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domingo, 12 de abril de 2026

Salas de concerto : algumas das nossas melhores memórias pela Europa


Nas nossas viagens, tentei sempre conseguir algum concerto ou ópera numa sala local; foram afinal muito poucos, uns em boas salas de concerto, outros em igrejas, palácios, pavilhões. 

Começo em 1991, no Grand Théatre de Genève

Guillaume Tell de Rossini
com Chris Merritt, José Van Dam, Gregory Kunde, Jane Eaglen


Formidável produção!  O 'Asile hereditaire'  de Merritt foi de arrepiar, os quadros de conjunto inesquecíveis - os pastores, o povo dos 4 cantões, os bailados, e sobretudo a tempestade no lago, à noite, os rochedos sob relâmpagos e trovões; Até ao rallentando famoso no Grand Finale, o melhor que conheço em toda a Ópera. A récita que mais me emocionou, e na altura nem tive a noção exacta de que seria afinal uma das melhores da minha vida.


[Gravação sonora de 'Asile hereditaire' aos 3:02:11 , o genial Finale aos 3:33:30,
 aqui: https://www.youtube.com/watch?v=qozLQMFbjkY]

Em frente, nos jardins da Place de Neuve, havia jogos de xadrez gigante !


Em Edimburgo, no Usher Hall, estive em 1995 para ouvir András Schiff acompanhar Peter Schreier no ciclo Winterreise de Schubert.


Lembro-me de termos ficado sentados abaixo do nível do palco, o que já era desagradável, com um órgão enorme a erguer-se por trás. A acústica da vasta sala redonda, tipo Coliseu ou Albert Hall, era mazinha !

1996 - Rudolfinum de Praga

Em pleno Inverno, nevava com temperaturas de arca frigorífica. Fomos ao Concerto de Ano Novo, em que a Filarmónica de Praga tocou Donizetti, Korngold, Rossini e Dvorak, claro, que tem estátua à entrada. 


Dirigia Gerd Albrecht, um concerto fraco e tristonho, quem diria.

Outra sala feia. 

2000 Scuola Grande San Rocco, Veneza

A sala nobre da Academia é um sonho para concertos barrocos, linda de morrer. 


O agrupamento barroco Solisti Veneziani fundado por Claudio Scimone foi tocar música de Vivaldi, Corelli e Telemann mais ou menos ao quilo, sem grande entusiasmo. Mas estávamos a celebrar o ano 2000, na Páscoa, sentados em cadeiras colocadas para o concerto num dos mais bonitos salões de Veneza !



2002 - Ópera de Graz, Neujahrskonzert

Com a adesão ao "euro" a suscitar receios, estivemos a passar 2001 / 2002 em Graz.

Uma bela sala de Ópera, em Graz.

Phillipe Jordan dirigiu obras de Haydn, V. Williams, Elgar, Strauss. Foi assim-assim, o que se espera de um concerto de fim de ano, mas ... tristonho. Valeu mais ver a casa.



2003KKL de Lucerna

Este foi o nosso máximo requinte em salas de concerto, a melhor de sempre: o Kultur- und Kongresszentrum Luzern.

Em  2003 estivemos lá para ouvir Claudio Abbado dirigir uma retumbante 2ª de Mahler, cantava Anna Larsson; e dias depois com Cecilia Bartoli, divertidíssima, acompanhada  pelos músicos do “Le Musiche Nove”.

O KKL foi obra do arquitecto francês Jean Nouvel. Construído entre 1995 e 2000, é uma das mais belas e de melhor acústica salas de concerto do mundo.

A 2ª de Mahler por Abbado foi gravada e acabaria mesmo por ser editada em disco. Um momento único, que me marcou intensamente - estava de cadeira de rodas na sequência de uma violenta entorse do tornozelo. 


2007 - Ópera Real de Estocolmo

Cosi fan Tutte, de Mozart, com Maria Fontosh, Susann Végh.
Gostei muito de ouvir Végh, o cenário do jardim estava espantoso, boas cenas de conjunto. Uma récita decente mas dentro do mediano.


2010  - Ópera de Zurique

Estreei-me em Wagner com Os Mestres Cantores de Nuremberga, encenação de Nikolaus Lehnhoff, direcção de Philippe Jordan. Cantaram Matti Salminen, Michael Volle, Alfred Muff, Robert Dean-Smith.

Talvez a melhor récita a que já assisti. Nem sou fã de Wagner, mas os Mestres ainda não são demenciais como as obras seguintes; canto, teatralização, orquestra, tudo ajudou a umas horas de suspensão do tempo. Mesmo com cenários muito desiguais - excelente a viela em escadaria no 1º acto e a fortificação no 3º, mas o 2º acto era uma macacada moderna de fugir.


2011 - Ars-en-Ré, Salle de la Prée

Um dos mais surpreendentes locais de concerto foi em Ars-en-Ré, na primeira edição do Festival Ré Majeure; Marc Minkowski com o seus Musiciens du Louvre tocaram uma versão de concerto do Cosi Fan Tutte, e conheci Julia Lezhneva  e a sua bonita voz no papel de Fiordiligi. A 'sala de concerto' foi um Ginásio, o "La Prée" de Ars-en-Ré...



No ginásio foi montado um palco, mais umas cadeiras, e pronto. Um belo concerto barroco, com os Musiciens du Louvre no seu melhor.

Inesquecível.

2012 - Berlioz em St Paul's Cathedral

O Requiem de Berlioz, obra monumental se a há, com a London Symphony Orchestra dirigida por um Colin Davis que a idade obrigou a conduzir sentado. Dois coros a apoiar a orquestra, e foi uma perfeição.


À noite numa igreja destas dimensões não há boas fotos... posso só descrever como alucinante e ribombante o espectáculo sonoro e visual, com os solistas em galerias superiores e não um  mas dois coros a encher de ressonâncias as altas  abóbadadas. Sem distorção, claro, mas com o volume no máximo!


Não ouvi nada que se compare ! Quadrifonia espacial. 
Nesse Verão fomos ao La Fenice .

2012 - Veneza, La Fenice

O Teatro de La Fenice está emparedado pela densa rede de casario e canais de Veneza. Não se consegue uma perspectiva larga do edifício.

Rigoletto, de Verdi, dir. Daniele Abbado, com Dimitri Platanias, Désirée Rancatore, Celso Albelo.

Que grandes vozes! Albelo deslumbrante, um belo 'Caro Nome', mas uma encenação triste - esperava mais do La Fenice do que trajes escuros do século XX e um cinzentão de paredes com portas e janelas em papelão de recorte cúbico.


Albelo e Rancatore, vozes admiráveis.


2015  - Lubeck,  MuK (Musik und Kongresshalle) 

Outra sala feia.


Ouvimos Brahms, a 2ª Sinfonia, pela Sinfónica da NDR dirigida por Thomas Hengelbrock; decorria o Festival de Schleswig-Holstein

O interior não deixa de lembrar a Casa da Música do Porto.

Uma coisa que me chocou foi a sofreguidão com que as pessoas saíam para o intervalo entre Mozart e Brahms; cá fora vi porquê: era uma corrida às mesas de comes e bebes ! Canapés, bolinho, espumante...

2015 - Palau de les Arts, Valencia 

Engolidos pelo monstro de Calatrava. À noite é mais feio.

Fomos ouvir a Norma de Bellini , direcção de Davide Livermore, com uma Mariella Devia perto da reforma mas ainda com muita classe ! 

A récita foi excelente, gostei da encenação clássica e pesada como deve ser, a ária da Norma muito bem cantada dadas as limitações da idade. 

Tal como em Lubeck, fiquei embasbacado com o intervalo. Sim, havia mesas com pastéis de camarão e espumante; mas o mais admirável eram as senhoras a desembrulhar guardanapos que escondiam empadas e pastéis e sei lá que mais, todos avidamente a degustar o lanche antes de Norma se imolar...

A sala... enfim...

Concerto improvável foi em Cheltenham, em 2016 quando passeei pelos Cotswolds. A sala foi a antiga Câmara, de bela arquitectura.

Cheltenham Old Townhall

O edifício agora é usado como sala de concertos, e em particular durante o Festival de Cheltenham... que é uma sequela dos Proms. 


Foi a um desses concertos que assistimos: Purcell, Corelli, Vivaldi, Rebel, J.S. Bach, Handel e os seus Fireworks - até tivemos direito ao fogo de artifício, não no rio mas no palco por trás da orquestra!  Música interpretada de forma esfuziante pelos Barokksolistene de Bergen, dirigidos pelo norueguês Bjarte Elke, um pândego. Belo e divertido.


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Alguns outros houve, por vezes grandes concertos - Madrid, Viena, Glasgow, Heidelberg, Bolonha, Valladolid, Barcelona, Paris, Roma... mas não tenho suficientes documentos para os acrescentar a esta lista.

30 anos de concertos e ópera (incluindo Lisboa e Porto). 


sábado, 25 de outubro de 2025

'O Liberty thy choicest treasure' : luta pela liberdade segundo Handel / Morell


Na ópera Judas Maccabaeus de Handel, chamou-me a atenção esta quadra:

O liberty, thou choicest treasure
Seat of virtue, source of pleasure!
Life without thee knows no blessing,
No endearment worth caressing 

             Ó liberdade, mais precioso tesouro 
             Lugar da virtude, fonte de prazer! 
             A vida sem ti não conhece alegria 
             Nem afecto que peça carinhos.

Isto escreveu Thomas Morell, libretista de alguma das mais belas óperas de Handel, em 1747, exaltando a libertação da população da Judeia - os Israelitas - da ocupação Síria Helenística (= Império Selêucida) em 134 AC, a chamada Revolta dos Macabeus. Muito actual portanto. Ouçamos então O Liberty, em 3 versões:

Nuria Rial, Rolf Beck

Susan Gritton, uma soprano mais poderosa, com o King's Consort

Para uma versão 'fora de moda' com uma voz sublime à maneira antiga:
Janet Baker , com a English Chamber Orchestra, dir. Mackerras
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Já mais para o fim do Judas Maccabaeus, conseguida a vitória e a paz, Handel oferece um novo hino:

O Lovely peace

O lovely peace, with plenty crown'd, 
Come, spread thy blessings all around. 
Let fleecy flocks the hills adorn, 
And valleys smile with wavy corn. 
Let the shrill trumpet cease, nor other sound 
But nature's songsters wake the cheerful morn

          Ó paz querida, premiada de fartura,
          Vem, espalha as tuas graças em redor.
          Que os montes se adornem de rebanhos felpudos,
          E os vales sorriam com o milho a ondular.
          Que as trombetas se calem, e nenhum outro som
          Só o canto da natureza ao despertar a manhã.

Nuria Rial de novo, em dueto com Lucia Duchonova e com a Elb Barockorchester,  Rolf Beck 


Sarah Connolly, Rosemary Joshua
Uma versão mais pausada da Scottish Chamber Orchestra com William Christie



quinta-feira, 20 de agosto de 2020

"M'appari" da ópera 'Martha'


Uma breve ária romântica daquelas em que os tenores puxam pelo aplauso.
Do compositor alemão Friedrich von Flotow e das suas muitas óperas - basicamete pastiches melodramático/cómicos franceses do tipo Offenbach - só não foi esquecida esta ária popular da ópera Martha, raramente interpretada.

A acção passa-se em Richmond, Inglaterra, no ano de 1710. Duas jovens aristocratas aborrecidos da vida decidem procurar animação numa feira rural, disfarçadas de criadas, Marta e Julia. Mas Lyonel, um camponês, deslumbra-se com Marta e contrata-a para o seu serviço; Martha será mesmo obrigada, legalmente, a servi-lo como criada por um ano. Entretanto Lyonel perde-se de amores pela servente, ela escapa-se de noite pela janela, e é no seu desespero que Lyonel canta a ária 'M'appari'. Texto xaroposo, mas vale a pena ouvir.

Para além dos óbvios del Monaco, Lanza, Caruso, Pavarotti, Domingos, Alagna, escolho esta interpretação de Vittorio Grigolo:

          M'appari tutto amor
          Il mio sguardo l'incontrò
          Bella si che il mio cor
          Ansioso a lei volò
          Mi ferì, mi invaghì
          Quell'angelica beltà
          Sculta in cor dall'amor
          Cancellarsi non potrà
          Il pensier di poter
          Palpitar con lei d'amor
          Può sopir il martir
          Che m'affanna
          E strazia il cor
          E strazia il cor
          M'appari tutto amor
          Il mio sguardo l'incontrò
          Bella si che il mio cor
          Ansioso a lei volo.

          Marta, Marta, tu sparisti
          E il mio corcol tuo n'ando!
          Tu la pace mi rapisti,
          Di dolor io moriro.
          
Ao vivo, Marcelo Alvarez, entre os melhores:

A ópera Martha tem um happy end meloso do tipo casaram e foram muito felizes, que deve ter ajudado ao grande sucesso popular na época, e a que rapidamente tenha sido esquecida. Nem a abertura de fanfarra se salva.

À maneira antiga, lembremos o mítico Beniamino Gigli, em 1959, ainda havia público para Martha:


Tu la pace mi rapisti !
Bra'vo!

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

' Ah! ergermi dove mortal, mortal non va! ', canta Marcelo Álvarez


Inesquecível, esta interpretação do tenor suíço Marcelo Álvarez de "La mia letizia infondere vorrei" (I Lombardi, Verdi), quer dizer, 'A minha alegria quero insuflar'.


Tante armonie nell'etere
quanti pianeti egli ha:
ah! ir seco al cielo, ed ergermi
dove mortal, mortal non va !


Ninguém mais foi capaz de tal brilhantismo. Muitas vezes cantou esta aria ao vivo Luciano Pavarotti, mas nunca assim, com esta convicção.

Plácido Domingo ainda se aproxima, mas nem esse:

domingo, 7 de junho de 2020

Messa di Gloria, a missa operática de Puccini


É domingo, vamos a esta Missa - nada litúrgica mas muito teatral como tudo em Puccini. Trata-se de uma grande obra lírica, para orquestra e coro (4 partes)  com três solistas, formalmente uma Missa completa. Foi estreada em Lucca em 1880, mas Puccini não a publicou, só o faria em 1951 para ser cantada em... Chicago, 1952 !

Foi uma obra de juventude - talvez a primeira de Puccini, aos 18 anos. O impulso operático já se nota, embora o compositor sé viesse a dedicar-se à Ópera anos mais tarde, depois de ouvir a Aida. Há alegria e entusiasmo exagerados, assim como excesso de tragédia à italiana. Por vezes parece estarmos a ouvir o Nabucco.

Abre lindamente com o Kyrie:


Esta gravação é de 2001, com o coro da London Symphony, Roberto Alagna e Thomas Hampson dirigidos pelo especialista Pappano.

Segue-se a exuberante Gloria, gloriosa com as trombetas:


Muito bonito, Puccini não é meu favorito mas estou rendido.

E vou terminar com o Qui tollis, o tal que lembra Verdi :


Grandioso! Parece que estamos a ver o exército do Imperador a entrar em Palco.


Celebração dominical acabada, vamos ao café.


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Link para um Et  Incarnatus est:
https://www.youtube.com/watch?v=z5YZDtair_k



segunda-feira, 13 de abril de 2020

'Cosi potessi anch'io' de Vivaldi em triplo comparativo; e um extra.


assim pudesse eu também ...
[Alcina]

Esta ária magistral de Vivaldi faz parte da ópera Orlando Furioso, estreada em 1727; era frequente um compositor reutilizar composições suas em diferentes obras, e Vivaldi assim fez. Ouvi Cosi potessi anch'io pela primeira vez num programa da Antena 2 que muitos conhecem - o Questões de Moral de Joel Costa - na versão cantada por Lucia Valentini Terrani, com I solisti Veneti, direcção de Claudio Scimone:



Così potessi anch'io
Goder coll'idol mio
La pace, che trovar non può Il mio cor.

Ma unito alla mia stella,
E perfida, e rubella
Sol tormenti minaccia il dio d'amor.


Esta interpretação portentosa marcou-me tanto que dificilmente me contento com outra.

A primeira alternativa é Sonia Prina, com os Venice Baroque, numa versão mais conforme à renovação 'autêntica' do barroco - ganha precisão e clareza mas perde carga dramática, e o agrupamento não é nenhuma perfeição.



Jenifer Larmore, muito aclamada na récita integral de 2011 no Théatre des Champs Elysées, canta algo insegura e com excesso de vibrato[ária aos 1 : 04]


O Orlando Furioso é uma das grandes óperas do barroco italiano, sobre texto de Ariosto; estreada sem sucesso em 1727, é um longo estudo de amores contrariados e do ciúme, com três horas de duração e vários momentos musicais preciosos.

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Um brinde pascal (para Vivaldianos), ainda do Orlando:

Vivica Genaux e a sua habitual pirotecnia vocal, em
Agitata da due venti, dir. Fabio Biondi




sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Óperas a que assisti, umas três dezenas


- alerta: isto é uma memória pessoal, capaz de não interessar a ninguém. -

Típico da senilidade, apetece-me fazer o balanço de coisas; por exemplo, de óperas a que assisti. Que fique já claro que nunca frequentei Bayreuth nem Salzburgo (só fui a concertos) nem Glyndebourne. Na altura em que me podia aventurar, não tinha $, nem € muito menos. Dois bilhetes decentes custavam tanto como tudo o resto junto, viagem, estadia e alimento.

Comecei se bem me lembro no Rivoli do Porto, em 1984, com a Carmen de Bizet que me pareceu fabulosa, com Isabel Mallaguerra na voluptuosa protagonista e Elsa Saque em Micaela. A encenação não era nada má, e saí de tal maneira impressionado que andei a cantar a Carmen (e não só no banho!) por muitas semanas, "là-bas là-bas, dans la montagne". Um bom amigo deu-me um LP (vinil, claro) que rodou até ficar todo arranhado. Esse meu amigo R. fazia pouco de mim por eu ter como personagem favorita a Micaela; passei por essa vergonha, mas a culpa foi da Elsa Saque que cantava tão comoventemente com aquela vozita pequena.

Fartei-me de procurar ópera a "bom preço" em Itália, onde era suposto ser mais popular e acessível. E lá fui no ano seguinte  via Milão (o Scala era fogo) até à Arena de Verona assistir à Traviata de 1985 com a Cossotto. Não era um bom lugar, não era uma acústica decente, mas valeu pela mítica e pelo local...

1986, T. N. São Carlos, Lisboa
O Navio Fantasma, de Wagner
Só me lembro vagamente de ter sido muito mau - o meu desapreço por Wagner começou aqui. Saí no final do 2º acto.

Em 1987 tive o meu único Pesaro, com Rockwell Blake, Chris Merritt e Monserrat Caballé. A viagem foi um pavor, nunca mais chegava, uma aventura sem desfecho previsível, mas consegui. Tantas vozes gloriosas, mas a Ermione de Rossini não me convenceu, era chatinho, e a orquestra era de terceira ordem. Chris Merritt foi o meu herói, voltaria a ouvi-lo no Guilherme Tell.

Decidi que não tinha vida para grandes aventuras operáticas. Tinha de ficar mais por perto e planear melhor os custos, optando antes por bons concertos e museus.

1989
T. N. São Carlos, Lisboa
Aida de Verdi
Encenada por Paolo Trevisi, com um cast que já não recordo nem consegui descobrir na net. Um pastelão enorme, interminável e cansativo, nem sequer muito bem cantado. Claro que a cena do regresso de Radamés com trombetas, trombones e trompas foi avassaladora, como se mais nada contasse.

1991
Grand Théatre de Genève
Guillaume Tell de Rossini
dir. Gabriele Ferro, enc. Reto Nickler
Chris Merritt, José Van Dam, Gregory Kunde, Jane Eaglen
Formidável produção!  O 'Asile hereditaire'  de Merritt foi de arrepiar, os quadros de conjunto inesquecíveis - os pastores, o povo dos 4 cantões, os bailados, e sobretudo a tempestade no lago, à noite, os rochedos sob relâmpagos e trovões; Até ao rallentando famoso do emocionante Grand Finale, o melhor que conheço em toda a Ópera. A récita que mais me emocionou.

1993
Genève, Teatro do Casino
Porgy and Bess, de Gershwin
Excelente produção cénica, e muito bem cantada.

1994
T.N. São Carlos, Lisboa
Orfeo e Euridice
Harry Christophers dirigiu a OSP
Michael Chance, contratenor, fez uma Euridice pobre, sem espessura, para esquecer; a encenação era à quem quer e não pode -  panos azuis a esvoaçar imitando o mar, panos a ondular imitando cortinas, etc.. - o minimalismo no seu pior. As vestes ao menos não destoavam, não reinava o mau gosto.

2000
Teatro Principal de Ourense
Dido e Eneias, de Purcell
Compañia de Ofélia Nieto; orquestra e cenário/cantores partilhavam o palco.
Muito simples e bonito. As vozes não tinham educação lírica mas esforçaram-se por ser expressivas, e a animação do conjunto foi muito gratificante. Cena das bruxas fantástica. Um exemplo de "small can be beautiful".

2001
Porto CCE - Coliseu
Leonora, versão de 1805, de Beethoven
Welsh National Opera, dirigiu Yves Abel
c/ Pär Lindskog, Natalie Christie.
Apesar do desatre acústico do Coliseu, foi uma récita de bom nível - a orquestra o o coro bem dirigidos, e o trio Leonora-Marcellina-Florestan muito bom, vocal e teatralmente.

2001
Porto CCE - Coliseu
Falstaff de Verdi
CPO, enc. Timothy Coleman, dir. Marc Tardue
Paolo Conti, Jeffrey Black, Dora Rodrigues...
Ah grandes cenários. O resto...

2001
Porto CCE - Teatro S. João
The Turn of the Screw, de Benjamin Britten
Enc. Ricardo Pais, dir. Brad Cohen
Uma ópera moderna interessante, psicótica, onde é difícil encontrar canto ou melodia; mas Ricardo Pais fez bom trabalho.

2003
Teatro Principal de Ourense
IL Matrimonio Secreto, de Cimarosa - ópera bufa
prod. Euroscena, enc. Salvador Collado, dir Jesus Castejón
Muito fraquinho, orquestra fresca e esforçada mas de resto mais parecia mau teatro de revista.

2003
Coliseu do Porto
West Side Story, de Bernstein/Jerome Robins
prod. Teatro de Brno, Rep. Checa
Que eu visse, o melhor espectáculo de sempre no Coliseu ! Grande vitalidade, os bailados vertiginosos e o canto adequado e expressivo, Bernstein teria gostado. Trajes e cenários magníficos.

2003
Liceo de Barcelona
Orfeo y Euridice de Gluck
dir Ros Marbà, cen. Andreas Homoki
Jennifer Larmore... Detestei o Orfeu de Larmore. Mas a encenação era uma ideia brilhante, recorrendo a várias formas de dobragem de papel, barquinhos, por exemplo. A orquestra do Liceo é a pobreza que se sabe, e a acústica terrível ! Nunca mais lá voltei.

2003
ROH Covent Garden, Londres
A Flauta Mágica de Mozart
enc. David McVicar, dir. Colin Davis
Diana Damrau, Simon Keenlyside, Dorothea Röschmann
Mágica, foi sim, mesmo vista da galeria. Um prodígio total !

2004
Teatro Rivoli, Porto
A Raposinha Matreira / Cunning Little Vixen, de Janacek
prod. Welsh National Opera, dir Martin André
Uma produção magnífica, linda, mas para canto e música horríveis !
Janacek é outro daqueles que nunca mais.

2004
C.A.E. da Figueira da Foz/ TNSC
La Bohème, encenação de Stefano Vizioli (1996)
Tatiana Borodina, Dora Rodrigues...
Excelente récita. Tudo bem coordenado, visualmente empolgante e bastante bem cantado (sem deslumbre, claro). Valeu pela grande animação e colorido humano.

2005
Coliseu do Porto
A Flauta Mágica de Mozart pela ONP / CPO
dir. Marc Tardue
Nem sei porque lá fui. Tudo, mas tudo, mau. Além da acústica assassina, a encenação e as vozes foram deploráveis.

2007
Ópera Real de Estocolmo
Cosi fan Tutte, de Mozart
Enc. Ole Anders Tandberg
Maria Fontosh, Susann Végh
Fiquei encantado com Végh, o cenário do jardim estava espantoso, boas cenas de conjunto. Uma récita decente mas dentro do mediano.


2008
C.A.E da Figueira da Foz
L'Italiana in Algeri, de Rossini
prod. Aix-en-Provence/TNSC, enc. Toni Servillo
Barbara di Castri, David Alegret
Desta vez as vozes eram de bom nível, mas a encenação e direcção de orquestra pavorosas.

2009
Coliseu do Porto
La Traviata, de Verdi
Ópera Nacional da Moldávia
dir. Giovan Batista D'asta
https://www.youtube.com/watch?v=U91wp5865Tk
Pobre, querida Moldávia.

2010
Ópera de Zurich
Os Mestres Cantores de Nuremberga de Wagner.
enc. Nikolaus Lehnhoff, dir. Philippe Jordan
Matti Salminen, Michael Volle, Alfred Muff, Robert Dean-Smith
Talvez a melhor récita a que já assisti. Nem sou fã de Wagner, mas os Mestres ainda não são demenciais; canto, teatralização, orquestra, tudo ajudou a umas horas de suspensão do tempo. Mesmo com cenários muito desiguais - excelente a viela em escadaria no 1º acto e a fortificação no 3º, mas o 2º acto era uma macacada moderna de fugir.


2011
Teatro Comunale, Bolonha
Don Giovanni, de Mozart
Nmon Ford, Zuzana Marková, Juan Gatell...
Orq. Teatro Comunale di Bologna, dir. Tamás Pál, enc Pier Luigi Pizzi
Muito mau, para esquecer.

2012
Veneza, La Fenice
Rigoletto, de Verdi
dir. Daniele Abbado
Dimitri Platanias, Désirée Rancatore, Celso Albelo
Grandes vozes! Albelo deslumbrante, encenação pobre - esperava mais do La Fenice do que paredes com portas e janelas em papelão.


2014
Valladolid, Teatro Calderón
Clemenza deTito, de Mozart, dir Carlos Aragon
Cenários de superlativo mau gosto ! (Marco Caniti)
Vivica Genaux e sobretudo Yolanda Auyanet salvaram a noite.

2014
Fund. Gulbenkian, Lisboa
Dido e Eneias, de Purcell
MusicAEterna de Perm, dir. Teodor Currentzis
Ana Prohaska, Fanie Antonelou, Eleni Stamellou...
Genial. O meu melhor Dido de sempre, e mesmo que a teatralidade fosse mínima, a expressão corporal e movimentação foram excelentes.

2015
Opera di Roma
I was looking at the ceiling and then I saw the sky, de John Adams
Durante uns minutos é criativo, depois é giro, passado um bocado é repetitivo de mais e finalmente chato, chatérrimo.

2015
Valencia, Palau des Arts
Norma de Bellini
enc. clássica e aceitável de Davide Livermore
Mariella Devia, Russell Thomas...
Uma boa récita, apesar do ultrapassado de cenário e vozes. Prova de que o que foi bom, mesmo estando envelhecido, ainda tem muito para dar.


2016
ROH Covent Garden, Londres
Manon Lescaut, de Puccini, dir. Pappano
Enc. de Jonathan Kent
Sondra Radvanovsky, etc
Que porcaria, na verdade. Eu acho que a culpa é de Puccini: não tinha imaginado que esta ópera fosse tão má, desde a música insuportável até ao texto indigente de Prévost. Os personagens são idiotas, mas a encenação ultrapassou todos os limites do mau gosto, do kitsch mais selvagem. Qualquer coisa de Andrew Lloyd Weber é melhor. Nem Pappano se salvou. Foi aqui que jurei não voltar a Covent Garden.

2017
Usher Hall, Edimburgo
Orfeo de Monteverdi
English Baroque/Monteverdi Choir, dir JE Gardiner
Uma encenação simples mas bonita, vozes adequadas, mas sobretudo a orquestra e os coros !

2017
T.N. São Carlos, Lisboa
Ana Bolena, de Donizetti
enc. Graham Vick
Elena Mosuc, Leonardo Corelazzi...
Contra muita gente, achei a encenação genial, com uma estética requintada e expressiva. A Mosuc não foi por aí além, cumpriu em geral os mínimos com uma ou outra esganiçadela, mas a récita nunca me causou um momento de enfado.



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Umas trinta récitas, portanto. Estou longe, muito longe de ser um fiel frequentador, e lamento não o ter sido quando era mais novo. Falta-me a Salomé e o Rosenkavalier, a Semiramide, o Eugene Oneguin, a Tosca, todo o Handel (Rinaldo, Alcina, Teodora, Semele...).

Posso juntar uma quantas récitas em concerto: Teresa Berganza, Anne-Sophie von Otter, Ann Evans, Julia Lezhneva, Cecilia Bartoli, Carolyn Simpson, Catherine Bott, Anna Larsson, Joyce DiDonato, Iestyn Davies, James Bowman, Andreas Scholl, Francesca Aspromonte...

Próxima: Il Viaggio a Reims de Rossini, em Valencia.




sexta-feira, 8 de junho de 2018

Madame Serpente, a Senhora Branca: os imortais que querem ser humanos


Madame Serpente Branca é um conto mítico chinês que ganhou grande popularidade: um poderoso demónio em forma de serpente, ao fim de mil anos, transforma-se numa bela mas humana mulher para conhecer o amor. E encontra-o na Ponte Quebrada do Lago Poente de Hangzhou, na pessoa de Xu Xian. Casa com ele e vivem uma paixão tão intensa que atraem a curiosidade e a desconfiança de um monge, capaz de entrever a serpente oculta atrás da foma humana.

Quando o monge sabe que Madame Serpente está grávida, fica estarrecido com semelhamte violação de todas as tradições e tabus, sejam de raça, de religião, divinos e profanos. Resolve intervir confrontando o marido, que acaba convencido. E a (in)esperada tragédia surge quando Xi Xuan engana traiçoeiramente a mulher obrigando-a a retomar a forma de serpente.

O que mais emociona é que a imortal Serpente tenha abdicado dessa qualidade divina e assumido a forma mortal só para conhecer a mais humana das emoções. Por um breve instante tem nos braços esse amor desejado, mas acaba por perder tudo, embora haja versões com fim feliz. A narrativa foi transformada em ópera, cujas récitas costumam ter grande sucesso.

No Museu do Oriente há um exemplar de um belo livrinho ilustrado, tal historinha de B.D. à maneira oriental, com estas ilustrações que vou mostrar.

Como em todas as narrativas míticas orais, há muitas variações; a que está exposta no Museu do Oriente joga na amizade entre as duas serpentes, a Branca (libertária) e a Azul (conservadora), que se mantêm em contacto durante toda a aventura mundana de Madame Branca.

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1.
Dois Espíritos de Serpente, a Serpente Branca e a Serpente Azul, descem da montanha para gozar as delícias da Primavera, tomando a forma de belas mulheres no Lago Poente de Hang Zhou.

2.
Para atravessar o lago, pedem a um barqueiro que as aceite a bordo, onde já se encontra o jovem Xu Xian. Este, encantado, empresta o seu guarda-chuva à bela Senhora Branca, que de imediato se apaixona por ele. Combinam um encontro na Ponte Quebrada.

3.
Quando Xu Xian aparece para reaver o guarda-chuva, a Serpente Azul propõe a Xu Xian que se case com a amiga. Ele aceita de imediato.

4. Mas o monge Fa Hai, do santuário do Monte d'Ouro, revela a Xu Xian que a mulher é uma Serpente Mágica disfarçada. Propõe um plano para a revelar: dar-lhe a beber álcool durante as festividades das Barcas-Dragão.

5. Decorrem as festas, e Xu Xian força a esposa a beber vinho, como é costume local; a Serpente Branca ainda tenta que a sua magia possa evitar o efeito; mas sente-se mal e corre a refugiar-se no quarto.

6. Quando Xu Xian a segue e entreabre os cortinados, vê uma grande serpente branca e desfalece do choque.

7. Ainda mal refeito, sobe ao Monte d'Ouro e pede refúgio junto do monge Fa Hai, que o recolhe e mantém em clausura.

8. E agora começa a parte mais épica: as duas Serpentes (a Branca já recuperada) aliam-se aos animais aquáticos para conseguir resgatar o infeliz Xu Xian do mosteiro. Levantam as águas e inundam o santuário do monge Fa Hai, que acaba por ceder, permitindo que continuem entre os humanos até ao nascimento do bébé.

9. Comovido pela devoção da esposa, lutando contra sentimentos contraditórios, Xu Xian volta à Ponte Quebrada do Lago Poente para se reencontrar com a esposa; mas a furiosa Serpente Azul tenta matá-lo. É salvo pela Senhora Branca, que lhe conta da sua gravidez, e com renovadas promessas de amor retomam a sua vida em conjunto.

10. Assim que a criança nasce, Fa Hai vem buscar as duas serpentes e leva-as aprisionadas para um Pagode no Monte.

11. Anos mais tarde, o rapaz nascido de Xu Xian e da Senhora Branca vai prestar culto junto a Pagode, e consegue ver a mãe por breves instantes.

12. O Pagode acaba por ser destruído e as duas Sepentes conseguem escapar; procurando vingança, acabam por chamar a atenção de Buda que dá o castigo final a Fa Hai.

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Ora acontece que tudo isto lembra muita coisa lida e vista, desde pelo menos a Grécia antiga; no meu caso, recordei a obra-prima de Wim Wenders "Asas do Desejo" , no original "Asas sobre Berlim". Nessa hstória os espíritos não eram serpentes mas sim dois anjos, Damiel e Cassiel; Damiel, apaixonado, sente a tentação de ser humano mesmo que perdesse para sempre a imortalidade. Além do amor, irá sentir tudo o que há de bom e de mau.

Ah, mais uma coisinha: o Lago Poente de Hangzhou existe, assim como existe o Pagode Leifeng, octogonal e com cinco andares, construído em 975, colapsado em 1924 e depois reconstruído.