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domingo, 29 de dezembro de 2019

A lojinha Seramota, no Núcleo Rural do Parque da Cidade


Há coisas bem pequenitas e sem a importância dos grandes desígnios que contribuem, silenciosa e anonimamente, para a nossa (aaaa...) felicidade. Post de fim-de-ano !


Uma lojita num canto discreto da entrada secundária do Parque da Cidade, pelo núcleo Rural de Aldoar, é um desses sítios. Quando se entra na Loja Seramota estamos de súbito numa gruta de fantasias - lugar comum, se não fosse uma mercearia. Uma muito especial mercearia, arrumada, decorada, bem cuidada, como poucas, e onde se é de súbito envolvido num aroma irresistível de queijos e enchidos. Paredes de pedra nua (casa rural), mesas e prateleiras toscas em madeira. Plástico, só nos saquitos, ainda.

Bananas nas paredes :D

Não se julgue que é só na quadra das Festas; é permanente.

Com tanta abundãncia, apetece brincar; tomar nas mãos e no olfacto os queijos e as tangerinas, as maçãs Bravo e as plantas de cheiro; remexer na cesta das castanhas, sentir as formas, pegar nos frasquinhos de compota e percorrer as variedades de vasos de mel. E perguntar coisas como "este queijito aqui ao ar não ganha bolor?", "ah, e alheira sem farinha, tem ?", "a que horas saem quentinhos os pastéis de Chaves ?" "mmm que cheirinho, não deve ser mau, este salpicão ? ".


Tenho a sorte - nalgumas, poucas, coisas tenho sorte - de a Seramota ficar a 5 minutos a pé, descendo ao Parque. Também, não há mais quase nada, a bem dizer, aqui perto de casa. Ah, sim, árvores, e bastantes !

Vieram de Mirandela, os Seramota, de uma famosa loja de pão.


Não tem multibanco, claro. 


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Pompeia em Oxford - a 'Última Ceia'



O excelente Ashmolean de Oxford exibe até Janeiro "Útima Ceia em Pompeia", reunindo espólio do museu com objectos provenientes de Itália (Nápoles, Pompeia e Paestum) com que pretende ilustrar os hábitos quotidianos da cidade - trabalho, lazer, comidas e bebidas - nas vésperas da erupção. Não irei até Oxford, mas não deixo de dar novas aqui e documentar um pouco.


Desde o século IV que Pompeia, antes povoada em parte por gregos e etruscos, estava assimilada e integrada no espaço romano. A cidade de Pompeia era um paraíso meridional para os romanos: terras férteis de vinha e olival de um lado, e a baía de Nápoles, de pesca abundante, do outro, forneciam fartura de vinho, azeite, peixe e moluscos. A cidade podia até exportar os seus produtos para todo o Império.
Garrafa de vidro com azeite de há 2000 anos, ainda fechada.

As evidências desta  prosperidade ficaram soterradas sob camadas de cinza - restos de mesa no triclinium, comida carbonizada na cozinha, cenas de festim em frescos e mosaicos. A moradia mais refinada - a villa - resistiu melhor ao fogo e às cinzas, e muitas das suas paredes revestidas de belos frescos revelam cenas da vida doméstica. No século XIX , os arqueólogos victorianos atribuiram nomes romantizados a essas moradias - casa dos Mistérios, casa dos Amantes Castos, casa do Fauno, casa do Poeta Trágico; são dessas casas a maioria das decorações em exposição. Algumas peças já as tinha visto há anos em Madrid, numa outra magnífica exposição de que dei conta aqui.

"Tablinum" da casa de Marcus Lucretius Fronto, Pompeia, 35-45 AD

Casa dell'Efebo

A estátua de bronze - um requintado suporte de lamparina - veio da Casa do Efebo.


Isis Fortuna protegendo um homem cercado de agathodaemones (espiritos-serpente benfazejos das vinhas e campos de cereais):


Um dos frescos mais significativos é este da distribuição de pão na casa do padeiro (AD 40-79):
O fresco foi descoberto no tablinum (escritório ou sala de negócios) de uma casa modesta; representa um balcão de padaria onde estão empilhados pães de grande formato, enquanto ao lado está um cesto de paezinhos pequenos. O padeiro oferece um pão a uma de três pessoas em traje pobre de viajante.


A Villa dei Misteri

O grande painel de fresco Dionisíaco.

Casa de família abastada, foi das menos atingidas pela erupção, e tem alguns dos mais belos frescos de Pompeia. Estes são do triclinium, a sala de refeições.

Um rapaz lendo os rituais da iniciação ao culto de Dionysos-Baco. Notável a mão carinhosa da sacerdotisa sentada sobre o ombro do rapaz.

 
Oscillum de mármore com sátiro deitando vinho numa cratera (cálice de mistura).  50 BC – 50 AD

Fresco de Herculaneum com uma 'carta de vinhos', à porta de uma taberna.

Taça de vidro azul com pintas, 50 AC - 50 AD

Taças de prata dourada decoradas com moldagens repoussé de folha de oliveira, vinha e murta. 50 BC – 150 AD (Museu Ashmolean)

Este mosaico polícromo (100-101 AC) mais parece um catálogo da vida marinha, ou um menu de especialidades do mar mediterrâneo: robalo, polvo, lula, camarão, dourada, solha, raia... Casa do Fauno, Pompeia.

Uma técnica de mosaico admirável.

Um dos frescos mais bem conservados é o do Galo a debicar figos, peras e romãs; estava na Casa dos Amantes Castos (Casa dei Casti Amanti); o nome poético designa afinal a moradia de um padeiro.

Coelho mordendo figos.

A carne consumida em Pompeia era sobretudo de pássaros, galináceos e coelho. Apreciavam muito um ratinho, o leirão, recheado com carne de porco picada: um pitéu... mas ainda pior era o muito cheiroso garum, um molho à base de restos de peixe fermentados. O odor das cozinhas devia ser nauseabundo!

Uma das mais bonitas imagens de fresco, esta pomba de cabeça negra no fresco da sala de jantar da faustosa Casa do Bracelete Dourado (Bracciale d'oro).

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                                Catálogo disponível no site do Museu.

Outras fontes:
http://www.alaintruong.com/archives/2019/07/26/37523137.html
https://twitter.com/pompei79/status/1154481018998423553

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Comidinha portuguesa, aarrgh, Giles Coren dixit


Arrisco o prestígio deste meu Livro com um post traidor à pátria, snob e xenófilo. Mas enfim, é um assunto rasteirinho, embora haja quem chame a isto 'cultura'.
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Eu gosto da nossa comidinha, entenda-se, em particular se feita cá em casa ;D. Mas há tanta vigarice nas tasquinhas de comida caseira, nas tabernas de petiscos, nas lojas de sabores da aldeia e outras tretas, que bem entendo o desgosto enjoado de Giles Coren ao rever para o Times um restaurante português que abriu em Londres, no renovado mercado de Spitalfields, sob o nome "Taberna do Mercado"; bastamente elogiado, claro, pelos que lá procuram chouriço e sardinha em lata com vinho tinto, ou migas de bacalhau.

A grande maioria da produção nacional de enchidos é uma valente porcaria, que só faz mal e tem excesso de tempero para esconder a pobreza de sabor. Quando é esturricado na brasa, faz o dobro do mal e sabe a chiclé ... esturricado.


Outra gabarolice pacóvia é o "cozido à portuguesa" - sabe bem uma vez por ano, se a matéria prima for toda de primeira qualidade; mas de culinária aquilo tem nada, zero - é só meter tudo a cozer em água. É a coisa mais bruta e primitiva que se pode cozinhar; tira a fome, claro, até de mais, mas se isso é "cuisine" vou ali e já venho.

Está na moda usar conservas enlatadas como requintado pitéu - basta acompanhar de verduras ou fruta que componham um prato bonito. Outra aldrabice. As conservas de peixe são muito saudáveis, têm Omega 3 e tudo, mas de sabor estamos conversados, é sucedâneo industrial onde o gosto do peixinho fresco foi completamente destruído - sabe tudo sempre ao mesmo, a conserva, inundado de azeite fracote. Ora bolas. Menus assim dão cabo da imagem da nossa gastronomia.


E os rissóis ? De marisco ou de carne, na maioria dos casos também oleosos e recheados de uma mistela não identificável, uma pasta de corantes, gordura, farinha e temperos com aroma de qualquer coisa. Execrável - excepto se feitos em casa.

No Times de 4 de Julho, Giles Coren indignou-se justamente com estes petiscos que lhe foram servidos. Porque nos faz bem ouvir o que outros pensam sobre nós, o que lhes desagrada em nós, sem estarmos sempre a olhar para o umbigo, aaah! como somos criativos, afáveis e... cultos ( - os chocalhos ! -).

Excertos:

We began with a prawn rissole «snack» that was two small, hard slippers containing a foul brown fishy effluvium. Like sewage leaking from an ornamental clog.

Ah ah, "foul brown fishy effluvium" é muito bem dito ! So much para o rissol.

This was followed by «chouriço vinho tinto«, which is fried Portuguese chorizo deglazed with red wine. Now, I don’t know what Portuguese chorizo is meant to be like. But if it’s meant to be tougher than the Spanish stuff, cooked pretty much to black, chewy as a fingernail and without much flavour, then this was bang on the money.

So much para o chouriço assado também, pastilha elástica insípida e esturricada. Como conheço bem o estilo. Abunda no circuito low-cost food.

Next up, «tinned fish». The result: vileness unbound. Tiny scallops had given up all the sweetness and bounce of their raw state without taking on the exotic golden frazzle they get when cooked, resulting in chewy snot gobbets in a tin.


'Tranches de borracha ranhosa' ! :D :D , essa também está muito boa, sr. Coren. É isso mesmo. Looks disgusting.

«Bisaro pork tartare, cozido broth, cabbage» was a dismal mess of ground flesh in salty water.»

Outro menu-da-treta que também abunda em tasquinhas e bistrôs, o porco bísaro. Aaargh. Só o molho dá vómitos.

Depois serviram a Coren uma sanduíche soberba, parece que será o melhor da casa, ah ah. E finalmente

For pudding they brought out the famous «pão de ló», which is a sort of uncooked soufflé in greaseproof paper in a baking tin. It’s like a delicious sweet orange soup with partly baked bits around the edges that fall into the wetness like dumplings.

Ora o dito pão de ló, se for de Ovar e bem feito, é mesmo muito bom. Ou era coisa importada, de prazo talvez já passado, ou era (mal) feito localmente. Não me faltam experiências dessas, de sobremesas que são especialidades caseiras e vai-se a ver...

Não fui nem irei ao português de Spitalfields, mas o testemunho do sr. Coren parece-me totalmente credível. Não se inventam por malvadez detalhes tão condizentes com o que é frequente encontrar aqui por perto.

Dear Sir, aquilo que lhe foi servido não é boa comida portuguesa.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Colecção Outono-Inverno :)


Diospiros e castanhas são das coisas boas da estação fria.


Mais que sabor, trazem cor e texturas.


Quanto a pêras, precisam de ficar umas horas a amadurecer ao sol, um sol baixinho que só aquece ao meio-dia.


Frutoso, este post !

Mais estatística menos estatística, as estações continuam o que eram.





quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Peixinhos no verão: um (raro) post gastronómico

Oh como sabe bem um peixinho bem cozinhado servido numa esplanada à beira mar. Aí está um luxo que só alguns países podem gozar - e Portugal é um desses sortudos. Os austríacos bem se podem morder de inveja.


Mas o que me apetece agora referir é : a minha lista de peixes preferidos.

À cabeça, a perca e o cherne. Grelhados deliciosos, bifes do mar, suculentos e gostosos. A alguma distância, goraz, pargo, dourada, linguado - mais insípidos, só mesmo à falta de melhor, ou por dieta.
Tudo, claro, com batata a murro e legumes, e uma tacinha de branco.

Fritos, vem a faneca a abrir a lista, e a marmotinha de rabo na boca logo a seguir. Petiscos sem requinte, desdenhados por gente fina, só se encontram em restaurante popular da beira mar. Mas que sabor, acompanhados de um arrozinho malandro de legumes, ou de tomate. Com a vantagem de ser peixe abundante, barato - devia haver uma campanha em favor da faneca, peixe magro rico em proteínas e sais minerais, acessível à pesca artesanal. Desvantagem (?) : não se pode congelar. Só fresca. Viva ela.

Depois há a pescada, sobretudo nas apetitosas variantes espanholas - à galega, à romana, a la plancha, a la vasca... à posta, sempre, fica também muito bem estufada com ervas e louro, com molho espesso , e puré.

Do bacalhau e do atum não falo. Isso não é bem peixe. É, digamos, comida.

Estragar peixe é o mais fácil. Há muitas maneiras de estragar peixe, prática em vigor nos chamados restaurantes "gourmet".

Há ainda outra maneira de apresentar peixe intragável: chama-se sushi e anda muito na moda porque fica barato ao cozinheiro e mete muita vista - exige decorações e temperos pois não sabe a nada. Ainda por cima não se sabe que raio de coisa viscosa é aquela que nos põem na frente.

Já estou à espera de "a mim bastam-me sardinhas !". Sou alérgico.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

meditações: Medina Carreira, o que nos resta, certa arte, gourmandise....

Se Medina Carreira tem razão, e Portugal vai empobrecer aceleradamenre ao ponto de dentro de 10 anos ter de optar entre pagar pensões ou pagar o Serviço Nacional de Saúde; se os bancos vão acabar por não ter liquidez em questão de meses, se duas gerações vão trabalhar de sol a sol com salários miseráveis só para pagar os juros das auto-estradas, da Parque Escolar, da Ponte Vasco da Gama, do metro do Porto, do medíocre pendolino, do que os bancos esbanjaram,

Se o crime vai alastrar, e manifestações de rua cada vez mais numerosas acabarão por se tornar violentas, se a juventude se vai emborrachar até cair em botellons noite fora, e urinar nas mais vetustas paredes que a história foi deixando...

então para que serve Portugal? porque há de existir? e a União Europeia, serve para quê? e o Euro? porque hei de pagar impostos? porque hei de manter os meus poucos haveres em bancos ? porque hei de votar ou sequer interessar-me por mudar quem lá está? Porque hei de cumprir regras cívicas?

Servem, sim, e interessam-me, o vento e o mar, as flores e os rios, as borboletas e os pirilampos, uma janela, um livro, a música de um alaúde que alguém ensaia numa nave gótica, a folha verde tenra de um carvalho na primavera. Basta-me a água cristalina que corre antes de ser engarrafada, a fruta bichada que ninguém calibra, o peixito pescado à linha num remoto afluente escarpado. Sossego. Isso sim.

A barbárie, ou o regresso à natureza ?

Continuo muito deprimido. Ainda fiquei pior no regresso de . Estava muito bem aqui, por exemplo, sem remorsos, regalado com 3 linguados com puré de legumes numa esplanada frente ao cais


e o melhor crème brulée da minha vida


e uma ilusão de gente risonha vivendo em abundância. Pourquoi pas, pour tous, mon dieu (=?!)

A "Árvore da Vida" do Terence Malik também me fez mal. Esta coisa que a arte tem de, sendo bela, contudo incomodar... teremos mesmo de optar entre a barbárie da sociedade dos homens e o imenso nada oferecido pela natureza ?

GRRRR, ça m'énerve !

domingo, 13 de março de 2011

Bolonha: 1 - as arcadas



De regresso ao país dos deolindos e dos gel, para não falar das reformas congeladas, porca miseria.

Bolonha é uma cidade vibrante de vida. A universidade ajuda, povoando as ruas de uma alegre e ruidosa juventude, mas os naturais entregam-se com intensidade à dolce vita das esplanadas, de dia e de noite (são aquecidas!), passeiam pelas ruas ladeadas de arcadas em todo o centro histórico, onde a chuva ou o calor não incomodam e se pode andar descontraidamente às compras, aos cafés, às pastelarias, a petiscar, ou simplesmente parar a conversar. As ruas mais estreitas estão restritas a bicicletas e motociclos.

Uma instituição da cidade é o menu das 6 :

Um copo de vinho e um pratinho que se pode encher a gosto no buffet exposto. Claro que as sucessivas casas rivalizam no buffet para atrair clientes. A 6 € ?! E ganham bem mais que nós... e que dizer se a segunda dose de buffet era a 3,5 € ? ! Inclui por exemplo batatinhas no forno com azeite e oregãos, quadrados de pizza (claro), saladas de arroz basmati e legumes, massas de todo o tipo, guisado de feijão com tomate, panadinhos de frango, de marisco...



AS ARCADAS

Ladeando as ruas, estreitas ou largas, há-as para todos os gostos, desde as medievais (raras, em madeira), renascentistas, neoclássicas, percorrendo toda a cidade antiga.

Exemplos (note-se que em geral havia multidões, procurei só tirar fotos sem gente...):






Na zona da universidade...

...na biblioteca do Archiginasio...

...e até no interior da imponente catedral barroca

Negativo: paredes encardidas de sujidade, papéis e cartazes colados e há muito rasgados, contentores do lixo horríveis, grafittados, poluindo visualmente zonas históricas. Decididamente, ali não se gasta dinheiro a embelezar fachadas ou rotundas, ou a renovar os pisos das estradas, deploráveis. Gasta-se muito, isso sim, a vestir bem. E que bem !