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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Top 2017 Livro de Areia - o que ouvi e li de melhor este ano


Balanço anual, vagamente anacrónico e, claro, fora do mainstream.

Livros:

In the Kingdom of Ice, de Humpton Sides

Um relato vivo, muito documentado e bem narrado (depois de uma loooonga introdução) da aventura ártica do Jeanette, o veleiro de destino trágico que conduziu uma expedição ao Pólo Norte pelo Mar de Bering a mais uma catástrofe nos mares gelados. Deixou vários nomes para a História - as Ilhas de De Long, uma das quais a ilha Jeanette.

To the Back of Beyond, no original alemão Weit über das Land

Dos livros de Peter Stamm que li, todos na tradução inglesa de Michael Hofmann, este é sem dúvida o melhor. Um cidadão normal, integrado e 'realizado', abandona a família sem qualquer aviso prévio, num impulso súbito, e vai mundo fora como um eremita em viagem. Sem razão aparente, três vidasentram em convulsão, Até ao 'retorno do filho pródigo', ou talvez não, Stamm usa a ambivalência de forma estranha, irreal.

463 tisanas, de Ana Hatherly

Imprescindível ! Talvez a leitura que mais me surpreendeu, palerma de mim que só agora o descobri. Um "Livro do Desasossego" no feminino e actualizado à modernidade pós-25 de Abril.

Jean d'Ormesson, Comme un chant d'espérance

Um inteligente e sábio crente em Deus, coisa rara. A primeira parte do livro é uma deslumbrante exposição do estado do conhecimento científico sobre o Universo, das muitas questões ainda em aberto. Depois vem o que eu gosto menos: porque apesar de tudo isso d'Ormesson escolheu, ou sentiu, a necessidade de Deus - para ele, não é "apesar de tudo isso" mas "também por tudo isso". Respeitável, mas não convincente.

Mais uma colectânea traduzida de Yeats, bilingue, na Relógio de Água.

Though leaves are many, the root is one;
Through all the lying days of my youth
I swayed my leaves and flowers in the sun;
Now I may wither into the truth.


                                Sim, agora posso definhar a caminho da verdade.

DVDs

'Wallander', série da BBC TV

Talvez a melhor série policial de sempre na TV, que não consegui ver na íntegra quando passou  cá. Kenneth Branagh incarna magistralmente um polícia sueco com mal de vivre a quem continuamente caem nas mãos crimes absolutamente cruéis e desoladores. Dirige com muita mestria Henning Mankell. Um entretimento requintado para domingos chuvosos.

Soie, de Alessandro Baricco

Também só agora vi este filme realizado em 2007 por François Girard, adaptação ao cinema do belo livrinho de Baricco. Com Keira Knightly excelente de ternura, a bela Sei Ashina no papel da sedosa apaixonada do viajante mercador de bicho da seda, o filme é (classicamente) lindo do princípio ao fim, só Michael Pitt destoa. É um daqueles casos em que é preciso não ligar nada ao que dizem os críticos, mesmo que seja verdade que o filme não respeita nadinha o livro.

Concertos

O Orfeo, com J. E. Gardiner e os Monteverdi Choir, a que assisti no Usher Hall.

Ouvir o mediterrânico Monteverdi do séc. XVII na nórdica Edimburgo em 2017 é uma experiência da universalidade e perenidade desta música. Gardiner no seu melhor.

Beatrice Rana na CdM

Um serão com as Variações Goldberg assim tão bem tocadas é um previlégio raro.

Sokolov também na Casa da Música

A sonata nº 32, op. 111 de Beethoven, inesquecível, sublime.


Michael Sanderling veio dirigir a Sinfonia Alpina

A Orquestra do Porto - Casa da Música saiu-se muito bem da difícil e monumental Sinfonia Alpina de Richard Strauss; Michael Sanderling deslumbrou, foi apoteótico.

CDs

Arias para Benucci

O barítono Matthew Rose e o agrupamento Arcangelo gravaram em 2015 para a Hyperion um CD magnífico que este ano ouvi. Música de Mozart, gloriosa, irresistível.

John Eliot Gardiner e a LSO nas Sinfonias de Mendelssohn

A London Symphony começou em 2016 um ciclo de gravações das sinfonias de Mendelssohn dirigidas por Gardiner; provavelmente passam todas a ser primeira escolha:
Sinfonias nº 1 e 4, 2016
Sinfonia nº2, Lobgesang, 2017

Fernando Sor, Menuettos, por Agustín Maruri, 2005

O génio da guitarra de Fernando Sor, uma das pessoas em que eu mais gostava de incarnar. Tocar assim é um gosto para toda uma vida, e quando a escrita é tão requintada como a de Sor, estes Menuettos de sonata são pérolas, das que se levam para a ilha deserta.


Bach, concertos para violino, Dunedin Consort

De 2015, esta gravação com a violinista Cecilia Bernardini e os escoceses Dunedin Consort - onde o primeiro violino é o "nosso" Huw Daniel (da orq. Barroca da CdM) - obteve cinco estrelas de toda a gente, o Guardian escreveu 'so many things to marvel at '. Só ouvi este ano. Sou um atrasadinho.

Gary Peacock trio, Tangents, 2017

Típico ECM no seu melhor, jazz como é impossível não gostar, clássico mas creativo, suave aqui, trepidante ali, mas nunca dissonante, ruidoso, atonal ou electrónico. E estes três tocam como deuses, herdeiros do trio que ficou célebre (Peacock com Jarrett e DeJohnette).

Max Richter, Sleep -  2015, DG

Há quem ache Max Richter uma fraude, um primitivo minimal repetitivo sem valor - o que eu penso se pode atribuir a Michael Nyman, Wim Mertens, Ludovico Einaudi e outros 'chatos' do género. Richter é surpreendente, tem uma fértil imaginação para criar ambientes pela repetição exaustiva - valorizando o silêncio - e não compõe "sempre a mesma coisa" como os Nymans, Mertens ou Einaudis. Este Sleep é uma obra de fôlego de música contemporânea, para se ouvir integralmente do princípio ao fim; e o Three Worlds, este já de 2017, uma promessa do que ainda mais elaborado poderá vir.

Como é costume, deixo uma sobremesa requintada:  Agustin Maruri numa bela peça para guitarra renascentista.



Desejos de boas leituras, audições e visionamentos para 2018 !


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Fim de Ano com Amadeo, Pousão, Porto e votos finais.


Perdi o gosto a celebrações de passagem de ano já há bastante tempo, com sucessivas experiências desastrosas. É uma altura onde a turba urbana solta tudo o que tem de cérebro lagartóide e hábitos tribais do paleozóico.

Este ano, para não fica no sofá a rever séries da TV ou algum DVD, decidi que ia aproveitar o último dia do ano para no Museu Soares dos Reis ver a exposição dedicada a Amadeo Souza-Cardoso, no seu último dia antes de emigrar para Lisboa. O espaço do Soares dos Reis é mil vezes mais bonito que o do Chiado, e a colecção permanente também.


Algumas obras de Amadeo vi-as agora pela primeira vez. Por exemplo, estas três pequenas maravilhas do ano de 1914:

A travers les fenêtres (dédoublements/intersections), c.1914

Pharol Breton, c. 1914

O busto e a regoa, c. 1914

Das tintas da china, saliento La Tourmente, de 1912:


Balanço: algo desolado com a pequenez da exposição.


Para compensar, demos a volta à casa com paragem obrigatória nos Henrique Pousão (quem diz "os Mirós" deve dizer "os Pousões", não é ?), e Silva Porto, sobretudo os rostos mágicos de mulheres.




Encerramos 2016 em beleza. A seguir fomos para a baixa jantar e ver as luzes. Depois da sobremesa, a árvore dos Aliados



as luzes dos Clérigos.

e nas Almas.


Ó 2017, boas vindas e não tragas muita porcaria, vê lá se te controlas. Evita tempestades e terramotos, rejeita tanto quanto possas a bruteza dos homens e recupera boa dose daquilo a que vulgarmente se chama "as luzes", ou "o progresso", que andam tão arredios. Pelo caminho manda 2016 à barda.....


P.S. Acabo de passar as 250 000 visitas. De milhão é só um quarto, modesta performance, mas sempre começo o ano em alta.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Feira de Natal em Belgravia - typical posh


Por esta altura não há cidade do centro da Europa que não tenha o seu mercado de Natal, com barraquinhas decoradas de fios de luz a animar a noite, que cai muito cedo. Este ano fui sortudo por ficar alojado em Belgravia, junto à bonita esquina de Ebury e Elizabeth Street, onde abriu um mercadinho de Natal ao longo de alguns 50 metros, se tanto. O mercado de Natal de Belgravia já é uma tradição de muitos anos.

Ebury Street, parece uma aldeia dentro de Londres.

Na esquina, um café (!) - o TomTom. E com esplanada em Dezembro. Havia outro mais adiante, para... fumadores.



Na outra esquina. uma confeitaria "criativa" e "gourmet" - o melhor bolo de laranja do mundo !


E também com esplanada. No dia do mercado não havia mesa livre.


Uma das lojas - um bairro sossegado, elegante e caríssimo.

O bairro de Belgravia só em 1824 começou a ser urbanizado: antes era uma zona rural pantanosa e mal frequentada, Five Fields, nas margens do Tamisa. Construído de forma planificada em estilo Georgiano tardio, é completamente plano e de planta quase quadriculada - um paraíso para peões e ciclistas, tanto mais que o pouco trânsito flui com a maior tranquilidade.

O mercado abriu ao meio dia, mas foi pelas 15 que esteve mais animado.



A tendinha do TomTom.

Vinhos e castanha assada. "Mulled wine" é vinho aquecido... (dispenso).

Um castiço de tweed. Cachemiras e peles a preço upa upa.


Não faltou um palco com Carols de Natal, ora cantados ora tocados por uma banda de metais.

A fantasia da quadra: caudas postiças, suponho que seja novidade 'made in China'.

Com a presença de uma jovem e simpática rena, amiga de festinhas.


Sempre um homem de sucesso.

O TomTom encheu e passou a servir o café em copo de plástico, mais quentinho (a escaldar!).


Uma experiência nova, e bem agradável. Londres, a infernal, ainda tem recantos de paraíso.

Pronto. É o meu post da quadra natalícia.
Boas Festas !



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Casa da Música para 2017 - tudo na mesma senão pior. Destaques.


Vou evitar lamentos e queixas da programação da CdM para 2017, não vale a pena e já cansa. As opções habituais mantêm-se, sem a mínima novidade, a pobreza é confrangedora, ponto final.

Pelos vistos o público aderiu em massa às assinaturas, pois muitos concertos estão à beira de esgotados, sobrando só os cantos da sala. É bom, isso, muito bom, só que o que se vê depois são enormes clareiras na sala de gente que afinal tem bilhete mas não aparece. Devia, de facto, haver um sistema eficaz de devoluções com venda a preço reduzido.



O ano supostamente 'inglês' tem muitíssimo pouco, e fraco, de inglês. Ponto alto seria a vinda de Nicholas McGegan em Novembro, se o programa (sinfonias irrelevantes de Haydn - a 89 - e Mozart - a 25-) fosse outro.

A temporada barroca quase não conta com ninguém de jeito a não ser a prata da casa. Quase, porque vem Rachel Plodger, a violinista barroca, que também irá dirigir a orquestra. De resto, Sokolov, sua Excelência, naturalmente; e o virtuoso oboísta Martin Gabriel. 

Vão ser executadas as quatro sinfonias de Brahms (mas o ano não é inglês !? ), e uma ou outra poderão valer a pena: Joseph Swensen, Leopold Hager talvez. Tudo o que for dirigido pelo titular Baldur Brönnimann é concerto estragado, o senhor não tem qualquer entusiasmo em dirigir, parece mais um autómato alimentado a lítio e berílio. Um tarefeiro seco, frio, inerte.

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Vamos então aos destaques. Os meus destaques, claro.
  • Sokolov, o grande, vem dar a récita anual da sua tournée habitual que também passa na Gulbenkian. É a 25 de Abril e vai ter Mozart, bless him.
  • Rachel Plodger vem dirigir a orquestra barroca da Casa a 8 de Janeiro em obras para violino: Handel (HWV313), Vivaldi (RV204,198a), Purcell (música de cena), Bach (BWV1041). Promete !
  • Falando ainda de violino, Frank Peter Zimmermann vem interpretar o op.61 de Beethoven a 27 de Maio, dirige Leopold Hager. Um grande talvez, ouçamos um chisquinho de Zimmerman em Brahms:


  • Um belo concerto parece expectável a 19 de Maio. Leopold Hager, de novo, vai dirigir o K 314 para oboé de Mozart com Martin Gabriel, o famoso oboísta da Filarmónica de Viena; e ainda a 8ª de Beethoven, pouco ouvida.
  • Das sinfonias de Brahms, o melhor programa é o de Olari Elts, que a 2 de Junho dirige a , completando com a de Schubert e a abertura Leonora nº 3. Numerologia ?  
[ A 2ª sinfonia, a que mas aprecio, vai ser desidratada e esterilizada por Brönnimann em Dezembro.]
  • Uma incógnita tentadora é a Sinfonia Alpina de Strauss, obra megalómana, de grande dimensão orquestral e difícil, que Michael Sanderling dirige a 20 de Outubro, com a orquestra da casa. Vai ter de ser muito, muito bem ensaiada. Se não acontecer um desastre já me dou por feliz.
  • Finalmente, Leopold Hager volta para o Requiem de Mozart a 4 de Novembro

Há ainda o programa não-clássico - jazz e outros. Vou só salientar a muito apreciada Stanley Clarke Band a 3 de Maio.