Stromness, o porto e a frente urbana
Pytheas de Massilia, o grande navegador e explorador grego, visitou as ilhas Britânicas entre 322 e 285 AC; refere-se no seu relato a uma costa no extremo Norte a que chamou Orcas; depois, ainda mais para Norte, encontrou a paradisíaca 'Thule'. Não sabemos até onde ele chegou, mas as Orkney foram certamente porto de escala na sua aventura sub-ártica.
Três séculos mais tarde, no séc. I, o geógrafo Romano Pomponius Mela identificou e descreveu correctamente nas Orcades no seu De Situ Orbes.
Estes arquipélagos a Norte da Grã-Bretanha são algo de mítico, uma fantasia romântica de viagem extrema que sempre sonhei e nunca consegui. Envoltos em lendas e nevoeiros, semeados de pedras Pictas e megalitos Vikings, longínquos postos a Norte da Liga Hanseática; povoados de portos de onde partiram grandes viagens transatlânticas de exploração e de negócios no século XIX-XX, são pequenas faixas de terra com mar e mar e mar, Atlântico, Mar do Norte, Mar da Noruega ... na verdade, a plena civilização, a Europa, só lá chegaram pelos finais do século XX.
Stromness é ainda uma modesta vila portuária de ruas estreitas, pedonais, casas históricas e alguma boa arquitectura. Vida tranquila e ambiente saudável, e nem falta arte e cultura.
Coordenadas: 58.9° N, 2.9° W
População: ~ 2 200
A melhor panorâmica vê-se ao chegar a bordo do ferry, à medida que se aproxima do porto.
A frente marítima é uma sequência de pequenos cais, e casario em camadas paralelas à costa encimado por uma floresta de chaminés no topo das empenas; uma rua abrigada do vento serpenteia em curvas sucessivas, dois edifícios feios sobressaem: a Câmara (Town Hall) com a sua torre, e a igreja paroquial.
O que parece uma igreja é de facto a Câmara. O edifício é do século XIX.
Pátios pitorescos, vielas e becos, emparedados entre as casas de pedra de um ou dois andares; tudo em torno de uma rua principal, zigzagueando por trás da primeira linha de casas, e que muda de nome a cada curva: Alfred Street, Dundas Street, Graham Place , Victoria Street, John Street.
Casa com ' noust'
A traço escuro, o percurso pelas ruas de património histórico.
De Norte para Sul, começando do centro
Victoria Street
Victoria Street, com a Torre da Câmara ao fundo; a rua começa com uma loja de florista.
Argo's, padaria desde 1940
Uma das casas de empena para a rua renovadas.
Empenas fotogénicas.
Graham Place
É um pequeno largo, uma espécie de segundo centro da cidade. Tem a mais famosa livraria da terra.
Graham Place, entrada para Dundas Street
Logo a seguir à praça, estamos em Dundas Street, onde há esta passagem estreita entre duas casas com o mar ao fundo, muito celebrada.
E esta é a parte mais autêntica e pitoresca de Stromness, desde Dundas Street até Albert Street. Numa esquina a seguir encontra-se
Três empenas voltadas para o mar em Dundas Street
Albert Street
Na sua parte sul, a rua principal que se segue é Albert Sreet. Mesmo no início, no nº 2, encontra-se The Haven, uma das casas importantes da Hudson's Bay Company.
Era nesta casa que se processava o recrutamento de pessoal para a HBC.
Alfred Street 8, Rae's Close
E aqui chegamos ao Museu:
James Cook deu o seu serviço de chá como pagamento pelo abastecimento dos seus navios.
Mocassins, bolsas de pente, facas e utensílios da população nativa trazidos por Rae.
Museu de Stromness
Fica no início de Albert Street, perto da entrada Sul de Stromness. É um museu pequeno e modesto, que mostra sobretudo documentos e objectos relacionados com expedições marítimas; ajuda a ter uma ideia de como esta ilha nórdica esteve, durante um período histórico, intensamente animada de marinheiros e aventureiros que partiam ou regressavam de viagem ao Ártico - John Rae, Franklin, James Cook e as tripulações da frota da HBC.
Navios em Stromness, 1821.
John Rae esteve ao serviço da Hudson Bay Co. como médico, mas foi sobretudo um explorador que percorreu a pé mais de 20 000 km, entre 1846 e 1854, contactando com a população nativa, recolhendo informação, mapeando a costa. Foi inclusive ele quem descobriu o paradeiro da malograda expedição de Franklin.
Trabalhos com contas (berlindes) dos nativos.
Bolsa de tabaco, isqueiro e apito de cães de James W. Sinclair, da Hudson Bay Company em Fort York.
Arpões e espólio variado dos baleeiros.
A colecção do museu também foi enriquecida com os achados arqueológicos em Skara Brae, a famosa aldeia neolítica vizinha:
O/a ' Buddo' de Skara Brae, circa 2900 – 2400 AC
Buddo é um termo Orcadiano carinhoso sem género, como ´pal´em inglês ou "compincha" em português...
Buddo é um termo Orcadiano carinhoso sem género, como ´pal´em inglês ou "compincha" em português...
Colares e pulseiras do neolítico , em osso e dentes, de Skara Brae
Outros items incluem este relógio de lanterna de Humphrey Mills, de ca. 1675, que dizem ter sido o primeiro relógio a chegar às Orkney.
O Museu tem ainda o seu próprio 'noust' de acesso ao mar.
Um pouca adiante, já no extremo sul da Alfred Street, encontra-se um lugar histórico: Login's Well, um poço de água potável onde se abasteciam os navios até 1931, quando foi fechado.
Aqui vinham abastecer-se de águ is navios da HBC, tal como as expedições de Cook e Franklin.
Terminado percurso para Sul, voltamos ao outro extremo de Victoria Road, a Norte, junto à marina e aos cais do porto.
Pierhead
Esta sim, faz figura de Praça central, frente ao vetusto Hotel, dando para o cais , enquadrada pelo quiosque do Ferry e pela Estação Marítima RNLI (Royal National Lifeboat Institution).
Hotel Stromness, na ponta do cais (Pierhead) . e o quiosque do ferry.
Hamnavoe, o porto seguro
Em 1590, Stromness estava bem estabelecido como porto de pesca no extremo Norte da Europa. A história da cidade sempre foi de intimidade com o mar e os navios, mas o que lhe trouxe maior prestígio foi o negócio em peles de raposa e castor do Canadá; foi até o maior porto estratégico da Hudsons's Bay Company para recrutamento de marinheiros e caçadores.
A casa branca no porto era o maior armazém da época do comércio com as Américas; data de 1765, e a sua dimensão deve-se à importância crescente da importação de arroz, o "carolino" da Carolina do Sul americana. Foi convertido em edifício do Turismo e espaço de exposições, nº 8 de Victoria Street.
O armazém de arroz, que era importado da Carolina do Sul.
O ferry 'Hamnavoe'
Fica mesmo à entrada de Victoria Street, do lado nascente (a dar para o mar).
Era o antigo entreposto da Hudson's Bay Co., um conhunto de duas casas com noust .
Foi o mais importante projecto de arquitectura na frente marítima de Stromness nos últimos anos. Foi o entreposto da Companhia Hudson's Bay, renovado em conjunto com outra casa de empena antiga. Nasceu assim o Pier Arts Centre que mudou a vida cultural de Stromness.
Duas casas do século XVIII, unidas por uma edificação moderna em harmonia com as empenas de pedra. Assim a cidade ganhou uma Galeria de Arte marcante no arquipélago.
O Pier Arts Centre oferece a artistas locais ou residentes um espaço de trabalho e de exposição. Tem uma colecção permanente e exposições temporárias.
'Curved form (Trevalgan)' de Barbara Hepworth situada no pátio exterior, o antigo noust.
O Pier Arts Centre oferece a artistas locais ou residentes um espaço de trabalho e de exposição. Tem uma colecção permanente e exposições temporárias.
Barbara Hepworth e Ben Nicholson, dois dos principais artistas da colecção.
Group III (evocation) de Barbara Hepworth, 1953
Three Circles, Ben Nicholson
Waterfront Gallery, 128 Victoria street
Pierhead é a zona de esplanadas.
Julia's Café / bistro
A luz e o crepúsculo destas latitudes oferecem a cada passo um regalo para a vista:
À luz quente da manhã.
Um pouco de História
Foram os Vikings que deram à baía o nome 'Hamnavoe ' (hamna significa ilha; voe significa baía). Desde o século XVII que o porto abrigado se tornou uma base de pescarias. Foi crescendo, e no século XVIII já era um centro de negócio intenso com o Novo Mundo. Em 1702 a Companhia Hudson's Bay, dona do negócio de peles de raposa e de castor no Canadá, em Rupert's Land, começou a recrutar marinheiros na cidade, e nomeou um mercador de Stromness como seu agente nas Ilhas. No Verão, o porto de Stromness fervilhava com navios da HBC ancorados a carregar mantimentos; entre 1700 e finais do séculp XIX, cerca de 4000 Orcadianos embarcaram para poente, e três quartos do pessoal da Companhia no Canadá eram das Orkney !
A chegada de um navio de regresso do Canadá com tripulação local era saudada em terra por tiros de canhão; no convés do navio, sob um toldo que protegia da chuva, um festim com música e danças celebrava o sucesso e o reencontro. E havia listas de compras que os marinheiros traziam, pedidas pelos que ficaram nos entrepostos de Rupert's Land - livros, roupas, instrumentos musicais, óculos, doçaria - que faziam prosperar as lojas em Stromness.
Em 1780, os navios Resolution e Discovery capitaneados por James Cook fizeram escala em Stromness no regresso da sua terceira viagem, que tentou abrir caminho marítimo para o Pacífico pela Passagem do Noroeste..
Em 1845, os navios Erebus e Terror da expedição de Sir John Franklin, que acabou no mais trágico desastre marítimo do século, parou em Stromness a caminho da Gronelândia para fazer o pleno de provisões e de água fresca no Login's Well.
Um dos recrutados pela HBC, que já mencionei, foi o médico John Rae, explorador andarilho que calcorreou e mapeou um largo território em torno da Baía de Hudson e fez contactos amigáveis com os nativos índios e esquimós. É o herói local, e foi ele quem encontrou o que restava da expedição de Franklin.
No século XIX a posição de Stromness como porto de negócio e serviços com as Américas e a Europa central foi reforçada; destilarias e tabernas prosperaram, e o comércio estabeleceu-se ao longo da rua principal. Os navios HBC continuaram a ancorar, abastecer-se e fornecer as lojas até finais do século XIX.
Por esta altura já os comerciantes mais ricos e oficiais da marinha construíam casas mais altas e espaçosas. Foi-se instalando assim uma classe urbana burguesa, culta e exigente.
Tão cercada de mar e voltada para as Américas, tão longe da Europa culta e rica, Stromness e todas as Orkney têm de ter forçosamente uma personalidade própria muito vincada de auto-suficiência, independência e solitário orgulho.
































.jpg)







.jpg)










.jpg)



.jpg)


.jpg)


%201952%20by%20Barbara%20Hepworth.jpg)













Sem comentários:
Enviar um comentário