sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Óperas a que assisti, umas três dezenas


- alerta: isto é uma memória pessoal, capaz de não interessar a ninguém. -

Típico da senilidade, apetece-me fazer o balanço de coisas; por exemplo, de óperas a que assisti. Que fique já claro que nunca frequentei Bayreuth nem Salzburgo (só fui a concertos) nem Glyndebourne. Na altura em que me podia aventurar, não tinha $, nem € muito menos. Dois bilhetes decentes custavam tanto como tudo o resto junto, viagem, estadia e alimento.

Comecei se bem me lembro no Rivoli do Porto, em 1984, com a Carmen de Bizet que me pareceu fabulosa, com Isabel Mallaguerra na voluptuosa protagonista e Elsa Saque em Micaela. A encenação não era nada má, e saí de tal maneira impressionado que andei a cantar a Carmen (e não só no banho!) por muitas semanas, "là-bas là-bas, dans la montagne". Um bom amigo deu-me um LP (vinil, claro) que rodou até ficar todo arranhado. Esse meu amigo R. fazia pouco de mim por eu ter como personagem favorita a Micaela; passei por essa vergonha, mas a culpa foi da Elsa Saque que cantava tão comoventemente com aquela vozita pequena.

Fartei-me de procurar ópera a "bom preço" em Itália, onde era suposto ser mais popular e acessível. E lá fui no ano seguinte  via Milão (o Scala era fogo) até à Arena de Verona assistir à Traviata de 1985 com a Cossotto. Não era um bom lugar, não era uma acústica decente, mas valeu pela mítica e pelo local...

1986, T. N. São Carlos, Lisboa
O Navio Fantasma, de Wagner
Só me lembro vagamente de ter sido muito mau - o meu desapreço por Wagner começou aqui. Saí no final do 2º acto.

Em 1987 tive o meu único Pesaro, com Rockwell Blake, Chris Merritt e Monserrat Caballé. A viagem foi um pavor, nunca mais chegava, uma aventura sem desfecho previsível, mas consegui. Tantas vozes gloriosas, mas a Ermione de Rossini não me convenceu, era chatinho, e a orquestra era de terceira ordem. Chris Merritt foi o meu herói, voltaria a ouvi-lo no Guilherme Tell.

Decidi que não tinha vida para grandes aventuras operáticas. Tinha de ficar mais por perto e planear melhor os custos, optando antes por bons concertos e museus.

1989
T. N. São Carlos, Lisboa
Aida de Verdi
Encenada por Paolo Trevisi, com um cast que já não recordo nem consegui descobrir na net. Um pastelão enorme, interminável e cansativo, nem sequer muito bem cantado. Claro que a cena do regresso de Radamés com trombetas, trombones e trompas foi avassaladora, como se mais nada contasse.

1991
Grand Théatre de Genève
Guillaume Tell de Rossini
dir. Gabriele Ferro, enc. Reto Nickler
Chris Merritt, José Van Dam, Gregory Kunde, Jane Eaglen
Formidável produção!  O 'Asile hereditaire'  de Merritt foi de arrepiar, os quadros de conjunto inesquecíveis - os pastores, o povo dos 4 cantões, os bailados, e sobretudo a tempestade no lago, à noite, os rochedos sob relâmpagos e trovões; Até ao rallentando famoso do emocionante Grand Finale, o melhor que conheço em toda a Ópera. A récita que mais me emocionou.

1993
Genève, Teatro do Casino
Porgy and Bess, de Gershwin
Excelente produção cénica, e muito bem cantada.

1994
T.N. São Carlos, Lisboa
Orfeo e Euridice
Harry Christophers dirigiu a OSP
Michael Chance, contratenor, fez uma Euridice pobre, sem espessura, para esquecer; a encenação era à quem quer e não pode -  panos azuis a esvoaçar imitando o mar, panos a ondular imitando cortinas, etc.. - o minimalismo no seu pior. As vestes ao menos não destoavam, não reinava o mau gosto.

2000
Teatro Principal de Ourense
Dido e Eneias, de Purcell
Compañia de Ofélia Nieto; orquestra e cenário/cantores partilhavam o palco.
Muito simples e bonito. As vozes não tinham educação lírica mas esforçaram-se por ser expressivas, e a animação do conjunto foi muito gratificante. Cena das bruxas fantástica. Um exemplo de "small can be beautiful".

2001
Porto CCE - Coliseu
Leonora, versão de 1805, de Beethoven
Welsh National Opera, dirigiu Yves Abel
c/ Pär Lindskog, Natalie Christie.
Apesar do desatre acústico do Coliseu, foi uma récita de bom nível - a orquestra o o coro bem dirigidos, e o trio Leonora-Marcellina-Florestan muito bom, vocal e teatralmente.

2001
Porto CCE - Coliseu
Falstaff de Verdi
CPO, enc. Timothy Coleman, dir. Marc Tardue
Paolo Conti, Jeffrey Black, Dora Rodrigues...
Ah grandes cenários. O resto...

2001
Porto CCE - Teatro S. João
The Turn of the Screw, de Benjamin Britten
Enc. Ricardo Pais, dir. Brad Cohen
Uma ópera moderna interessante, psicótica, onde é difícil encontrar canto ou melodia; mas Ricardo Pais fez bom trabalho.

2003
Teatro Principal de Ourense
IL Matrimonio Secreto, de Cimarosa - ópera bufa
prod. Euroscena, enc. Salvador Collado, dir Jesus Castejón
Muito fraquinho, orquestra fresca e esforçada mas de resto mais parecia mau teatro de revista.

2003
Coliseu do Porto
West Side Story, de Bernstein/Jerome Robins
prod. Teatro de Brno, Rep. Checa
Que eu visse, o melhor espectáculo de sempre no Coliseu ! Grande vitalidade, os bailados vertiginosos e o canto adequado e expressivo, Bernstein teria gostado. Trajes e cenários magníficos.

2003
Liceo de Barcelona
Orfeo y Euridice de Gluck
dir Ros Marbà, cen. Andreas Homoki
Jennifer Larmore... Detestei o Orfeu de Larmore. Mas a encenação era uma ideia brilhante, recorrendo a várias formas de dobragem de papel, barquinhos, por exemplo. A orquestra do Liceo é a pobreza que se sabe, e a acústica terrível ! Nunca mais lá voltei.

2003
ROH Covent Garden, Londres
A Flauta Mágica de Mozart
enc. David McVicar, dir. Colin Davis
Diana Damrau, Simon Keenlyside, Dorothea Röschmann
Mágica, foi sim, mesmo vista da galeria. Um prodígio total !

2004
Teatro Rivoli, Porto
A Raposinha Matreira / Cunning Little Vixen, de Janacek
prod. Welsh National Opera, dir Martin André
Uma produção magnífica, linda, mas para canto e música horríveis !
Janacek é outro daqueles que nunca mais.

2004
C.A.E. da Figueira da Foz/ TNSC
La Bohème, encenação de Stefano Vizioli (1996)
Tatiana Borodina, Dora Rodrigues...
Excelente récita. Tudo bem coordenado, visualmente empolgante e bastante bem cantado (sem deslumbre, claro). Valeu pela grande animação e colorido humano.

2005
Coliseu do Porto
A Flauta Mágica de Mozart pela ONP / CPO
dir. Marc Tardue
Nem sei porque lá fui. Tudo, mas tudo, mau. Além da acústica assassina, a encenação e as vozes foram deploráveis.

2007
Ópera Real de Estocolmo
Cosi fan Tutte, de Mozart
Enc. Ole Anders Tandberg
Maria Fontosh, Susann Végh
Fiquei encantado com Végh, o cenário do jardim estava espantoso, boas cenas de conjunto. Uma récita decente mas dentro do mediano.


2008
C.A.E da Figueira da Foz
L'Italiana in Algeri, de Rossini
prod. Aix-en-Provence/TNSC, enc. Toni Servillo
Barbara di Castri, David Alegret
Desta vez as vozes eram de bom nível, mas a encenação e direcção de orquestra pavorosas.

2009
Coliseu do Porto
La Traviata, de Verdi
Ópera Nacional da Moldávia
dir. Giovan Batista D'asta
https://www.youtube.com/watch?v=U91wp5865Tk
Pobre, querida Moldávia.

2010
Ópera de Zurich
Os Mestres Cantores de Nuremberga de Wagner.
enc. Nikolaus Lehnhoff, dir. Philippe Jordan
Matti Salminen, Michael Volle, Alfred Muff, Robert Dean-Smith
Talvez a melhor récita a que já assisti. Nem sou fã de Wagner, mas os Mestres ainda não são demenciais; canto, teatralização, orquestra, tudo ajudou a umas horas de suspensão do tempo. Mesmo com cenários muito desiguais - excelente a viela em escadaria no 1º acto e a fortificação no 3º, mas o 2º acto era uma macacada moderna de fugir.


2011
Teatro Comunale, Bolonha
Don Giovanni, de Mozart
Nmon Ford, Zuzana Marková, Juan Gatell...
Orq. Teatro Comunale di Bologna, dir. Tamás Pál, enc Pier Luigi Pizzi
Muito mau, para esquecer.

2012
Veneza, La Fenice
Rigoletto, de Verdi
dir. Daniele Abbado
Dimitri Platanias, Désirée Rancatore, Celso Albelo
Grandes vozes! Albelo deslumbrante, encenação pobre - esperava mais do La Fenice do que paredes com portas e janelas em papelão.


2014
Valladolid, Teatro Calderón
Clemenza deTito, de Mozart, dir Carlos Aragon
Cenários de superlativo mau gosto ! (Marco Caniti)
Vivica Genaux e sobretudo Yolanda Auyanet salvaram a noite.

2014
Fund. Gulbenkian, Lisboa
Dido e Eneias, de Purcell
MusicAEterna de Perm, dir. Teodor Currentzis
Ana Prohaska, Fanie Antonelou, Eleni Stamellou...
Genial. O meu melhor Dido de sempre, e mesmo que a teatralidade fosse mínima, a expressão corporal e movimentação foram excelentes.

2015
Opera di Roma
I was looking at the ceiling and then I saw the sky, de John Adams
Durante uns minutos é criativo, depois é giro, passado um bocado é repetitivo de mais e finalmente chato, chatérrimo.

2015
Valencia, Palau des Arts
Norma de Bellini
enc. clássica e aceitável de Davide Livermore
Mariella Devia, Russell Thomas...
Uma boa récita, apesar do ultrapassado de cenário e vozes. Prova de que o que foi bom, mesmo estando envelhecido, ainda tem muito para dar.


2016
ROH Covent Garden, Londres
Manon Lescaut, de Puccini, dir. Pappano
Enc. de Jonathan Kent
Sondra Radvanovsky, etc
Que porcaria, na verdade. Eu acho que a culpa é de Puccini: não tinha imaginado que esta ópera fosse tão má, desde a música insuportável até ao texto indigente de Prévost. Os personagens são idiotas, mas a encenação ultrapassou todos os limites do mau gosto, do kitsch mais selvagem. Qualquer coisa de Andrew Lloyd Weber é melhor. Nem Pappano se salvou. Foi aqui que jurei não voltar a Covent Garden.

2017
Usher Hall, Edimburgo
Orfeo de Monteverdi
English Baroque/Monteverdi Choir, dir JE Gardiner
Uma encenação simples mas bonita, vozes adequadas, mas sobretudo a orquestra e os coros !

2017
T.N. São Carlos, Lisboa
Ana Bolena, de Donizetti
enc. Graham Vick
Elena Mosuc, Leonardo Corelazzi...
Contra muita gente, achei a encenação genial, com uma estética requintada e expressiva. A Mosuc não foi por aí além, cumpriu em geral os mínimos com uma ou outra esganiçadela, mas a récita nunca me causou um momento de enfado.



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Umas trinta récitas, portanto. Estou longe, muito longe de ser um fiel frequentador, e lamento não o ter sido quando era mais novo. Falta-me a Salomé e o Rosenkavalier, a Semiramide, o Eugene Oneguin, a Tosca, todo o Handel (Rinaldo, Alcina, Teodora, Semele...).

Posso juntar uma quantas récitas em concerto: Teresa Berganza, Anne-Sophie von Otter, Ann Evans, Julia Lezhneva, Cecilia Bartoli, Carolyn Simpson, Catherine Bott, Anna Larsson, Joyce DiDonato, Iestyn Davies, James Bowman, Andreas Scholl, Francesca Aspromonte...

Próxima: Il Viaggio a Reims de Rossini, em Valencia.




5 comentários:

Fanático_Um disse...

Mário, como pode imaginar, vibrei ainda mais que o habitual com este seu "post" porque descreve muitos episódios do meu hobby favorito. Os seus textos são sempre educativos e, mais uma vez, apreciei muito o que li. Muito obrigado. Não é uma provocação, quem sou eu para fazê-lo perante este blogue que é o melhor que leio a nível nacional, mas deixo umas notas:
1- A Aida de 1989 no Teatro de São Carlos que refere, e que também assisti: Fui ver à minha colecção de programas de sala e o elenco foi o seguinte: Galina Savova (Aida), Lando Bartolini (Radamès), Ludmila Schemtschuk (Amneris), Alessandro Cassis (Amonastro), Radoslaw Zukowski (Rei). Para mim, ainda muito inexperiente nas récitas de ópera ao vivo, achei um bom espectáculo (segundo o que registei na altura), mas admito que se fosse hoje poderia ter uma opinião diferente...
2- “No melhor pano cai a nódoa”, como diz o povo. Isto a propósito da Royal Opera House, para mim o melhor teatro de opera do mundo. Também já lá vi espectáculos menos bons, mas os melhores de que guardo memoria foram (quase) todos lá! Teatro relativamente pequeno, encenações quase sempre muito boas, cantores de topo, orquestra habitualmente muito bem e toda a envolvência é agradável e acolhedora. Apenas os preços não são nada convidativos.
3- Isso de as óperas de Wagner serem demenciais daria para um estimulante diálogo. Aceitando que os argumentos das óperas sejam algo “diferentes” (mas a ópera é a expressão musical e artística da irrealidade!), a música é frequentemente genial (algumas óperas têm trechos dos mais belos alguma vez escritos pela mão humana).
4- Concordo que o Coliseu do Porto tem uma acústica muito má para a ópera. Já lá fui um par de vezes (fui de Lisboa de propósito) e sempre achei que essa acústica prejudica tanto que não justificaria a deslocação (mas a possibilidade de ver mais uma representação operática em Portugal faz-me perder a razão e ir...).
Mais uma vez, obrigado por mais este texto, que tanto apreciei.

Mário R. Gonçalves disse...

Ora viva, F1, se me permite a abreviatura. O 'Fanáticos da Ópera' teve o seu papel neste post, e tive o pressentimento que não iria ficar indiferente. Obrigado.
Felizmente tive a oportunidade de apreciar o que diz da ROH na Flauta Mágica de McVicar/ Davis, e num outro espectáculo de ballet. Mas a Lescaut deixou-me furioso ! A pior récita de sempre, talvez...
Pois é, discordamos em Wagner. Isso acontece-me com outros apreciadores de Ópera, dizem que eu 'esclerosei' em Brahms. Foi tão genialmente grande que acabou com a música clássica. Esgotou-a. Desde ele só aprecio alguns minimalistas (Gorecki, Pärt, Glass), porque o resto é ruído, the rest is noise.

Fanático_Um disse...

Como sabe, também partilho a sua opinião em relação à música clássica pós Wagner. A maioria é ruído sim. Limitando-me à ópera, algum Strauss é excelente, mas pouco mais depois dele. Tenho feito um grande esforço nos últimos anos, tenho-me obrigado a assistir a óperas que à partida não iria e, na maioria dos casos, não consigo gostar. Tenho visto espectáculos bons (ou muito bons, os dois últimos foram o Billy Budd e a Morte em Veneza do Britten na Royal Opera de Londres) quando se conjuga tudo o que a ópera é, mas a música... E são consigo suportar Glass, a música é de uma monotonia doentia e a escrita em línguas moribundas ou mortas ultrapassa a minha capacidade de tolerância a estes rasgos intelectuais.

Mário R. Gonçalves disse...

Sim, Britten é interessante, pelo menos tem harmonias novas e é narrativo. Em Wagner o que não suporto é a tal música contínua, em que uma combinação de arranjo orquestral e voz se prolonga penosamente sem que nada aconteça de melódica ou harmonicamente estimulante, onde só o texto contém narração, e a quebra deste conceito quando se trata de pompa e circunstância, que então sim, introduz marchas triunfais apoteóticas, estilo napoleónico tardio, que me lembram logo do 'völkisch' que inspirou o nacionalismo alemão. Como é costume dizerem os 'maus' apreciadores de Wagner, gosto das árias - o Liebestod, algum Lohengrin, os Mestres. Enfim, com a imensamente rica e sempre em descoberta herança clássica barroca e romântica, não preciso nem sinto a falta dele. Mas, claro, gosto de ler as suas recensões, Fanático_Um, nas esperança de encontrar algum estímulo novo.

SilverTree disse...

Caro Mário, aprendo sempre com as suas publicações sobre música clássica, mas um dia peço-lhe formalmente um guia para principiantes ;)