Zeghere van Male (1504-1601) era um negociante de tecidos de Bruges, que coleccionou e reuniu cânticos e canções flamengas do século XV num cancioneiro (Liedboek) publicado em 1542.
1ª página de um dos 4 volumes
Foi na altura em que a imprensa musical começava a conquistar as classes médias. São quatro volumes espessos (cada com mais de 300 páginas) cosidos a fio de linho que ele próprio fabricava.
Os exemplares do cancioneiro eram ilustrados com magníficas iluminuras, minuciosamente executadas a tinta, ilustrando as letras do alfabeto que iniciavam cada página, o que tornava os manuscritos particularmente apetecíveis para os cidadãos mais abastados. Os temas eram desde mitos clássicos e animais até aos humorísticos or grotescos, muitos violentamente obscenos (que me dispenso de publicar...).
Letra 'M'
Quanto à música, o cancioneiro contém 229 composições ! São 15 missas, 64 motetes, 137 peças seculares, sendo 125 francesas (as favoritas do público) , 9 flamencas, 3 italianas (madrigais de Verdelot), e ainda 12 obras instrumentais, a maioria danças e um prelúdio.
Gosto bem deste 'D'
Só falta ouvir. Vou inserir aqui gravações pela Capilla Flamenca, de Lovaina, agrupamento já extinto em 2014, e pelo Ars Cantus de Wroclaw, dir. Tomasz Dobrzański.
Começo por uma canção anónima, 'Amour vaut trop ' , com o Ars Cantus, sop. Monika Wieczorkowska:Segue-se um Prelúdio do próprio Zeghere van Male:
Preludium
'Ogn'hor per voi sospiro' é um madrigal do franco-italiano Philippe Verdelot:
Philippe Verdelot (1480-1485, 1530-1540) é considerado o pai do madrigal italiano, e foi um dos mais prolíficos compositores da Renascença.
'Por ti suspiro a toda a hora' em tradução inglesa:
My heart forever yearns
For you, my dearest love.
Your love has claimed me,
I freely chose to be yours,
before the whole world's eyes.
Let all who hears or sees this know,
You alone have my heart.
So my love forsake me not.
Mais alegre, o festivo 'Tant que Vivray', de Claudin de Sermisy, pelo Ars Cantus :
E terminio com um favorito, 'Chantons, sonnons les trompettes' , de Clément Jannequin, seguido de uma Pavane:
Chantons, sonnons les trompettes
Tabourins, phifres & clerons
Si faisons la grant feste,
Plus nous ne craindrons.
Os séculos XV e XVI são os primeiros da Renascença e do Humanismo, quando o comércio e a interação com outros povos de outros continentes abriu a Europa a uma universalidade mais próspera, com o surgimento de uma primeira burguesia culta. No século seguinte teria início a grande Música Clássica, com compositores que dedicaram a vida à música e conquistaram a eternidade - Palestrina, Monteverdi, Scarlatti, Vivaldi, Bach ...
O original do Cancioneiro de Zeghere van Maleestá na mediateca de Cambrai.
"Mel" Bonis (Marie Hélène Mélanie Bonis) foi uma pianista e compositora francesa tardo-romântica, da transição do século XIX para o XX. Escreveu mais de 300 peças, sonatas para piano, piano e flauta, trios e quartetos, órgão e até sinfonias e música coral. Ignorada durante décadas, voltou a ser mais celebrada desde o início do século XXI, com várias gravações onde se reconhece o seu talento.
Começo com uma alegre 'dança' para piano: Valse Lente, op. 36
Mélanie Bonis nasceu em Paris em 1858; aprendeu piano contra vontade dos pais, com os contemporâneos César Frank e Debussy. No Conservatório encontrou o barítono e poeta Amédée Hettich, que desde então será o seu melhor amigo com quem partilha a paixão pela música.
Em 1883 é forçada pelos pais a um casamento que lhe desagrada, mas que lhe proporciona uma vida luxuosa. Passados uns anos, reencontra o amigo Hettich que a estimula a retomar a vida musical, e consegue publicar muitas das suas partituras.
Sérénade op. 46, 1899
Mélanie Bonis sofre um conflito violento entre a sua vontade e os preconceitos religiosos, escondendo a sua relação com Hettich tal como esconde o seu nome com o pseudónimo 'Mel' Bonis.
Em 1899, nasce uma filha de Hettich e Bonis, Madeleine. Os anos seguintes são dos mais fecundos da carreira da compositora, que projecta na música a alegria e sensibilidade que não consegue em casa.
É desta altura o Prélude op.10
Recentemente obteve algum sucesso na interpretação na guitarra de Rosie Bennet. É uma das minhas favoritas:
Em 1910 Mel Bonis é premiada pela Societé des Compositeurs de Musique. Entra para a Sociedade, onde está na companhia de Fauré e de Saint-Saëns. É um período de sucesso, com muitos concertos nas melhores salas do país.
A boa disposição nota-se neste L'oiseau bleuop. 74, de 1905, poema de Amédée Hettich :
De 1913, uma obra excelente, mais elaborada, ainda antes da guerra:
Il pleut ,op.102
As últimas obras, em parte por causa da guerra, perdem a alegria e tornam-se mais religiosas. São composições para órgão ou música coral.
De 1923, Au crépuscule, op. 111 dedicado à filha Madeleine
Em 1927 dá o seu último concerto. Em casa, nos seus últimos anos, Mélanie remeteu-se a uma melancolia religiosa.
Adoro Teop. 149, coral, 1933
Termino com a Danse Sacréeop. 38, uma pequena composição precursora que lembra a música dos actuais compositores de piano (Einaudi, Wim Mertens, Yann Tiersen...) - será que eles a 'plagiaram' ?
Ouvir as minhas novas Wharfedale é um consolo antiviral. De 2020 - ano Beethoven - sobraram várias excelentes gravações; ainda não ouvi todas e algumas merecem repetições, a disfrutar de melhor reprodução. São a prova de que nem tudo foi mau no ano vintevinte. Relato agora duas novas curiosidades, e uma coisa polémica.
Beethoven rarities, Howard Griffiths
Neste CD, a primeira raridade é a versão para piano do próprio Beethoven do seu concerto op. 61 para violino. Soa estranho, talvez artificial, um misto de já ouvido mas nunca antes ouvido; parece-me o piano um pouco tímido, cedendo à orquestra o protagonismo, mas pode ser um desequilíbrio intencional. Ouve-se bem, de qualquer forma. Já a alegre música para o Ritterballet (ballet do Cavaleiro), escrita para as festas de Carnaval em Bona, é uma suite de temas populares de que Beethoven na época nem sequer reivindicou a autoria. Ouve-se uma vez.
Assustadora é a Wellington Sieg. Uma espécie de marcha guerreira com muito tambor e trompa, incorpora o célebre Rule Britannia e o Mirandum (= Malborough) que vai à guerra, celebração anti-napoleónica, com duas orquestras (os ingleses e os franceses) em despique. Montes de barulho orquestral, que termina com Malborough declinando até se finar. Na segunda parte, o God Save the Queen inglês é objecto de uma curiosa interpretação com variações, lembrando por vezes o final da 9ª. Enfim, um outro Beethoven mais ruidoso e mundano.
Contemporâneos de Beethoven, Reinhard Goebel
Ainda relacionado com Herr Ludwig, este disco intitulado Beethoven´s world junta obras de Salieri, Hummel e o desconhecido Vorisek. Do primeiro, a suite 26 Variações sobre "La Folia di Spagna", é alegre mas cansativa; de Hummel, um injustamente secundarizado compositor, o majestoso e complexo Duplo Concerto para Violino, Piano e orquestra, com Reinhard Goebel a dirigir a sinfónica da WDR (Colónia). Há ressonâncias de Mozart, mas um Mozart que tivesse já aprendido com Beethoven... mas não, é Hummel no seu melhor, a escrever para dois instrumentos solistas e orquestra, o que não é coisa fácil, e a sair-se com mestria.
Pletnev e a orquestra russa
Surprendente, esta gravação ao estilo russo, como se Beethoven fosse Tchaikovsky. Nalgumas sinfonias resulta, noutras não. Pletnev afasta-se das interpretações historicistas, retoma a manipulação (ultra)romântica, mas com um gusto, uma energia impressionante, digamos ao estilo de um Solti nos seus dias mais tresloucados. Portanto, nada a ver com o que estamos habituados a ouvir.
Fosse a orquestra medíocre e o resultado era um desastre; mas nunca ouvi uma a orquestra russa tocar com tal rigor, com tal vigor, enfatisando as dinâmicas a um máximo muitas vezes discutível. A gravação é excelente, toda esta ênfase passa sem distorção. Gosto muito das 2ª, 4ª e 7ª. A interrogação na 5ª deve-se ao último andamento, realmente inaudível de tão erradas serem as opções de ritmo e dinâmicas, os fraseados aniquilados numa cacofonia estrepitosa. Pelo que li, a 3ª, 6ª, 8ª e 9ª são de fugir a sete pés, completamente arrasadas pela maluqueira de Pletnev.
Seja como for, uma lufada de ar. Se é fresco ou insalubre, depende dos gostos.
Que música vou deixar na despedida ? Não, não é Pletnev, é antes a WDR num excerto de Hummel, o andamento final do Duplo Concerto:
Johann Nepomuk Hummel (1778 – 1837) nasceu em Bratislava. Teve lições de piano com Mozart, que o apresentou aos 9 anos num dos seus concertos. Em Londres teve lições com Clementi e contactos com Haydn. No regresso a Viena foi alunode Salieri. Por essa altura o seu contemporâneo Beethoven começou a partilhar com ele a intensa vida musical de Viena, e claro que Hummel perdia no confronto, aliás amigável. Mozart e Schubert viriam também fazer sombra a Hummel, que mesmo assim chegou a kappellmeister para a corte do príncipe Esterházy.
Ainda há pouco aqui relatei o valor da obra musical da compositora Alice Mary Smith, com grande sucesso aliás ( 58 visionamentos). Pouco a pouco outras mulheres desta arte vão ressurgindo que a história injustamente ignorou, e não é só questão de sociedade machista, aconteceu também a muitos homens da música.
Emilie Mayer (1812-1833) nasceu em Friedland, a norte de Berlim e já perto do Báltico, de uma família de poucos recursos - o pai era apoticário; recebeu lições de piano ainda em jovem mas não se revelou para a música senão muito mais tarde, depois da morte do pai em 1840; em 1847, aos 35 anos, mudou-se para Berlim onde aprendeu contraponto e orquestração. Viajou desde esses anos pela Europa (Colónia, Munique, Hamburgo, Lyon, Bruxelas, Viena), dando a conhecer as suas obras em concertos, dentro do estilo clássico vienense a transitar para o romântico; foram na altura muito aclamadas, mas muito poucas chegaram a ser publicadas. Compôs obras sinfónicas incluindo oito sinfonias, obras corais e instrumentais. doze quartetos de cordas, sonatas para violino, piano e violoncelo, canções.
Emilie viveu sempre celibatária, estando a sua casa em Berlim aberta a convidados da vida social e política; mas depois da sua morte foi praticamente esquecida.
Começo então pelo Concerto para piano e orquestra; muito mozartiano, com partes do 1º andamento 'inspiradas' no nº23 de Mozart, mostra ainda assim a capacidade de escrever música de algum fôlego e complexidade, mais evidentes no talentoso Allegro final. Ao piano Ewa Kupiec, dirige Sebastian Tewinkel:
I. Allegro 0:00 II. Un poco adagio 13:40 III. Allegro 20:49
Noutro registo, ao vivo, Notturno para piano e violino, composição de algum requinte técnico:
A Sinfonia nº 7 é uma obra magnífica toda ela, mas os dois primeiros andamentos surpreendem pelo impulso criativo.
I. Allegro agitato 00:00
II. Adagio 10:50
III. Scherzo, Allegro vivace 20:57
IV. Finale: Allegro vivace 27:42
Consegui apenas um CD com obras de Emilie Mayer; na Sinfonia, toca a Newbrandenburger Philarmonie .
São as seguintes as compositoras clássicas de mérito que conheço:
Alice Mary Smith Anna Bon di Venezia Cécile Chaminade Clara Schumann Elisabeth Jacquet de la Guerre Emilie Mayer Fanny Mendelssohn Francesca Caccini Hildegard von Bingen Louise Farrenc Madalena (Laura) Sirmen
O that we two were maying, canção de Alice Mary Smith.
Descobri com surpresa mais uma mulher de artes que a História injustiçou, desta vez é inglesa, da era Victoriana.
Alice Mary Smith (1839 -1884) nasceu em Londres de uma família abastada de comerciantes. Teve uma educação clássica primorosa e mostrou cedo um talento nato para a música. Viria a ser uma prolífica e talentosa compositora, dentro do canon clássico mais que do romântico.
Em 1863, aos 24 anos, escreveu a primeira sinfonia composta por uma mulher britânica, e em 1867 entrou para a Royal Philarmonic Society. Em 1870 compôs uma das suas melhores obras, a Sonata para clarinete. Foi sempre apoiada pelo marido na sua dedicação à música. Escreveu a 2ª sinfonia em 1876 e desde 1880 dedicou-se à composição de obras litúrgicas de grande escala - cantatas, corais.
Foi vítima em 1884 da febre tifóide, aos 45 anos.
Alice sabia trabalhar bem a trama orquestral, desenvolver temas, criar harmonias e contraponto, escrever uma narrativa em música.
Muito bonito, o andante para clarinete e orquestra de 1870:
Angela Malsbury (cl) com os London Mozart Players, dir. Howard Shelley
Um clássico: Allegretto amorevole da 1ª Sinfonia de Alice M. Smith.
Howard Shelley dirige os London Mozart Players.
Elegância e graça, formas claras e ideias simples. A obra de Alice Smith ainda é vasta - além das duas sinfonias e muitas sonatas, escreveu quartetos para piano e para cordas, aberturas, e uma grande colecção de obras sacras - hinos, cânticos, cantatas, odes.
A única gravação a que tive acesso é a já referida de Howard Shelley para a Chandos:
Ana Amália de Brunswick (1739 – 1807) foi uma princesa germânica, regente de dois estados da Saxónia, que também se dedicava a compor música. A sua corte em Weimar, Musenhof (Casa das Musas), foi na época o centro cultural mais influente na Alemanha, atraíu Goethe e Schiller; Ana Amália criou, também em Weimar, uma biblioteca luxuosa que tem agora um milhão de livros. Uma princesa perfeita.
Biblioteca de Ana Amália, Weimar
Irmã de Frederico II, nasceu em Berlim, numa familia que já cultivava o Iluminismo. Casou jovem, aos 17 anos, com um nobre enfermo que a deixou viúva em dois anos, com o cargo de Regente. Pôde então implementar o requinte cultural da Musenhof - concertos, teatro, palestras - ao mesmo tempo que conseguia dar bom governo ao ducado.
Sobre a Musenhof escreveu o poeta Wieland que era
"... uma instituição para a promoção da alegria e do bom humor, onde se
tocava piano e violino, soprando, assobiando e brincando para que os anjos no céu se
divertissem".
Leitura de poemas na Musenhof de Weimar, perante Ana Amália e Goethe.
Ana Amália compôs uma sinfonia, um oratório, uma ópera e muitas obras de câmara. Difícil é encontrar boas gravações - consegui estas três. Dão bem a ideia de uma hábil compositora, que poderia ir mais longe se...
- Abertura de Erwin und Elmire,
pela excelente AAM sob diecção de Andrew Manze
Recebi agora. após um longo interregno, o volume 8 da edição 'Haydn 2032', gravações da música de Franz Joseph Haydn com Il Giardino Armonico dirigido por Giovanni Antonini.
Tem havido grande míngua de boas novas gravações, foi uma bela surpresa. Mais uma vez a dinâmica e refrescante abordagem do maestro dá nova vida às sinfonias de Haydn.
- Sinfonia Nº 63 "La Roxolana"(1778/1779)
Diria mesmo: 'genial', quer a obra quer a expressiva vitalidade que Antonini lhe imprime, um gosto de precisão, contrastes e equilíbrio. Ninguém tinha chegado a este nível antes, que eu saiba (o melhor foi Hogwood).
O 1º andamento, exemplar, reaproveitamento da abertura da ópera 'Il Mondo della Luna':
Mesma revelação com a seguinte, é como se estivéssemos a ouvir pela primeira vez uma obra nova: - Sinfonia Nº 43 "Merkur" (1770/71)
E finalmente, a mais curta e menos elaborada (é muitos anos anterior). - Sinfonia Nº 28(1765/66)
O vertiginoso 1º andamento em 3/4:
O CD traz duas obras 'extra':
Anónimo Sonata jucunda, c. 1673-1680
Béla Bartók (1881–1645) Danças folclóricas Romenas (1917)
Também a qualidade gráfica se mantém no nível máximo, em edição tipo livro cartonado, desta vez ilustrado com fotografias de Mark Power.
Há pouco salientei aqui as muitas violinistas que se têm destacado em anos recentes, e uma referida era Akiko Meyers, de quem postei o Fratres de Arvo Pärt.
Mas na mesma gravação em CD, há outra obra ainda mais assombrosa: o 'Magnum Mysterium' de Morten Lauridsen, uma das suas composições mais conhecidas e justamente apreciadas, recriada por uma Akiko Meyers prodigiosa, arrepiante !
Que intensidade, rara.
Na gravação de Meyers em CD, 'Mirror in Mirror', com obras de Philip Glass e Arvo Pärt como o nome indica, ela é acompanhada com a Orquestra Philarmonia. Fica qui também, para comparar, mas gosto mais do duo com piano de Akira Eguchi.
Quanto mais ouço, mais gosto. Não há melhor desmentido para quem acha que já ninguém compõe música como-deve-ser. Recomendo vivamente a escassa mas muito bela obra de Lauridsen, sobretudo os poemas de Rilke que ele musicou: https://olivrodaareia.blogspot.com/2014/10/rose-complete.html
Haydn nasceu em 1932, fará centenário em 2032, mas a festa já começou. Juntaram-se dois parceiros da cena musical clássica - a editora Alpha e a Fundação Haydn de Basileia - para uma nova edição, historicamente 'ainda mais informada', das 107 sinfonias do génio austríaco. Coube a direcção ao italiano Giovanni Antonini, um dos maestros mais prestigiados na área do classicismo anterior ao romântico com o seu precioso Giardino Armonico ; mas a Orquestra de Câmara de Basileia também intervirá em várias gravações. Uma das curiosidades desta colecção imprescindível é que cada volume de sinfonias é temático, e tem um complemento de outro compositor da época - Mozart, W.F. Bach, Cimarosa, Kraus...
A edição é também muito bonita, com capas cuidadas (cartonadas) e design gráfico com fotografias ilustrando o tema de cada volume.
Site do Haydn 2032: https://haydn2032.com/EN/haydn2032.html
Nº1- La Passione - A nº1, uma excelente nº39, e em extra um Ballet do Don Juan de Gluck
Nº2- Il Filosofo - sobressai a nº 22, e mais uma pequena sinfonia de W. F. Bach; trabalho gráfico muito bonito.
Nº3 - Solo e Pensoso - até agora o volume mais fraco , mas com o bónus da ária do mesmo nome, cantada por Francesca Aspromonte.
Nº4 - Il Distratto - tem a nº 60 e a nº 70, obras elaboradas, com grande variedade de temas e força criativa. O complemento é Il Maestro di Cappella, obra bufa esfuziante, muito italiana, de Domenico Cimarosa; um discurso instrumental muito 'didáctico', numa versão orquestral inédita. Um CD imperdível.
Entretanto já foram publicados 7 volumes a esta data. A partir do 5º, com a orquestra de Basileia, como aqui na brilhante Sinfonia nº 3:
Mas o Giardino Armonico é impressionante na nº 70:
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Já agora, uma observação: à parte a Alemanha, nenhum outro país tem tanta densidade de orquestras de topo como a Suíça. Começa na Tonhalle de Zurique, depois a Camerata de Berna, a Kammerorchester de Basileia, a orquestra do Festival de Lucerna fundada por Abbado, o Musikkollegium de Winterthur, a orquestra da Suisse Romande de Genève. Um fartote.
Só acredito na Arte quando é fruto de uma dedicação exclusiva, prolongada, muitas vezes obsessiva, de alguém que dá pouca ou nenhuma importância à vida privada e mundana. Um criador contemporâneo que se ajusta ao perfil de Artista como o entendo, à maneira clássica, é Arvo Pärt, o músico estoniano que nos tem dado composições brelíssimas e inovadoras, faltando apenas aquela obra magistral, com dimensão de génio, para que se junte à galeria dos grandes compositores. O seu perfil de vida recatada, quase solitária, votado à música, permite esperar que isso venha a acontecer.
Aqui deixo uma coreografia para o comovente Fratres, interpretada ao violino por Hagar Maoz, e dançado pela bailarina Tamar Bardos, israelitas, num cenário que evoca as povoações do Médio Oriente assoladas pelos confrontos.
Fosse esta Serenata composta por Handel, e era mais uma das suas obras primas, que muito lhe acrescentaria ao mérito. Mas William Boyce escreveu pouco, comparativamente. E mais nenhuma obra deste nível, embora o seu conjunto de Sinfonias seja notável (excelente a gravação de Trevor Pinnock). Para já, fica aqui o primeiro andamento da Sinfonia nº 1, pela New Dutch Academy:
'Solomon, a serenata'foi escrita em 1743, sobre uma peça de teatro de Edward Moore. Teve bastante sucesso, sobretudo pela ária ‘Softly Rise, O Southern Breeze’. Boyce viveu quase sempre em Londres, onde foi organista de prestígio, mas ia frequentemente a Oxford e Cambridge para concertos e festivais de órgão. Em 1758, Boyce chegaria a compositor da corte, sendo depois nomeado organista principal da Capela Real. Foi o topo da carreira, devido à surdez que o impediu de prosseguir como organista. Nessa altura a sua fama era de compositor de hinos de igreja, um conservador no estilo barroco quando já Johann Christian Bach trazia a Londres música "nova", palacial e galante, que agradava mais ao gosto da corte.
O melhor de Boyce é a sua música vocal, odes celebratórias para ocasiões especiais. A festiva 'Solomon' que agora descobri, é tida como a obra maior deste modesto seguidor (25 anos mais novo) de Handel. Chegou a ser mais famosa e requisitada que o Messias ! Uma jóia barroca, transpirando felicidade campestre, de algum fôlego criativo, muito bem escrita numa musicalidade capaz de agradar à primeira audição. Um remédio eficaz para más disposições. Na altura foi escrito que é
“... a fine piece of composition ! It has a number of beautiful strokes of genius, it is fine, it is elegant and sublime….how delicate the airs in it, how charming the melody ! Can anything be more so? Really it is almost impossible.”
A única gravação decente a que tive acesso é a de Roy Goodman, outro injustamente menorizado: de uma imaculada coerência, resultado de muito estudo e enormes cuidados interpretativos, falta-lhe só aquela centelha de coragem inventiva.
Difícil é encontrar vídeos para aqui dar exemplo. O melhor que consegui - é a minha primeira contribuição para o "ano britânico" que a Casa da Música vai tratar tão mal - são estas duas árias, de lirismo campestre.
Ian Bostridge na ária com coro 'Softly rise, O southern breeze':
Softly rise, o southern breeze ! And kindly fan the blooming trees; Upon my spicy garden blow, That sweets from every part may flow.
Coro Ye southern breezes gently blow, That sweets from every part may flow.
'Tell Me, Lovely Shepherd' - canta Richard Bonsall, ac. piano.
Tell me lovely shepherd where, Though feed’st at noon thy fleecy care? Direct me to the sweet retreat That guards thee from the mid-day heat:
Left by the flocks I lonely stray Without a guide, and lose my way: Where rest at noon, thy bleating care? Gentle shepherd, tell me where.
Finalmente, converti do meu CD para vídeo (com o moviemaker) este maravilhoso dueto, uma celebração de alegria e amor; é um dos meus favoritos:
The Parley of Instruments, dir. Roy Goodman 'Together let us range the fields'
Together let us range the fields Impearled with the morning dew; Or view the fruits the vineyard yields, Or the apple's clust'ring bough: There in close-embower'd shades Impervious to the moontide ray, By tinkling rills, on rosy beds, We'll love the sultry hours away.
Juntos vamos correr pelos campos orvalhados de pérolas pela manhã ou ver os frutos que crescem na vinha ou os botões em cacho nas macieiras Ali juntos na sombra embebidos Impermeáveis ao raio da maré lunar junto ao regato, em cama de rosas vamos gozar as horas do sol-pôr.
Todo um programa !
Vou-me deitar, vou morrer num buraco de árvore vazia,
O corvo e o gato,
A coruja e o rato
Hão-de cantarolar a minha elegia. Purcell, Bess of Bedlam
A conjugação feliz da já mítica voz de Emma Kirkby (e de Catherine Bott) com Chistopher Hogwood a dirigir a Academy of Ancient Music em obras de Purcell foi um dos milagres interpretativos das novas formações barrocas de fins do séc XX. Ninguém desde então conseguiu reunir vozes, direcção e orquestra tão perfeitas e coerentes.
Alguns exemplos, com o texto a acompanhar, pois segui-lo faz parte do prazer audiófilo. Muito boa música para toda a semana.
Purcell, If music be the food of love - Emma Kirkby. dir. Hogwood
If music be the food of love, Sing on till I am fill’d with joy; For then my list’ning soul you move To pleasures that can never cloy. Your eyes, your mien, your tongue declare That you are music ev’rywhere. Pleasures invade both eye and ear, So fierce the transports are, they wound, And all my senses feasted are, Tho’ yet the treat is only sound, Sure I must perish by your charms, Unless you save me in your arms.
From Silent Shades and the Elysian Groves (Z370) foi uma canção publicada por Purcell em 1683. Ficaria conhecida como Bess of Bedlam ou Mad Bess, por ser a típica canção sobre a mulher que enlouqueceu por desgosto de amor. Num longo panfleto rancoroso, Bess lança o alerta Ladies beware ye!, e a terminar o narrador eleva Bess à dimensão Real.
From silent shades and the Elysian groves Where sad departed spirits mourn their loves From crystal streams and from that country where Jove crowns the fields with flowers all the year, Poor senseless Bess, cloth'd in her rags and folly, Is come to cure her lovesick melancholy. "Bright Cynthia kept her revels late While Mab, the Fairy Queen, did dance, And Oberon did sit in state When Mars at Venus ran his lance. In yonder cowslip lies my dear, Entomb'd in liquid gems of dew; Each day I'll water it with a tear, Its fading blossom to renew. For since my love is dead and all my joys are gone, Poor Bess for his sake A garland will make, My music shall be a groan. I'll lay me down and die within some hollow tree, The rav'n and cat, The owl and bat Shall warble forth my elegy. Did you not see my love as he pass'd by you? His two flaming eyes, if he comes nigh you, They will scorch up your hearts: Ladies beware ye, Les he should dart a glance that may ensnare ye! Hark! Hark! I hear old Charon bawl, His boat he will no longer stay, And furies lash their whips and call: Come, come away, come, come away.
Poor Bess will return to the place whence she came, Since the world is so mad she can hope for no cure. For love's grown a bubble, a shadow, a name, Which fools do admire and wise men endure.
Cold and hungry am I grown. Ambrosia will I feed upon, Drink Nectar still and sing." Who is content, Does all sorrow prevent? And Bess in her straw, Whilst free from the law, In her thoughts is as great, great as a king.
'An Evening Hymn', aqui com Hogwood ao cravo e Anthony Rooley em alaúde.
Now, now that the sun hath veild his light And bid the world goodnight; To the soft bed my body I dispose, But where shall my soul repose? Dear, dear God, even in Thy arms, And can there be any so sweet security! Then to thy rest, O my soul! And singing, praise the mercy That prolongs thy days. Hallelujah!
Para acabar, um dos greatest hits de Purcell,
We the spirits of the air, de Indian Queen, com Kirkby, Bott, e dir. Hogwood
We the spirits of the air that of human things take care, out of pity now descend to forewarn what woes attend.
Greatness clogg'd with scorn decays, With the slave no empire stays. Cease to languish then in vain, since never to be loved again.
Uma das 'novidades' em disco que mais gosto me tem dado ouvir é Colin's Kisses, uma colecção de canções e peças instrumentais de James Oswald interpretadas pelo agrupamento barroco Concerto Caledonia, com Catherine Bott (soprano) e Iain Paton (tenor), edição da Linn Records de Glasgow (1999). The Parting Kiss
James Oswald (1710–1769) foi um compositor escocês quase contemporâneo de Bach e Handel ! Violoncelista, apontado pelo rei Jorge III para compositor da Câmara Real, Oswald dedicou boa parte da carreira aos tradicionais escoceses. Toda a sua música respira a típica sonoridade, ora alegre e dançável, ora melancólica, que facilmente reconhecemos como escocesa.
Em 1741 deixou Edinburgh e foi para Londres trabalhar em edição musical, tendo publicado Caledonian Pocket Companion, obra em doze volumes que alterna canções tradicionais com variações e originais de sua autoria. Admirador do poeta Robert Burns, Oswald compôs música para alguns dos seus poemas.
Entre as melhores obras de Oswald estão as Airs for the Seasons, umas 'quatro estações' escocesas para violino (1 ou 2) e violoncelo, adaptáveis a flauta ou oboé, na forma de trio-sonatas.
Ao contrário do pai, Johann Christian devia ser muito extovertido e alegre, feliz mesmo. É o que transparece na música dele, e nesta Sinfonia Concertante T289 Nº4, de 1775 (o terramoto !), talvez mais que em qualquer outra.
A dita "música galante", em voga na Londres onde Johann Christian tinha assentado arraiais, dá mais ênfase à linha melódica, à fluidez, em prejuízo do intrincado contraponto barroco. Mas a verdade é que nesta obra encontro um fabuloso domínio técnico do diálogo instrumental /orquestral, e quatro instrumentos solistas numa sinfonia não são fáceis de gerir. Não é por acaso que Mozart admirava muito Johann Christian e se deixou influenciar por ele. Encontraram-se pela primeira vez em 1764, tinha Mozart 8 anos e já uma sinfonia composta ! Ficaram amigos para sempre.
Esta é uma das últimas obras de Johann Christian Bach, que em breve iria declinar ao mesmo tempo que entrava em ruptura financeira, tendo um pobre final de vida, endividado.
O Larghetto (7:28), nada triste, é particularmente contagioso, com o diálogo de oboé e flauta numa bela melodia e a orquestra a constituir o 3º instrumento de forma ... genial, sim. E o risonho final Allegretto (13:34) transborda de gusto.
Flauta: Rachel Brown Oboé: Frank de Bruine Violino: Simon Standage Violoncelo: Davíd Watkin
The Academy of Ancient Music
De uma das maiores compositoras de sempre, Louise Farrenc (1804-1875), este belíssimo trio para piano, clarinete e violoncelo está primorosamente escrito, é uma delícia de escutar, transborda de alegria e está adequado aos dias estivais que correm.
Parece ouvir-se Beethoven, Schubert, Hummel - de quem foi aluna.
'The Music Makers', de Elgar, ode para contralto ou mezzo-soprano, côro e orquestra, Op. 69 .
Estreou no Birmingham Festival em Outubro de 1912, sendo a orquestra dirigida pelo compositor com Muriel Foster na voz solista. O texto é o poema 'Ode' de Arthur O'Shaughnessy, de 1874, que Elgar tinha começado a musicar em 1903, não por comissão, mas por se sentir muito retratado no poema, um lamento pela solidão do artista nos seus sonhos criadores:
We are the music makers, And we are the dreamers of dreams, Wandering by lone sea-breakers, And sitting by desolate streams..
Em 1912, Elgar estava em profunda depressão, em parte afectado pela tragédia do Titanic, em parte por sofrida solidão. Escrevia então, "eu no fundo sou ainda a criança sonhadora que se pode encontrar entre os juncos do rio Severn, com uma folha de papel, a tentar descrever os sons e suspirando por quaquer coisa de grandioso. Continuo à espera disso." E na verdade respira ao longo da peça uma "saudade" romântica do humanamente grandioso.
A música não é inteiramente nova - há excertos de outras obras, como o Nimrod das variações Enigma. É este o trecho que sugiro aqui:
They had no vision amazing Of the goodly house they are raising; They had no divine foreshowing Of the land to which they are going: But on one man's soul it hath broken, A light that doth not depart; And his look, or a word he hath spoken, Wrought flame in another man's heart.
Janet Baker numa gravação de 1966
Mais recente: Jean Rigby, 1994
P.S. Faleceu hoje John Tavener, compositor, 1944 – 2013. Menos música... continuemos a ouvi-lo aqui
Hans Von Bronsart (1830 – 1913), pianista e compositor, foi contemporâneo de Liszt, Wagner, Berlioz e Brahms, com quem convivia e trocava ideias.
A sua obra mais conhecida é o Concerto para piano Op.10, com um muito clássico Adagio ma non troppo, a lembrar os de Brahms, progredindo com belos efeitos para um intenso e magnífico climax .
Aqui vai por Michael Ponti (piano) e a Sinfónica da Westphalia, dir. Richard Kapp - ao que parece, a única gravação da obra em disco.