de clarinete, um disco magnífico de Sharon Kam a interpretar Mendelssohn, Spohr, Weber e ... Rossini !
-- dos irmãos Wranitzky (Vranický), violinistas e compositores da Morávia (actual Rep. Checa), três obras da escola de Viena, onde praticaram com Haydn e Mozart. Mais notável o concerto para violoncelo de Paul (Pavel), com a solista Chiara Enderle; obras dirigidas por Howard Griffiths.
-- o incomparável piano de Murray Perahia nas suites francesas de Bach, disco justamente premiado pela Gramophone que nunca cansa ouvir; destaco as nº 4, 5 e 6, do segundo disco.
-- Mozart por Alessandrini com o piano de Olivier Cave (concertos nº 5,13,25), muito à italiana; uma refrescadela das interpretações tradicionais que pode não ser ao gosto de todos mas a que não falta moto e brio. (alfa, 2016)
-- clássicos por um Mestre: a 2ª e a 6ª de Beethoven com Bernard Haitink a dirigir a LSO; a novidade está 'só' na perfeição. O som digital (2006, Barbican) ajuda.
Discos vocais:
-- obviamente Didonato, em mais um prémio Gramophone no já celebre In War and Peace, que virá à Gulbenkian em 2018.
-- a Esther dos Dunedin Consort, que revitalizaram uma ópera algo esquecida de Handel, recheada de árias e coros como só ele sabe. Já aqui falei desta gravação.
-- finalmente, o disco editado na Hyperion pelo barítono Matthew Rose com a orquestra Arcangelo - espantosa orquestra ! uma revelação - "Arias for Benucci", com obras de Paisiello, Salieri, e sobretudo Mozart, ex. Il core vi dono. Uma voz e uma dinâmica fantásticas, sinto-me frente ao palco ao ouvir o disco.
Em vídeo, só tenho ouvido ( e basta, é fabuloso) o DVD em que Harnoncourt dirige o Concentus Musicus em obras litúrgicas de Mozart. As vozes (Sylvia Schwarz!), o côro, são coisa angelical, mas o som da orquestra é mais que isso, é divino ! Foi no festival de Salzburgo, em 2012.
Tenho que encerrar com música, claro; primeiro, do CD de sonatas para flauta de Vivaldi por Cavasanti:
Das suites francesas por Perahia, a Gigue da nº 5:
Agora ao vivo com Sharon Kam a exibir boa pirotecnia no clarinete no op.74 de Weber (III):
Mas outra coisa além de talento é atingir o sublime, como é agora caso na música sacra de Mozart por Harnoncourt e o Concentus Music em 2012. Fica aqui só o vídeo promocional com uma série de excertos:
Este ano o 'GuiJazz' traz no último dia dois concertos que prometem valer a pena:
Sábado 19 de Novembro
Pequeno Auditório / 17h00 Adam Bałdych & Helge Lien Trio, “Bridges” Grande Auditório / 22h00 Charlie Haden´s Liberation Music Orchestra Com direcção de Carla Bley