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domingo, 28 de junho de 2026

W. B. Yeats, partir para Innisfree ! (traduzido)


Loch Gile

Traduzir o intraduzível, poemas, mania minha. Como já disse uma vez, só o faço porque fico a gostar ainda mais do original, a conhecê-lo melhor e a sentir que foi escrito, também, para mim.

Este é um daqueles Yeats que nunca teve uma tradução decente, seja em francês, espanhol ou português. É preciso sempre recorrer a alterações radicais de forma a manter uma linguagem minimamente coerente; tentei que, sendo radicais, mantivessem a essência do que (penso) o poeta quis dizer. Pareceu-me que manter a rima era essencial; mas atropelar a métrica, minimamente aqui e ali, foi a consequência, espero ter mantido um ritmo aceitável. Horas e horas à volta de Yeats.

Na Irlanda do período enegrecido e enevoado da primeira indústria, a utopia de regresso à Natureza pristina que nunca esquecemos, como um filho pródigo ao seu lar. Uma tentação da meia-idade.


W. B. Yeats, The Lake Isle of Innisfree
[tradução minha]

Vou levantar-me já e partir, partir para Innisfree,

Onde hei-de erguer uma cabana, de vime e de madeira,

Aqui nove renques de feijão, e uma colmeia de mel ali,

Irei viver a sós, eu e as abelhas zumbindo na clareira.


Lá terei sossego, pois a paz vem descendo devagar,

Desce dos véus da manhã e pousa onde os grilos cantam.

Lá a meia-noite cintila, o meio-dia é urze roxa a fulgurar,

E a tarde cheia de asas dos pintarroxos que voltam. 


Vou levantar-me já e partir, pois noite e dia 

Ouço as águas do lago, nas margens de leve a chapinar;            

Andando eu na estrada ou em cinzenta rodovia, 

No mais fundo do coração as ouço ecoar.

                                                                                        1889


Lake Isle of Innisfree


domingo, 31 de maio de 2026

E livros ? Também, incluindo poesia, BD e enciclopédia.


Livros em espera ou apenas iniciados.

The still point, Amy Sackville (trad. francês: Là est la Dance)

Portobello, 2010

"Still point' é um ponto fixo, o Pólo Norte, que não se movimenta durante a rotação diária. A narrativa recorda a vida de Edward Mackley, explorador (ficcional) do Ártico que, em rota para o Pólo desaparece subitamente na paisagem de gelo, sem deixar traços. 

New York Times: Sackville agita a linguagem como uma varinha mágica ... a sua prosa recorda-nos o prazer de ser transportados para mundos longínquos apenas pela palavra escrita; a proeza parece mágica, não técnica.

The Guardian: Os dois mundos do gelo e do calor, separados por um século, no cuidado equilíbrio de uma prosa requintadamente contida.

Bagatelles, Jenny Erpenbeck

Albin Michel, 2004

Tradução francesa de 'Tand ' (Bugigangas), são dez contos de 2001. Tema: a inexorável marcha do tempo e a inevitabilidade de, tal como as pessoas, as suas obras desparecerem também um dia. Bagatelas.

Tand, Tand/ Ist das Gebilde von Menschenhand! 
(Tralha, tralha ! É o que constrói a mão dos homens. )

Conversation Poems Coleridge

Extracto (traduzido):

Minha pensativa Sara ! a tua face assim reclinada

sobre o meu braço, ainda mais doce torna

estar aqui sentados junto à nossa casita, recoberta

de branco Jasmim florido, e densa folhagem de Mirto,

(aí estão sinais de Inocência e Amor !)

e olharmos as núvens, tão belas há pouco na luz da tarde,

entristecendo devagar, ver surgir a estrela da alvorada,

serenamente luminosa (tal como a Sabedoria) 

a brilhar no lado oposto!  Como são refinados os aromas

emanados daqueles feijoeiros! e o mundo tão apressado !

O murmúrio sussurrado do mar distante

Fala-nos do silêncio.

                                                                      [início do poema A Harpa Eólica]

BD J'ai toujours rêvé d'être un fermier, Jean Harambat

Dargaud, 2026

Uma evocação bucólica das paisagens e dos trabalhos rurais, em tintas sfumato - ocre, beige, verde água - e destreza no traço.

E o mais vistoso para o fim:

PETIT LAROUSSE 2027

Se quer saber sem browsear
é só abrir e folhear.

Um gozo, estético e táctil.

Duas consultas 'modernaças' a termos ingleses incorporados no francês:




Uberizar? Uberização ?? Credo, livra ! Estes franceses...


domingo, 1 de março de 2026

"Orkney" de Amy Sackville, escrita criativa primorosa.


Finalmente ! Um daqueles raríssimos livros inclassificáveis - nem thriller, nem psicológico, nem novela, nem relato de viagem, mas tudo isso! - escrito de forma magistral, num inglês criativo riquíssimo de expressões e vocabulário, fluente mas não linear, onde se sugere tanto ou mais do que se narra ou se descreve e os diálogos surgem imprevisíveis, semeados de alusões misteriosas.

Só agora acabei as 250 páginas em letra miudinha desta 2ª obra de Amy Sackville. Não conseguia parar, é um livro para se viver intensamente e que no final deixa uma sensação de perda real, perturbante. Um livro estranho em tudo - personagens, locais, situações. Justificam-se os elogios no Times (Sackville's second novel is poetic, dreamlike and beautufully written), no New York Times (masterfully self-contained). 

Não quero resumir de forma a estragar a leitura de quem decida ler, portanto sendo o mais vago possível: Phillip, um professor universitário (talvez Cambridge) às portas da reforma, pelos seus 60 portanto, deixa-se envolver intensamente com uma aluna de literatura nos 20 e pouco. A iniciativa é mútua, não há um sedutor e um seduzido, a jovem talvez seja até um pouco mais atrevida e insistente. Casam ! E a promessa para o dia seguinte é ele levá-la para um sítio onde esteja a sós com o mar. As ilhas Orkney. 

Vão de núpcias para Westray, uma das Orkney setentrionais. A obsessão dela (o nome nunca é referido) pelo mar, desde o primeiro dia na casinha de pedra na praia, é a parte 'thriller psicológico' do livro, é um enigma que vai abarcando tudo na vida diária do casal. Amy Sackville narra esses dias com mestria, com detalhes brilhantes nas falas, nas descrições, e sobretudo nos pensamentos cada vez mais tempestuosos do professor que a escritora incarna como narrador, tanto extasiado como perplexo com a companheira. O pai dela fora pescador nesta ilha, ter-se-á afogado, há aqui qualquer coisa de tragédia sob as águas.

Extractos ( já se sabe que a tradução dá cabo da riqueza do texto) :

Where shall I take you, I asked, when we are wed? ‘The sea,’ she answered. ‘Will you take me to the sea?’


Está de olhar fixo ao longe quando a água lhe chega aos pés e ela recua, e quando a suave e insistente sucção da maré vem tão perto que lhe sorve os dedos ela arrasta-se a subir praia acima.

Voltou enregelada pela maresia que senti eu na face, para compensar. E acariciou esta sombra raivosa que às cinco desce sobre mim, urso velho e grisalho que sou. O cheiro de ar encharcado impregnava-a. Uma vibração no crepúsculo em volta dela, uma cintilação profunda, brilhante, não visível.

A ventania nocturna

O vendaval galopou pela noite, ao longo de toda a costa, chicoteando o mar e acumulando nuvens roxas de chuva que correm para o interior; nunca abrandou durante as horas mais negras. Chamam a este vento ' skreever', disseram-me, nome para algum demónio - e é mesmo assim como soa. Coisa de tempos remotos, com asas esfrangalhadas e a uivar, a rasgar e lacerar a urze seca e despida.

Bufava e assobiava à volta das paredes da nossa casota de pedra, e arranhava lá dentro, em cada recanto, à procura, como um intruso furtivo volteando as páginas sem parar e remexendo cada greta e cada mossa, relinchando em cada brecha, à procura, à procura, frenético, minucioso, implacável; desalojando as aranhas que se agarravam teimosamente às traves e observando como as teias se rompiam; respirando sobre a última centelha das brasas antes de se lançar pela chaminé acima numa onda de cinzas.

O céu

O céu pervinca, com um esboço de nuvens de grafite, o mais leve vestígio de lápis; lilás onde se encontra com o mar, aprofundando-se até ao ápice, azul-mexilhão. Esta foi dela. Estou a tentar ouvir a voz dela a dizer. Azul da Prússia. Tinta-da-China. Índigo... 'Azul para dormir, Richard ', diz ela. Azul para dormir. (*)

É azul celeste, é ametista, é preto, equimose, púrpura sangue, granada, sereno sem ondas, inofensivo, ou aguardando a hora certa. Está uma noite clara, hoje. O suave apagar ao anoitecer, todos os antigos fantasmas mortos das estrelas, perturbando o céu claro, a luzir contra a escuridão em 'glimmerans'. A fantástica palavra dos ​​ilhéus para crepúsculo. Como ela iria adorar isto.


The latch lifts




No.




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É possível achar livro chato, repetitivo ou obsessivo. Não me admirava que alguém me viesse dizer Ó, não é nada de especial. Pois eu gostei tanto da escrita fluída, expressiva e exuberante que nem dei conta dos defeitos possíveis.

(*) "Bedtime blue", com o duplo significado de blue (azul, melancolia)

domingo, 17 de agosto de 2025

Cinco poemas de W. B. Yeats, por mim traduzidos



Tive o atrevimento de me meter a traduzir Yeats. O resultado não me desagrada, enfim, avalie quem ler. Os originiais são de génio, claro.
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The Cloak the Boat and the Shoe

‘What do you make so fair and bright?’
‘I make the cloak of Sorrow:
O lovely to see in all men’s sight
Shall be the cloak of Sorrow,
In all men’s sight.’

‘What do you build with sails for flight?’
‘I build a boat for Sorrow:
O swift on the seas all day and night
Saileth the rover Sorrow,
All day and night.’

‘What do you weave with wool so white?’
‘I weave the shoes of Sorrow:
Soundless shall be the footfall light
In all men’s ears of Sorrow,
Sudden and light.’

O manto, o barco e o calçado

          'Que estás a fazer, tão bonito e brilhante?'
          'Estou a fazer o manto da Tristeza:
          Oh, lindo de ver, à vista dos homens
          Vai ser o manto da Tristeza,
          À vista de todos os homens.'

          'O que constróis com velas para voar?'
          'Construo um barco à Tristeza:
          Oh, ligeira nos mares, dia e noite,
          Navega a vadia Tristeza,
          Sempre, de dia e de noite.'

          'Que teces tu com lã tão branca?'
          'Estou a tecer o calçado da Tristeza:
          Sem ruído, seus passos são leves
          Aos ouvidos da Tristeza dos homens,
          Súbitos e leves.'


He Wishes for the Cloths of Heaven

Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,

I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

                                              
Quem me dera as sedas do céu

           Tivesse eu as sedas bordadas do céu,
           Lavradas em luz de ouro e de prata,
           As sedas azuis e pálidas e sombrias
           Da noite e da luz e da meia-luz,

           Todas estenderia a teus pés:
           Mas sou pobre, só tenho os meus sonhos;
           Estendi os meus sonhos a teus pés;
           Pisa de leve, estás a pisar os meus sonhos.


An Appointment

Being out of heart with government
I took a broken root to fling
Where the proud, wayward squirrel went,
Taking delight that he could spring;
And he, with that low whinnying sound
That is like laughter, sprang again
And so to the other tree at a bound.
Nor the tame will, nor timid brain,
Nor heavy knitting of the brow
Bred that fierce tooth and cleanly limb
And threw him up to laugh on the bough;
No government appointed him.


Uma Nomeação

            Estando eu a discordar do governo,
            Colhi um troço de raiz e lancei-o
            Na direcção de um bravio e rebelde esquilo,
            Deliciado a vê-lo saltar;
            E ele, com aquele grasnar reiterado
            Que parece uma risada, saltou de novo
            E lá foi outra árvore alcançar.
            Não foi vontade submissa, nem cérebro medroso,
            Nem um pesado franzir do sobrolho
            Que gerou o dente feroz, a precisão dos membros,
            E o lançou para cima, a rir, sobre um ramo;
            Nenhum governo o terá nomeado.


The Great Day

            Hurrah for revolution and more cannon-shot!
            A beggar upon horseback lashes a beggar on foot.
            Hurrah for revolution and cannon come again !
            The beggars have changed places, but the lash goes on.

O Dia Glorioso

            Hurra pela revolução e tiros de canhão !
            Um mendigo a cavalo chicoteia um mendigo apeado.
            Hurra pela revolução e venha lá outro canhão !
            Os mendigos trocaram de lugar, mas o chicote continua.


The Wheel

Through winter-time we call on spring,
And through the spring on summer call,
And when abounding hedges ring
Declare that winter's best of all;
And after that there's nothing good
Because the spring-time has not come —
Nor know that what disturbs our blood
Is but its longing for the tomb.


A Roda

            Durante o inverno, invocamos a primavera,
            Durante a primavera, o verão,
            E quando as sebes abundam de flores,
            Declaramos que melhor é o inverno;
            E depois disso nada há de bom,
            Porque não chegou a primavera  
            Nem sabemos que o que nos perturba o sangue
            É apenas anseio pelo túmulo.

domingo, 16 de abril de 2023

A Primavera segundo Aloysius Bertrand ( in 'Gaspar de la Nuit').


Mais uma Primavera

Mais uma Primavera, - mais uma gota de orvalho, que se embala por um momento no meu cálice amargo, e se escapará como uma lágrima !

Ó minha juventude, as tuas alegrias foram geladas pelo beijos do tempo, mas as dores sobreviveram ao tempo que elas abafaram no seu seio.

E vós que desfiastes a seda da minha vida, ó mulheres ! Se houve no meu romance de amor alguém que enganou, não fui eu, alguém enganado, não fostes vós!

Ó primavera, avezita que passa, hóspede de uma estação que canta melancolicamente no coração do poeta e na ramagem do carvalho!

Mais uma Primavera, - mais um raio do sol de Maio na fronte do jovem poeta, pelo meio da gente, na fronte do velho carvalho, pelo meio do bosque.

                                                                          Aloysius BERTRAND, 1807 - 1841

Encore un printemps

Encore un printemps, - encore une goutte de rosée, qui se bercera un moment dans mon calice amer, et qui s'en échappera comme une larme !

Ô ma jeunesse, tes joies ont été glacées par les baisers du temps, mais tes douleurs ont survécu au temps qu'elles ont étouffé sur leur sein.

Et vous qui avez parfilé la soie de ma vie, ô femmes ! s'il y a eu dans mon roman d'amour quelqu'un de trompeur, ce n'est pas moi, quelqu'un de trompé, ce n'est pas vous !

Ô printemps ! petit oiseau de passage, notre hôte d'une saison qui chante mélancoliquement dans le coeur du poète et dans la ramée du chêne !

Encore un printemps, - encore un rayon du soleil de mai au front du jeune poète, parmi le monde, au front du vieux chêne, parmi les bois !

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Gaspard de la Nuit foi publicado em 1842, depois da morte de Louis Bertrand, e de uma longa batalha editorial.



domingo, 20 de novembro de 2022

Livros há pouco chegados


Mais recentes uns, outros menos, são as leituras Outono-Inverno que escolhi. Já comecei The Kindness e Herborium.

The Kindness, de Polly Samson

Uma escrita requintada, um inglês de primeira água e uma narrativa sincopada onde passado e presente se entrecruzam sem aviso; leitura algo difícil, portanto, com dicionário ao lado e necessidade de voltar atrás de quando em quando. Gera-se confusão ? Talvez, mas os sítios e as pessoas vivem com intensidade nesta prosa de Polly Sampson, saltam fora do livro como se fossem realidade vivida, e vivem-na sob diferentes luzes conforme quem e quando as recorda. O 'leit motiv' são os últimos dias de Mira, ainda criança, filha do primeiro narrador Julian, que acaba internada num hospital. Muitas coisas mal explicadas serão esclarecidas pela segunda narradora, Julia.

Polly Samson está casada com David Guilmour, alma dos Pink Floyd (Shine on you crazy diamond).

Herbarium, colecta de poemas de Emily Dickinson.

Trata-se de uma edição bilingue. As traduções portuguesas deixam muito a desejar, por isso prefiro publicar aqui a minha tradução de 'Morning':

Existe mesmo a "Manhã" ? 
Há isso a que chamam o "Dia" ? 
Poderei vê-lo dos montes 
Se subir à mesma altura ? 

Terá pés como os nenúfares ? 
Terá penas como a Ave? 
Virá de países famosos 
De que nunca ouvi falar ? 

Oh um Doutor ! Oh um Piloto ! 
Oh! um Sábio lá dos céus 
Diga à pequena peregrina 
Onde esse sítio "Manhã" fica !

Climax de  Thomas Reverdy


É uma aventura nórdica com crime sob perspectiva ecológica, ao que li parece bem engendrado; espero que não inclua a borradela de quadros famosos. Depois direi.

Greenlanders de Jane Smiley

É uma narrativa de 1988 que me atraiu comprar porque relata a vida dos colonos Vikings na Gronelândia desde 985 até ao início do século XIV, o chamado Período Quente Medieval. Por causas geológicas, as décadas de 1310 a 1340 foram de frio e fome, a que se juntou a peste, e as duas pequenas colónias extinguiram-se. 

A vida diária dos colonos está ficcionada como se de um diário ou uma  'saga' se tratasse, acompanhando o casal Sigrid Bjornsdottir e Thorstein Olafsson, dois sobreviventes que realmente conseguiram escapar para a Islândia, conforme prova um documennto de 1424.

Les Îles Aran (Aran Islands), de John Synge, 1907

Conto onde se narra a visita às Ilhas Aran, na Galway irlandesa. Optei pela tradução francesa. Synge fora aconselhado por Yeats, que admirava o ambiente único das ilhas, fora do tempo, descrevendo-o como a 'alma celta' da Irlanda. 

Méditations de Marco Aurélio

Retorno a um clássico. Quero recordar o que pensava um romano da vida e do mundo.

Tudo o que ouvimos é uma opinião, e não um facto. Tudo o que vemos é uma perspectiva, e não a verdade.

Habita a beleza da vida. Observa as estrelas, e vê-te a correr junto delas.


sábado, 20 de agosto de 2022

Tecla, a cidade de Calvino que nunca acaba, como o Universo


[tradução minha]

Quem chega a Tecla, pouco vê da cidade, por trás dos tapumes de tábuas, as protecções em tela de saco, os andaimes, as armações metálicas, as pontes de madeira suspensas por cabos ou apoiadas em cavaletes, os escadotes, as treliças. E à pergunta: “Porque continua a construção de Tecla assim tão demorada ?” – os habitantes, sem parar de içar baldes, de largar fios de prumo, de mover para cima e para baixo longas trinchas, “Para que não comece a destruição”, respondem. E questionados se temem que mal os andaimes sejam retirados a cidade comece a rachar e a cair em pedaços, reagem muito depressa, em surdina: – “E não só a cidade”. 

Se, insatisfeito com as respostas, alguém se aplica a espreitar pela frincha de uma vedação, vê gruas que levantam outras gruas, andaimes que revestem outros andaimes, traves que escoram outras traves. “Que sentido faz o vosso estaleiro?”, pergunta. “Qual é o fim de uma cidade em construção se não uma cidade? “. “Onde está o plano que vocês seguem, o projecto?” “Mostramos-te assim que o dia termine; agora não podemos interromper”, respondem. O trabalho cessa ao pôr do sol. Cai a noite sobre o estaleiro. É uma noite estrelada. “Aí está o projecto”, dizem.

 

Chi arriva a Tecla, poco vede della città, dietro gli steccati di tavole, i ripari di tela di sacco, le impalcature, le armature metalliche i ponti di legno sospesi a funi o sostenuti da cavalletti, le scale a pioli, i tralicci. Alla domanda: “Perché la costruzione di Tecla Napoli continua così a lungo?”- gli abitanti senza smettere di issare secchi, di calare fili a piombo, di muovere in su e in giù lunghi pennelli – “Perché non cominci la distruzione, rispondono. E richiesti se temono che appena tolte le impalcature le città cominci a sgretolarsi e a andare in pezzi, soggiungono in fretta, sottovoce: – Non soltanto la città.

Se, insoddisfatto delle risposte, qualcuno applica l’occhio alla fessura d’una staccionata, vede gru che tirano su altre gru, incastellature che rivestono altre incastellature, travi che puntellano altre travi.- “Che senso ha il vostro costruire?-domanda .-Qual è il fine di una città in costruzione se non una città? Dov’è il piano che seguite, il progetto?” – “Te lo mostreremo appena terminata la giornata; ora non possiamo interrompere” – rispondono.Il lavoro cessa al tramonto. Scende la notte sul cantiere. E’ una notte stellata. “Ecco il progetto” – dicono.

Nunca nada está acabado neste mundo, nem com a morte. Toda a obra é obra em progresso, para onde? para quê? está escrito nas estrelas, mas não sabemos ler a resposta.

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Grato ao Biblioteca na Floresta por me relembrar este conto de Calvino

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Trude, Cidade Invisível, muitas vezes visitada


De As Cidades Invisíveis
Italo Calvino

     Se ao tocar terra em Trude não tivesse lido o nome da cidade escrito em grandes letras,  julgaria que tinha chegado ao mesmo aeroporto de onde partira.  Os subúrbios que me fizeram atravessar não eram diferentes desses outros, com a mesmas casas amareladas e esverdeadas. Seguindo as mesmas setas dava-se a volta aos mesmos canteiros das mesmas praças. As ruas do centro mostravam mercadorias embalagens dísticos que em nada eram diferentes. Era a primeira vez que vinha a Trude, mas já conhecia  a pousada onde me calhou ficar; já tinha ouvido e dito os meus diálogos com compradores e vendedores de sucata; outros dias iguais a esse tinham terminado a olhar através dos mesmos copos os mesmos umbigos que ondulavam.
      - Porquê vir a Trude , perguntava. E já queria voltar a partir. - Pode  retomar o voo quando quiser, - disseram-me - mas chegará a mais outra Trude, igual ponto por ponto, o mundo está coberto por uma única Trude que não começa nem acaba, muda só o nome do aeroporto.

As cidades contínuas. 2.


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Ao fim de alguns voos e alguns aeroportos, é essa a sensação que cresce. Apetece-me a não-cidade. Mas então a angústia de ser pequeno, indefeso, irrelevante, zero, na vasta e agressiva Natureza, pode fazer-me correr de volta à confiável Trude.


quarta-feira, 21 de julho de 2021

Tinta simpática, de Patrick Modiano

 É o nome da tinta invisível, que escurece com limão.

Noëlle Lefebvre, é desta vez o nome da mulher procurada, a mulher-mistério que um dia desapareceu sem notícia. Há a sensação de déjà lu, mas com a fluência de Patrick Modiano, a nostalgia de uma Paris perdida a surgir em cada esquina - memória indefinida, imersa em névoa mesmo em pleno Verão - é fácil deixar-me levar página após página a deambular, perdido também nas ruas de um livro, "perdu dans des zones oú s'enchevêtrent la mémoire et l'oubli ". Depois, há nomes que surgem, nomes quase mágicos que saltam do nada: Roger Behaviour (aliás, Béavioure), Gérard Mourade, George Brainos, Françoise Steur, Serge Servoz, café Khédive - este existe mesmo.

« Je marchais le long de l'avenue vers l'Étoile et je me sentais, ce soir-là, dans ce qu'on appelle curieusement un « état second ». Jamais Paris ne m'avait semblé aussi doux et aussi amical, jamais je n'étais allé si loin dans le coeur de l´été, cette saison qu'un philosophe dont j'ai oublié le nom qualifiait de saison métaphysique. Ainsi, Noëlle, la bergère des Alpes, avait habité quelque temps dans l'une des chambres du haut, à une centaine de mètres derrière moi... L' avenue était déserte, et pourtant je devinais à mes côtés une présence, l'air était plus vif que celui que je respirais d'habitude, le soir et l'été plus phosphorescents. »

 
Le Khédive

Gosto de ler sobre Paris, seja literatura ou relatos de viagem; mas não sei bem porquê nunca fiquei entusiasmado das vezes em que lá estive, sempre uma sensação de demasiado grande, demasiado caos, gente desagradável, tudo fica longe de mais e nada vale a pena do esforço desmedido. Ou quase. A Sainte Chapelle vale. Mas as pontes, os cais, Montmartre, os Arcos (velho e novo), é tudo ficção pacóvia do romantismo americano, há muito melhor noutras paragens, já para não falar de orquestras e concertos. O Louvre e infrequentável, a Torre feia, feia; nos cafés a demora não se aguenta, nem a sobranceria antipática. As minhas metrópoles são Roma e Londres, mas em geral prefiro cidades pequenas - Strasbourg, Saint-Malo, La Rochelle, Bordeaux, Annecy...

 
« Elle prenait ces cars, été comme hiver, aux mêmes heures. On y retrouvait les mêmes personnes. Elle y avait remarqué un garçon de son age. L'été, il montait dans le car de six heures du soir à Annecy et descendait a Veyrier-du-Lac, juste avant le tournant de la route qui menait a l'intérieur des terres.(...)

Ils étaient souvent assis sur une banquette du fond, côté à côté. Une fin d'après-midi  dans l'un de ces cars d'été, ils avaient engagé la conversation. Elle revenait de son travail. Mais quel était le travail de cet été-là ? Serveuse dans une pâtisserie sous les arcades ? (...)

L'hiver, dans le car de dimanche soir, il rentrait au pensionnat. Ces soirs-là, ils se tenaient debout, serrés l'un contre l'autre pendant tout le trajet. Ils se séparaient sur la place, devant la mairie. Plusieurs fois, elle l'avait accompagné le long de la petite route droite qui menait au pensionnat, et ils marchaient lentement tous les deux pour ne pas glisser sur la neige. »


Noëlle tinha fugido de Annecy para Paris. Mas afinal foi por pouco tempo, em Roma é que a vamos descobrir e desvendar o mistério, revelar a tinta simpática: "Elle lui expliquerait tout ". Mas nós, ficamos, sem explicação, a ler a frase final. Genial, Modiano. Ah, Roma de todos os encontros !

Gosto destas histórias de pessoas sem nação, que saltam fronteiras de cidade em cidade, para esquecer e renascer. E como diz o ditado, vai sempre dar a Roma.

 

domingo, 11 de outubro de 2020

Dois poemas de Louise Glück


Não fiquei muito entusiasmado com a atribuição do Nobel a Louise Glück:  parece mesmo forçado por questão de género, já havia muitos homens nomeados na Ciência...  

A poesia de Glück parece-me pouco mais que mediana. Mas pior ainda, os poemas que apareceram na imprensa portuguesa são escolhas infelizes. Encontrei dois que me agradam mais, traduzi e aqui estão:

 O passado

   Um pouco de luz no céu surgindo
   de súbito por entre
   dois galhos de pinheiro, as finas agulhas

   agora impressas na superfície radiante
   e por cima este
   alto, plumoso éden -

   Aspirem o ar. É o aroma do pinheiro branco,
   intenso quando o vento sopra através dele,
   e o som que produz é igualmente estranho,
   como o som do vento ouvido num filme -

   Sombras que se movem. As cordas
   soando como cordas. O que se ouve agora
   será o som do rouxinol, Chordata,
   o macho que corteja a fêmea -

   As cordas escorregam. A cama de rede
   oscila ao vento, atada
   com firmeza entre dois pinheiros.

   Aspirem o ar. É o aroma do pinheiro branco.

   É a voz da miha mãe que ouvem
   ou é só o som das árvores
   quando o ar as atravessa

   pois que som havia de fazer
   se nada houvesse para atravessar?

 

 

          Borboleta

                 Olha, um borboleta. Pediste um desejo?
                 Não se deseja com borboletas.
                 Sim, pois. Pediste um ?
                 Pedi.
                 Esse não conta.



quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Palestrina, Lácio (continuado de 'Olevano')


Mais adiante no livro Grove de Esther Kinsky, a autora faz-se à estrada pela região a sul de Roma, em direcção a Palestrina. Descreve a cidade com a mesma sombria melancolia, sublinhando o abandono e a decadência. Vejamos.

Na frente da cidade, os três terraços que ainda restam dos seis originais de um santuário Romano, e o Palácio renascentista edificado no topo em torno do anfiteatro.

Começou por uma cidadela Etrusca no alto do monte, desde o séc VII A.C., depois conquistada pelos Romanos ca. 338 A.C.. Foi então um santuário famoso pelo seu Oráculo, a deusa Fortuna Primigenia, do qual se conservam os terraços baixos e paredes de engenhosa construção, que terá terminado no séc. II AC. A cidade renascentista foi construída sobre a Praeneste dos Romanos, de que ainda se vêm alguns pavimentos de rua.


A Palestrina actual tem cerca de 20 000 habitantes. Tal como Olevano, trepa pela encosta, neste caso de um dos montes Prenestini, mas de forma diferente, interrupta: o burgo pára a meia encosta e lá no topo há a mais casario onde era a acrópole antiga, agora Castel San Pietro.
Entrada pela muralha na cidade alta.

Durante o Renascimento Palestrina atingiu algum protagonismo, como mostra o Palazzo Colonna-Barberini. Reconstruído pela poderosa família Colonna por volta de 1460, sobre duas torres do séc. XII, aproveitou o anfiteatro do santuário e adicionou um poço; após várias demolições e restauros, foi adquirido pela família Barberini em 1630, a quem se deve o actual edifício, terminado só em 1640.

Palazzo Colonna - Barberini.

É um edíficio renascentista, onde agora está instalado o 'Museo Archeologico Nazionale di Palestrina'. Tem uma sala dedicada ao “Mosaico do Nilo”, e exibe exemplares de Cistae, os famosos cofres etruscos com esculturas sobre a tampa, que mostro mais adiante.

O poço quatrocentista de Barberini, localizado aproximadamente onde seria o antigo poço sagrado de Fortuna Primigenia.

Do anfiteatro tem-se uma ampla vista sobre a cidade nova e as planícies do Lazio.

Do antigo Forum resta pouca coisa:

Vestígio do 2º terraço; o poço sagrado estava mais acima, no 4º terraço.

Também a Porta do Sol, construída em 1642, foi obra dos Barberini. É o ex-libris actual da cidade. 

A Piazza della Regina é o centro cívico do séc. XVII.


Estátua de Palestrina (1921)

Passeando pelas vielas da meia encosta, damos com a casa natal de Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594), importante compositor de música sacra do Renascimento.

Casa natal e Museu

" Palestrina era uma cidade de gatos. Depois de uma violenta chuvada as ruas ficaram vazias excepto gatos, brancos, cor de areia, malhados, por todas as esquinas, entradas e escadarias, em abrigos precários na beira de relvados. Alguns eram tranquilos e expectantes, outros ansiosos à espreita, mas não ariscos ou esqueléticos como os da Europa de Leste -  mas antes como astutos guardiões de lugares secretos, receosos de ser descobertos, apanhados no esconderijo."

Via dei Merli, com gato prenestino

 
Tal como em Otranto, íngremes escadarias em vez de ruas, e a dificuldade de vida que daí resulta.

Assim, apesar do museu e da casa de PierLuigi, a cidade aparenta mais pobreza e abandono que Olevano.


Museu Arqueológico Nacional de Palestrina

O edifício do Palácio Colonna-Barberini dedica as salas maiores e corredores dos dois andares a uma pequena colecção arqueológica das épocas Etrusca, Romana e Renascentista. Vale bem a pena, e já que nunca lá irei, aqui ficam as melhores imagens que consegui.

Sala do piso principal

Sala do piso superior

O mais conhecido é talvez o Mosaico do Nilo, um piso de mosaico helenístico (ca. 100 A.C.) que descreve a passagem do rio Nilo entre a Etiópia e o Mediterrâneo. Dois detalhes:


O fascínio e o espanto dos Romanos pela vida selvagem no Nilo, eles que só conheciam o modesto Tibre.


Uma jóia de II - III D.C. é um colar de ouro incrustado de 7 safiras:

Segundo estudos de especialistas, as safiras provêm da longínqua Ásia -  umas do Tailândia, outras do Sri Lanka ou Birmânia.

 Mas para mim o mais interessante são

Os cofres (cistae) latino-etruscos de Praeneste

Na necróple etrusca do monte Praenestini foram encontradas vários cofres metálicos portáteis (cobre, por vezes bronze) cilíndricos, com tampa sobre a qual há pequenas esculturas humanas. Devem ser objectos funerários, datados dos séc. IV - III AC, quando a população etrusca adquiriu cidadania romana :




Uma das peças mais raras é uma cista quadrangular em vez de redonda, e com referência à consulta do Oráculo prenestino. Possivelmente terá a forma da arca que continha as ‘sortes’ da deusa Fortuna, que um jovem extrai do poço.

 
Data do séc. III A.C., a seguir à conquista Romana, certamente com o Oráculo ainda não acabado.

Os cofres são também designados Cistae Praenestine, classificados como etrusco-itálicos; são notáveis as pegas ricamente esculpidas, fundidas pelos pés no metal da tampa. A superfície curva lateral está finamente cinzelada.

 
Três guerreiros de armadura.

Houve desde o século XIX uma corrida ao tesouro das Cistae, com alguma vandalização dos terrenos do alto do monte, que levou à descoberta de 118 objectos ! Três estão no MET de Nova Iorque, muitos em Villa Giulia (Roma), mais alguns no Museu Arqueológico de Palestrina. A ganância dos antiquários deu também origem a muitas falsificações.

Um dos mais belos exemplares, Cista Ficoroni, em Villa Giulia, Roma.


Para que serviam estes cofres, está ainda por esclarecer. Sabe-se que eram ofertas muito valiosas.

Cistae Prenestine no MET :
https://www.metmuseum.org/toah/hd/prae/hd_prae.htm

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Bem, só se confirma que Itália 'de tout et partout' é um território de tesouros. Nunca irei a Olevano nem a Palestrina, mas bem iria se pudesse; testemunhos da História assim silenciosos, quase secretos, podem ser mais emocionantes que as rotas mais visitadas. Esther Kinsky não as descreve, apenas as vê â sua maneira, com os óculos escuros da solidão recente. Estou-lhe grato por mas ter revelado.

Termino com PierLuigi Palestrina, pelos King's Singers: