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domingo, 7 de janeiro de 2024

Esperança ? - Denise Levertov


       For the New Year

                   I have a small grain of hope -
                   one small crystal that gleams
                   clear colors out of transparency.

                   I need more.

                   I break off a fragment
                   to send you.

                   Please take
                   this grain of a grain oh hope
                   so that mine won't shrink.

                   Please share your fragment
                   so that yours will grow.

                   Only so, by division,
                   will hope increase,

                   like a chump of irises, which will cease to flower
                   unless you distribute
                   the clustered roots, unlikely source -
                   clumsy and earth-covered -
                   of grace.


                                             Denise Levertov, 1981

 
[tradução minha]

Para o Ano Novo

   Tenho um grãozinho de esperança
   um pequeno cristal que cintila
   cores claras da sua transparência.

   Sinto falta de mais.

   Parto um pequeno fragmento
   para te enviar.

   Por favor aceita
   este grão de um grão de esperança
   para que o meu não encolha.

   Por favor partilha o teu fragmento
   para que possa germinar.

   Só assim, distribundo-se,
   pode a esperança aumentar,

   como um tufo de lírios, que deixará de florescer
   a menos que se distribuam
   as raízes aglomeradas, fonte improvável -
   grosseiras e cobertas de terra -
   da graça.

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Denise Levertov (1923–1997), poetisa inglesa, nascida de pai judeu russo e mãe irlandesa.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Larysa Petrivna, a poetisa que conforta num boulevard de Moscovo

 ------  baseado num artigo de Benoît Vitkine no Le Monde de 28 de Janeiro  ------

Larysa Petrivna é o nome verdadeiro da poetisa ucraniana Lesya, Леся Українка (1871-1913), que ainda é lembrada em Moscovo numa estátua situada numa avenida nobre e central, ainda denominada 'Ukrainska Boulevard'. Não será por muito tempo, parece-me, pois é ali que alguns cidadãos vão depositar flores na derradeira manifestação possível de solidariedade em Moscovo. Flores, mas não só: peluches, brinquedos, velas acesas, aos pés da Lesya dos ucranianos, promovida quase a divindade.


Desda o bombardeamento de Dnipro a 14 de Janeiro, este passou a ser o ponto de encontro dos que se opoem à "operação especial". Escreve Benoît Vitkine:

"É um exercício terrivelmente solitário. Uma mulher avança, tem dois cravos vermelhos na mão. Ajoelha-se demoradamente, e quando se levanta tem os olhos inchados de lágrimas e a respiração ofegante. Nada de teatral, não é representação. As únicas testemunhas visíveis são dois polícias a alguns metros, num veículo de lâmpada rotativa acesa. A respiração ofegante é da dor e do medo."

Le Monde, 28/1/2023

"Quando se dá conta de nós jornalistas, precipita-se com o smartphone estendido: 'tirem-me uma foto, para eu mostrar aos que não acreditam que ainda é possível.' (...) É no filho que ela pensa ao depositar as flores: 'não quero que ele viva num país parecido com o Irão, não quero que crianças ucranianas da idade dele continuem a morrer. '(...) 'Eu tinhe de vir, também por mim, para me poder respeitar, para que o mundo saiba que nem todos os russos apoiam este horror.' Ninguém sabe quem levou o primeiro raminho; depois desse, muitos outros se seguiram , apesar das detenções. Todas as noites, as flores desaparecem, levadas por desconhecidos; cada dia, a pequena montanha de flores é reconstituída."


" Numa só hora, neste dia 24 de Janeiro, quatro pessoas vieram depositar ramos, e depois retiraram-se; outras hesitam; uma mulher aproxima-se e recua ao ver a polícia; um jovem dá várias voltas à estátua, como que a apalpar o terreno; uma mulher mais corajosa pergunta em voz alta: 'temos direito a colocar flores ?' O polícia encolhe os ombros."


Sobre Lesya:

http://athena.pt/2021/05/14/a-potente-voz-de-lesya-ukrainka-ukrainka

https://www.unesco.org/en/articles/lesia-ukrainka-path-love-fight-and-hope


Sapho


No topo da rocha, sobre as ondas 
uma bela jovem se queda
coroada de refulgentes louros 
tem nas mãos a melódica lira

E é uma canção de tristeza
que ela agora na lira acompanha 
ao coração lhe sobe uma  mágoa 
que lhe pesa na voz ao cantar

Fala da majestosa glória
Lembra a beleza do mundo, 
a gente perversa, o amor
 e a traição, os anos de lástima.

Esperança e desespero... a jovem
dilacera a coroa de louros
e no clamor das ondas do mar 
encontra o fim da canção.
                                 
                                                       Lesya Ukrainka, 1884

[tradução combinando traduções francesa, inglesa e espanhola]

A escravidão ainda é mais ignóbil quando é livre.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Milagre, precisa-se agora, caro Walt Whitman

Milagres

Ora bem, quem dá tudo por um milagre?
Por mim, não conheço senão milagres,
quer caminhe pelas ruas de Manhattan,
quer levante a vista sobre os telhados em direcção ao céu,
ou vá de pés nus ao longo da praia pela orla da água,
ou me abrigue sob as árvores nos bosques,
ou fale durante o dia com uma pessoa que amo,
ou durma na cama à noite com uma pessoa que amo,
ou me sente à mesa para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos à minha frente na carruagem,
ou veja as abelhas em volta da colmeia no fim de uma manhã de Verão,
ou animais pastando nos campos,
ou pássaros ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha do sol-pôr, ou das estrelas que cintilam tão quietas e brilhantes,
ou o requintado, delicado, fino contorno da lua nova na Primavera,
estes e outros, um e todos, são para mim milagres,
um todo referente, ainda que cada um distinto e no seu lugar.

Para mim cada hora da luz e das trevas é um milagre,
Cada polegada cúbica de espaço é um milagre,
Cada metro quadrado da superfície da Terra se estende em milagres,
Cada jarda do seu interior está apinhada do mesmo.

Para mim o mar é um milagre contínuo:
Os peixes nadando - as rochas - o fluir das ondas -  os navios com homens dentro,
Que milagres existem mais estranhos?


                                                                   Walt Whitman, in "Leaves of Grass"


 

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Glicínias em festa e nós em luto


A nossa retirada das ruas trouxe muita cantoria de pássaros, é verdade, esta Primavera desastrosa conta pelo menos um ponto a favor. Podia dizer que não há ninguém para os ovir, mas não é verdade - não só os ouço da janela e da varanda, como os ouço durante o 'passeio higiénico' que as autoridades virais (eh eh) autorizam. Melros, então, é uma festa.

Já o mesmo se não pode dizer das flores. Estão todas a abrir, promete ser uma primavera colorida e perfumada, mas sem poder visitar parques e jardins é uma tristeza. Ora acontece que o Parque da Cidade tem estado aberto pela porta das traseiras, que nem toda a população conhece; dá acesso à mercearia Seramota, que já aqui mostrei, e daí acesso a todo o Parque.

Consegui assim visitar o cantinho das glicínias, mesmo 'vedado' com fita para evitar abusos. Ficam aqui fotos a ver se alegram um bocadinho esta recta final do confinamento, pois parece que vamos passar ao estado todos-na-rua-de-máscara. E todos-separados-por-dois-metros. E nada de festivais, futebol, bares nocturnos e são-joões. Que é o estado que devia ter vigorado desde início.

Valham-nos as glicínias, mesmo que vindas da China.




Sua excelência o gato do parque, indiferente a pandemias, satisfeito no seu trono olhando um reino agora vazio de gente.




quarta-feira, 20 de março de 2019

'One Art', de Elizabeth Bishop - a arte de perder


ONE ART

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Elizabeth Bishop



                               É fácil dominar a arte de perder
                               Tantas coisas parecem ter vontade
                               de perder, que se perdem sem doer.

                               Perde cada dia alguma coisa. Aceita nem sequer
                               das chaves da porta saber, desvanecer uma hora.
                               É facil dominar a arte de perder.

                               Depois pratica perdas graves, a irromper:
                               lugares, e nomes, e sítios aonde querias
                               viajar. Que se perdem sem doer.

                               Perdi o relógio da Mãe. E querem ver?
                               A mais querida de três casas foi-se.
                               É fácil dominar a arte de perder.

                               Perdi duas cidades, lindas. E, a acrescer
                               propriedades, dois rios, um continente.
                               Sinto a falta, mas não me fez doer.

                               - Mesmo se a ti perder (a voz, um gesto qualquer
                               que adoro) não estarei mentindo. É evidente
                               que é fácil dominar a arte de perder
                               embora possa mesmo (Escreve!) sim, doer.

                                                                                        [tradução minha]



segunda-feira, 28 de março de 2016

tyger tyger



Tyger tyger, burning bright
In the forests of the night,

In what distant deeps or skies        
Burnt the fire of thine eyes?
           William Blake



Tigre, tigre, luz ardente
pela noite num repente,

Em que abismo ou céu distante
Arde esse olhar faíscante ?



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O medo da fera. Onde isso vai. Hoje o medo é outro, as feras somos nós, in the streets the night.

Lamento, mas não foi uma boa Páscoa.