domingo, 5 de fevereiro de 2017

O quase-génio de William Boyce : Solomon, a Serenata

          
        Where rest at noon, thy bleating care?
Gentle shepherd, tell me where.

Fosse esta Serenata composta por Handel, e era mais uma das suas obras primas, que muito lhe acrescentaria ao mérito. Mas William Boyce escreveu pouco, comparativamente. E mais nenhuma obra deste nível, embora o seu conjunto de Sinfonias seja notável (excelente a gravação de Trevor Pinnock). Para já, fica aqui o primeiro andamento da Sinfonia nº 1, pela New Dutch Academy:



'Solomon, a serenata' foi escrita em 1743, sobre uma peça de teatro de Edward Moore. Teve bastante sucesso, sobretudo pela ária ‘Softly Rise, O Southern Breeze’. Boyce viveu quase sempre em Londres, onde foi organista de prestígio, mas ia frequentemente a Oxford e Cambridge para concertos e festivais de órgão. Em 1758, Boyce chegaria a compositor da corte, sendo depois nomeado organista principal da Capela Real. Foi o topo da carreira, devido à surdez que o impediu de prosseguir como organista. Nessa altura  a sua fama era de compositor de hinos de igreja, um conservador no estilo barroco quando já Johann Christian Bach trazia a Londres música "nova", palacial e galante, que agradava mais ao gosto da corte.

O melhor de Boyce é a sua música vocal, odes celebratórias para ocasiões especiais. A festiva 'Solomon' que agora descobri, é tida como a obra maior deste modesto seguidor (25 anos mais novo) de Handel. Chegou a ser mais famosa e requisitada que o Messias ! Uma jóia barroca, transpirando felicidade campestre, de algum fôlego criativo, muito bem escrita numa musicalidade capaz de agradar à primeira audição. Um remédio eficaz para más disposições. Na altura foi escrito que é

“... a fine piece of composition ! It has a number of beautiful strokes of genius, it is fine, it is elegant and sublime….how delicate the airs in it, how charming the melody ! Can anything be more so? Really it is almost impossible.


A única gravação decente a que tive acesso é a de Roy Goodman, outro injustamente menorizado: de uma imaculada coerência, resultado de muito estudo e enormes cuidados interpretativos, falta-lhe só aquela centelha de coragem inventiva.


Difícil é encontrar vídeos para aqui dar exemplo. O melhor que consegui - é a minha primeira contribuição para o "ano britânico" que a Casa da Música vai tratar tão mal - são estas duas árias, de lirismo campestre.

Ian Bostridge na ária com coro 'Softly rise, O southern breeze':


                       Softly rise, o southern breeze !
                       And kindly fan the blooming trees;
                       Upon my spicy garden blow,
                       That sweets from every part may flow.
Coro
                       Ye southern breezes gently blow,
                       That sweets from every part may flow.


'Tell Me, Lovely Shepherd' - canta Richard Bonsall, ac. piano.


Tell me lovely shepherd where,
Though feed’st at noon thy fleecy care?
Direct me to the sweet retreat
That guards thee from the mid-day heat:

Left by the flocks I lonely stray
Without a guide, and lose my way:
Where rest at noon, thy bleating care?
Gentle shepherd, tell me where.


Finalmente, converti do meu CD para vídeo (com o moviemaker) este maravilhoso dueto, uma celebração de alegria e amor; é um dos meus favoritos:

The Parley of Instruments, dir. Roy Goodman
'Together let us range the fields'


Together let us range the fields
Impearled with the morning dew;
Or view the fruits the vineyard yields,
Or the apple's clust'ring bough:

There in close-embower'd shades
Impervious to the moontide ray,
By tinkling rills, on rosy beds,
We'll love the sultry hours away.


                                                    Juntos vamos correr pelos campos
                                                     orvalhados de pérolas pela manhã
                                                     ou ver os frutos que crescem na vinha
                                                     ou os botões em cacho nas macieiras

                                                     Ali juntos na sombra embebidos
                                                     Impermeáveis ao raio da maré lunar
                                                     junto ao regato, em cama de rosas
                                                     vamos gozar as horas do sol-pôr.

Todo um programa !


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