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domingo, 25 de julho de 2021

Erté, Romain de Tirtoff, mestre da Art Déco, conhecem ?


Romain de Tirtoff (1892, S. Petersburgo - 1990) foi um artista francês, de origem russa, mais conhecido pelo pseudónimo Erté, das iniciais "R.T." em francês. Seguindo a corrente Art Déco, produziu obras de joalharia, estatuária, artes gráficas, moda, e também cenários para teatro, ballet e ópera. 

O seu grande sucesso deve-se a um contrato em Nova Iorque com a Harper's Bazaar, em 1915, que não só lhe deu fama como os meios para poder viver da actividade artística. 

Entre 1915 e 1937, Erté desenhou mais de 200 capas, e também colaborou com a Cosmopolitan e a Vogue, entre outras.

Quatre Émotions - L'amour, para a Vogue

Séries como "O Alfabeto" ou "Os Numerais" foram também muito populares em exposições.

 
O Quatro, Adão e Eva entrelaçados de folhas e bailando.

 
O Seis, de Erté

Prisoner of Love, bronze.

Mais tarde, já depois dos 70, Erté dedicou-se à escultura em bronze pintado a frio; criava peças únicas como oferta em troca de favores. É portanto o exemplo ideal do artista 'vendido', sem alma, sem rebeldia, que trabalha por encomenda, e por isso desprezado por muitos; como se a beleza em Arte tivesse de obedecer a critérios sociais.

Soleil, bronze.

 
The Flames of Love, bronze.

A Art Déco de Erté foi influenciada pela arte japonesa e por Beardsley, ilustrador inglês de temas ´decadentes´.

 
Tanagra, um dos bronzes mais requintados.
 
Mas é um facto que Erté se moveu sempre nos meios endinheirados e de prestígio social, entre Nova Iorque, Paris e S. Petersburgo. As exposições no MET e no Ermitage eram acontecimentos de sociedade. Era disso que ele gostava e cultivava.

Talvez a sua obra mais conhecida seja Symphony in Black, uma mulher alta e esguia, estilizada, envolvida em roupagens e adereços negros e acompanhada por um cão também negro. Um estilo que faria escola.

Dois anos antes de morrer, Erté criou várias edições limitadas de garrafas para a casa Courvoisier.


 Mais: https://biography.yourdictionary.com/erte

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E pronto, aqui têm um bom exemplo de Cancel Culture, a cultura de apagamento de personalidades de algum mérito só porque não correspondem aos cânones do Politicamente Correcto. Erté era artista da alta burguesia, que seja ignorado.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Tinta simpática, de Patrick Modiano

 É o nome da tinta invisível, que escurece com limão.

Noëlle Lefebvre, é desta vez o nome da mulher procurada, a mulher-mistério que um dia desapareceu sem notícia. Há a sensação de déjà lu, mas com a fluência de Patrick Modiano, a nostalgia de uma Paris perdida a surgir em cada esquina - memória indefinida, imersa em névoa mesmo em pleno Verão - é fácil deixar-me levar página após página a deambular, perdido também nas ruas de um livro, "perdu dans des zones oú s'enchevêtrent la mémoire et l'oubli ". Depois, há nomes que surgem, nomes quase mágicos que saltam do nada: Roger Behaviour (aliás, Béavioure), Gérard Mourade, George Brainos, Françoise Steur, Serge Servoz, café Khédive - este existe mesmo.

« Je marchais le long de l'avenue vers l'Étoile et je me sentais, ce soir-là, dans ce qu'on appelle curieusement un « état second ». Jamais Paris ne m'avait semblé aussi doux et aussi amical, jamais je n'étais allé si loin dans le coeur de l´été, cette saison qu'un philosophe dont j'ai oublié le nom qualifiait de saison métaphysique. Ainsi, Noëlle, la bergère des Alpes, avait habité quelque temps dans l'une des chambres du haut, à une centaine de mètres derrière moi... L' avenue était déserte, et pourtant je devinais à mes côtés une présence, l'air était plus vif que celui que je respirais d'habitude, le soir et l'été plus phosphorescents. »

 
Le Khédive

Gosto de ler sobre Paris, seja literatura ou relatos de viagem; mas não sei bem porquê nunca fiquei entusiasmado das vezes em que lá estive, sempre uma sensação de demasiado grande, demasiado caos, gente desagradável, tudo fica longe de mais e nada vale a pena do esforço desmedido. Ou quase. A Sainte Chapelle vale. Mas as pontes, os cais, Montmartre, os Arcos (velho e novo), é tudo ficção pacóvia do romantismo americano, há muito melhor noutras paragens, já para não falar de orquestras e concertos. O Louvre e infrequentável, a Torre feia, feia; nos cafés a demora não se aguenta, nem a sobranceria antipática. As minhas metrópoles são Roma e Londres, mas em geral prefiro cidades pequenas - Strasbourg, Saint-Malo, La Rochelle, Bordeaux, Annecy...

 
« Elle prenait ces cars, été comme hiver, aux mêmes heures. On y retrouvait les mêmes personnes. Elle y avait remarqué un garçon de son age. L'été, il montait dans le car de six heures du soir à Annecy et descendait a Veyrier-du-Lac, juste avant le tournant de la route qui menait a l'intérieur des terres.(...)

Ils étaient souvent assis sur une banquette du fond, côté à côté. Une fin d'après-midi  dans l'un de ces cars d'été, ils avaient engagé la conversation. Elle revenait de son travail. Mais quel était le travail de cet été-là ? Serveuse dans une pâtisserie sous les arcades ? (...)

L'hiver, dans le car de dimanche soir, il rentrait au pensionnat. Ces soirs-là, ils se tenaient debout, serrés l'un contre l'autre pendant tout le trajet. Ils se séparaient sur la place, devant la mairie. Plusieurs fois, elle l'avait accompagné le long de la petite route droite qui menait au pensionnat, et ils marchaient lentement tous les deux pour ne pas glisser sur la neige. »


Noëlle tinha fugido de Annecy para Paris. Mas afinal foi por pouco tempo, em Roma é que a vamos descobrir e desvendar o mistério, revelar a tinta simpática: "Elle lui expliquerait tout ". Mas nós, ficamos, sem explicação, a ler a frase final. Genial, Modiano. Ah, Roma de todos os encontros !

Gosto destas histórias de pessoas sem nação, que saltam fronteiras de cidade em cidade, para esquecer e renascer. E como diz o ditado, vai sempre dar a Roma.

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

No Museu Britânico, dez assombros e uma galeria


Que falta sinto de viagens com Museu no roteiro...

Há sítios com os 10-must-see de muita coisa, museus incluídos. O Museu Britânico não é um mundo, é um Universo, mas senti-me tentado a fazer a mostra dos meus 'dez mais', como statement e como relato de uma visita guiada pelo meu gosto...  dez peças de assombrar, por onde agora naveguei de novo como se lá estivesse.

1. O Standard (padrão) de Ur


Proveniente da Suméria, no 3º milénio A.C.. Uma caixa de madeira oca, com as faces laterais embutidas com um mosaico de conchas, calcário vermelho e lápis-lazúli. Lembra outra peça do Museu que já qui referi, o magnífico Jogo Real de Ur.


Foi encontrado num túmulo real em Ur, a capital Suméria; uma face descreve cenas de paz, a outra cenas de guerra, numa preciosa banda desenhada com mais de 4000 anos.

2. O Selo cilíndrico de Dario
    Séc. VI - V AC.


Encontrado em Tebas, Egipto, o selo real sumério tem a forma de um cilindro em quartzo de Calcedónia, em baixo relevo negativo, que ao rodar sobre uma placa de barro mole imprime uma cena de caça aos leões em carro puxado a cavalos entre palmeiras, sob a protecção de um deus.


À direita, imprime uma inscrição cuneiforme: "Eu sou Dario o Grande Rei", em três línguas - persa, elamita e babilónio. No carro, de pé, Dario I aponta o seu arco de caça.


3. O Vaso de Sophilos.
    Atenas, 580–570 A.C.


Taça festiva de vinho com pé, com a inscrição 'fabricado por Sophilos'. Está decorado com cenas da mitologia heróica grega.



4. Pedra da Roseta.
     196 A.C., Egipto

Não podia aqui faltar - o milagroso dicionário trilingue, que converte escrita hieroglífica em texto demótico do Egipto e Grego antigo. Uma daquelas descobertas para a eternidade.



5. Gargantilha (torque) Céltica
    ca. 75 A.C.

Este colar céltico tem um quilo de ouro ! Data da idade do Ferro, e foi encontrado em Snettishham, Norfolk. É uma obra soberba, da mais requintada arte de ourives.



6. Vaso romano 'Portland'.
    Século I (primeiros anos da Era, 1-25).


De uma beleza deslumbrante, este vaso romano de vidro azul com camafeu branco em baixo relevo é o mais famoso do género.

 

Começou por ser conhecido como Vaso Barberini em Itália, por ter pertencido à família da Toscânia. Compras sucessivas acabaram no 3º duque de Portland: o vaso mudou de nome e de casa; desde então inspirou o célebre Wedgwood e outros a fabricar camafeu de vidro.



7. Vénus no banho, ou Vénus 'de Lely'.
    Roma, século II

Vénus agachada no banho, escultura em mármore, versão Romana de uma estátua helenística da deusa Afrodite.


Com um olhar frágil e intimidado, parece que se sente espreitada durante o banho. Absolutamente... ϟ❊ϟ!!⋆⋆⋆!


[Lely foi um pintor inglês do séc. XVII, um dos proprietários da escultura.]

8. O Xadrez de Lewis.
    Séc. XII
aqui fiz um post sobre este jogo de xadrez Viking.

Esculpidas em marfim de morsa e osso de baleia, estas peças não foram ainda suficientemente bem atribuídas, mas está aceite que tenham provindo da Noruega para a Escócia, já no declínio do período Viking. Foram encontradas numa pequena caixa enterrada, como se fosse um tesouro, na ilha de Lewis, Hébridas.



9. Trompa tibetana de concha.
    Séc. XVIII - XIX

Deve produzir um som portentoso e exótico, esta trompa baseada numa grande concha e hiper-decorada com cobre, esmalte e pedras preciosas.

No estandarte há um dragão ricamente esculpido.


10. O próprio Museu Britânico.


Foi o primeiro  Museu Nacional no mundo, aberto ao público em 1759 com a colecção do irlandês Hans Sloane. O edificio original neoclássico, com uma frente de 44 colunas iónicas,  é de Robert Smirke, mas muitos outros se foram adicionando ao longo dos anos.

'Reading Room', a sala de leitura circular adicionada em 1854-57.

Entre as galerias, destaco a Enllghtenment Gallery, onde se exibe documentação e objectos ligados ao Iluminismo, o início da era do Progreso. Manuscritos, instrumentos, mecanismos, e livros, muitos livros.


Um monumental vaso de mármore está de guarda à entrada - o Vaso Piranesi. Meticulosamente reconstruído no século XVIII pelo arquitecto e restaurador Piranesi a partir de milhares de fragmentos romanos, encontrados na Villa Adriana de Tivoli - o original dataria do do séc. II.


A galeria foi construída em 1828 como biblioteca de George III, e exibe também a colecção original do fundador Hans Sloane, dos séculos XVIII e XIX - desde peças antigas de variadas origens a mecanismos de precisão, espécimes de História Natural e várias esculturas.

Fauno de Duquesnoy, séc XVII (barroco)

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Homenagem prestada a um dos melhores Museus do mundo, o Brit. Deve ser também um dos posts mais bonitos de sempre, aqui no Livro. Bom fim de Verão.




sexta-feira, 27 de março de 2020

Também fui feliz em Ré [antídoto para o confinamento]


É Primavera. Seja ela capaz de por fim ao verme invernal.

Talvez o sítio que me vem mais depressa à ideia se puserem a questão "então não voltas a viajar mais ?" seja a ilha de Ré. Das duas vezes que lá estive, só lamento não ter podido prolongar a estada. O melhor sucedâneo de ir a Ré, será publicar aqui uma breve memória de quando a visitei.


Há actividade cultural ? Praticamente não. Há duas ou três formas de experimentar cultura - a arquitectura das vilas marinhas, o ecossistema da ilha, o modo de vida em ritmo brando; e há um ou dois festivais. Mas é sobretudo notável constatar como as malhas urbanas e as marinas se integram harmoniosamente com as salinas a a cobertura vegetal. Parte dessa integração realiza-se nas ruas estreitas reservadas a peões e ciclistas e bordadas de roses trémières, que a cada esquina oferecem uma hipótese de aguarela; a outra parte realiza-se nos portinhos onde alguma pesca e lazer se entrelaçam em frente das fachadas, azul (ou verde) das persianas e branco da cal. Uma rede de caminhos cicláveis entre prados e salinas, habitadas por várias espécies de pássaros, completam o cenário. À volta, mar, plano e vasto.


As salinas desta região servida pelo porto de La Rochelle tinham muita procura no tempo da Hansa; já desde o séc. XIII os navios da Liga vinham aqui trocar outras mecadorias (peles, cereais) pelo famoso sal de Rochelle.


Uma grande tranquilidade, banhada pelo sol, às vezes soprada pela ventania. Nas povoações, a mesma tranquilidade nas ruas sem trânsito.

As roses trémières dão às ruelas um colorido que é imitado pelas tintas de portas e janelas.

Saint-Martin-de-Ré, a 'capital'





Foi aqui que fiquei da primeira vez, em 2011, no Domaine de la Baronnie.

O porto de pesca de St. Martin



É difícil descrever o gosto de frequentar estas esplanadas. Por exemplo para um peixinho ou uma sobremesa, em ausência de ruído - apenas as cordas dos barcos a bater com o vento.



Mourat blanc, do Loire. Gulodice.

Mas Ars-en-Ré foi o top !

Café du Commerce, a dar para o porto.

iiih que saudades do café Florio.

Ars-en-Ré é a povoação mais bem preservada na ilha, com algum património e um labirinto de venelles (vielas) onde dá gosto passear sem destino.


A vila mais bonita. 'La Tour du Sénéchal' - épicerie et dégustation.


A inconfundível torre sineira, que se vê de toda a metade oeste da ilha

Portal da igreja de St. Étienne

Jogo da pétanque, quando e onde apetece.


É um destino de gente rica, classe alta, burgueses ? É. Mas o que isso significa é que não há cadeias de fast food, nem lojas de plástico asiáticas, nem centros comerciais, nem graffitis, nem bares de vida nocturna, nem garrafas de cerveja a juncar o chão. Ou seja, o turismo ainda respeita, não estraga, deixa respirar os locais. Em Ré ainda há vida.

La Flotte, a mais antiga



Crèmerie, Rue du Marché.

Um regalo para o olfacto e para a vista é uma ida ao mercado de La Flotte, todas as manhãs.





O recinto da feira.

O passeio marítimo, junto à praia urbana



São visita imperdível as ruínas da abadia de Notre Dame de Ré, entre campos de trigo e de papoilas, num terreno ajardinado de alecrim, tomilho e alfazema; o silêncio é impressionante, só o vento e os corvos num espaço vastíssimo. Chegar lá ao fim da tarde depois de meia hora de bicicleta é uma sensação única, de solidão apaziguadora, como se nos aproximássemos de um pacífico término, em adagio ma non troppo.


Data do séc . XII, e foi fundada por monges de Cister; mas as ruínas actuais, de estilo gótico, são mais recentes, do séc. XIV.


Sucessivamente saqueada e destruída por ingleses, por tropas na guerra dos 100 anos e pelos huguenotes, foi finalmente abandonada pelos monges no séc XVI.



Um momento mágico, em que um testemunho de atribulada História mais uma vez demarcou o tempo e o espaço.


Também há praia e mar; é bom estar por perto, sentir-lhe a presença, mas não frequentei. Para isso não vale a pena ir tão longe.





      Les jours de bonheur, comme cela passe vite!