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domingo, 2 de agosto de 2026

Aurélia de Souza, revisão de uma talentosa pintora em nova edição (as minhas escolhas)


Balaustrada da Quinta da China, onde Aurélia passou a juventude (ca. 1899). Uma diagonal que marca a fronteira do perto e do longe.

A publicação de um catálogo raisonné de Aurélia de Souza é o evento cultural da década neste medíocre país. Qual outro se pode invocar? Aquela coisa melosa e vulgar que ganhou a Eurovisão? Os 500 anos de Camões, uma vergonha indescritível ? Nem sequer uma Capital da Cultura decente, que me lembre. Cinema? Ah ah.  Continuamos agarrados aos 3 Fs salazaristas, alargando o Fado à cançoneta reles e baladas melosas em Sol e Dó ou então importamos techno, house, hip hop. 

Este Catálogo (*) é um acontecimento desde logo pela revelação de obras que não conhecia, depois pela qualidade da edição. Uma apresentação primorosa, que mesmo na versão online dá gosto folhear (a partir da página 28 !). Os textos que acompanham as imagens justificam o 'raisonné '. Não vou aqui citar longos extractos, seria um abuso, mas vou mostrar as obras de Aurélia que me impressionam, onde o talento para a côr e a luz mais ressaltam.

Aurélia de Souza, Rapariga com flores vermelhas

Vermelhos sobretudo, e brancos ! São luxuriantes. 'Rapariga com flores vermelhas'  é um dos quadros que figuram no catálogo que mais me fascinam. Nem sempre temos olhos abertos com Aurélia, estes estão, e avivados com os fantásticos cravos vermelhos.

Mas os azuis, também !

Estela de Souza, irmã mais nova da artista.

Este pequeno retrato de Estela é genial de expressão, de realismo, mostra um rosto belíssimo - e uma camisa azul clara de pureza e brilho como o céu primaveril. A luz que incide no rosto e no fundo só pode ser de um sol matinal. Aurélia certamente adorava esta irmã.

A pintora é quase sempre mais difusa, imprecisa, e prefere olhos semicerrados, como este

Estudo - menina a ler

Mulher a bordar

É outro dos meus favoritos, quase abstracto na prevalência das formas e manchas de azul da saia e de branco no avental, complementado pelo laço no cabelo.

E o genial branco puro, de costas, em camisa:

Rapariga de camisa branca, 1910

Àcerca desta 'pequena' obra prima escreveu a blogger do Silvertree Café, onde soube do Catálogo:

Na curva descaída dos ombros não repousa apenas o sossego educado e levemente aborrecido dos retratados. Nas pregas da camisa Aurélia depositou todo o silêncio habitado da pintura.

Porque gostava Aurélia de representar tantas vezes mulheres de costas ? Para valorizar a cor das roupagens? Esta, há pouco adquirida pelo Museu Nacional Soares dos Reis, é de verde:

'O vestido verde'.

'Lendo', ca. 1916, uma das últimas obras; a pintora está doente, em clausura, mas no máximo da sua mestria.

Nitidamente há dois quadros nesta pintura: um retrato, a metade esquerda, e um interior com natureza morta, a metade direita. O jogo de luz é genial, desde o reflexo na jarra ao branco do punho da manga; mais surpreendente é o lenço ou xaile vermelho que estabelece ligação entre as duas partes, um 'truque' bem imaginado.

O que se segue não é um retrato, é uma cena exterior; também é quase não-figurativa, apenas um pretexto para uma sombrinha vermelha e outra brincadeira com a luz:


Naturezas mortas: vejam este inacreditável chapéu de frutas!

O chapéu antigo

'As romãs', Museu M. de Coimbra

Sem título ['serviço de chá']

'Camélias vermelhas numa jarra de cristal', provavelmente dos últimos anos de Aurélia na Quinta da China. 

Na Quinta da China


Paisagens. 

'Trecho de um lago '– Quinta da China

Qualquer coisa de Monet respira por aqui... há todos os verdes, todos os brancos, e os reflexos a jogar com eles.

'Outono', 1905


Manhã de nevoeiro, 1905

O protagonismo dos barcos na luz esfarripada pelas névoas, um quadro impressionista! Turner? 

Em viagem:

'Veneza', 1905

'Barcos de pesca', lembram os de Van Gogh, de 1888.

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Aurélia de Souza era chilena de nascimento (Valparaíso, 1866), de uma família imigrante ibérica - pai português, mãe espanhola. Os primeiros anos foram vividos sob ameaça de guerra, com os  espanhóis a bombardear a cidade. O pai conseguiu fazer fortuna no Chile, e comprou a Quinta da China em Campanhã (Porto) junto ao Douro. 

Regressaram quando Aurélia tinha 3 anos; veio acompanhada de cinco irmãos, e a família instalou-se na Quinta. Embora tenha dado mostras do seu talento, só aos 27 anos iniciou estudos na Academia de Belas Artes do Porto. Mas aos 33 anos optou por Paris para acabar os estudos e contactar com o meio artístico. Depois, viajou pela Europa - Países Baixos, Alemanha, Espanha; e após um breve regresso, fez a sua grande viagem em 1905, a Capri, Veneza e à Suíça, também para tratamento. Foi um ano de grande produção artística, mas Aurélia sofria já do mal que lhe encurtou a vida. Nos últimos anos retirou-se no atelier na Quinta da China, refugiada no silêncio, solidão e memória, como os seus quadros reflectem.

Entre nós, a sua obra mais conhecida e popular é um auto-retrato com um casaco vermelho, dito 'obra-prima'. Gosto pouco. É inexpressivo, quase naif, seco e geométrico, de uma simetria mórbida. O seu melhor auto-retrato é este, com cerca de 30 anos (ca. 1895), quando frequentava ainda a Academia de Artes do Porto:


Ou então este, do alfinete de âmbar, muito mais tardio mas não datado:


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(*) Sem querer tirar mérito aos autores, na verdade o catálogo só começa na página 28. E a mesma coisa no final: a mostra das obras de Aurélia ocupa desde a página 28 à 396, num total de 541. Temos cerca de 160 páginas informativas e/ou históricas.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Grande Arte Europeia no Harvard/Fogg Art Museum de Cambridge, Boston



Publiquei aqui  há uns meses um post sobre o Museu de Cleveland, e a riqueza da sua colecção de Arte Europeia gótica e medieval. Outro museu que devia estar na Europa mas está em Boston é o Museu de Arte de Harvard, em Cambridge - Boston. São várias colecções, por isso costumam ser referidos no plural, Museus de Arte de Harvard. Lá dentro abunda arte europeia desde a clássica (mediterrânica) até ao século XX.

Fra Angelico, Filippo Lippi, Botticelli, Ghirlandaio, F. Guardi, Cézanne, Manet, Degas, Manet, Pissarro, Monet, Matisse, Picasso, Toulouse-Lautrec, van Gogh, Renoir, Rodin, Klimt, Klee, Calder, Rothko...

1 - O Fogg Museum, aberto em 1896, é a parte mais antiga e mais extensa.

2 - O Busch-Reisinger Museum fundado em 1903, arte de países de língua alemã.

3 - O Arthur M. Sackler, Médio Oriente e Ásia

Plano do Museu Fogg

Piso 1 - Arte Moderna, Impressionistas, séc XIX-XX

Piso 2 - Período Medieval, Renascimento, Romantismo/Neoclássico

Piso 3 - Arte Egípcia e Greco-Romana 

Piso 4 - As melhores colecções privadas (Fogg, Busch-Reisinger)

Vamos para a Antiguidade Clássica, no piso 3:

Horus, o deus-falcão egípcio, bronze (Período Tardio, ca. 650 – 500 A.C.).

Olpe (jarro para vinho, coríntio) ~700 AC

Kantharos (taça), Etrusco, 500 AC

Cerâmica "black and orange" -  período Arcaico (600–480 AC) e Clássico (480–323 AC)

Os pintores destes vasos são nomes bem conhecidos, famosos na época, estabelecidos em Corinto e Atenas.

Calyx Krater, ~500 AC (Kleophrades)

Kylix com mulher oferecendo libação a um altar, ~ 480 AC (Akestorides)

Outro, lindíssimo, do famoso ateniense Douris

Ânfora, Ática, 500 AC

Detalhe

Baixo relevo funerário sobre uma múmia (período Romano do Egipto, loc. Antinoopolis)

Antinoopolis foi uma cidade fundada em 30 DC pelo Imperador Adriano na margem direita do Nilo.

Cálice com padrão decorativo de pinhas, Anatolia (Imp. Romano), séc I

Fragmento de pavimento de mosaico com Pavão, Roma, séc. V-VI

Seguindo uma ordem cronológica, passo à Idade Média europeia.

Fra Angelico, Madonna e Bambino, 1430

Filippo Lippi, São Jerónimo no Deserto, c. 1455

Ghirlandaio, Madonna e Bambino, 1480

Detalhe de Madonna e Bambino, Sandro Boticelli, 1490

Até aqui, não está nada mal, certo? Enfim, a Arte é nossa, o dinheiro é deles.

Altar de Santa Ana, gótico germânico, 1516

Orazio Gentileschi (pai de Artemisia), 'La Madonna col Bambino dormiente', 1610

Lindo de cortar o fôlego. Os séculos XVII e XVIII são italianos.

F Guardi, Isola della Madonnetta, 1790

F Guardi, Fondamenta della Zattere, 1780

Salto temporal: vamos para o século XIX.
Um Turner invulgar, com um vermelho fabuloso:

Turner, Rembrandt's Daughter, 1827

Corot, Bateau de pêche à Honfleur, 1830

Renoir, claro, um deslumbrante vaso de flores.

Renoir, Bouquet Printanier, 1866


Oh não! Este também ?!

Claude Monet - Gare Saint Lazare, Arrivée d'un train, 1877 (série 'Saint-Lazaire')

Cézanne, Nature Morte à la commode, 1888



E Matisse, a brincar com as maçãs de Cézanne :

Que magnífica 'Nature Morte avec pommes', 1916

'Je n’ai jamais été aussi conscient que récemment, de la beauté de la couleur noire, de tout ce qu’elle peut offrir, à la fois comme contraste et en soi.'
                                                                                    Matisse

Gustav Klimt, Birnbaum (Pereira), 1903

Esta obra-prima de Klimt está na colecção Busch-Reisinger.

Degas, 'Grande Arabesque, troisième temps', bronze, 1919

Paul Klee, (Kopf) beim Einschlafen [Cabeça (ao adormecer)], 1935

Paul Klee, N.H.D. (provinzenhade), 1932

Tenho a impressão de que ficava a morar lá uns dias... está aqui exposta praticamente a História da Arte ocidental.

Alexande Calder, Little blue under red, 1947

Vou terminar com um tríptico de Rothko encomendado pela Harvard University para ser exposto no museu; não é europeu mas é impressionante.

Rothko, 1962

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Há muito mais ainda, greco-romano, medieval, mais Matisse, mais Renoir, Picasso... mas também excelentes Singer Sargent, Hokusai...  estes Museus de Harvard são um exagero.