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quinta-feira, 30 de julho de 2020

'Não há nada a recear', ou como encarar o Fim com ... bom humor.


"Nothing to be afraid of " é o livrinho de Julian Barnes que acabei de ler, adequadamente na pandemia viral em curso. Com muito humor e erudição, citando diversos testemunhos - na maioria literários - Barnes discorre sobre, digamos, os prós e os contras de termos vida finita, e sobre o aproximar do último momento.

São convocados por Barnes em apoio desta ou daquela (contrária) perspectiva, além do seu irmão 'filósofo´: Alphonse Daudet, Somerset Maugham, Flaubert, Goethe,  Montaigne, Voltaire, Shakespeare, Stendhal, Zola, Shostakovsky, Camus, e sobretudo Jules Renard. Relata episódios passados com os pais, como eles viveram o seu fim próximo.

Quanto ao próprio autor, é ateu não militante, e tem até pena do Deus perdido de Mozart ou Fra Angelico. Nem que fosse o deus dos Celtas. Nem que fosse um deus brincalhão a fazer de nós cobaias. Mas uma segunda vida depois da morte ? Nãããããã... Imortalidade ? Ainda pior. É muito mais saudável e reconfortante saber que vimos do nada, temos a nossa vida e para o nada voltamos; que assim como os anteriores se foram para deixar lugar vago para nós, faremos o mesmo abrindo vaga para quem aí vem. Como uma ave que do vazio negro da noite entrasse pela janela do salão iluminado de um palácio onde decorrem festins e festividades, e após percorrê-lo voltasse a sair pela janela do fundo para o negro vazio da noite.

Há o problema dos convertidos da última hora: sempre desdenharam da morte, encolhiam os ombros ou sacudiam a palavra como uma mosca no ombro; mas quando chega o momento tremem de pavor. Convém ter isso em consideração para não fazer figuras tristes :D , e lembrar, nessa hora, Jules Renard:
La mort est douce : elle nous délivre de la pensée de la mort .
Ou seja, morrer é um alívio, livra-nos do medo de morrer. Ah ah.

Lembrar também Flaubert, quando opinava que devemos morrer 'com estilo':
"O Paraíso não existe, mas mesmo assim devemos esforçar-nos para ser dignos dele".

De passagem, Barnes vai-nos contando pequenas histórias, como esta citada de Montaigne:

Um dos Césares de Roma foi abordado por um seu antigo soldado, decrépito. Tinha servido sob seu comando, e agora pedia permissão para se livrar de uma vida penosa. César olhou para ele de alto a baixo, e perguntou com a rude ironia típica dos generais: " E o que te leva a pensar que isso que tens é vida?"

ou esta 'roubada' a Maugham:

Um comerciante de Bagdad envia o criado a buscar provisões. No mercado, o homem é empurrado por uma mulher; volta-se, reconhece a Morte. Foge a correr para casa, pálido e tremendo do susto,  e suplica ao patrão que lhe empreste o cavalo; tem de ir de imediato para Samarra esconder-se onde não possa ser encontrado. O patrão acaba por ceder. Mas depois vai ele ao mercado, aborda a mulher e invectiva-a por ter ameaçado o criado. Oh, responde a Morte, é que fiquei surpreendida por o ver em Bagdad esta manhã, tenho encontro marcado com ele esta noite em Samarra.

ou versos de Shakespeare,

Golden lads and girls all must,
As chimney-sweepers, come to dust.


Barnes sublinha que de facto a morte não é algo exterior a nós, uma ameaça inimiga externa que invade e destrói o nosso corpo; não, ela está inscrita no nosso corpo, nas nossas células, nos nossos cromossomas. Começamos a morrer mal nascemos, a morte é o que trazemos dentro de nós durante toda a vida, em alguma peça defeituosa do material genético, em algum órgão disfuncional, na máquina com tempo limitado de que somos feitos.

Outro aliciante do livro são os vários episódios sobre a visita de Stendhal a Florença, divertidamente comentados; o que tem isto a ver com a morte? só lendo... mas atenção, não é um livrinho que traga alguma novidade sobre o assunto ! É só uma leitura culta e sábia, para desdramatizar. Depois de 'The Sense of an Ending', será o melhor que li de Julian Barnes - embora termine sem conclusões, e de forma desenxabida.

Mais vale, portanto, não chegar ao Fim !


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Abriu ! Uma florzita ao engano do mini-Verão.


O Sol destas semanas é Sol Enganador (como no filme de Mikhalkov) , é fake news, é um solzeco populista. Não é para levar a sério como Primavera. Só que as plantas não sabem, nem os pássaros. Eles chilreiam, e esta à minha porta floriu iludida pela demagogia solar.


Eles dirão, é o aquecimento global. Basta olhar para o mapa e ver a Europa toda sob chuva ou neve, a tremer de frio, para perceber que só a Ibéria foi 'vítima'  do Sol tablóide. Ainda bem. Na Foz do Porto, o ano de 2019 começou lindamente, assim:




Que dia, para começar ano novo!


domingo, 26 de agosto de 2018

Desafios arriscados para umas férias de aventura radical


Silly Season !

Inspirado de novo por Patrick Besson, vou publicar o post maluco deste Verão. É só um, e acaba.

Leio e vejo em várias revistas sugestões de viagens e férias que não são "turismo" - turismo é mau, feio, sujo e estúpido, como se sabe, desde que a Ryan iniciou o low cost. São aventuras radicais para gente que se quer "questionar a si própria", fazer "viagens interiores", "pôr-se à prova", saber "até onde é capaz de ir", etc.  Dão-me em geral vontade de rir, porque em vez de férias, boa vida, far niente, tudo o que sabe bem !, o que se propõe são desafios sacrificiais tenebrosos como voar em asa delta no Kilimanjaro ou ir ao Tibet de bicicleta, conviver com tubarões numa fossa oceânica ou um mês entre os mongóis numa tenda nas areias do Gobi.

Nesse espírito radical, Besson dá algumas ideias engraçadas, como sejam:

- Fazer rodeo sobre uma vaca sagrada num bairro popular de Bombaim.

- Rodar em volta da Kaaba, em Meca, no sentido dos ponteiros do relógio, enquanto se come uma bifana.

- Dançar seminu num gay pride em Teerão.

- Cantar o hino da Arménia empunhando a bandeira curda frente ao palácio de Erdogan.

Exemplos de humor deliciosamente xenófobo. Mas para compensar algumas sugestões minhas na Europa:

- Em Sochi, dizer-se sobrevivente inglês do MH17,  ou negociante de Novitchok.

- Estacionar o carro num pátio junto à moradia de um velho escocês.

- Atravessar uma rua em diagonal ou zig zag, ao telemóvel, fora da passadeira, em Helsínquia.

- De barba longa e vestindo um espesso colete, estender o tapete e ajoelhar gritando Alá em Lourdes.

-  Num café de Atenas, dar vivas ao Eurogrupo com um pin de bandeira portuguesa.


Chega. Boas férias, se for caso disso.



sexta-feira, 11 de maio de 2018

Beethoven com bandolim para divertir a condessa Josephine


O lado brincalhão de Beethoven é raro e raramente interpretado em palco. Refiro-me mais em concreto às sonatas e adagios para bandolim e cravo, WoO 43 (I e II) e WoO 44 (I e II), que ele terá escrito para a condessa Josephine de Clary, que conheceu em Praga, em 1796. São obras simples e leves mas que Beethoven condimentou com algum pormenor, realçando as cores do bandolim que voltara a estar na moda sobretudo entre o público feminino. Josephine organizava nos seus salões concertos que se tornaram muito frequentados.

Sonatina for Mandolin and Harpsichord, WoO 44a


Desarmante, não é ?

A "Signora Comtessa di Clari", a quem Beethoven dedicou também a ária para soprano "Ah, Perfido!", viria a casar Josephine von Clam-Gallas, e foi na biblioteca do marido que se encontrou o manuscrito das invulgares quatro obras para mandolino. São tão raramente tocadas em público que não resisto a deixar outra aqui:

Andante con variazioni for mandolin and harpsichord WoO 44b
A. Sariel e M. Tsalka



Há quem defenda a hipótese de também os Goethe-lieder terem sido escritos para Josephine de Clary; o manuscrito é em papel idêntico. Mas isso já é coisa 'séria'...

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

40 regras para bem escrever, adaptadas de Umberto Eco e William Safire


Umberto Eco, em La Bustina di Minerva, refere uma lista de 54 regras para bem escrever em inglês da autoria do jornalista americano William Safire (*); lista que Eco adapta para bem escrever italiano em 40 regras. Será presunção minha, mas atrevo-me a adaptá-las de novo à minha lusitana língua, até porque o humor paradoxal de algumas é delicioso. Note-se que as regras nº 4 e 21 são de difícill interpretação.


40 regras para bem escrever, adaptadas de Umberto Eco.

    1. Evitar as aliterações, mesmo que atraiam os trengos.

    2. O conjuntivo não tem de ser evitado, recomendo apenas que seja usado só quando necessário.

    3. Evitar as frases feitas, são caldo requentado.

    4. Exprime-te tal como te alimentas.

    5. Não usar siglas comerciais e abreviaturas, etc.

    6. Recorda (sempre) que os parêntesis (mesmo que pareçam indispensáveis) interrompem o fluir do discurso.

     7. Atenção a não causar... indigestão de reticências ...

     8. Usar o mínimo de aspas possível: não é “elegante”.

     9. Nunca generalizar.

    10. Palavras estrangeiras não fazem bon ton.

    11. Sê avaro de citações. Dizia justamente Emerson: “Odeio citações. Diz-me só o que sabes.”

    12. Comparações são como frases feitas.

    13. Não ser redundante; não repetir duas vezes a mesma coisa; repetir é supérfluo (por redundância entende-se a explicação inútil de algo que o leitor já percebeu).

    14. Só os merdosos usam palavras grosseiras.

    15. Sê sempre mais ou menos especifico.

    16. A hipérbole é a mais extraordinária das técnicas expressivas.

    17. Não fazer frases de uma só palavra. Nunca.

    18. Proteje-te das metáforas demasiado ousadas: são plumagem sobre as escamas de uma serpente.

    19. Coloca, as vírgulas, no sítio certo.

    20. Distingue a função do ponto e vírgula e dos dois pontos: embora não seja fácil.

    21. Se não encontras a expressão adequada, não recorras a expressões dialectais: aí tem bué de gato.

    22. Não usar metáforas incongruentes mesmo que te pareçam "cantar": são como um cisne a descarrilar.

    23. Há mesmo necessidade de perguntas retóricas?

    24. Sê conciso, procura condensar os teus pensamentos no menor número de palavras possível, evitando frases longas — ou interrompidas por frases intercaladas que inevitavelmente confundem o leitor menos atento — a fim de que o teu discurso não contribua para o inquinamento da informação que é certamente (especialmete quando recheado de precisões inúteis, ou pelo menos não indispensáveis) uma das tragédias deste nosso tempo dominado pelos poderes dos media.

    25. Os acêntos nâo devem ser incorréctos nem inùteis.

    26. Não se coloca apóstrofo n'os artigos nem p'r'abreviar .

    27. Não sejas enfático ! E sê parco com as exclamações !!

    28. Nem os piores fãs das barbáries pluralizam termos estrangeiros.

    29. Escreve de modo exacto os nomes estrangeiros, como Beaudelaire, Roosewelt, Niezsche, e similares.

    30. Nomeia directamente autores e personagens de quem falas, sem perífrases. Assim fazia o maior poeta sadino do século XVIII, autor de três volumes de Rimas.

     31. No início do discurso usa o captatio benevolentiae, para agradar ao leitor (mas talvez sejas tão estúpido que não entendes mesmo o que eu estou a tentar dizer). 

     32. Cuida minussiosamente da ortugrafia.

     33. Nem vou dizer-te quão irritantes são as preterições.

     34. Não mudar frequentemente de parágrafo.

           Pelo menos, quando não for preciso.

     35. Não usar nunca plurais majestáticos. Estamos convencidos de que causa péssima impressão.

     36. Não confundir a causa com o efeito: estarias enganado e portanto a cometer um erro.

     37. Não construir frases cuja conclusão não siga logicamente das premissas: se todos fizessem assim, então as premissas resultariam das conclusões

     38. Não indulgir com arcaísmos, hapax legomena ou outros lexemes inusuais, bem como deep structures rizomáticas que, enquanto te agradem como epifanias de différance gramatológica e convidem à deriva desconstrutiva – pior ainda seria se resultassem censuráveis ao escrutínio de quem leia com acribia ecdótica – excedem as competências cognitivas do destinatário.

    39. Não deves ser prolixo, mas também não deves dizer menos do que.

    40. Uma frase completa deve ter.

Algumas regras do original de Safire são demasiado úteis para ficarem esquecidas. Vale a pena ler o original, em que o humor tem um toque inglês. Exemplos:

- Reserve the apostrophe for it's proper use and omit it when its not needed.
- Don't use no double negatives.


(*)Ver aqui:
 http://www.maximumawesome.com/reference/g-safire.htm

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Não há morte, segundo Camilo


Camilo Castelo Branco era uma estranha criatura, a um tempo genial e tacanho, cosmopolita e pacóvio, culto e inteligente mas pateta. É verdade, tem esta dualidade que torna a leitura estimulante e logo a seguir desoladora.

Reli na edição do Expresso o preâmbulo de "Coração, Cabeça e Estômago": é culto, inteligente, brilhante. O resto da obra é menos que medíocre. Deixo aqui a transcrição dos primeiros parágrafos desse preâmbulo, em que o narrador - talvez Camilo - se dirige a um amigo para lembrar um Silvestre da Silva que ambos conheceram. Trata-se talvez da mais bela página sobre a Morte que jamais li. Apetece mesmo estar morto. Ao contrário das lamentações e promessas de paraíso das crenças religiosas, a Morte seria uma gloriosa renascença da pessoa como Universo !

  – O meu amigo Faustino Xavier de Novais conheceu perfeitamente aquele nosso amigo Silvestre da Silva…
  – Ora, se conheci!… Como está ele?
  – Está bem: está enterrado há seis meses.
  – Morreu?!
  – Não morreu, meu caro Novais. Um filósofo não deve aceitar no seu vocabulário a palavra morte, senão convencionalmente. Não há morte. O que há é metamorfose, transformação, mudança de feito. Pergunta tu ao doutíssimo poeta José Feliciano de Castilho o destino que tem a matéria. Dir-te-á a teu respeito o que disse de Ovídio, sujeito que não era mais material que tu e que o nosso amigo Silvestre da Silva. “Ovídio cadáver”, pergunta o sábio, “onde é que pára?”  Tudo isso corre fados misteriosos, como Adão, como Noé, como Rómulo, como nossos pais, como nós, como nossos filhos, rolando pelos oceanos, flutuando nos ares, manando nas fontes, correndo nos rios, agregado nas pedras, sumido nas minas, misturado nos solos, viçando nas ervas, rindo nas flores, rescendendo nos frutos, cantando nos bosques, rugindo nas matas, rojando dos vulcões, etc. Isto, a meu ver, é exacto e, sobretudo, consolador. O nosso amigo Silvestre da Silva, a esta hora, anda repartido em partículas. Aqui faz parte da garganta dum rouxinol; além, é pétala duma tulipa; acolá, está consubstanciado num olho de alface; pode ser até que eu o esteja bebendo neste copo de água que tenho à minha beira e que tu o encontres nos sertões da América, alguma vez, transfigurado em cobra cascavel, disposto a comer-te, meu Faustino.
  O que te eu assevero é que ele deixou de ser Silvestre da Silva, há seis meses, posto que os parentes teimam em lhe ter uma lousa sobre o chão, onde o estiraram, com esta mentira: ‘Aqui jaz Silvestre da Silva.’
  Pois é verdade.



'Rojando nos vulcões' não está mal.





sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O Homem Novo soft deste novo Orçamento.


Foi o mito de um Homem Novo que alimentou revoluções e ditaduras. Muitos filósofos - Heidegger, Gramsci, Adorno, Marcuse - sustentaram esse objectivo sem se darem conta ( ou deram ?) de que promovia regimes destrutivos do próprio Homem. Foi o desastre nazi e o desastre soviético, o da China maoísta e o da Cuba guevarista, e agora o desastre islâmico do Daesh/Isis. Também a Igreja católica prega o Homem Novo que advirá com a cristandade universal, tão carneiro no rebanho como qualquer dos anteriores. Desconfiemos, portanto.



A democracia moralista reinante na Europa e no Ocidente tem outra aproximação ao Homem Novo, mais soft, apoiada no "politicamente correcto" que nasceu do relativismo e do ecologismo. Diz-se igualitária, ecológica e social, mas não deixa de ser uma imposição estatal de um modelo de vida que culpabiliza como criminosos os que não cumprem, fazendo-os pagar caro nos impostos e na censura social.

O Homem Novo da moda actual, plasmado no nosso novo Orçamento de Estado, é ciclista ou usa transporte público não poluente, é vegetariano, magrinho e saudável, faz jogging, recicla cuidadosamente, compra no comércio justo, faz campismo de aventura; não fuma, não bebe, não consome açúcares nem comida processada; instalou energia solar para aquecer a casa e trata um cão exemplarmente como irmão animal, um igual. Não tem vícios, é completamente  insípido. E o regime gasta milhões em propaganda - revistas, TV, cartazes na rua - a apelar ao seguimernto do canon; para Homem Novo soft, um Big Brother soft.


Felizmente, a ficção dita "cientifica" e o cinema têm-se encarregado de divulgar outras imagens do Homem Novo que será o nosso futuro: mais ou menos o mesmo que agora ! Robotizado, informatizado, mas sempre fraco ou genial, criminoso ou herói, gordo ou magro - nunca carneiro.

O verdadeiro homem não está no futuro, não é um objectivo, um ideal a que se aspira; está aqui, no presente, existe mesmo: seja eu quem for, alegre ou enfermo, criança ou velho, confiante ou céptico, a dormir ou bem desperto, sou Eu. Eu sou o verdadeiro Homem.
                                                                                                                                              Max Stirner


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Preâmbulo a Rayuela, de Julio Cortázar.


Cortázar cita no início um texto de César Bruto que, evidentemente, é um pseudónimo - no caso, do jornalista e humorista argentino Carlos Warnes (1905 - 1984). Warnes ganhou popularidade em parte pelo humor ortográfico - escrevia erros propositados como solójicO em vez de zoológico, ou desprastijio em vez de desprestigio - e pelo humor narrativo, como neste texto em que o começo leva a divagações mais ou menos disparatadas que terminam numa coisa totalmente diferente e sem qualquer lógica narrativa. Claro que Cortázar adorava esta não-linearidade, ele que foi mestre das narrativas múltiplas, intrincadas, dos tempos paradoxais e sobreposições misteriosas.

Acho este curto preâmbulo delicioso, deixa-me bem disposto, por isso o publico. No final, deixo alguas notas de tradução para quem tiver mais dificuldades com a prosa de Warnes.

Siempre que viene el tiempo fresco, o sea el medio del otonio, a mí me da la loca de pensar ideas de tipo eséntrico y esótico, como ser por egenplo que me gustaría venirme golondrina para agarrar y volar a los paíx donde haiga calor, o de ser hormiga para meterme bien dentro de una cueva y comer los productos guardados en el verano o de ser bívora como las del solójico, que las tienen bien guardadas en una jaula de vidrio con calefación para que no se queden duras de frío, que es lo que les pasa a los pobres seres humanos que no pueden comprarse ropa con lo cara questá, ni pueden calentarse por la falta del querosén, la falta de carbón, la falta de lenia, la falta de petrolio y tamién la falta de plata, porque cuando uno anda con biyuya encima puede entrar a cualquier boliche y mandarse una buena grapa que hay que ver lo que calienta, aunque no conbiene abusar, porque del abuso entra el visio y del visio la dejeneradés tanto del cuerpo como de las taras moral de cada cual, y cuando se viene abajo por la pendiente fatal de la falta de buena condupta en todo sentido, ya nadie ni nadies lo salva de acabar en el más espantoso tacho de basura del desprastijio humano, y nunca le van a dar una mano para sacarlo de adentro del fango enmundo entre el cual se rebuelca, ni más ni meno que si fuera un cóndor que cuando joven supo correr y volar por la punta de las altas montanias, pero que al ser viejo cayó parabajo como bombardero en picada que le falia el motor moral. ¡Y ojalá que lo que estoy escribiendo le sirbalguno para que mire bien su comportamiento y que no searrepienta cuando es tarde y ya todo se haiga ido al corno por culpa suya!

César Bruto, 'Lo que me gustaria ser a mi si no fuera lo que soy'
   (Capítulo: Perro de San Bernaldo).


Notas:
golondrina - andorinha
byuya - dinheiro (arg.)
boliche - taberna (arg.)
grapa - bagaço
bívora - claro, é víbora :)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Voto branco? voto preto? não, voto azul e verde.


Aprendi que azul e verde ligam mal, são uma combinação de mau gosto. Discordo. Estou, como de costume, indeciso, polticamente paralisado - não sei a favor de quem hei-de desenhar uma cruz. Já pensei branco, até se vai formar um Partido do Voto Branco, que anda a recolher assinaturas para poder reclamar lugares vazios na Assembleia para os votos em branco. É justo. Mas depois pareceu-me demasiado conformista com o sistema, é um bocado como passar carta branca, sois todos iguais, é-me indiferente. E não é.

Pensei votar preto - borrar o boletim com tinta spray negra, apagar os partidos todos, para se poder começar de novo, como um quadro preto na sala de aulas pela primeira hora da manhã, limpinho-preto. Mas podem pensar que é pelo Obama. E não é.

Não voto vermelho, claro, qualquer que seja o matiz. Nem laranja, nem azul, nem rosa. Nem verde-eco. Puxa, então? Então, optei pelo azul-e-verde. Primeiro, não é cor de nenhuma força concorrente (fico à espera...). Segundo, azul pelo mar, verde pela vegetação, é a imagem do planeta Terra para quem o vê do espaço cósmico.

Vou pintar o voto de azul e verde. Há várias sugestões:





ou mesmo


Na verdade, não corremos perigo nenhum de ditadura, os partidos que podem ganhar são ambos pró-europeus - e é o que mais me interessa. Quanto mais Europa, menos nação. São as nacionalidades que dão cabo da vida na Terra, mais ainda que as religiões. Os partidos mais nacionalistas (ou 'patrióticos', dizem alguns), à esquerda e à direita, têm a minha profunda repulsa. A minha nação, supostamente esta, dá-me cabo da vida. A leste e a oeste, só interesses nacionais prevalecem e fazem a vida planetária um inferno.

É uma utopia, bem sei, mas quero que isso acabe. Quero Europa, quero outras vastas regiões, federações, onde pouco interessa onde se nasceu, onde as pessoas valem por serem pessoas.

Voto verde e azul.


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Os fatais 23, e a silly season no auge.



Tenho verificado que com alguma frequência o número de visitas a um novo post aqui no Livro  'empanca' nos 23. Às vezes nunca mais dali sai, outras vezes só passado muito tempo lá vem mais uma visitinha.

Claro que há também posts que chegam a centenas de visitas (o sucesso mais recente foi o das Marés Vivas de Março com 300 e tal), ou passam até do milhar, como o do Arminho ou o de Paul Klee, mas o número 23 tornou-se numa ameaça - quando lá chega, receio que nunca mais aumente. É 'psicológico'.

Então resolvi que a medida de sucesso ou fracasso de um post está no limiar 23. Suponho que deve ser o número real dos seguidores mais fiéis, esses com quem posso sempre contar, obrigado !, muita simpatia vossa !, se calhar até estou a dar por garantido o que não devia, mas o que eu gostava mesmo era de ter por cá ainda mais alguns...

Numerologia nunca foi coisa que me interessasse. É quase tudo balela de videntes, quiromantes, adivinhos e astrólogos. Mas pus-me à procura de coisas sobre o 23.

Matemática: é o 9º número primo, e é o primeiro primo ímpar que não tem gémeo : há os gémeos (3, 5), (5, 7), (11, 13), (17, 19), (29, 31), (41, 43), (59, 61), (71, 73), (101, 103) ... mas o 23 está isolado, porque nem 21 nem 25 são primos..

Ainda Matemática, levezinha: só quando um grupo de pessoas atinge 23 elementos é que a probablidade de dois deles fazerem anos no mesmo dia atinge 50% ou mais. Curioso. É uma alta probabilidade, com tão pouca gente, mas é assim.

Química: é o número atómico do Vanádio : duro mas maleável, cinzento-azul prateado. Abunda em certos cogumelos.

Biologia: as células sexuais humanas têm 23 cromossomas; o sangue demora 23 segundos a dar a volta ao corpo humano; corpo esse que tem 23 vértebras ! Quando bem se procura o 23, sempre se encontra !

Biografia: Shakespeare nasceu a 23 (?) de Abril, e morreu a 23 de Abril. Ena.

História: Alexandre o Grande tinha 23 anos quando cortou o nó górdio; César foi apunhalado 23 vezes; os Templários tinham 23 Grão-Mestres.

Tretas: o Enigma 23

William S. Burroughs, o escritor, foi o primeiro crente deste 'enigma'.
A história: Burroughs conheceu um dia um tal Capitão Clark, cerca de 1960, em Tânger, que se vangloriava de ter navegado 23 anos sem um só acidente. Nesse mesmo dia, o navio de Clark afundou-se e toda a gente morreu afogada. Além disso, enquanto Burroughs pensava no exemplo cruel de ironia dos deuses, um boletim de notícias na rádio anunciava a queda de um avião comercial na Flórida. O piloto, capitão Clark, estava aos comandos do Vôo 23.

Daí à criação do 'enigma' foi um passo: o número 23 há-de estar sempre ligado a qualquer tragédia ou cataclismo.
- Para uns, apenas sucede que quando muito se cisma numa coisa (23) e acontece     uma desgraça, algum sinal dessa coisa (23) acaba sempre por aparecer, e    
  revelar-se misteriosamente premonitório. Já deu um filme.
- Para outros, o 23 tornou-se sinal de 'está na hora de desandar daqui/disto
  enquanto é tempo'.


É o que vou fazer para não escrver mais disparates.



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P.S. no momento em que escrevo, o post anterior, o do jardim, alcançou 30 visitas. Um sucesso.


domingo, 29 de junho de 2014

Sillly Season: duas obras de cravo ligeiras e bem dispostas.


Para começar o Verão, duas obras divertidas, onde o virtuosimo de compositor e intérprete é um duplo gosto. Disse 'música ligeira',  porque esta não desce às profundezas da alma, mas está longe de ser fácil : nesta escrita há muita técnica e sabedoria.
A mim, quando entram no ouvido não saem tão cedo.

1. As variações Harmonious Blacksmith de Handel, da suite No. 5, HWV 430

Começo por versões "sérias": esta, respeitando o original para cravo:


Vertiginosa rapidez, que mais nenhum instrumento é capaz de conseguir !

E esta, em piano, por Wilhelm Kempff - lenta, bem linda, a puxar para o introspectivo ( !!) :


É provavelmente a melhor que conheço.

Quem procurar encontra versões para harpa, flauta, etc.

Agora, em guitarra ? É de prever a dificuldade de execução, sobretudo das variações finais. Mas há quem não tema nada ! O resultado pode ser desagradável para alguns :D

Smaro Gregoriadou, menina prodígio grega, numa guitarra especialmente construída e afinada. Não começa mal...


mas as limitações da guitarra não dão hipótese.

Há uma transposição de Mauro Giuliani, tocada por John Williams, que se afasta muito do original justamente para evitar estes impossíveis últimos compassos.

A outra obra que proponho, um rondó também muito cantabile com variações, parece-me harmonica e estruturalmente similar :

2. A suite Les Niais de Sologne, de Rameau.

De novo, começo pela versão "autêntica", no cravo :

Sempre que ouço fica-me a cantarolar horas dentro da cabeça.

E acabo com Marcelle Meyer ao piano:
Mas que magnífica! Tocava-se muito bem, nos anos 50 !

Marcelle Meyer foi uma pianista francesa do entre-guerras (1897-1958) contemporânea de Milhaud, Poulenc, Honnegger, Satie, Ravel, que se dedicou à música de Rameau, pouco divulgada na época.

Marcelle Meyer retratada no "Grupo dos Seis"



quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Prendas


Do Soares: que se cale com araldite.
Do Coelho: que vá aplicar austeridade no Zimbabwe.
Do Portas: que se reforme com pensão de sobrevivência.
Do Seguro: que se desvaneça no ar como bola de sabão.
Do Sócrates: que faça lusofonia com o Relvas e não volte.
Do Cavaco: que regresse à escola primária, com exame obrigatório.
Do Crato: que leia 1000 vezes o que escreveu, e escreva 1000 vezes o que disse.
Da Lagarde: que vá de joelhos a Fátima expiar os maus conselhos.
Da Merkel: um curso "como manter crescimento à custa de parceiros sonsos".
Do Obama: que lave bem as mãos depois dos cumprimentos.
De Putin: que se vá a gerir um Gulag lá para Norilsk.
De Bashar-el-Ashad: cicuta não, mas um tumor no pâncreas calhava bem.
De deus pai: um salto mutacional para outra humanidade.

É pedir muito?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

SOS faz 105 anos


Em morse:     · · · – – – · · ·



Todos devíamos saber, just in case; e certos países deviam adoptá-lo como hino nacional.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

E brincar, com Wagner


No New Yorker, Alex Ross publicou um post irresistível de trechos de Wagner interpretados da maneira mais louca. É uma delícia absoluta.
Ficam aqui dois exemplos, mas muitos mais valem a pena - até o Bugs Bunny ...

'Isoldina', pelo piano de Clément Douchet
Impagável, este "Last Tango in Bayreuth" pelo grupo The Breaking Winds:

O post mais divertido do ano...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

cábula para Mahler

O Mezzo publicou no Facebook esta grelha para identificar sinfonias de Mahler:


Se não as conhece de cor aos primeiros acordes, bom proveito :D

terça-feira, 24 de julho de 2012

Leituras e concertos: sobre os ruídos de fundo

Julian Barnes. que tenho andado a ler, é um inglês premiado que escreve coisas intensas mas quase sempre com graça. Um dos contos em The Lemon Table fala de concertos no Royal Festival Hall, onde estive há pouco, mas em particular destila ódio contra a assistência que tosse com se viesse da urgência de otorrino, espirra, mexe nas folhas do programa, e mais.

Um excerto:

The opening allegro went pretty well : a couple of sneezes, a bad case of compacted phlegm in the middle of the terrace which nearly required surgical intervention, one digital watch and a fair amount of programme turning. I sometimes think they ought to put directions for use on the cover of programmes. Like : “This is a programme. It tells you about tonight's music. You might like to glance at it before the concert begins. Then you will know what is being played. If you leave it too late, you will cause visual distraction and a certain amount of low-level noise, you will miss some of the music, and risk annoying your neighbours, especially the man in seat K37.” Occasionally a programme will contain a small piece of information, vaguely bordering on advice, about mobile phones, or the use of a handkerchief to cough into. But does anyone pay any heed? It's like smokers reading the health warning on a packet of cigarettes. They take it in and they don't take it in ; at some level, they don't believe it applies to them. It must be the same with coughers. Not that I want to sound too understanding : that way lies forgiveness. And on a point of information, how often do you actually see a muffling handkerchief come out?

I was at the back of the stalls once, T21. The Bach double concerto. My neighbour, T20, suddenly rearing up as if athwart a bronco. With pelvis thrust forward, he delved frantically for his handkerchief, and managed to hook out at the same time a large bunch of keys. Distracted by their fall, he let handkerchief and sneeze go off in separate directions. Thank you so very much, T 20. Then he spent half the slow movement eyeing his keys anxiously. Eventually he solved the problem by putting his foot over them and contentedly returning his gaze to the soloists. From time to time a faint metallic stir from beneath his shifting shoe added some useful grace-notes to Bach's score.

The allegro ended, and Maestro Haitink slowly lowered his head, as if giving everyone permission to use the spitoon and talk about their Christmas shopping. J39 – the Viennese blond, a routine programme-shuffler and hair-adjuster – found a lot to say to Mr Sticky-Up Collar in J38. He was nodding away in agreement about the price of pullovers or something. Maybe they were discussing Schiff's delicacy of touch, though I would choose to doubt it. Haitink raised his head to indicate that it was time for the chat-line to go off air, lifted his stick to demand an end to coughing, then threw in that subtle, cocked-ear half-turn to indicate that he, personally, for one, was now intending to listen very carefully indeed to the pianist's entry.

- Julian Barnes

Agora em português: Barnes propõe duas soluções

"...tenho duas propostas para melhorar o comportamento. A primeira seria instalar projectores sobre as cabeças e, se alguém fizesse barulho acima de um certo nível, a luz sobre o lugar acendia e a pessoa tinha de ficar ali sentada como um condenado durante o resto do concerto."

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"A minha segunda sugestão é mais discreta. Todos os lugares da sala seriam electrificados e seria administrdo um pequeno choque, cuja intensidade derivaria do volume da tosse, ronco ou espirro do ocupante."

Barnes conclui que electrocutar os prevaricadores poderia ter efeitos secundários adversos, esvaziando as salas de concerto e obrigando a fortes subsídios...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Força, força, companheiro Vasco

Chegou a altura de aqui se apoiar com entusiasmo o PREC ! Ou melhor, o PREC/NAO, Não ao Acordo Ortográfico :


Sob a liderança de V.G.M no C.C.B.,

Nem mais - um só - PORTÁTIL com A. O. !

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Le petit navire

Canta June Tabor


C' était un petit navire
C' était un petit navire
Qui n'avait ja-ja-jamais navigué
Qui n'avait ja-ja-jamais navigué
ah oui ah oui…

Au bout de cinq à six semaines
Au bout de cinq à six semaines
Les vivres vin-vin-vinrent à manquer
Les vivres vin-vin-vinrent à manquer
ah oui ah oui...

On tira à la courte paille
On tira à la courte paille
Pour savoir qui-qui-qui serait mangé
Pour savoir qui-qui-qui serait mangé
ah oui ah oui

Le sort tomba sur le plus jeune
Le sort tomba sur le plus jeune
Qui n'avait ja-ja-jamais navigué
Qui n'avait ja-ja-jamais navigué
ah oui ah oui…

Il monta à la grande hune,
Il monta à la grande hune
et puis il se,se,se mit a prier.
et puis il se,se,se mit a prier
ah oui ah oui...

On le mangea à la sauc' blanche,
On le mangea à la sauc' blanche
avec des sal, sal, salsifis pas cuits.
avec des sal, sal, salsifis pas cuits
ah oui ah oui...

Ils eurent la délicatesse,
Ils eurent la délicatesse
de mettre sa, sa, sa part de côté.
de mettre sa, sa, sa part de côté
ah oui ah oui ...

Si cette histoire vous amuse,
Si cette histoire vous amuse
nous allons la, la, la recommencer.
nous allons la, la, la recommencer
ah oui ah oui...
.........................................................

ça recommence, ça recommence toujours...