sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Livro chegou a 300 000, tem música, e de Vivaldi !


Dei conta há dois dias atrás de que tinha atingido as 300 000 visitas. Foram séculos para passar tão modesta fasquia. Nem a uma cidade europeia decente cheguei.

Assim, os 500 000 já não devem ser para esta minha vida. Só se começasse a publicar títulos de futebol e de tablóide. Pois, terei poucas mas 'boas' visitas, não é isso que se deseja, poucos e bons ?

Muito agradeço aos meus 'bons' visitantes, mais ainda a alguns que são fiéis. Que seria de mim sem vós ? Que hei-de vos desejar ?

Pois que venha a Primavera ! A 'molto festosa' Dell'aura al sussurar, da ópera Dorilla in Tempe de Vivaldi, pelos I Barochisti de Lugano.




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P.S. estarei uns dias ausente, novo post talvez só daqui a uma semana.

domingo, 14 de janeiro de 2018

A fantástica Carta Marina de Olaus Magnus



Um dos tesouros da Carolina Rediviva, a magnífica biblioteca de Upsala, é o primeiro mapa do Norte da Europa, obra notável de Olaus Magnus em 1539:

Carta marina et descriptio septentrionalium terrarum.


À primeira vista, a Carta mais parece um mapa de espécies marinhas com aspecto de criaturas monstruosas. Dominam os mares e espicaçam a imaginação, como ilustrações de um livro infantil.

Mas um mapa é suposto cartografar o conhecimento humano, expor imagens da nossa compreensão do mundo. Talvez no século XVI os monstros da Carta Marina não fossem vistos como os vemos hoje, mas de maneira diferente. Junto com o mapa, Olaus publicou um volume de notas sobre as imagens que só por si é um  tratado de literatura fantástica.

Eram os prmeiros anos da 'Idade da Exploração', acreditava-se ainda na existênia de grifos, unicórnios, dragões, a fénix, e mais uma horda de criaturas fantasistas. Vivia-se a infância da Ciência moderna, enquanto o imaginário assentava ainda nos mitos medievais.


A lagosta gigante que agarra um nadador na suas pinças, ou a serpente que se ergue à altura dos mastros e devora marinheiros, representavam o medo real das profundezas. Não são mera decoração para preencher o espaço vazio, nem metáforas visuais para os perigos do mar; tanto se acreditava na sua existência que estão definidos com legenda no mapa. Por exemplo, "Balena", um réptil de quatro patas e dois esguichos, é descrito nas notas como uma baleia, acompanhada da Orca, com um colar espinhoso. O "Prister", um dragão com esguichos, é um "redemoinho que facilmente engole um navio"; "Ziphius" (Xiphias é o peixe-espada) é listrado, tem barbatana dorsal e um colar de agulhas. Ainda mais engraçado, "Rockas" (uma raia) é um bicho benigno, protege os nadadores de outros predadores. Outras ilustrações mostram Islandeses a secar bacalhau, pessoas a esquiar sobre o gelo no Golfo da Finlândia, trenós puxados por renas a atravessar o golfo da Bótnia...


Acho graça a uma ilha, entre as Órcades (Orkney) e as Faröe, chamada Tile. A crença na existência de Tule, a Ultima Tule, era ainda bem forte no século XVI, como uma Ilha para Além das Fronteiras do Mundo Conhecido, como designa Olaus. No mapa lê-se: Hec insula habet XXX millia populus et amplius (a ilha tem 30 000 pessoas ou mais) e Hic habitat dominus insularaum (aqui vive o senhor das ilhas) !


Olaus Magnus estudou na Alemanha, foi graduado B.A. pela Universidade de Rostock em 1513; os estudos clássicos da época devem tê-lo informado sobre a viagem de Pytheas e os escritos de Plínio; sentia a necessidade de colocar Thule no mapa, e à falta de conhecimento científico, situou-a na única zona marítima 'vazia' de que dispunha no oceano.

Também é espantoso como Olau Magnus mapeia o torvelinho do Maëlstrom (anotado horrenda Caribdis), e outros remoínhos onde a corrente do golfo encontra as águas do Ártico; sem poder, como hoje, ter tido uma vista aérea ou de satélite, como podia saber deles e da sua localização ?

Remoínhos fatais a sul da Islândia.

Outro detalhe que só alguém muito viajado pode descrever é a troca comercial na Lapónia entre um grupo de Sami (escandinavos), que oferece machados, tesouros e outras ferramentas a mercadores russos, que trazem peles e um odre cheio de óleo. Olaus comenta que os Sami são boa gente, pobre e sem ambições, que não querem riqueza nem dinheiro mas apenas bens de subsistência.

Olaus Magnus era um padre Católico, bispo de Upsala, muito viajado ao serviço do rei Gustav Vasa, um homem da Renascença e portanto um observador atento. Optou pelo exílio com o irmão desde que a Suécia se converteu ao luteranismo, e foram viver em Danzig (Gdansk) onde Olaus começou a trabalhar num mapa em grande escala das regiões nórdicas; em 1537 mudaram para Veneza onde haveria melhores condições para o imprimir. O mapa seria composto de 9 blocos de madeira pintada a ser impressos numa só folha. Após 12 anos de trabalho, a Carta Marina, Um mapa marinho e uma descrição dos países nórdicos", foi publicada em 1539, impressa em Veneza, e foi na altura o maior (170 por 125 cm !), mais detalhado e mais preciso mapa feito na Europa.

Poucas cópias foram impressas, e o Vaticano depressa conseguiu direitos autorais por 10 anos. Ficou ignorado nalguma gaveta até ao séc XIX. Há actualmente apenas duas cópias originais, uma em Munique e outra, em melhor estado, em Upsala.

Duplamente fascinante, mais que um genial mapa, é uma obra de Arte.


Excerto das notas de Olaus Magnus:

Os que, navegando pela costa da Noruega, se dedicam à pesca ou ao comércio, concordam nesta história estranha de que anda por ali uma Serpente de vasta dimensão, uns 200 pés de comprido e mais de 20 pés de espessura; e dizem que vive nos Rochedos e Grutas cerca da costa de Bergen: e que sai das suas covas nas noites claras de Verão, e devora Cabritos e Borregos e Javalis, ou então vai para o Mar alimentar-se de polvos, lagostas e toda a sorte de Caranguejos. Costuma ter pêlos a volta do pescoço longos de cerca de um Cúbito (*), e escamas afiadas, é negra e de olhos que cintilam flamejando. A Serpente aterroriza os navegadores, erguendo a cabeça na vertical como uma alta coluna, caçando homens e devorando-os.

Este tipo de descrição é muito semelhante a outras que se encontram nas Sagas Nórdicas do séc XIII. Por exemplo, Jörmungandr ou a Serpente Midgard, que foi lançada ao oceano por Odin, tendo crescido ao ponto de se poder enrolar à volta do mundo.

Mais:
Sea Monsters: A Voyage Around the World’s Most Beguiling Map by Joseph Nigg. © University of Chicago Press, 2013
http://press.uchicago.edu/ucp/books/book/chicago/S/bo14717804.html

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(*) cerca de 46 cm

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Apresentação de Oskar Bergman (slideshow)



sábado, 6 de janeiro de 2018

Anlegen die Waffen des Lichts,
que voltem os guerreiros da Luz


Desejo para 2018.



Die Nacht ist vergangen, 
Der Tag aber herbeigekommen. 
So laßt uns ablegen die 
Werke der Finsternis 
Und anlegen die Waffen des Lichts
Und ergreifen die Waffen des Lichts

                     A noite já passou 
                     Mas o dia vem chegando 
                     Deixemos para trás as
                     Obras das Trevas
                     Vamos vestir a armadura de Luz 
                     Empunhar as armas de Luz.


[da Sinfonia nº 2 , Lobgesang, de Mendelssohn]   
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Gravações:
- Kurt Masur com a Gewandhaus
- Ricardo Chailly com a Gewandhaus
- J.E. Gardiner com a London Symphony

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Oskar Bergman, pintor e artista gráfico sueco (1879-1963)


Começo aqui 2018 da mesma forma luminosa como terminei o ano anterior, agora nas artes plásticas, e curiosamente ainda na Suécia, esse país estranho e de luz difícil. Conheci há pouco tempo, pela net, este artista gráfico, pintor de guaches e aguarelas, que viveu no século XX sem quase ninguém dar conta dele:

Oskar Bergman


Oskar Bergman nasceu a 18 de Outubro de 1879 em Saltsjöbaden, um dos bairros periféricos de Estocolmo. Foi autodidacta, mas frequentou os meios artísticos da época nas viagens que fez pela Europa, sobretudo em França e Itália.

Na década de 1940 pintou várias paisagens urbanas vistas de Södermalm (um quarteirão histórico de Estocolmo) que chamaram a atenção de algum público. Usava sobretudo aguarela e guache, em obras realistas onde trabalhava com minúcia os detalhes e as cores. Também se dedicou à ilustração e à gravura.

A Forest in Winter, 1904, obra de juventude.

Ängsblommor, Flowers in the meadows, 1911.

Oktobernatt, October night, 1923; próximo da arte 'naïf '.

Landscape with birch trees, 1928 - naïf colorido.

Orchards in Southern France, 1929

Utsik over havet, View over the sea, 1930.

Skeppsholmen, 1936.

Winter view from Skeppsholmen, 1936

Landscape after the rain, 1938

Stigbergsgatan, Saltsjöbaden,1940.

Solig Majdag, Sunny May, 1943.

View of Torö, Södertörn, 1945.

Småstadsgata i töväder, Small town street under the storm, 1946.

Tido como uma das suas melhores obras, este óleo sobre tela mostra mais uma paisagem urbana, a rua de uma vila na Suécia. O talento de Bergman para a paisagem e a sua sensibilidade para as diferenças com as estações - tema constante nele - são evidenciados nos pormenores traçados a pincel finíssimo.


A escala de cores é ampla, e Bergman usa efeitos de composição surpreendentes, como os padrões do gelo que funde e se transforma em espelho de água, reflectindo os dois transeuntes e o céu do entardecer, que vai envolvendo tudo em tons desde laranja e rosa ao azul.