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segunda-feira, 11 de março de 2024

Com Peary e Henson na ilha de Ellesmere - relato de um explorador em rota para o Pólo


Mapa da expedição de Robert Peary ao Pólo Norte , em 1909


Matthew Henson foi um dos primeiros homens a chegar ao Pólo Norte, ou pelo menos a chegar perto, algumas dezenas de quilómetros, em 1909. A expedição que tentou esse feito foi a terceira do grande explorador Robert Peary, um americano megalómano, que contou com a ajuda de quatro esquimós (Ooqueah, Ootah, Egingwah e Seegloocom) nas cargas de trenó e nos acidentes de trajecto, e do navegador Matthew Henson que se descrevia como "de raça negra", com orgulho. No pequeno vapor 'S.S. Roosevelt' seguiam ainda 246 cães ! Que equipa mais estranha.

A familia esquimó no convés do Roosevelt. Duas mulheres também estavam na equipa de apoio.
Robert Peary, comandante do 'S.S. Roosevelt' e da expedição

Mas quem me surpreendeu foi Matthew Henson, ainda mais quando soube que era de pele escura. Nasceu já livre, coisa rara na época (1866), e iniciou a carreira como grumete; mas era empregado de armazém quando conheceu Peary. Foi com ele que começou a navegar e aprendeu o modo de vida Inuit. Iriam ser companheiros durante 18 anos em várias expedições.

O que vou transcrever é a tradução de um belo excerto do diário de Henson na viagem de 1909, mas antes disso quero dar alguns detalhes.


O acesso ao mar gelado do Ártico polar fez-se a partir da ilha de Ellesmere, um território imenso e quase deserto onde só há uma povoação inuit, Grise Fiord, no Sul. A equipa de Peary, num total de 22 incluindo homens de apoio, estabeleceu-se no extremo Norte, em Cape Sheridan, para a quarentena de Inverno a bordo do vapor Roosevelt.

A chegada ao Cabo Sheridan foi a 5 de Setembro de 1908, após uma viagem difícil a romper gelo ao longo do Canal de Robeson, que separa a ilha da Gronelândia.

O Roosevelt chega ao Cabo Sheridan.


O Roosevelt ancorou numa brecha da maré de gelo, encostado a uma crista de pressão. O navio fora encomendado por Peary expressamente para a expedição, e foi mais um factor de sucesso. Tinha a quilha de madeira com 70 cm de espessura, reforçada com um sistema de traves flexíveis contra a pressão do gelo, e o revestimento do casco em espessa folha de ferro.


Durante quinze dias procedeu-se à descarga de trenós, mantimentos e outras provisões, instrumentos e cães, que ficaram em terra abrigados em caixas cobertas pelas velas do navio. A tripulação manteve-se a bordo, com as caldeiras e o motor a trabalhar durante  seis  meses, fazendo manutenção, jogos, leituras e planeamento, e revezando-se em vai-véns para provisões. O lugar deste acampamento fica próximo da actual Estação Polar Alert.

Só em Fevereiro do ano seguinte, 1909, quando a primeira luz se vislumbrou depois da noite invernal, uma primeira equipa arrancou com os trenós para o Cabo Columbia. Seguiram-se outras, mas apenas seis homens e cinco trenós iriam fazer a última marcha para o Pólo através do mar Ártico, duas semanas depois, a 1 de Março.

Os picos de Cape Columbia

Cabo Columbia, a 83°07′ N, fora escolhido como ponto de partida da última etapa sobre a placa do Ártico porque é o ponto mais setentrional do Canadá ( e o segundo do planeta), oferecendo assim uma distância mínima até ao Pólo, 769 km (478 mi). A placa oceânica tem uma espessura à volta de 2 metros de gelo, mas o seu movimentos cria cristas de pressão que a alteram constantemente. 

É esse percurso desde o Roosevelt até ao Cabo Columbia que Henson descreve neste excerto: "uma região de soturna magnificência". 


" Penhascos ressaltados que se projectam sobranceiros à trilha; promontórios selvagens e escuros, que somos obrigados a contornar, que se arremedam sobre as águas cobertas de gelo do Oceano, vastas extensões de planície gelada varrida pelo vento, e tudo isso em sucessão nas noventa e três milhas entre os dois cabos; foram precisas três étapas para as percorrer."


" Fevereiro, 23: Forte nevão mas praticamente sem vento esta manhã pelas 7 h.
(...)
Há um irresistível fascínio nas regiões do extremo Norte da Terra de Grant que me é impossível descrever. Não tenho espírito poético e fui endurecido por muitos anos de experiência nesta terra inóspita, as palavras adequadas para dar uma ideia da sua beleza única não me ocorrem. Imagine-se uma desolação admirável, um espantoso descampado branco. Nunca parece ser dia, dia amplo e claro, mesmo a meio de Junho, e o céu tem diferentes aspectos que variam ao longo das horas de crepúsculo matinal, do crepúsculo do entardecer, do primeiro ao último vislumbre de luz."
 

O regresso do Sol.

" Nos princípios de Fevereiro, ao meio dia, uma estreita faixa de luz aparece no horizonte na direcção do Sul, anunciando a vinda do Sol, e dia após dia a duração do crepúsculo aumenta, até que nos primeiros dias de Março o Sol é um disco flamejante de vermelho-púrpura que se eleva, com uma imagem distorcida, um pouco acima do horizonte. Esta forma distorcida deve-se à miragem causada pelo frio, tal como ondas de calor sobre os carris de ferro de uma linha de combóio distorcem a forma dos objectos que estão mais para além."


"As encostas voltadas a Sul dos picos mais elevados já reflectiam há muitos dias a glória do Sol vindouro, e não é preciso um artista para disfrutar estas esplendorosas vistas sem igual."




" As neves que cobrem os picos mostram todas as cores, variações e tonalidades de uma palette, e mais. Já vieram conosco artistas ao Ártico e ouvi-os em delírio com as fantásticas beleza do cenário, e vi-os trabalhar a tentar reproduzi-lo parcialmente com bons resultados mas nada que se compare ao original. Como disse Mr. Stokes, 'it is color run riot' (é um tumulto de cores)."


" Mas em direcção a Norte é tudo ainda escuro, e as estrelas mais brilhantes do céu sáo visíveis, mesmo que enfraquecendo aos poucos conforme a luz aumenta.

Quando finalmente o Sol sobe acima do horizonte e percorre a sua curva diária, os efeitos de cor são cada vez menos, mas então crescem os efeitos de céu e núvens, e as sombras nas montanhas e nas fendas e agulhas do gelo exibem outra beleza - azuis glaciais e cinzentos; as manchas descobertas de terra, tons tons de castanho; e a ofuscante brancura da neve deslumbra."


"Ao meio dia, a sensação óptica da nossa sombra é a das nove horas da manhã, devido à baixa elevação do Sol, sempre causando sombras alongadas."


" Sobre nós, o céu é azul brilhante, mais azul que o do Mediterrâneo, e as núvens, desde as caudas sedosas dos Cirros até aos fantásticos e carregados Cúmulos, são sempre belas. Isto é a descrição do bom tempo."

(...)
" Quase todos os sítios servem para se conseguir um boa selecção de vistas; no Cabo Sheridan, o nosso posto de comando, estávamos rodeados de lugares marcantes que se tornaram históricos: para Norte o Cabo Hecla, ponto de partida da expedição de 1906; para Oeste. o Cabo Joseph Henry, e mais adiante, os dois picos do Cabo Columbia de costas voltadas ao Oceano.


Do Cabo Columbia a expedição ia agora deixar terra firme e seguir em trenós sobre as placas de gelo que cobrem o Oceano durante quatrocentas e treze milhas para Norte — até ao Pólo!"
                                                                                                  Matthew Henson, 2009


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A expedição atingiria o Pólo Norte, ou as suas proximidades mais quilómetro menos quilómetro, em 6 de Abril de 1909. O mais certo é que Peary, perante a extrema exaustão de homens e cães, percebeu que era melhor parar e regressar, uma vez que tinham o objectivo à vista. A comunidade Geográfica pôs em causa o feito de Peary, tal como pusera em causa o feito do seu grande rival Scott no ano anterior. O único e incontestado explorador que comprovou ter chegado aos 90º N foi o inglês Wally Herbert, já em 1969, sessenta anos depois de Peary. 


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Fontes documentais

https://www.gutenberg.org/files/67973/67973-h/67973-h.htm

O texto de Matthew Henson foi lido no livro "Nature Tales for Winter Nights", uma compilação editada por Nancy Campbell.

domingo, 5 de junho de 2022

Quatro livros novos na cabeceira

De data recente, novos cá em casa, recebi alguns livros pelo correio com uma rapidez estonteante (alguns no dia seguinte!). 

Para o início do Verão:

Olga Tokarkzuc, Les Pérégrins ('Bieguni')


O título original é intraduzível, e o melhor seria deixá-lo ficar. A autora designa por Bieguni uma gente ficcional, nómada eslava, viajantes permanentes:
"Quem fizer uma pausa fica petrificado, quem parar fica alfinetado como um insecto, de coração atravessado por uma agulha de madeira, de mãos e pés furados e presos ao tecto e à soleira da porta... "
Os bárbaros não viajam, diz ela.

David Hockney, Spring cannot be cancelled

Um livro que vale tanto pelo entusiasmo da escrita como pelas ilustrações. Hockney foi à Normandia francesa pela arte - queria ver os Picasso do período rosa e azul e as tapeçarias de Paris, Angers e Bayeux – e pela natureza: viver entre as árvores em flor na Primavera, como Van Gogh as pintou. 


Nos seus 80s, Hockney escreve um hino à arte, à natureza e ao gosto de viver - isto em plena pandemia.

Anne Tyler, Redhead by the side of the road


Tyler escreve sobre o que vai na alma de um homem comum, o que lhe passa pela cabeça no dia a dia, e para protagonista escolhe um reparador de computadores nas suas deslocações.

Julia Kerninon, Liv Maria


Em criança, Liv Maria lia Jack London e Samuel Beckett. Depois virá Homero, Yeats, Faulkner, e virá um terrível trauma; e assim como Liv viajou pelas leituras, viaja então pelo mundo e por diferentes línguas, reinventando-se sempre, cada vez mais completa e liberta. Livro de protagonismo feminino total, escrita escorreita com algumas incoerências.

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Como é óbvio, não leio nada traduzido em português, com receio de acordês [mas já encomendei o 'Português de A a Z' de Marco Neves].

De momento continuo com Ryszard Kapuściński e Heródoto, um dos melhores relatos de Viagens que já li, pois viaja-se a dobrar: 'actualmente' com Kapuściński pelo mundo, e, conforme ele vai lendo Heródoto, simultaneamente faz-nos viajar com o grego por Halicarnasso, pela Pérsia de Dario desde a Persépolis até aos Citas, pela História da proto-Europa oriental. Não será uma obra prima, mas dá gosto ler.


domingo, 3 de abril de 2022

Irene Vallejo e o feitiço das patas de aranha


"O Infinito num Junco" de Irene Vallejo é um excelente livro, mesmo que desigual. É um relato, em parte histórico, em parte ficcional, em parte pessoal, da aventura do Livro e das Bibliotecas, desde os papiros Egípcios e Gregos. São emocionantes as páginas sobre a Biblioteca de Alexandria, mas também páginas como estas em que Irene Vallejo relembra a infância, quando adormecia ao som da mãe a ler histórias para ela. 

A minha mãe lia-me livros todas as noites, sentada na beira da minha cama. Ela era a rapsoda; eu, o público fascinado. O lugar, a hora, os gestos e os silêncios eram sempre os mesmos, a nossa liturgia íntima. Enquanto ela procurava com os olhos o sítio onde tinha ficado na leitura e recuava a frases anteriores para recuperar o fio da história, a suave brisa da narração afastava todas as preocupações do dia e os medos intuídos da noite. Aquele tempo de leitura parecia-me um paraíso pequeno e provisório - mais tarde aprendi que todos os paraísos são assim, humildes e transitórios -.


A voz dela. Eu escutava a voz dela e os sons do conto que ela me ajudava a ouvir com a imaginação: o chapinar da água contra o casco de um barco, o suave ranger da neve, o choque de duas espadas, o silvo de uma flecha, passos misteriosos, uivos de lobo, cochichos atrás de uma porta. Sentíamo-nos muito unidas, a minha mãe e eu, juntas em dois lugares de uma só vez, mais juntas que nunca mas divididas em duas dimensões paralelas, dentro e fora, com um relógio que fazia tic-tac no quarto durante meia hora e anos interios que transcorriam na história, sozinhas mas ao mesmo tempo rodeadas de muitas pessoas, amigas e espias dos personagens.

Nesses anos, fui perdendo os dentes de leite, um a um. O meu gesto favorito enquanto ela me contava contos era abanar um dente frouxo com o dedo, senti-lo desprender-se das raízes, bailar cada vez mais solto e, quando finalmente se partia soltando uns fios salgados de sangue, pousá-lo na palma da mão para o observar - era a infância que se estava a quebrar, deixava vazios no meu corpo e cacos de esmalte branco pelo caminho, e o tempo de escutar histórias acabaria em breve, ainda que eu não soubesse -.

E quando chegávamos a episódios especialmente emocionantes - uma perseguição, a aproximação do assassino, a iminência de uma descoberta, o sinal de uma traição - a minha mãe pigarreava, fingia uma comichão na garganta, tossia; era o sinal combinado para a primeira interrupção. Já não posso ler mais. Então cabia-me suplicar com desespero: não, não pares aqui, continua mais um bocadinho. Estou cansada. Por favor, por favor. Éramos actores de uma pequena comédia, e depois ela continuava a leitura. Eu sabia que ela estava a fingir, claro, mas assustáva-me sempre. Por fim, uma das interrupções seria a valer, e ela fechava o livro, dava-me um beijo, deixáva-me sozinha na obscuridade e ia-se entregar a essa vida secreta que vivem os adultos à noite, as suas noites apaixonantes, misteriosas, desejadas; esse país estrangeiro e proíbido aos meninos. O livro fechado ficava na mesa de cabeceira, calado e teimoso, expulsando-me dos acampamentos no Yukon, ou das colinas do Mississipi, ou da fortaleza de If, da estalagem Almirante Benbow, da Montanha da Alma, da selva das Missões, do lago de Maracaíbo, do bairro de Benia Kirk em Odessa, de Ventimiglia, da Perspectiva Nevski, da Ilha de Barataria, do antro de Laracna na fronteira de Mordor, da charneca junto à casa dos Baskerville, de Nijni Nóvgorod, do Castelo de Irás-e-não-voltarás, do bosque de Sherwood, do sinistro laboratório de anatomía de Ingolstadt, do arvoredo do barão Cósimo em Ombrosa, do planeta dos baobabs, da misteriosa casa de Yvonne de Galais, do covil de Fagin, da ilha de Ítaca. E mesmo que eu abrisse o livro no sítio certo, assinalado por um marcador, não serviria para nada, só veria linhas cheias de patas de aranha que se recusariam a dizer-me uma mísera palavra. Sem a voz da minha mãe, a magia não se tornava realidade. Ler era um feitiço, sim, conseguir que falassem esses estranhos insectos negros dos livros, que nessa altura me parecíam imensos formigueiros de papel.

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 Identifiquei assim as citações:

- acampamentos do Yukon: The Call of the Wild, Jack London
- colinas do Mississipi: Tom Sawyer, de Mark Twain
- fortaleza de If: Conde de Montecristo, de Alexandre Dumas
- estalagem Almirante Benbow: Ilha do Tesouro, R. L. Stevenson
- Monte das Almas: Monte de las Ánimas, Gustavo A. Becquer
- selva das Missões: Contos da Selva, Horácio Quiroga
- lago de Maracaíbo : talvez Café con el Dictador, de Milagros Socorro,
                                   ou La Canaan del petróleo de Franz Taut
- bairro Benia Kirk de Odessa: Cuentos de Odessa, Isaak Bábel
- Ilha de Barataria: D. Quixote de Cervantes
- antro de Laracna (Shelob) - O Senhor dos Anéis de Tolkien
- charneca dos Baskerville - O Cão dos Baskerville de Conan Doyle
- Nijni-Novgórod : Miguel Strogoff de Jules Verne
- o bosque de Sherwood : Robin dos Bosques, Howard Pyle (?)
- o laboratório de Ingolstadt: Frankenstein, Mary Shelley
- o barão Cósimo de Ombrosa : O Barão Trepador, de Italo Calvino
- o planeta dos baobabs: O Principezinho de Saint-Exupéry
- casa de Yvonne de Galais: Le Grand Meaulnes, Alain Fournier
- covil de Fagin: Oliver Twist, Charles Dickens
- ilha de Ítaca: Odisseia, Homero

Porque não, começar assim a biblioteca de nossa casa?


domingo, 23 de janeiro de 2022

Os olhares perdidos de Tarkovsky


Andrei Tarkovsky, cineasta russo genial que produziu uma mão cheia de obras primas, sofria por não receber na Rússia o reconhecimento e apoio que julgava, justamente, merecer. Os seus filmes eram cortados, rejeitados, sabotados, e finalmente decidiu sair da Rússia para filmar livremente na Itália e na Suécia.

Tarkovsky 'escreveu' no seu Offret (Sacrifício), de 1986, que passamos toda a vida à espera, à espera de qualquer coisa diferente... e se nada vier, seremos nós a atear fogo a tudo o que a nossa vida foi, e ficarmos a ver. Mas ele afinal nutria outra opção, como diz nesta carta ao seu amigo também cineasta Sergei Parajanov: teve sempre a 'Nostalgia' (!) de trabalhar na terra, cultivar e construir uma vida no meio rural.

No campo estive ocupado com a construção de um celeiro novo. Consegui realizar um celeiro magnífico, uns 40 metros quadrados, com uma saliência do telhado em ardósia. Infelizmente não tenho fotografias para te enviar. Passámos uma boa temporada por lá, e comecei a sentir que provavelmente podia viver sem a desgraçada e abandonada arte do cinema. Vivendo desta forma toda a minha vida, na margem do rio, e escrevendo um longo e infindável livro que o meu filho continuaria a escrever depois de eu morrer, e depois o filho dele, e assim sucessivamente... E vivendo com o nosso próprio trabalho. Tivemos um terreno plantado de 1500 metros quadrados, e um pequeno jardim.
Aqui já não aguento mais: a persuadir inutilmente toda a gente de quão importante é a arte do cinema. De facto sinto que estou cada vez mais perto de realizar esta ideia. O que me está a contrariar é a vaidade e o pesar pela meu desprezado talento; ambos sentimentos mesquinhos e insignificantes.
 

                                                                                               Andrei Tarkovsky

Algumas imagens da filmografia de Tarkovsky que mostram esse talento, agora consagrado, e nos marcam para sempre: os olhares perdidos.

Solaris


O Espelho


Stalker



Nostalgia


O Sacrifício




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Este post foi-me inspirado pela leitura do texto de Tarkovsky no blog A Biblioteca na Floresta.


quarta-feira, 17 de março de 2021

George Steiner sobre a herança Grega


Independentemente de tudo o que não concordo no que George Steiner escreve, ele é com Fukuyama o pensador mais marcante da passagem do século. Não concordo com a admiração e referência que Steiner atribui à filosofia germânica (Nietzsche, Hölderlin, Hegel, Heidegger, Schopenhauer, Kierkegaard) que antes me parece a origem de toda a grande tragédia alemã e europeia do século XX; e não concordo com o gosto musical de Steiner, admirador de Wagner nec plus ultra e dos seguidores do horrendo Adorno - Boulez, Messiaen, Ligeti, Nono, Berio, toda a escória musical do atonalismo e serialismo, isso sim apenas ruído.

Mas quando Steiner fala da herança europeia e da superioridade da cultura clássica tendo a concordar, mesmo que ele exagere no desprezo pela cultura anglo-americana do pós-guerra, de que nitidamente não percebe nada. Nestas entrevistas que concedeu a Ramin Jahanbegloo diz a certo ponto:

' Tenho a convicção íntima de que certas ordens de especulação intelectual só podem encontrar-se num mundo limitado no qual os escravos asseguram aos abastados a subsistência necessária bem como o ócio, que lhes permite discutirem as secções cónicas ou a álgebra dos números irracionais na Academia. Com efeito, o privilégio insensato que a Grécia conheceu consistia nesse luxo de um pensamento político baseado na escravatura e na redução da mulher a um estatuto de inferioridade. Tudo o que é nosso foi pensado durante esse breve período da história humana; somos filhos desse mundo. Depois dele, o nosso conhecimento só muito pouco enriqueceu. A nossa ciência, as nossas matemáticas são um banal prolongamento das dos Gregos. Schelling dizia que, quando pensamos, somos todos gregos. Talvez sejamos '"todos" * hebreus quando rezamos ou sofremos, mas o pensamento, concebido de modo especulativo, formal e plástico, vem-nos dos gregos. Ser professor é ser grego. Receber alguém numa universidade ou numa academia é ser ateniense. '

Isto eu subescrevo, atento e agradecido; senti-me grego e ateniense algumas vezes. O mais nobre pensamento da humanidade foi obtido em condições do que hoje seria  repugnante injustiça social. Argumento a sustentar portanto que a injustiça social nada tem a ver com o nível de cultura e civilização como pretende o socialismo clássico.

Quando pensamos somos todos gregos. 


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*aspas minhas; não sou nada hebreu.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Jäätee, a estrada de gelo para Hiiumaa + texto de Nancy Campbell


Já aqui referi o livro Fifty Words for Snow de Nancy Campbell. É dele que agora publico um dos textos, que traduzi, sob o título Jäätee, que significa 'estrada de gelo' em estoniano. Será este o meu post de Natal.


Historicamente a Estónia, depois da era Viking,  e desde o início da Liga Hanseática, esteve ocupada pela Dinamarca, Suécia, Polónia, Alemanha e finalmente Rússia; todo este tempo ameaçada, dividida, combatendo sempre pela independência, que só teve no intervalo entre 1918 e 1940 e agora desde 1988, até custa a acreditar que tenha conseguido manter a sua própria língua e identidade nacional. E um elevado nível de cultura musical !

A Estónia é agora um dos pequenos países da União Europeia, com uma forte identidade Báltica; é prejudicada pela geografia do seu parco terrritório, em parte constituído por ilhas - mais de 800. Se juntarmos 1500 lagos, que terra firme sobra? Por outro lado, são ilhas e lagos, com as florestas que os rodeiam, que constituem a natureza mais preciosa do país. Hiiumaa e Saaremaa (desta já aqui falei) são as duas maiores ilhas, e é indispensável que estejam interligadas entre si e com o continente. No Inverno, esta zona do Báltico congela numa larga placa, cuja espessura costuma permitir o trânsito de veículos; é este percurso sobre o gelo que recebeu o nome de Jäätee - a língua estoniana é parente próximo do finlandês.




Traduzo então Nancy Campbell:

"No Inverno, surgem estradas sobre a superfície gelada dos mares, lagos e rios da Estónia. Nestas rodovias, não há nada senão brancura até ao longínquo horizonte, talvez uma faixa escura de coníferas no espelho retrovisor, e um silêncio absoluto. Isto contribui para uma bizarra experiência de condução na estrada que se prolonga por 26 km desde o porto de Rohukula no continente através do Mar Báltico até à ilha de Hiiumaa. 



Nesta que é a mais longa Jäätee da Europa há algumas marcações para cumprir. Um carro tem de seguir a faixa de gelo marcada por veículos anteriores, passando um eventual sinal de trânsito, ou guiar-se por grandes ramos de zimbro, 'plantados' de pé como se fossem árvores a crescer da neve por magia, que indicam os limites seguros da estrada. 



Durante a viagem, que pode levar pelo menos uma hora, os viajantes disfrutam uma visão cinemática a desenrolar-se no pára-brisas, e podem ter a sensação que estão a atravessar a fronteira do mundo.  Recomenda-se uma boa banda sonora.


É tanto um alívio como uma contrariedade que a linha de costa de Hiiumaa apareça, uma ténue sombra ao longe. O contemplativo céu e a prateada finura da Jäätee são em breve substituídos por asfalto coberto de sal e rotundas sob geada granulada, e toda a infraestrutura atrapalhada de portagens, barracões, lampiões e postes telegráficos.



As estradas de gelo só abrem durante as horas de luz do dia, e mesmo então os flocos de neve podem prejudicar a visibilidade. Esta estrada é um atalho, em linha recta, mas nunca deve ser percorrida à pressa nem a vaguear em sonho. As velocidades devem manter-se entre 25 e 40 km/h - o limite inferior é importante. Não é permitido parar. É uma precaução contra variações súbitas no ritmo de andamento, que podem originar uma onda sobre o gelo; se essa onda se for acumulando, pode ter força para quebrar a placa. ( ...)"

                                                          Nancy Campbell, Fifty Words for Snow
                                                          [tradução minha]



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Ilha plana, Hiiumaa nada tem de notável a não ser talvez um conjunto de antigos moínhos de vento como já não se vêem noutras paragens.




Na principal povoação Kärdla há um museu !

À entrada, o antigo posto dos bombeiros, agora Turismo.

Rua no Inverno

Pikk Maja, a Casa Longa, um museu dedicado à ilha.

E finalmente um sítio quentinho! A cafetaria do museu. Sem máscara, bons tempos, ainda nos vamos esquecer.


Que longo Inverno este. Que estejamos vacinados na Primavera, é o meu desejo para 2021.